Sobre espaço-tempo, buracos negros e visitas ao Brasil

Às onze da manhã do dia 22 de dezembro o avião finalmente tocou o solo do aeroporto de Guarulhos. Catei malas e mochilas e, no instante em que passei da porta do avião pra fora, sou recebido por aquela onda quente e úmida de trinta graus de calor paulistano. Meu corpo se retraiu todo. Olhei pro lado e Bethania estava suspirando, emocionada: “Ahhh que delícia!”.

Depois de quatro anos, eu estava de volta ao Brasil.

Quando expliquei aqui as razões que me fizeram abandonar o país, uma delas era a falta de afinidade com as coisas locais – incluindo o calor. Assim, meus trinta primeiros segundos de volta correram exatamente como eu esperava. Já o resto foi uma montanha-russa de coisas que ainda não sei bem definir direito.

Quando decidi me mudar foi bem fácil enumerar os motivos pelos quais eu achava que aquilo era a melhor coisa a se fazer. Voltar ao Brasil deixou bem claro o quanto essa reflexão havia sido incompleta. Começando pela minha premissa de que “você não é onde você mora”, ou de que eu estaria começando uma vida nova em outro lugar, ou – e principalmente – de que é preciso olhar pra frente e deixar pra trás o que passou. Eu analisei bastante o espaço, mas me esqueci completamente do tempo e de como ele espalha quem eu sou ao longo de quarenta anos. Eu sou o menino que cresceu em Belo Horizonte, o jovem que amadureceu em São Paulo, e hoje o adulto que vive no Canadá, todos ao mesmo tempo, irrevogavelmente unidos e coexistindo nessa dobrinha pessoal de espaço-tempo chamada eu.

Nos meus quatro anos de Canadá eu ignorei completamente – e intencionalmente – esse passado, achando que era assim que se adapta a uma nova realidade. Aí a gente foi comer um pão de queijo em Guarulhos e eu me peguei nostálgico ao ouvir a mocinha do caixa perguntar se eu queria “CPF na nota” (nem lembrava mais que havia isso). Cada coisa – das mais simples – que eu via ou ouvia ressuscitava anos de memórias esquecidas nos porões da minha cabeça. Andar pelo embarque de Guarulhos e voltar de Confins pela Linha Verde me lembrava os inúmeros voos da minha época de consultoria. As ruas de Beagá, então, eram prateleiras inteiras de incontáveis pedaços meus, todos voltando a cada esquina, a cada ladeira, a cada prédio onde um dia estive, ou até mesmo os que hoje deram lugar à farmácia ou supermercado. Por exemplo: a Igreja São José, no centro, não era só a igreja – era aquele domingo onde saí do meu plantão de suporte no provedor de internet onde estagiava e fui encontrar com a minha nova namorada, que foi acompanhar a avó na missa. Eu achava que era impossível se sentir em casa onde você não mora mais. Que bom que me enganei.


A programação da viagem era basicamente passar tempo com a família no Natal, mas havia uma coisa que eu decidi que queria fazer: visitar o túmulo da minha mãe.

Eu acho que nunca mencionei minha mãe aqui no blog. Ela tinha um personalidade enorme, um sorriso fácil e um amor infinito pelos filhos. Em 1993 ela foi diagnosticada com câncer de mama, e morreu cinco anos depois. Como a família na época era toda espírita, a crença é de que a morte não existe, e então não se falou muito mais sobre isso. Foi mais ou menos nesse período que eu comecei a enterrar minhas memórias. Mas, felizmente, quando você enterra coisas férteis elas acabam brotando novamente.

Voltar ao cemitério, mesmo décadas depois, foi trazendo o dia do enterro todo de volta. O lugar do velório estava lá, do mesmo jeito. Eu me lembrei dos parentes chegando, das flores, até do que minha mãe vestia (uma camiseta do Menino Maluquinho – a pedido dela) quando foi sepultada, mas quando penso no que eu sentia, a resposta é… nada. O mesmo “nada” que senti quando desliguei o telefone no dia anterior, quando meu pai ligou do hospital, para contar que ela havia morrido. Quando ouvi a notícia eu fiquei sem reação por alguns segundos, com a cabeça sobrecarregada, e então alguma coisa se arrebentou dentro de mim, e sobrou apenas o nada. Um buraco negro no meu espaço-tempo pessoal. Um nada tão grande que eu nunca chorei a morte dela, até hoje.

Essa volta ao Brasil me despertou incontáveis memórias em praticamente todos os lugares onde estive. Mas quando me vi novamente de pé, sobre o túmulo dela, na semana passada, eu não senti… nada.

Bom, parece que este pedaço meu eu vou ter que resgatar de outro lugar.


Na quinta de manhã o meu voo de volta finalmente pousou em Toronto. No instante em que pisei fora do avião, fui recebido pela brisa seca de Dezembro em seus zero graus. Fechei os olhos, respirei fundo, e disse baixinho para mim mesmo, sorrindo, enquanto expirava:

“hell yeah”.

Retrospectiva 2018

O que dizer desse ano que mal passou e já considero pacas?

Posso começar dizendo que esse ano viajamos bastante. Além do Japão, passamos uma semana no México, para fugir do inverno. Fomos naquele esquema de resort com tudo incluído e, três dias de resort depois, concluímos que esse não é o nosso esquema, alugamos um carro e saímos passeando por conta própria. É assustador o quanto o México não-turístico é idêntico ao Brasil – enquanto eu dirigia na estrada para Playa Del Carmen eu podia jurar que estava no Recife, na BR 101.

Uma das coisas que tentamos fazer foi ir à Cozumel, mas o destino não deixou. Eu cheguei a comprar a passagem da balsa pra ir pra lá e, na véspera, enquanto googlava um pouco das notícias locais, vi uma delas contando de quando a balsa explodiu… “que coisa, deixa eu ver quando foi isso”, pensei, achando que se tratava de uma notícia antiga. Aí vi que a matéria era do mesmo dia…

Depois de remarcarmos a passagem (em outra balsa, naturalmente), finalmente embarcamos pra ilha e, na hora de desembarcar, a minha ressaca mais desidratação bateu de repente e eu simplesmente desmaiei. Bethania, coitada, quase surtou. Tudo que vimos de Cozumel foi o porto, enquanto eu me recuperava pra voltarmos. Agora, vou ter que aguentar a gozação da Bê toda vez que entramos num barco: “tá tudo bem aí né? não vai desmaiar dessa vez?”.

Além de visitar os good hombres da América Central, fizemos um bocado de passeios de carro – vários em Ontário mesmo, e também um feriadão onde dirigimos 800km até Chicago, que é absolutamente incrível. A viagem foi toda errada: teve bate-boca com a locadora do carro, teve o fato de que estava tendo a famosíssima Maratona de Chicago quando chegamos lá (e não sabíamos) e tava tudo interditado, teve chuva, era pra ter sido um saco e foi fantástico.

O aniversário da Bê este ano foi no lugar predileto dela: Nova Iorque. Essa deve ter sido a nossa quinta vez em NYC e ainda tem tanta coisa pra fazer por lá que vamos voltar muitas outras vezes ainda.

E, pra fechar o ano, estou prestes a fazer uma coisa que eu não faço há quatro anos: visitar o Brasil. Sendo bem sincero, eu não tenho a menor vontade de ir ao Brasil. O principal motivo que me faria voltar – matar saudade das pessoas – nem conta, já que, felizmente, família e amigos vem nos visitar frequentemente. Outro dia eu fiz a conta e, em média, tínhamos visitantes aqui em casa de três em três meses. Só estamos indo dessa vez por motivos familiares mesmo, e eu ainda estou sem saber como vou me sentir por lá. Por todos os motivos que já detalhei exaustivamente por aqui, ir pro Brasil me parece algo como visitar uma ex-namorada.


Se você se incomodou com esse último parágrafo, eu entendo. Eu me mudei há quatro anos, e a cada ano que passa eu continuo saindo mais e mais do país. A internet permite que eu continue tendo contato com todo mundo que ficou, e o que parece uma bênção tem se transformado lentamente, dolorosamente, em uma eterna despedida de aeroporto. Cada whatsapp onde você vê que não está mais ali é mais um aceno de alguém querido, vendo você entrar na fila do embarque. As eleições só pioraram as despedidas. Mas é natural, é a vida no Brasil se ajeitando sem sua presença. E o mundo gira indiferente à tudo que é especial pra você.

Uma das coisas que nenhum post de blog, nenhum guia de imigração, nenhum livro sobre multiculturalismo me ensinou foi que ser um imigrante significa não pertencer, de fato, a lugar nenhum. No trabalho tem um grupinho fechado no Slack (o programa de mensagens que a gente usa) onde o pessoal combina a cervejinha de quinta-feira. A esmagadora maioria dos nossos grupos sociais aqui no Canadá são outros brasileiros imigrantes, mas esse do trabalho é diferente porque a maioria é nascida e criada por aqui, então o happy hour de quinta é uma oportunidade especial de conviver com o “Canadense da gema” em seu habitat natural. Por mais que eu tenha me integrado bem nesse ambiente, tem sempre aquele momento da noite onde o assunto baldeia para alguma coisa que só os nativos entendem e você bóia na conversa porque não passou a adolescência ouvindo Tragically Hip (a “Legião Urbana” local), ou você não passou pela famosa tempestade de gelo de 2012 onde Toronto inteira ficou sem luz elétrica por dias, ou algo assim.

É o preço que se paga.


Já que o post entrou nas vibes pesadas, falemos da depressão que eu comentei aqui anteriormente. Felizmente, tudo continua sob controle, mas eu continuo estudando minuciosamente a minha própria cabeça pra entender o que influencia o problema. Um fator que tem se mostrado cada vez mais crucial é a meditação, que ganhou até um post só pra ela. No meu caso, ela é incrivelmente efetiva. Até me dei de presente de natal o livro “The Mind Illuminated” (“A Mente Iluminada”, ainda sem tradução para o português), que é escrito por um PhD em neurosciência (!!) que se aposentou da academia e hoje é, digamos, um “monge budista faixa-preta”. Esse approach científico do assunto me pareceu bem interessante: segundo ele, há uma forte correlação entre os estados mentais descritos pela bioquímica cerebral e os estados mentais descritos pelos adeptos da meditação. Mas não acredite nele; melhor seguir um conselho do próprio Buda:

Não acredite cegamente no que digo. Não creia porque outros convenceram você. Não acredite em nada que vê, lê ou ouve de outras pessoas – sejam elas autoridades, religiosos, ou seus textos. Não dependa somente da lógica, ou da especulação. Não julgue pelas aparências, nem seja enganado por elas. Não abra mão da sua autoridade e siga a vontade dos outros às cegas. Isto leva apenas à desilusão. Descubra por sua conta o que é a verdade, o que é real.

Retrospectivas anteriores:

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O Primo no Japão

Eu não lembro quem sugeriu primeiro, mas o Japão sempre foi um lugar que eu e Bethania queríamos conhecer. A ideia, porém, ficou sempre no fundo da lista de prioridades porque a gente sempre achava que era longe, era caro, tem a barreira da língua, etc etc.

Aí uns amigos nossos foram e adoraram e não tiveram problema nenhum. Aí descobrimos que, daqui do Canadá, um voo pro Brasil demora o mesmo tanto que um voo pro Japão – e que a passagem costuma sair até mais barata. Aí, graças ao fato de Toronto estar cara pra caramba e o Japão estar meio que em recessão, descobrimos que o custo de vida anda mais ou menos o mesmo nos dois lugares. Aí, a Bê tava com férias pra vencer, e a gente foi numa feirinha de cultura japonesa e tinha um stand da Air Canada com um cupom de desconto pra um voo direto de Toronto pra Tóquio… e foi por Tóquio que nossa viagem começou.

A palavra que melhor define Tóquio é… muito. Muito grande. Muito complexa. Muito cheia. Muito limpa. Muito espetacular. Maior do que tudo que já vi nos meus 40 anos, em vários aspectos. Eu achei que, depois de meses planejando essa viagem, eu conseguiria lidar tranquilamente com tamanha envergadura, mas logo na chegada a gente ficou perdido no metrô por duas horas até conseguir chegar no hotel, simplesmente pelo fato de que o sistema de trem/metrô de Tóquio é grande demais. Mas, passado o susto inicial, o resto da viagem correu sem problemas.

Por sinal, internet no celular é indispensável no Japão. Google Tradutor salvou a nossa vida inúmeras vezes. E é muito prático simplesmente apontar a câmera do telefone pras coisas e ter uma tradução (meio que ainda ‘tabajara’) na mesma hora.

Além disso, o Google Maps mostra até o número identificador das entradas e saídas do metrô, o que é bastante prático, especialmente em lugares como Shinjuku, a estação mais movimentada do mundo, com 3.5 milhões de passageiros por dia e nada menos do que duzentas saídas. Minha maior vitória pessoal dessa viagem foi o dia em que não me perdi em Shinjuku.

Outra coisa que Tóquio – e o Japão – tem muito é boa comida. Parece bobagem, mas isso foi, de longe, o maior destaque da viagem pra mim. Eu arrisco dizer que o segredo do sucesso japonês não é a tecnologia, nem a tradição milenar, nem a ética de trabalho, nem a disciplina… é a comida. Porque, com o perdão da palavra, putaquepariu como se come bem naquela porra.

Tivemos dezenas de refeições memoráveis, incluindo:

O tonkatsu secreto

a restaurant entranceEsse fica em Tóquio, e é uma birosca onde cabem só 10 pessoas… mas que está no famoso guia Michelin, ainda que na categoria mais básica. Mas pra comer lá é meio complicado, porque você tem que:

  • Achar o local (tem só uma placa minúscula, apontando pra uma escada que vai em direção a um porão em um beco).
  • Achar a menina que toma conta da fila
  • Deixar com ela uns 10 dólares de depósito pelo seu lugar na fila
  • Tirar uma foto de um pedaço de papel com o seu nome e o horário da entrada na fila
  • Ir dar um passeio e voltar no horário que ela falar pra você voltar
  • Ao retornar, no horário combinado, você tem que mostrar a foto do papel que tirou antes, para confirmar que a reserva do lugar na fila é mesmo sua
  • Já na fila, você deve ver o menu e fazer o seu pedido antes mesmo de entrar no restaurante. Ah, e não tem menu em inglês – se vire com o Google Tradutor, e rápido porque tem mais gente pra pedir.

Quando finalmente você se senta e, logo logo, chega essa maravilha aí embaixo.

Pra quem não conhece, o tonkatsu é carne de porco frita e empanada, servida com arroz e uns acompanhamentos. Eu nunca vou me esquecer da primeira mordida que dei nesse tonkatsu: o jeito que a crocância perfeita, delicadamente temperada, vai se misturando à suculência da carne imaculadamente, perfeitamente cozida, conforme você vai mordendo seu pedaço… é de chorar. É de arruinar qualquer esperança de que um dia eu me torne vegetariano.

O “BO-LI-NHO”

Escrito assim porque você tem que dizer devagar, saboreando cada sílaba. Esse foi totalmente por acidente, fomos ver a estátua do Godzilla em Ginza, tava na hora do almoço, e enquanto ponderávamos onde almoçar eu vi uma fila enorme em frente a um restaurante. Fui investigar e dei uma desanimada, porque era um restaurante de rede, de Hong Kong, mas quando estávamos prestes a sair, notei que o rodapé do menu dizia: “Premiado com 1 estrela Michelin desde 2010”.

Depois de uma hora de fila, pedimos um monte de coisas, todas deliciosas, dentre elas os famosos pork dumplings – que ganharam o nome de “bo-li-nho” desde então. Essa disgrama é uma obra de arte: massa levemente crocante e amanteigada, e um recheio agridoce de carne macia. Bethania ficou absolutamente viciada, tanto que voltamos no dia seguinte pra comer de novo e, pedimos umas três porções do bendito bolinho.

O ramen com o melhor custo benefício do mundo

 

Esse foi o da maior fila que pegamos: uma hora e meia pra sentar e comer. Além do lugar ser minúsculo, ele é super badalado porque foi um dos primeiros restaurantes de ramen do mundo a ganhar uma estrela Michelin.

O macarrão é fresquíssimo, feito no próprio lugar, diariamente, e os ingredientes da sopa vem moídos/fatiados pra se misturar bem, e logo você percebe o porquê: tudo combina incrivelmente bem. A gordura do porco, o crocante do amendoim, a pimenta, as fibras da cebolinha, é um casamento perfeito de intensidade e sabor. Foi, de longe, o melhor ramen que já comi na vida.

Aí vem a conta e você vê que isso tudo aí custou inacreditáveis dez dólares

Os izakayas proibidões

Bom, “proibidão” é um tanto quanto exagerado, mas eles com certeza não eram lugares pra turistas que não falam japonês. Pra quem não sabe, o izakaya é um misto de bar com restaurante cujo menu de comida pode ser descrito como “coisas pra ir beliscando com o seu álcool”.

Um deles era em Kyoto, numa região chamada “pontocho”, que na verdade é um beco com restaurantes por todos os lados. A referência do lugar veio – adivinha! – do guia Michelin, e o Google Maps mandou a gente pro beco, e nenhum dos restaurantes do beco tinha placas em inglês. Aí fomos aprofundando a pesquisa e a treta foi complicando: só tinha uma foto da fachada mostrando uma lanterna de papel, sem nada em inglês, e não tinha nada parecido ali no beco. Depois de muita andança em círculos, descobrimos que tem “sub-becos” dentro do beco, e então eu comecei a explorar os sub-becos e comparar os caracteres em japonês das placas com o nome do lugar em japonês. Depois de muita procura, reparei que uma lanterna de papel tinha umas coisas em japonês que batiam com o nome do lugar. Bingo!

Mas essa foi a parte fácil. Ninguém no restaurante falava inglês, e era impossível usar o Google Tradutor no menu porque ele era escrito a mão… então, peguei o telefone e traduzi para o japonês a frase: “Alguma sugestão?”. Basicamente, conversamos via tradutor do telefone e comemos o que eles recomendaram pra gente – incluindo coisas que eu nem sei o que era – e tava tudo espetacular.

Tivemos ainda muuuuitas outras histórias de comida: teve o okonomiyaki em Hiroshima, nos fundos de uma casa da vizinhança, teve o jantar kaiseki que dura três horas e tem dezoito pratos diferentes, teve o kuro tamago, um ovo cozido no vapor das águas vulcânicas de Hakone e que, teoricamente, lhe dá sete anos a mais de expectativa de vida… mas se deixar esse post vai ser só sobre comida, então melhor mudar o assunto.

A gente fez a maior parte das coisas programação turística normal – ir nos milhões de templos, no cruzamento famoso de Shibuya, nas lojas nerd de Akihabara, nas ruínas do prédio destruído pela bomba de Hirosima que é conservado até hoje, etc., mas foi bem legal experimentar coisas que não são muito comuns nos guias de viagem, como:

  • O museu da Toyota em Nagoya: mas não se engane, não tem nada a ver com os carros. Tanto eu quanto Bethania somos nerds de processo industrial, e a Toyota é tão referência nisso que a metodologia usada nas fábricas deles é referência mundial na indústria. E o museu é totalmente centrado nisso – ele começa contando o passado da Toyota na indústria têxtil (pois é, eu também não sabia) e de como isso influenciou a tecnologia de produção de hoje. E o museu tem um monte de coisas legais, como demonstrações ao vivo de forja de alumínio, ou robôs de solda industrial que você mesmo pode acionar e ver trabalhando.
  • Shinjuku Golden Gai: eu nem deveria estar falando desse lugar, que é tão foda que deveria ser mantido em segredo pra não ser invadido pelos turistas que vão pra olimpíada em 2020. O golden gai fica em Tóquio, e é um emaranhado de becos minúsculos tomados por nada menos do que duzentos e cinquenta bares. Bares do tamanho de um banheiro. Bares onde a área de se sentar é um beliche em cima do barman. Bares cujo tema é Twin Peaks, ou death metal, ou filmes B de terror, ou a Paris de 1950. É a coisa mais incrível de vida noturna que já vi na vida.
  • O pachinko: a explicação simples do pachinko é que é o cassino japonês – inclusive com todo um esquema secreto pra embolsar os ganhos, já que jogos de azar são ilegais no Japão. Mas o que me deixou fascinado sobre o pachinko é o ambiente – centenas de caça-níqueis bipando descontroladamente no último volume em um lugar fechado onde todo mundo fuma. A gente entrou no lugar e eu mal consegui aguentar a completa overdose auditiva/olfativa por trinta segundos. É de estragar o cérebro. Honestamente, não sei como as pessoas conseguem passar horas jogando ali.
  • Os hostshostesses: durante um tour de restaurantes de Tóquio (olhaí a comida de novo), o nosso guia detalhou um pouco desse aspecto bizarro da vida japonesa. Funciona assim: você sai com os caras do trabalho e vai num host bar, onde tem uma menina – a hostess – cujo trabalho é dar atenção à você: ela serve suas bebidas, ri das suas piadas, escuta suas conversas… basicamente, te faz companhia como se fosse sua namorada e estivesse super interessada em você. Não tem sexo, tem só o interesse, o lado emocional do relacionamento, só a companhia. E frequentemente elas exploram esse aspecto pra ganhar presentes dos cabras desavisados, que acham que aquela atração toda é de verdade e que ela se apaixonou por você. É inclusive comum ver gente pagando por essa “namorada de mentirinha” pra fazer coisas comuns, do tipo sair pra jantar.

Essa viagem foi grande demais pra descrever em apenas um post. Felizmente, eu levei uma câmera pra filmar o que vimos e fizemos… então, pra fechar essa história, toma aí mais quinze minutos de Japão.

Quarenta anos

Esta semana eu completei 40 anos, então vai ter textão. Venha rir e se emocionar.

Eu comecei esse blog como esse moleque de vinte e poucos anos aí embaixo.

Eu era recém-saído da faculdade de Computação, ainda vivendo em Belo Horizonte. A internet era tão pequena quanto uma cidade do interior – meu terceiro post aqui era o Interney (Edney Souza, hoje um monstro do marketing digital brasileiro) adicionando um link pro meu blog em seu site.

Hoje eu passei o dia trabalhando num laptop trinta vezes mais poderoso do que o meu desktop da época. Este post, inclusive, é escrito a milhares de quilômetros do Brasil, na prosaica cidadezinha suburbana de Ajax, em Ontario, no Canadá – país que eu escolhi para viver e onde, finalmente, me sinto em casa.

A minha vida mudou total e completamente desde então. Felizmente, a aparência continua mais ou menos a mesma – com o cabelo melhor, eu diria. Fica aí um agradecimento especial aos meus pais pelos bons genes que fizeram o povo da loja de bebidas pedir a minha identidade até os 39 anos.

A foto acima é recente, de maio de 2018, em Nova Iorque, onde fomos comemorar o aniversário da Bê. Vinte anos antes eu conhecia NY só das revistinhas do Homem-Aranha. Hoje eu tenho um cartãozinho da MTA (o “bilhete único” novaiorquino) permanentemente na carteira, e a sala de tevê aqui de casa é lotada de pôsteres de musicais da broadway que a Bê assistiu. Nesses anos todos o meu mundo se expandiu enormemente.

Mas estou tergiversando muito. O que eu realmente quero dizer com essa história do tempo passando é que eu vou morrer.

Sobre olhar a mortalidade no olho

O lado bom de estar mais velho é que agora é adequado parafrasear Nietzsche para dizer que, quando você olha a mortalidade no olho, ela olha de volta pra você.

Não, eu não estou com nenhuma doença terminal. A minha saúde física está, inclusive, excelente: eu durmo bem, como (razoavelmente) bem, corro 5km três vezes por semana e tal. Mas fazer 40 anos é um marco de vida, e apesar do fato de que estou, literalmente, na melhor situação que já estive, a única coisa que consigo pensar é que, daqui pra frente, é morro abaixo, pois já vivi 50% da minha expectativa de vida.

Com os quarenta no horizonte, o meu eu pessimista já esperava ter que lidar com algum problema crônico, tipo colesterol, joelho ruim, talvez até os “países baixos” se rebelando na hora do vamo ver. Naturalmente, não foi nada do que eu esperava.

Tudo começou na primavera. Uma das consequências do inverno no hemisfério norte é o chamado “transtorno afetivo sazonal”, que deixa as pessoas deprimidas por conta do frio e da falta de luz. Convenientemente, a sigla em inglês pra essa doença é “SAD” (triste), o que descreve bem como eu estava quando as neves de março fecharam o invernão. No passado eu ficava só mais preguiçoso que o normal e segurava a onda tomando um suplemento de vitamina D, mas esse ano as coisas… não estavam exatamente fáceis. A rotina não mudou, eu continuava acordando, indo trabalhar e tudo o mais, mas praticamente no automático, simplesmente pra cumprir tabela. Era como se você fosse ao seu restaurante preferido, pedisse o prato que mais gosta, e a comida viesse sem sal, sem tempero.

O frio passou, os gansos voltaram todos grávidos da sua temporada na Flórida e, com o verão chegando, eu achei que o calor e os dias mais longos iriam resolver de vez a história. Afinal, não tinha por que eu me sentir tão mal com a vida, não é? Afinal, eu estou morando no país que sempre quis, numa casa incrível, na carreira onde eu mando bem, com um ótimo salário, com várias outras ofertas de emprego chegando no LinkedIn, a melhor esposa da galáxia, um cão e um gato me amando incondicionalmente, tudo perfeitamente alinhado… então por que diabos eu não sinto vontade de fazer nada? Por que a vida anda tão sem gosto?

Aí o dia-a-dia começou a ser afetado. Conseguir me concentrar no trabalho por mais de cinco minutos ficou impossível. Minha libido foi sumindo de mansinho até sumir de todo. Aí na sexta-feira eu comprava umas cervejas pra poder ir tomando ao longo do final de semana e elas não duravam nem até o sábado. Ou isso ou eu comprava um saco de jujubas pra deixar na mesa do trabalho e acabava comendo meio quilo (literal) de açúcar numa tarde.

Com a idade avançando, eu tava esperando ter que lidar com mazelas físicas – e acabei sendo pego de surpresa com a saúde mental. Pois é. Tem todo um estigma pra falar disso. O cursor do editor parou algumas dezenas de vezes nos parágrafos anteriores até eu conseguir chegar até aqui. Coincidentemente, meu aniversário caiu no Dia Mundial da Saúde Mental, aí resolvi aproveitar a chance pra falar do assunto sem fazer muito rodeio.

Felizmente, o meu caso parece ter sido bem inicial e não chegou ao ponto de afetar drasticamente a minha vida – tipo eu ter que parar de trabalhar, ou precisar de remédios, ou chegar no nível bem mais sério de pensar em se matar. Por sinal, esse ponto do suicídio é algo assustadoramente comum: quando comentei com o meu médico daqui sobre o que eu estava sentindo, essa foi a primeira pergunta que ele fez – depois de contar que mais da metade dos pacientes dele andam se queixando de problemas semelhantes. Semana passada mesmo, no bar com os caras do trabalho, um deles acabou deixando escapar pra mim que, depois de passar por um divórcio no começo do ano, ficou pensando em acabar com a vida. Ano passado um conhecido do Twitter tentou se enforcar, mas felizmente sobreviveu.

Como o meu “bode” não afetou minha cabeça racional, eu concluí rapidinho que havia um bom risco da coisa piorar e, arrumando força de vontade não sei de onde, resolvi que iria tentar todas as possibilidades de auto ajuda antes de ter que embarcar em assistência médica (na verdade, a vergonha de ter que admitir pros outros o meu estado mental também ajudou um bocado). A primeira providência foi voltar a fazer exercícios. É um saco, mas é igual escovar os dentes – não fazer é pior; a segunda foi meditação – foi um tiro no escuro, algo que resolvi tentar achando que seria muita viagem e que não tinha porque dar certo, e que foi, de longe, o que mais me ajudou a voltar ao normal. Tanto que escrevi um post só pra dar os detalhes da minha odisséia meditativa.

Com a chegada dos 40 anos, felizmente, temos tudo sobre controle no departamento da saúde mental. Já no da física, os meus joelhos resolveram começar a doer após as corridas. Bem, dos males o menor – e bicheiras à parte eu me sinto muito grato por chegar a esse marco de vida do jeito que cheguei.

Lições aprendidas

Os meus últimos dez anos foram uma loucura. Eu passei por oito empregos diferentes, comprei dois imóveis, mudei de casa três vezes (incluindo aí a mudança de país), adicionei mais um curso superior no currículo, conheci vários novos países…

Eu comecei esse post falando que eu vou morrer e meu tempo nesse planeta está se acabando, mas, graças à maluquice da última década, acabei aprendendo que o importante não é a quantidade de tempo que se tem disponível, e sim o jeito que você aproveita o tempo que tem. E agora que sou oficialmente um quarentão, sempre que me botarem pra fazer alguma coisa que eu ache perda de tempo, eu posso sair fora com a clássica desculpa de que “estou velho demais pra isso”.

O Primo recomenda: meditação

O “mascote” do fórum sobre meditação no Reddit

Nas minhas muitas noites insones, googlando coisas sobre saúde mental, reparei que meditação aparecia em várias listas de possíveis tratamentos para depressão e ansiedade. Vi, inclusive, revisão de literatura científica sobre os benefícios de meditar, com tudo apontando para uma considerável redução dos sintomas depressivos. Então, resolvi me comprometer a fazer pelo menos as 10 sessões grátis dum aplicativo de meditação guiada (o Headspace – mas há opções em português), só pra ver como é. Afinal, eu não tinha nada a perder: iria custar zero reais e consumir apenas dez minutos do meu dia.

Quando comecei, além de uma certa descrença de que ia fazer alguma diferença, eu também tinha todas aquelas dúvidas comuns de quem não conhece/nunca tentou meditar: é só isso mesmo, sentar e se concentrar na respiração? E se eu não conseguir sossegar meus pensamentos? E se eu não conseguir ficar sentado sem minha perna ficar dormente? E se der uma coceira maluca nas costas no meio da sessão? E se o único tempo que eu tiver for no metrô indo pro trabalho? Curiosamente, as respostas que eu achava para todas estas perguntas era sempre a mesma: “não tem problema”. No início eu achava isso meio largado demais, achava que as sessões tinham que “dar certo” e que eu tinha que conseguir me sentar sem incômodos ou distrações e ficar 100% do tempo não pensando em nada. Mas resolvi confiar nas instruções e continuei fazendo as minhas sessões porcas, tentando concentrar apenas na minha respiração, vendo a minha cabeça resolver relembrar todas as falas do filme Matrix no meio da sessão por 200 vezes e tendo que voltar a focar na respiração 200 vezes. Porque é isso que os guias de meditação que eu li dizem que você tem que fazer quando se distrai:

Devido ao hábito, os pensamentos seguramente invadirão sua prática. Quando surgirem, apenas libere-os ao expirar, sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles. Observe o pensamento emergir, passar diante de você e depois desaparecer. Então, deixe que sua atenção repouse, não entorpecida e preguiçosa, mas à vontade.

E aí aconteceu o que sempre acontece quando você faz uma coisa muitas vezes: você fica bom naquilo. Graças à minha mente muito distraída, eu acidentalmente acabei me treinando a largar distrações. Além disso, no processo de largar esses pensamentos, você também aprende a simplesmente observar o que acontece na sua cabeça sem fazer juízo de valor (“sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles”), e isso torna o processo de conviver consigo mesmo incrivelmente mais leve. Aí a ficha caiu: é por isso que “não tem problema” se distrair duzentas vezes numa sessão, ou perder a concentração porque a gata tá arranhando a porta do quarto ou porque sua perna direita está toda dormente. O lance é aproveitar esses problemas pra treinar como se dissociar deles. O grande barato da meditação não é não pensar em nada, e sim aprender a postura certa pra lidar com as coisas que você pensa. O importante não é o destino, e sim a jornada.

Quando as 10 sessões grátis do aplicativo acabaram eu, como era de se esperar, continuei o hábito por conta própria. Todo dia de manhã eu acordo, tomo um banho, e medito por vinte minutos, inclusive nos finais de semana. Os efeitos disso são bem notáveis, dá pra perceber que alguma coisa no meu cérebro andou se reorganizando. A minha concentração no trabalho, por exemplo, ficou meio “sobrenatural”; eu consigo me manter focado por muito mais tempo – o que vale ouro pra quem trabalha com software. O meu sono não mudou de quantidade, mas parece ter ficado mais… eficiente. No início eu andei tendo uns pesadelos muito esquisitos, mas foi coisa de uma semana e acabou passando – talvez efeito da tal reorganização cerebral. Na hora de dormir ficou bem mais fácil pegar no sono, mas às vezes a insônia ainda bate e eu acordo lá pelas três, quatro da manhã, e acabo desistindo de tentar voltar a dormir e vou meditar às cinco… e mesmo assim não fico sonolento o dia todo. E se eu dou aquela dormidinha esperta de meia hora no trem, ao voltar pra casa, eu fico novo em folha. E o meu humor e disposição geral pras coisas está de volta ao normal. A vida voltou a ter gosto.

Claro que esse é o meu caso pessoal, e pode ser que você experimente e não seja essas coisas todas pra você, mas no meu caso fez muita diferença. Acho demais que todo mundo devia tentar, afinal, basta se sentar, fechar os olhos e… respirar.

O Primo recomenda – NTS

Quando me perguntam sobre música eu consigo conversar fluentemente sobre estilos, épocas, discos, quem influenciou quem, etc. Mas se tem uma pergunta que me deixa absolutamente confuso é:

Onde foi que você descobriu isso?

É que eu tenho MUITAS origens de descobrir música nova. Pode ter vindo de um comentário de Twitter, de uma referência usada num dos (excelentes) vídeos da Estelle Caswell (da Vox), do lineup de um festival, do algoritmo de recomendação do Google Play… eu não me preocupo muito com de onde veio, e sim pra onde vai.

É por esse motivo que eu não consigo dizer com precisão como diabos eu descobri a NTS – uma rádio que só transmite online, de uma cabinezinha de uns cinco metros quadrados em um bairro pobre de Londres, mas que tem filiais em Los Angeles, Manchester e na China e é extremamente influente no underground musical. Foi ela que resolveu o meu problema de muitas origens de música nova, já que faz meses que ela é praticamente a única coisa que escuto.

NTS home page
A home page da NTS, mostrando a “sede” da rádio. Conhece os artistas? Não? Nem eu.

Uma das coisas que me entediava no processo “normal” de descobrir coisas novas pra ouvir é que você sempre acaba caindo em variações das bandas/artistas que você sempre ouve. O que me interessa mesmo são as coisas autênticas, feitas por gente que gosta genuinamente de música e quer simplesmente se expressar, sem preocupação com dinheiro ou fama, e as coisas surpreendentes, a inventação de moda que é extremamente complicada num universo musical onde todo mundo já fez de tudo, e que, justamente por isso, dá muito certo quando dá certo. A curadoria de shows da NTS vai justamente nessa linha: você não vai conhecer ninguém, a maioria é uma molecada de vinte anos ou gente muito focada em um nicho bem específico, e eles tocam coisas inacreditáveis – tem vaporwave, tem especial de música dos Andes, tem metal, tem mixes de música da Índia, tem música ambiente mixada com gravações do rádio da polícia, tem música de videogame, e tem todas as variedades de música dançante (house, techno, etc.), mas fresquíssima, tipo comida japonesa cujo peixe foi pescado no mesmo dia. Frequentemente é coisa saída direto do Bandcamp/Soundcloud e que está prestes a estourar.

Quando esbarrei com a NTS, o slogan da rádio me chamou a atenção: “don’t assume” (algo como “não julgue”). De fato, você precisa entrar pra ouvir com este espírito, porque na programação da rádio vale absolutamente tudo. Enquanto escrevo este post estou ouvindo o programa do Mobbs (pela primeira vez – explico porque em breve), que é descrito assim:

As produções de Mobbs passam pela linha do grime e outras culturas sonoras, mas a especialidade de seu show é aquela atmosfera da madrugada – seja a da batida porrada, das fitas cassete semidestruídas, ou da música ambiente dopada. Pluga aí.

Nos últimos minutos ele tocou um trecho de entrevista de um cara falando dos atentados do 11 de Setembro (entrecortado com uns ruídos digitais), e mixou com um jazz standard daqueles clássicos de trumpete/piano/bateria, mas com um blues tocado por cima na metade da velocidade (o vocalista soa como um urso bêbado), e agora tá tocando uns instrumentais de sintetizador… e tá valendo.

A diversidade musical da NTS só não é maior do que a diversidade dos artistas que tocam por lá. Gente nova, velha, artistas consagrados (a Bjork fez um show lá mês passado), gente que começou outro dia, héteros, gays, grupos queer/não-binários, russos, latinos, africanos, brasileiras, asiáticos… outro dia um cara levou a mãe pra tocar com ele! Como eu mencionei, vale absolutamente tudo. E o mais legal disso é que, em nenhum momento, a rádio faz alarde do tipo “olha só como o nosso lineup é diversificado”, porque isso acontece naturalmente, como deveria acontecer no resto do mundo. O lineup é diversificado em quantidade também, já que o povo que toca “frequentemente” tem um show de duas horas a cada quinze dias – são CENTENAS de pessoas ativas na programação todo mês. É por isso que, por mais que eu escute a rádio todo santo dia, sempre tem alguma coisa que nunca ouvi antes.

Mas o pior (melhor?) aspecto da NTS é que todos os shows ficam arquivados no Mixcloud. Isso significa que, a qualquer momento, você tem acesso a um acervo de LITERALMENTE CENTENAS DE MILHARES DE HORAS DE MÚSICA CATEGORIZADA POR ARTISTA E TAGUEADA POR GÊNERO. Se você não sabe o que ouvir, tem sempre coisa boa na seção de “recomendados”. Se você quer um gênero específico (tipo, “baile funk”), é só botar a tag no link de “explorar”. Basicamente, agora eu tenho um acervo praticamente infinito de opcões pra descobrir novos artistas, pra tocar enquanto eu lavo a louça, pra ouvir na academia, pra botar no trabalho, pra espantar a insônia, etc.

Alguns artistas/shows que eu particularmente curto muito e faço questão de acompanhar de perto são:

  • Pra música dançante melhor do que tudo isso que tá por aí: A Moxie tem o show mais “alto astral” (como diria o Felipe Cabeça) da NTS. A Shanti Celeste tem praticamente doutorado em house music, e o casal Nadia/Dan, do Rhythm Connection, também são muito fodas.
  • Pra ouvir de manhã: vá de Charlie Bones e seu “Do!! You!!! Breakfast Show” e seu dia vai ser garantidamente bom. Músicas que até seu pai curtiria.
  • Pra música que conta histórias: o Life is Away é uma espécie de ensaio para o rádio, algo como uma história contada por meio de filmes/séries/entrevistas entremeados com música ambiente. Se você vai ouvir só uma das mil recomendações deste post, ouça essa. Brilhante e absolutamente imperdível. O “Who’s That Girl” tem a mesma pegada, mas com a dona do show (Leyla Pillai) fazendo uma espécie de “terapia temática zen” com música e texto. É tipo drogas, mas sem as drogas. Falando nisso…
  • Pra se preparar para a legalização da maconha: tem tanta gente fazendo beats, mas o NahhG ainda consegue filtrar o que tem de melhor por aí. E o Ian, do Minimal Effort é um santo restaurador de vibes.
  • Pra ouvir o que vai tocar amanhã no resto do mundo: Lukid, o cara para quem eu faria questão de pagar uma cerveja se estivesse em Londres. A London Contemporary Orchestra é outra que está na vanguarda da vanguarda.
  • Pra meditar: Perfect Sound Forever é o show cujo título está mais próximo do conteúdo. O Nosedrip também é lindo. E eu ainda vou comprar a camiseta da Kranky que diz “hugs and/or drugs” (abraços e/ou drogas) porque é genial demais.
  • Para não entender porra nenhuma do que está acontecendo: Don’t Trip vai gratinar seus neurônios, Reverie é o que toca no seu subconsciente e você não sabe, Alien Jams é transmitido diretamente de Marte, Beatrice Dillon te pesca no techno e te come no experimental, e a Coucou Chloé é uma DJ/modelo que definitivamente me mete medo.

TNT, Sete Lagoas, e isolamento musical

Hoje o TNT, o famoso álbum do Tortoise, fez 20 anos.

Eu ouço música todo santo dia. Muita música. Meus ouvidos de quase 40 anos devem ter dezenas de milhares de álbuns no seu odômetro, fácil fácil. E se você me perguntar qual álbum eu levaria para uma ilha deserta, é o TNT.

O TNT me lembra uma história de quase duas décadas atrás. Eu estava em Sete Lagoas, terra natal do meu pai, com o primo que indiretamente dá nome a este blog e cujo gosto musical é bem parecido com o meu: “esquisito”, na nomenclatura das pessoas normais. Como Sete Lagoas é uma cidade do interior, musicalmente ela é dominada pelo mainstream, sertanejo e similares, mas naquele dia a banda brasileira mais irmã do Tortoise que existe, o Hurtmold, ia tocar na cidade. Graças à minha fissura com backups e curadoria digital, o registro desse dia tá aqui no blog também. O que não tá registrado é um detalhe que me lembro até hoje. Enquanto esperávamos o show, alguém botou pra tocar o TNT.

Ironicamente, música é um negócio que eu amo profundamente, mas que me isola de todo mundo. É que não dá pra chegar no trabalho e falar “cara, tu já ouviu o mix do Sakamoto na NTS onde ele toca até uma do Dilla?”. Eu ainda não decidi como me sinto com isso, ou se deveria tentar sair da minha bolha e procurar outras pessoas com gosto musical parecido pra compartilhar mais e tornar a experiência menos introvertida. E é por isso que eu me lembrei do TNT tocando em Sete Lagoas antes do show do Hurtmold – naquela tarde eu estava ouvindo um dos discos mais importantes da minha vida com um monte de outras pessoas. 

A Bê costuma dizer que música pra mim não tem vínculo com memória afetiva, que eu busco é criatividade e inovação sonora. Essa parte da criatividade é muito verdade, mas eu tenho sim meus vários momentos de memória afetiva vinculados à música. Por exemplo, ouvir Fennesz e Cocteau Twins me lembra imediatamente dos meus projetos de consultoria no interior de São Paulo (Windturn City, alguém lembra?). Me lembro, inclusive, de ouvir o Donuts, o disco mágico do J Dilla – aquele que mencionei ali atrás – numa das minhas viagens semanais de quatro horas de ônibus pra chegar no trabalho; me lembro até hoje do buzão cruzando a Dutra e eu sentado na janela, maravilhado com a ingenuidade despretensiosa nos meus fones. E o TNT me lembra aquela tarde em Sete Lagoas. Me lembro de olhar em volta e ver todo mundo, sem exceção, curtindo a música – que de fato calhou perfeitamente pra uma tarde de sol e boa música entre amigos. E, principalmente, me lembro de me sentir no meu mundo musical, mas sem estar isolado do mundo.

Retrospectiva 2017

Só três posts esse ano… é a crise, talvez?

É nada, é só ano de gente ocupada. Rolou bastante coisa nos últimos 365 dias:

cat over a table with painting at the backEm abril achei uma gata perdida no parque e adotei. A Bê batizou de Cafuné, mas por algum motivo eu só chamo ela de “gata” mesmo. Pavlov e a gata já tiveram oito meses pra se adaptar um com o outro e eles estão convivendo super bem, tirando um ou outro episódio de ciúme de ambas as partes e um leve territorialismo de ambas as partes: a gata se debruça sobre a tigela de água pra não deixar Pavlov beber, aí em retaliação ele vai e come a comida do potinho dela, e por aí vai.

De noite, a matilha toda – eu e Bethania inclusos – dormimos todo mundo junto e amontoado. Quando me deito a gata sobe na cama, depois sobe em cima de mim, bota o focinho bem na minha cara – estrategicamente me impedindo de mexer no celular – e começa a ronronar. E gato ronronando no seu colo é algo inexplicavelmente precioso.

Em agosto realizamos o sonho máximo dessa jornada canadense: compramos uma casa e fomos morar no subúrbio. Eu sabia que morar em casa ia dar trabalho e custar caro em termos de manutenção, mas nada podia me preparar pros últimos quatro meses… só pra vocês terem uma ideia, eu tive que:

  • Consertar todas as quatro privadas da casa que tavam vazando.
  • Arrancar o carpete do hall do andar de cima – porque ele virou uma extensão do banheiro de Pavlov. Esse trampo foi uma novela mexicana, com instalador trazendo piso errado, demorando um mês pra fazer o serviço, etc, etc.
  • Instalar cortinas e persianas em todas as janelas. Na primeira delas eu ainda era n00b de paredes norte-americanas e fiz uns cinco furos errados até acertar…
  • Trocar todos os três detectores de fumaça da casa, ao descobrir que os antigos donos da casa nos fizeram o favor de deixá-los mais de cinco anos vencidos. Por sinal, um cordial pau no cu dos antigos donos da minha casa, que não cuidaram de absolutamente nada de manutenção e agora tá sobrando tudo pra mim.

kitchen sink

  • Contratar um cara pra trocar as bancadas dos banheiros e da cozinha porque, de tão velhas, elas impediam as gavetas de abrir. A vantagem disso é que agora eu tenho uma pia linda. Ser adulto é uma bosta mesmo, você fica feliz com a sua pia…
  • Improvisar umas travas de metal pra fixar a lava-louça, que caía pra frente quando você abria a porta.
  • Jogar a minha geladeira inteira fora ao descobrir que ela cria umas crostas de gelo de dois em dois meses e as comidas todas estragam porque ela para de gelar – e que nenhum técnico conserta isso porque o problema chama-se “design lixo das geladeiras Samsung”. Depois dessa e do fiasco dos telefones explosivos eu nunca mais compro NADA da Samsung na vida. Aproveitando, uma singela estalactite de gelo no cu dos antigos donos da casa por mais essa.
  • Refazer a vedação das paredes do box de dois banheiros.
  • Abrir um buraco no teto da sala porque o banheiro acima dela estava vazando dentro do drywall. Não é nada divertido ver o teto da sua sala pingando enquanto você toma café da manhã.
  • Pagar um absurdo pra um cara refazer as paredes/azulejos do box do meu banheiro.
  • Brigar com o fiadaputa porque ele fez um trabalho de merda.
  • Tapar o buraco do teto da sala eu mesmo, com todo meu vasto conhecimento de conserto de drywall adquirido às pressas no YouTube. Por sinal, você já teve que lixar drywall? É bem legal, mas morrer queimado é muito melhor…
  • Recolocar um dos azulejos do banheiro, também com treinamento de YouTube, porque o fiadaputa largou sem fazer depois de de ir embora.
  • Refazer, pela terceira vez, a vedação do banheiro que tava vazando – porque o fiadaputa usou o rejunte errado.
  • Trocar o aquecedor da casa que resolveu morrer alguns meses antes do inverno – o que envolveu uma conta caríssima, uns três buracos no teto do porão, e o prejuízo adicional de uma caixinha de som bluetooth que eu tinha e que magicamente desapareceu da casa depois que os instaladores foram embora. Foi meu primeiro furto aqui no Canadá, por sinal.
  • Deixar os buracos do teto no porão porque tivemos uma ideia maluca de montar um projetor com home theater no porão e eles seriam úteis pra fazer a parte elétrica da instalação.
  • Passar madrugadas insones pesquisando distâncias ideais de projeção, comparando com as medidas da sala, conferindo se o tamanho da tela caberia na parede… como diz o ditado, “meça duas vezes, corte apenas uma”.
  • Orçar o trabalho de passar fiação pro projetor com um eletricista licenciado – já que aqui eu sou legalmente impedido de mexer na fiação da minha própria casa sem o aval de um eletricista profissional – e receber um orçamento de quase três mil dólares.
  • Comprar uma extensão e usá-la pra alimentar o projetor, passando o fio estrategicamente por dentro do teto até uma tomada próxima – porque huehue nóis é BR.
  • Construir uma tela de projeção sob medida, montando uma moldura com ripas de madeira e enrolando uma tela barata de PVC por cima dela.
  • Abrir ainda mais buracos no drywall pra passar os fios de áudio/vídeo (essas a lei deixa). Foi tudo no maior esquema gambiarra: eu enfiava o celular nos buracos do teto e usava a câmera pra achar um caminho pros fios, depois passava uma fita métrica no lugar, amarrava as pontas do fios na fita métrica e puxava a fita pra puxar os fios. Foi emocionante enfiar minha furadeira num dos buracos e usá-la às cegas pra abrir passagem pra um dos fios.

Deu muito trabalho, mas valeu a pena.

media room

  • Por fim, tive também que transportar e montar incontáveis móveis da Ikea. Pensando bem, essa é a parte divertida, é tipo Lego de adulto.

No meio disso tudo, em outubro eu troquei de emprego. Um amigo daqui apareceu com uma vaga que pagava 60% a mais do que eu ganhava. A pegadinha: era num projeto meio bucha. Eu pensei comigo que quem sobreviveu a Windturn City sobrevive a qualquer coisa, mas mal sabia eu no que estava me metendo. Digamos que agora eu passo cada dia de trabalho assim:

  • 10% do tempo eu faço trabalho de verdade, que agrega valor.
  • 30% do tempo eu estou consertando servidor caído ou tentando fazer as coisas rodarem no meu computador.
  • 60% do tempo eu estou fazendo facepalms duplos tentando descobrir o que diabos as pessoas fizeram no projeto porque nada tá documentado em lugar nenhum.

Basicamente, agora eu trabalho numa mistura de The Office com Trapalhões cujo cenário é uma daquelas casas bagunçadas de acumuladores compulsivos.

Quando nos mudamos para o Canadá, com seis malas e nenhuma certeza do futuro, uma conversa recorrente no nosso círculo de amigos imigrantes eram os perrengues do inverno. Um deles é o snow shoveling: todo morador daqui de Ontário é legalmente responsável por tirar a neve da calçada da frente da sua casa, ou seja, você tem que sair no frio e tirar a neve com uma pá. Os nossos amigos costumavam comentar que prefeririam morar em apartamento por conta disso, mas eu sempre dizia:

“Ih, se eu tiver que fazer shoveling no inverno eu vou fazer com gosto, porque ter essa obrigação significa que eu finalmente tenho uma casa aqui no Canadá”.

Três anos depois, às 18h do dia 12 de Dezembro de 2017, eu peguei uma pá e tirei a neve da calçada da minha casa canadense pela primeira vez.

snow shovel

 

Retrospectivas anteriores:

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A saga de comprar uma casa no Canadá

Em 2017, com empregos fixos e a imigração concluída, eu e Bethania começamos a planejar o nosso novo grande passo canadense – sair do aluguel e conquistar o sonho da casa própria.

Seis anos atrás, quando comprei meu apê em São Paulo, eu comentei do desespero que foi ir juntando o dinheiro pra dar de entrada enquanto eu via os preços crescendo de forma galopante. Tudo que eu não queria era ter que passar de novo pelo mesmo stress – ou seja, foi exatamente o que aconteceu. Até os números foram iguais: os preços na grande Toronto duplicaram nos últimos 3 anos e seguiram batendo recorde atrás de recorde todo mês. Isso puxou os aluguéis, que também começaram a subir, e meu contrato de aluguel tava lá prestes a vencer no fim do ano.

Além disso, tinha também o dilema do que comprar. Em SP a escolha era entre um apartamento pequeno ou um apartamento minúsculo – casas nem entravam na lista por causa do custo/risco/distância. Aqui, felizmente, tínhamos mais escolha:

  • Apê pequeno, colado no metrô, bem próximo da muvuca do centro, meia horinha e você tá no trabalho;
  • Apê grande, mas dependendo de ônibus + metrô, relativamente próximo do centro, uma hora ou mais pra ir/voltar do trabalho.
  • Uma casa, pequena ou grande, mas que se encaixasse no orçamento.

O problema é que, em fevereiro, o preço médio de uma casa em Toronto bateu um milhão de dólares. Assim sendo, quando a gente ia ver uma casa era sempre assim:

  • O anúncio dizia assim: “renovator’s paradise!” (paraíso do construtor), então a gente sabia que a casa tava caindo aos pedaços.
  • Às vezes a casa nem tava tão caindo aos pedaços, mas era uma stacked townhouse – uma casa geminada dos dois lados e também por cima ou por baixo. Praticamente um apartamento na horizontal.
  • Quando era apenas uma townhouse (geminada só dos lados), ela era colada numa rodovia barulhenta, ou do lado do trilho do trem, ou longe de todo tipo de transporte público, ou num lugar muito velho/bizarro. Não me esqueço de uma que vi, era até bem perto do metrô, mas a casa devia ter uns 50 anos de idade e ficava numa vila que era idêntica à vila do Chaves…
  • Quando a gente finalmente via uma casa legal ela estava 150 mil dólares acima do nosso orçamento – e normalmente era vendida no dia seguinte.

Os apartamentos todos também estavam bem frustrantes, e depois de ver inúmeros deles e não gostar de nenhum começamos a colocar na mesa uma opção nova: e se fôssemos morar… no subúrbio?

O subúrbio aqui não tem a conotação de periferia. Trata-se daquele subúrbio de filme: são as cidades ao redor de Toronto, sempre pequenas, quase sem prédios, com aquele monte de casas todas iguais, onde só moram famílias com filhos, e os pais passam o final de semana fazendo jardinagem, cortando grama ou serrando madeira na garagem. São lugares tão prosaicos que tem um monte de minisséries sobre como morar no subúrbio é tedioso. No trabalho um monte de gente mora nesses lugares – eles são facilmente identificáveis, porque chegam mais cedo pra trabalhar e são os primeiros a ir embora, normalmente correndo porque “tem que pegar o trem” pra voltar pra casa.

Separamos um dia pra ver uma casa em Ajax, uma das cidades ao leste de Toronto, só pra ter uma ideia de como era. Fomos logo depois do trabalho, na tarde de um belo dia de primavera. Enquanto o corretor não chegava, resolvemos dar uma volta pelo bairro e chegamos a um parque, na beira do lago, com a melhor cenografia suburbana que já vi: crianças correndo pela grama, passeando de bicicleta, mães com seus carrinhos de bebê jogando conversa fora com os vizinhos, enquanto o sol se punha sobre as águas do Lago Ontário. Mas o que mais me marcou foi o enorme silêncio – não tinha buzina, não tinha sirene, não tinha caminhão, tinha apenas o gralhar ocasional de uma gaivota e as risadas das crianças.

Aí fomos ver a casa e aí já era: tinha tanto espaço que a antiga dona tinha um piano de (meia) cauda na sala. Tinha um jardim nos fundos, com plantinhas e espaço pra churrasqueira. No andar de cima tinha quartos grandes, tinha vários banheiros… e todo o enorme espaço do primeiro andar ainda aparecia em dobro, no porão. Ainda não tínhamos a papelada toda do financiamento pra comprar, mas a boa notícia é que, na mesma região, havia muito mais opções boas pra ver dentro do que podíamos pagar.

O subúrbio só não nos ganhou naquela hora logo de cara porque eu ainda tinha uma grande dúvida: será que compensa morar num casão, num bairro sossegado, mas gastar horas pra ir trabalhar todo dia? Pra descobrir, peguei um mapa das linhas dos trens suburbanos e marquei os lugares aonde eu poderia morar mas ainda assim levar menos de uma hora pra chegar na estação central. Esse virou meu novo mapa de procurar imóveis:

Pra completar o teste, marcamos de ver umas casas logo depois do trabalho, pra experimentar na pele como é isso de voltar de trem todo dia. Na linha que corre para leste de Toronto tem muita opção de trem na hora do rush, e os trens expressos ainda economizam uns 10 minutos de viagem. Se a opção suburbana já estava atraente, a nossa primeira viagem de trem fechou a fatura:

  • Não é aquela suvaqueira de metrô: o trem é enorme, então todo mundo vai sentadinho 99% das vezes.
  • O andar de cima dos vagões é a quiet zone, onde, na hora do rush, é proibido conversar ou falar ao telefone. Perfeito pra um cochilo, pra atualizar a leitura ou apenas para gente antisocial como eu.
  • A internet do celular funciona o tempo todo, pois o trem corre na superfície.
  • A viagem é razoavelmente rápida: em 37 minutos estávamos a 35 quilômetros do centro. De carro é impossível percorrer essa distância em menos de uma hora. E muitos dos nossos amigos que moram em Toronto gastam o mesmo tempo ou mais pegando o metrô.
  • Tem um trecho onde o trem corre bem do lado do lago. Com o sol nascendo sobre ele de manhã, a vista é de chorar.

Foto (c) Paul Bloxham

Com o foco no subúrbio e as várias opções disponíveis, não demorou muito pra gente achar uma casa que valesse a pena. A escolhida foi uma de dois andares, com só dez anos de vida, ajeitadinha, geminada mas com um grande atrativo: era uma freehold townhome. Na maioria dos casos as casas geminadas são parte de um condomínio, e você é dono apenas do uso do espaço que sua casa ocupa. Nas freehold townhomes, apesar de dividir paredes com vizinhos, a casa – e seu terreno – são 100% seus e você pode fazer o que bem entender com eles.

Mas se você esteve prestando atenção neste post, vai se lembrar de que os preços de imóveis em Toronto e região estavam galopantes, certo? Pois então: decididos a fazer uma oferta na bendita da casa, acabamos inadvertidamente caindo na chamada bidding war: aquela situação onde várias pessoas fazem ofertas em uma casa e o corretor dá um monte de informações confusas/obscuras de forma a forçar os compradores a aumentarem suas ofertas meio que às cegas. É extremamente bizarro, mas é dentro da lei.

Isso foi, de longe, o dia mais estressante do ano. Aquele corretor gente boa, que estava sempre disponível para marcar visitas nas casas, que respondia emails no domingo às 10 da noite, de repente começa a te falar o contrário do que ele vinha te falando há meses e te estimulando a comprar a casa – porque, afinal, ele é comissionado, e quanto mais vendas ele fechar, melhor. O gênio aqui só foi entender isso no dia da negociação. Foi uma situação tão bosta que quando ele ligou pra gente dizendo que nossa oferta tinha sido aceita, nem deu pra ficar feliz.

Mas, tirando o stress, olha só o que tinha acontecido: dois imigrantes brasileiros, pouco mais de dois anos depois de deixar o país, se tornaram donos de um pedaço de terra no Canadá. No meu caso, essa ficha só caiu meses depois; já tínhamos nos mudado e, um belo dia, Bethania estava plantando roseiras no jardim e eu olhei pra ela da janela da cozinha e me toquei que ela estava plantando rosas em solo canadense – o nosso pedacinho de solo canadense.

É pequeno, mas é do tamanho do mundo pra mim.

Como vocês podem ver, ainda não sabemos cortar grama direito.

Um bom cafuné muda tudo

É primavera em Toronto, o que significa que as temperaturas já deveriam estar bem melhores do que estão mas que, na verdade, ainda tá frio pra caralho. Por isso, faziam uns miseráveis 2 graus quando saí pra caminhar com Pavlov, como faço todo santo dia de manhã. Pavlov honra seu nome: ele é um cachorro de hábitos. Era terça, portanto eu já sabia que ele iria querer passear no parque. O roteiro de sempre inclui pegar a trilha padrão e passar bem debaixo da ponte do Humber River.

O que eu não sabia é que, ao passar por lá, eu olharia pra cima e haveria um gato escondido debaixo da ponte.

Eu já vi tudo que é bicho no parque – incluindo guaxinins e até um gambá, mas gato é muito raro de ver – e quando aparecem eles saem correndo e eu acabo ignorando, pensando que trata-se de um clássico gato de rua. Já esse aí parou e me olhou fixamente nos olhos. Esse foi o meu erro. No instante em que fizemos contato visual rolou um momento místico de comunicação não-verbal onde ele me disse, claramente, o seguinte: “help!“.

Naturalmente, eu racionalizei meu instinto e pensei que não tem isso de entender bicho só de olhar pra ele (mentira, eu faço isso todo santo dia com Pavlov), que provavelmente ele veio de alguma das casas da região, que resolveu dar um passeio estendido, e acabei deixando pra lá.

No dia seguinte, uma quarta, choveu muito e não consegui andar com o Pavlov. Quinta é dia dele fazer outro trajeto, pra poder otimizar seus xixis de marcar território e manter seu domínio urinário na maior área possível, mas acabei forçando a barra pra voltarmos pro parque e ver se o gato ainda estava lá. E, de fato, lá estava ele… exatamente no mesmo lugar. Minha racionalização morreu na hora: ficou óbvio que não era um gato de rua, e que eu não ia conseguir simplesmente ignorar aquele fato e ir trabalhar.

Voltei pra casa e comecei a pensar no que fazer. Eu nunca lidei com animais perdidos na vida. Portanto, fiz o que qualquer pessoa racional faria… digitei “o que fazer com gatos perdidos” no Google. O site da prefeitura de Toronto dava algumas instruções e indicava um outro site chamado “ajudando animais perdidos” (helpinglostpets.com). O layout do site está congelado no tempo desde 1990, o que me fez duvidar de que aquilo iria adiantar alguma coisa, mas acabei inserindo um relato de que havia visto o gato na ponte do parque.

Depois, peguei um pouco da comida do Pavlov e voltei ao parque. No frio de 2 graus, vestido de roupa social, eu me dependurei na ponte de maneira bastante irresponsável pra poder deixar um pouco de comida pro bendito do gato. Ele percebeu a manobra, se aproximou pra comer mas logo voltou a se esconder dentro da estrutura da ponte, fora do meu alcance. “Bom, pelo menos de fome ele não morre”, pensei.

Algumas horas depois recebo um email de uma tal Brett, voluntária do “Toronto Cat Rescue” (uma ONG de resgate de animais), dizendo que viu o relato no site e poderia tentar resgatar o gato se eu desse as coordenadas exatas de onde ele estava.

A gente se encontrou no parque e eu vi que estava, de fato, lidando com uma profissional do resgate felino: o marido dela deixou duas gaiolas estrategicamente posicionadas pra conseguir capturar o gato quando ele saísse, e organizamos um mini-plantão pra fiscalizar as gaiolas e garantir que o gato continuava seguro. Apesar de tudo, só no sábado ela conseguiu capturá-lo.

– “Ele é super dócil, tá lá no banco de trás do meu carro como se nada tivesse acontecido”, disse ela. Ficou claro que era um gato “criado com vó” que acabou perdido no parque sem a menor noção do que fazer pra sobreviver. Ela contou ainda que o gato possivelmente foi abandonado no parque por alguém que não queria mais ficar com ele. “Acontece muito nessa região”, ela disse. “Ele foi claramente criado dentro de casa, não tem nenhum instinto de sobrevivência”, complementou ela, confirmando o que eu já tinha percebido pela cara do gato de que não tinha a menor ideia de como sair dali. Ela explicou também que o gato ia ser examinado, vacinado, esterilizado, e depois iria pra adoção.

Eu, que nunca tomo decisões por impulso, digo na mesma hora: “eu posso ficar com ela”.

Fica a dica: JAMAIS olhem um gato nos olhos, ou esse tipo de coisa vai acontecer com vocês.

Alguns dias depois, Brett me manda uma mensagem dizendo que:

  • Não é “o gato”, e sim “a gata”
  • Ela tem uns 4 anos e já havia sido esterilizada, confirmando a teoria de que era sim uma gata doméstica que foi abandonada
  • É a gata mais dócil que existe: não curte correr e pular, mas adora ficar na cama e ganhar cafuné
  • Não tem pressão nenhuma pra ficar com ela: se eu mudar de ideia, posso ter certeza de que ela vai ser adotada por outra pessoa e ganhar um lar.

Se você está pensando “cara, mas você já tem um cachorro”, eu te digo que sim, era nisso que eu estava pensando… mas com a diferença de que minha preocupação era a seguinte: “será que meu cachorro vai se dar bem com a gata?”. De novo, nunca olhem um gato perdido nos olhos.

Alguns dias depois resolvi visitar a gata com meu cachorro, pra ver como ele reagiria. Ela estava ficando num quartinho da casa da Brett. “Entra você primeiro, pra gata ir se acostumando, depois a gente entra com o cachorro”, disse ela. Quando entrei no tal quartinho, Brett subiu no meu conceito de “profissional de captura felina” para “doida dos gatos”: o quartinho da casa dela era basicamente um hotel para gatos resgatados, com gaiolas, caixas de areia, brinquedos, música ambiente e uma confortável almofada no peitoril da janela, onde a gata estava deitada. E, pendurada acima dela, uma placa de carro personalizada que dizia “CATRESCUE”

“Agora é só eu chegar perto da gata e ela me morder, ou ela se desesperar com Pavlov, e aí acaba essa viagem errada de ter gato”, pensava eu, tentando achar uma saída lógica e honrosa pra minha situação. Cheguei perto dela, ela me olhou de volta com aquela cara de “ei, eu conheço você, humano”. Falei um “oi” (em inglês, afinal ela é canadense) e fui tocá-la pra ver como ela reagia. Foi quando finalmente paramos de fazer contato visual, porque ela fechou os olhinhos pra ficar curtindo o cafuné. E então, enquanto pensava “me fudi”, aprendi que dá pra sentir amor e desespero ao mesmo tempo.

Fui buscar Pavlov pra conhecê-la. Pavlov, como previsto, demonstrou o típico déficit de atenção de cachorro, que pode ser resumido em:

– “Uau cara! Estamos passeando! Que fantástico! Olha, tem essa casa nova aqui! Uau, tem esse quartinho aqui! Olha, ali tem uma gata! Olha só quanta coisa pra eu ver! Vamos pra rua de novo? Vamos? Vamos?”

Já a gata olhou pra Pavlov e, ao invés de pensar “estamos sendo invadidos!! VAMOS TODOS MORRER!” ou de demonstrar agressividade do tipo “MORRA ESCÓRIA CANINA!!”, ela fez uma cara de “que criatura curiosa”, e voltou a se deitar – o que é um ótimo sinal.

Dois dias depois o pessoal do Toronto Cat Rescue me mandou a papelada da adoção, paguei a taxa e, na sexta à noite, botei a gata no carro e fui pra casa, pensando “putaquepariu agora eu tenho uma gata”.

Junto com os papeis da adoção veio um PDF enorme de procedimentos com felinos, incluindo uma seção sobre como introduzir cães à gatos que pode ser resumida em uma frase: “não vai ser fácil”. Felizmente, violência não seria problema, já que Pavlov é praticamente Gandhi em forma de cachorro e a gata é incrivelmente passiva quando ameaçada – fato já demonstrado pelo fato dela ter ficado uma semana debaixo da ponte no mesmíssimo lugar. O duro é que Pavlov, também honrando a reputação científica, ficou extremamente curioso com a gata e queria desesperadamente cheirar e pegar e rodear e ficar o tempo todo próximo dela… isso tudo no momento mais traumático pra ela, que é a mudança de ambiente. O “manual” em PDF da gata já alertava que seriam umas duas semanas até ela se acostumar com a casa nova – e isso se não tivesse o cachorro.

Felizmente, Deus olha pelos seus filhos irresponsáveis mas de bom coração que pegam bicho na rua, e a adaptação dos dois correu bem – e mais rápido – que eu esperava. A gata achou uns cantinhos na casa pra se esconder dos avanços de Pavlov, e ele foi gradativamente ficando menos curioso. Aos poucos, a gata foi começando a criar coragem de sair dos esconderijos e se aventurar pela casa.

A foto acima é o sexto dia da gata aqui em casa, quando a curiosidade canina e o pânico felino deram lugar a um interesse mais comedido de ambas as partes. Segundo o manual da gata, era pra ela ainda estar tendo “interações supervisionadas com o cachorro encoleirado e sob controle em todos os instantes”, mas basicamente deixamos ambos se virarem sozinhos. Pavlov é dócil mas não é bobo, e começou a “policiar” os corredores e as portas dos cômodos onde a gente ficava, porque percebeu que ela tinha medo de passar perto dele. Já ela aprendeu rapidinho que, se não fizesse a Beyoncé e demonstrasse confiança, iria passar a vida confinada em esconderijos.

Agora já vamos pra duas semanas de gata em casa e ela já está confiante o suficiente pra perambular por onde quer – embora ainda tenha seus cantinhos preferidos. Pavlov está morrendo de ciúmes da confiança dela, mas está aprendendo a dividir a atenção. Tirando uma ou outra provocação eventual, ambos já convivem super bem, a ponto de poderem dormir conosco e tudo.

Mas vou ter que parar de escrever este post porque tem um negócio dando interferência no meu teclado…

Aí você pergunta… mas e o nome da gata? A primeira e mais óbvia opção seria Schrödinger, por razões óbvias, mas ela sendo fêmea e eu menos imaturo acabei deixando passar essa. No fim, Bethania deu uma boa sugestão, inspirada no que a gata mais curte receber:

“E se a gente chamasse ela de Cafuné?”