Retrospectiva 2011

10 de dezembro de 2011, 0:45

Nada poderia me preparar para 2011. E, de certa forma, não fosse tudo que vivi nas últimas décadas e eu não estaria pronto para 2011.

O ano começou comigo pulando de cabeça num mercado completamente novo: o da publicidade. E aí os dias começaram a virar sagas épicas de caos, suor e muito, MUITO trabalho. Eu nunca trabalhei tanto quanto em 2011: meu horário “normal” de sair da agência é lá pelas nove da noite. Trabalhei várias madrugadas, trabalhei finais de semana, trabalhei até no carnaval.

Mas trabalhei todos os dias com gosto e com sangue no olho: eu não estava mais limitado a apenas sugerir coisas pro meu cliente e rezar pra ele ter a boa vontade (ou os colhões) de implementar. Ao contrário dos dias de consultoria, aquilo ali era a minha operação, meus projetos, minha equipe - minhas entregas.

Junte a isso o fato de eu estar finalmente trabalhando com o que eu sempre quis (internet) e pronto: eis um homem totalmente pilhado.

Tão pilhado que me envolvi até mais do que devia, e 2011 acabou também sendo o ano onde eu menos dormi. Eu já estou quase desenvolvendo um padrão de insônia onde eu durmo lá pela meia-noite, acordo pontualmente às 4 da manhã e não consigo mais pegar no sono porque fico pensando em trabalho. E o meu colesterol só tá em ordem graças às estatinas.

Parte disso é justificado porque 2011 foi o ano dos problemas estapafúrdios: tive que lidar com fornecedor tentando me dar o cano, fornecedor abandonando projeto no meio, cliente reclamando porque puseram palavrão em código-fonte de site, princípio de incêndio em aparelho de ar condicionado (sério!) e até sabotagem em projeto. Eu fiz trabalho de psicólogo, diretor de arte, arquiteto de informação, atendimento, mestre de obra, RH, financeiro… fui até organizador de buffet para eventos. Carreguei caixa e montei computador, em pleno sábado, no dia em que tivemos que nos mudar do prédio em Recife porque não cabia mais todo mundo no anterior.

Mas todo o suor, stress e noites mal dormidas compensaram. Estou fechando o ano com centenas de projetos entregues, a grande maioria sem atrasos ou problemas de qualidade. Os problemas críticos da operação todos sumiram. Mesmo com a equipe triplicando de tamanho, o custo do homem/hora quase não variou e a rentabilidade da operação tá tinindo. E em menos de um ano de agência eu fui promovido a diretor.

E o mais legal: no meio desse caos todo eu ainda arrumei tempo (e dinheiro) para, finalmente, comprar um apartamento. A mudança deve ser antes do natal, bem na véspera da festa de fim de ano da agência.

Falando em festa, a imagem aí embaixo é o convite. O tema desse ano vai ser “Las Vegas”:

Vegas, baby!

Simbólico. O destino me deu boas cartas este ano – e, modéstia às favas, eu joguei bem pra caralho.


A falácia do gerenciamento de projetos segundo o PMI

13 de outubro de 2011, 0:56

Bem, este vai ser um post polêmico (e longo). Mas eu preciso botar isso pra fora.

Primeiramente, antes que você me acuse de não saber do que estou falando, é importante mencionar que eu, além de possuir a certificação de PMP, já dei inúmeros treinamentos e implantei vários escritórios de projeto Brasil afora nos meus sete anos de consultoria. Mas durante este tempo todo eu ficava com um incômodo estranho, uma sensação de que havia algo errado com o gerenciamento de projetos aos modos do Project Management Institute – o famoso PMI – e de sua “bíblia”, o PMBOK, até então o “estado da arte” em GP. Tudo era complexo demais, as pessoas se perdiam no método e gastavam mais tempo montando documentação e estudando cronogramas do que efetivamente entregando os projetos. Pra piorar, eu fui trabalhar numa agência e quando cheguei, achei inúmeros projetos, a maioria com prazos ridículos para acontecer, sem documentação formal, sem tratamento de riscos, tocados por gerentes de projeto sem nenhum treinamento… e que ficavam prontos, às dezenas.

E foi então que a ficha caiu e consegui identificar a razão do meu incômodo. Ela é meio complicada de explicar, mas vamos lá.

Problema número 1: As práticas do PMI foram concebidas com foco nos meios, e não nos fins.

A impressão que dá é que o PMI atacou o problema  de “como gerenciar um projeto” como bons engenheiros: dividiram o problema em partes menores – escopo, tempo, custo, etc. – e se enfiaram numa análise minuciosa de tudo que precisa ser feito em cada uma dessas partes – o que resultou nas mais de 450 páginas cheias de fluxogramas aracnídeos do PMBOK.

O PMBOK já está em sua quarta edição e até agora ninguém se tocou que ele foi feito em cima da pergunta errada. A certa deveria ser: “O que é que faz um projeto dar errado?”. Porque, apesar de cada projeto ser único, eu aposto que uma boa pesquisa encontraria vários problemas iguais ocorrendo em projetos de mercados e/ou produtos diferentes. Aí você analisaria estes problemas, detectaria suas causas e só então estabeleceria um jeito padronizado de agir.

Se você não sabe o que quer resolver, acaba sendo genérico demais para cobrir todas as possibilidades ou minucioso demais tentando tapar todos os possíveis furos. É como se você tivesse que instruir alguém a fazer uma longa viagem a pé e, sem saber nada sobre o caminho por onde a pessoa vai passar, você fala que a pessoa pode levar roupas de calor, de frio, de chuva, uma bóia pra se tiver um rio, um esqui pra se tiver neve, etc., etc., e ela passa dias decidindo e sai com 150 quilos de bagagem e não consegue chegar ao destino porque não aguenta arrastar toda aquela traquitana.

Só que, infelizmente, a galera que montou o PMBOK fez um belo trabalho e concebeu um framework de gestão que, apesar de complexo, é muito bem amarrado, tanto que chega a ser fascinante. O que nos leva ao…

Problema número 2: As pessoas se deslumbram com o framework do PMBOK

Imagine que você é um daqueles caras formado em alguma ciência exata, como engenharia ou computação. Você naturalmente gosta de um desafio intelectual, então acaba se dando bem na sua profissão e, algumas promoções depois, acaba caindo num cargo de gerente de projeto (porque todos os concorrentes da sua empresa também tem um). De repente todo aquele seu conhecimento técnico passa a não valer de nada, porque seu trabalho mudou da água pro vinho e você tem que lidar com pessoas, processos e políticas ao invés de diagramas e softwares. Seus dias de trabalho ficam bem desconfortáveis.

Aí você, como bom engenheiro, vai buscar um “manual” que te explique como lidar com aquilo tudo. E você quer logo o melhor que existe. Então não demora muito até você chegar ao PMBOK.

Já na primeira leitura você começa a ver todas aquelas coisas que está tendo problemas para lidar, todas elas rotuladas, descritas e categorizadas. Aquela bagunça de gente onde você não sabe quem manda em quem no projeto vira uma “estrutura matricial balanceada”. Aqueles momentos onde você não sabe se deve mandar um email ou ligar para a pessoa viram “comunicações formais escritas” ou “horizontais formais orais” ou “verticais informais escritas”. Aquele livro mágico te dá um prisma para você entender esse mundo novo todo – e ainda por cima te dá todo o processo para lidar com seus projetos. É como o Player’s Handbook para projetos.

E pra completar, te dizem que, se você aprender direitinho o que tem no PMBOK, pode fazer uma prova super difícil, de 400 perguntas, que vai te certificar como um disputadíssimo Project Management Professional. Pronto: está lançado o teu novo desafio intelectual.

E pronto, você foi convertido.

Só que, como eu disse ali em cima no problema 1, todo esse framework é montado em cima de uma premissa errada. Mas ao invés da pessoa perceber isto, ela acaba enfiando a cabeça mais e mais nele. Pior, ela adota o mesmo modelo mental usado pelo PMI para conceber o PMBOK como seu próprio modelo mental para tocar os projetos. Assim, ao invés de focar em resolver os problemas do projeto, o gerente acaba achando que a solução está em novos fluxos, formulários, categorizações, modelos de priorização, etc, etc, “ensimesmando-se” no método cada vez mais ao invés de focar nos resultados desejados e estruturar seu plano de ação a partir deles.

Durante a minha carreira eu cansei de ver gerentes de projeto com PMPs, MSCs, PHDs e o escambau, conhecedores de tudo que existe por aí em termos de metodologias, processos, frameworks, softwares e o escambau… todos eles incapazes de gerenciar um projeto. Uns eram muito bunda-moles, outros tinham problemas sérios de relacionamento… um deles, que conheci recentemente, quando questionado por que seu projeto ia mal, respondia, indignado, que “não estão me dando condições de cumprir todos os ritos da metodologia”.

“Puxa, mas não é possível que ninguém se toca disso no mercado”, você deve estar pensando. Acontece que, quando você olha por aí pra ver o que os “grandes especialistas” do assunto estão dizendo, fica horrorizado porque ELES não somente são os maiores punheteiros de metodologia que existe, como também estão usando esta ilusão coletiva para ganhar dinheiro. O que nos leva ao…

Problema número 3: A comunidade de gerenciamento de projetos em torno do PMI é repleta de picaretas.

OK, sei que esta é uma acusação séria, mas ela fica mais fácil de entender à luz dos problemas 1 e 2 que eu expus anteriormente.

Sob a ótica que estou defendendo neste texto, o bom profissional de gerenciamento de projetos deveria ser aquele que entrega resultados. Aquele que pega projetos de risco e consegue concluí-los, aquele que tem uma consistência de entregas bem-sucedidas ao longo de sua carreira, aquele que consegue mobilizar bem as equipes, aquele que garante o ROI do capital investido. Acontece que, em todos os meus anos trabalhando com gerenciamento de projetos, eu nunca vi nenhum dos tais fodões do GP falando em resultados dos seus projetos. Na verdade eu nunca vi nenhum desses fodões dando detalhes de NENHUM projeto que tenha entregue. Mas vejo esses caras o tempo todo punhetando metodologia com cara de deslumbrados.

A maior autoridade do Gerenciamento de Projetos no Brasil hoje em dia é Ricardo Vargas. No site tem a biografia dele. Diz lá que ele foi responsável por mais de 80 “major projects” compondo um portifólio de investimentos de “over 18 billion dollars”. Mas foi ele quem tocou os projetos? E qual foi o ROI destes 18 bilhões investidos? Por essa mesma ótica eu posso falar que, com nove meses de agência, sou responsável por centenas de projetos (são meus GPs quem tocam, mas em última instância eu sou o responsável), compondo um portifólio de investimento de vários milhões de reais (valor pago pelos clientes, somado). Ou seja, sem falar em ROI é fácil ficar expondo números grandes por aí. Mas ao invés de focar nessas coisas, a biografia de Ricardinho fala de seus inúmeros títulos, certificações, as suas empresas e os seus inúmeros livros escritos – livros estes que foram o que o alavancou para a fama.

Os outros nomes poderosos do GP no Brasil também costumam ser conhecidos por suas palestras e treinamentos. Uma vez, quando o PMI lançou o “standard para Gerenciamento de Portifólios”, eu fui fazer um treinamento de gestão de portifólio com um desses fodões do mercado. Foi o pior treinamento que já fiz em toda a minha vida: o cara gastou 10 minutos lendo o fluxograma do livro e depois passou o resto do tempo repetindo coisas sobre gerenciamento de projetos (era um treinamento de portifólio!), mostrando videozinhos motivacionais, falando de coisas nada a ver. Eu desci tanto o pau no formulário de avaliação do curso que o pessoal da escola chegou a me telefonar pra saber o que tinha sido tão errado.

No ano retrasado, Rita Mulcahy veio ao Brasil para uma palestra. Rita é uma personalidade mundial do gerenciamento de projetos – se você estudou para a certificação PMP, com certeza usou o “Livro da Rita”, já que ela é autora do melhor livro preparatório para o exame. Um amigo meu foi ver a (disputadíssima) palestra dela e ficou horrorizado: foi basicamente uma palestra de auto-ajuda, cheia de “dinâmicas de integração”, piadinhas, lições de moral estilo Paulo Coelho.ppt… e nenhum resultado de projeto foi mencionado.

De fato, se você for ver a programação dos grandes eventos e seminários de GP que acontecem todo ano, no Brasil ou no mundo, vai ver como também nestes casos a falta de foco em resultados e a masturbação metodológica é predominante. Em novembro tem o Congresso Brasileiro de GP, no Ceará. São três dias de palestras. Apenas UMA delas é um estudo de caso – que eu aposto que vai focar na metodologia usada na gestão do projeto e não no que ele entregou. Eu já cheguei ao absurdo de ver eventos desses cuja programação incluía palestras sobre o gerenciamento dos jogos panamericanos do Rio – que foram cheios de atrasos e que custaram mais de 10 vezes o que foi previsto!

Aí você pergunta: “então ferrou, como é que eu vou tocar meus projetos então?”. Bom, lá na firrrma o que tem dado certo é:

1) Ignorar quase tudo do PMI e usar metodologias ágeis, como o Scrum. A turminha de agile acertou muito a mão, mesmo porque eles partiram da premissa certa para montar sua forma de trabalho.

 

Isso fica bem óbvio no Agile Manifesto:

Estamos descobrindo maneiras melhores de desenvolver software, fazendo-o nós mesmos e ajudando outros a fazerem o mesmo. Através deste trabalho, passamos a valorizar:

Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas

Software em funcionamento mais que documentação abrangente

Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos

Responder a mudanças mais que seguir um plano

 

Percebe que, nas entrelinhas dos últimos quatro parágrafos, eles não somente elencam os principais problemas de projetos de software como também proclamam um modo de trabalho focado nos fins, nos resultados, ao invés dos meios?

Importante: este post não é propaganda gratuita de Scrum – mesmo porque o Scrum, apesar de eficaz, tem problemas bem parecidos com o PMI, como por exemplo uma “indústria de certificação” onde basta você fazer um treinamento de 16 horas para se tornar um Certified ScrumMaster. É ridículo.

 

2) Formalizar só o que for estritamente necessário, tomando muito cuidado pra não “solucionar problemas que não existem” e adicionar complexidade onde não precisa. Por exemplo: para vários projetos pequenos lá da agência um simples email de “briefing” do trabalho vale como declaração de escopo do projeto. Porque no tempo que eu levaria para montar uma WBS, dicionário da WBS, declaração formal de escopo e não-escopo, já passou metade do prazo e o escopo já vai ter mudado todo…

Pra descobrir o que tem que ser formalizado e documentado, sugiro uma regra simples: se a falta de formalização de alguma coisa é causa de problemas nos projetos, formalize. Caso contrário, deixe como está. É como dizem: “se não está quebrado, não conserte”.

3) Selecionar GPs com “sangue no olho”, mesmo sem conhecimento do método. Sabe aquele cara que pode nunca ter tido um treinamento de GP na vida, mas que tem sabe avaliar um problema, tem uma atenção obsessiva para datas (mesmo sem cronograma) e um carisma tamanho que a equipe do projeto toda come na mão dele? Esse cara vale mais do que qualquer metodologia de projeto. Porque na hora em que tudo dá errado o que você precisa mesmo é de alguém que demonstre liderança, que pegue o touro pelo chifre, que articule com todo mundo no olho do furacão e faça o que for preciso pra entregar.

Além do mais, é fácil dar conhecimento do método para um GP – basta botá-lo em treinamentos. Já “sangue no olho”, foco nos resultados, ou o cara tem ou não tem, não há treinamento ou coaching no mundo que implante isso, especialmente nos viciados em metodologia.

Pronto, falei. Agora me xingue aí nos comentários, afinal estamos na internet é pra isso :)


If I could settle down / then I would settle down

15 de setembro de 2011, 22:38

Há quatro anos, quando me mudei para São Paulo, comentei que desde 2003 todo ano teve um mega-acontecimento significativo, que provocou mudanças drásticas na minha vida:

2003: Larguei minha carreira em TI

2004: Comecei oficialmente uma nova carreira de consultoria

2005: Morei no Canadá

2006: Me casei

2007: Me mudei para São Paulo

2008: Virei consultor-sênior e me certifiquei como PMP

2009: Fui retirado de um projeto. Pode não parecer, mas isso foi muito significativo e provocou mudanças boas.

2010: Larguei a consultoria e fui trabalhar numa agência de publicidade

…e agora veio a mudança drástica de 2011: eu vou, finalmente, comprar um apartamento em São Paulo.

Já faz um tempo que estávamos pensando nisso. Eu já não sou mais aquele jovem de vinte-e-tantos anos e, conforme vem a idade, chega o momento de começar a estabilizar a vida, formar um patrimônio, pensar no futuro, essas coisas que dizem nas propagandas de previdência privada ou seguro de vida.

Ter meu próprio imóvel na cidade também significa que eu estou colocando um “anel de compromisso” em São Paulo – significa que não estamos mais apenas flertando com a cidade pra ver no que dá. A partir de agora é nóis na vida loka, mano.

O processo todo para achar o apartamento, como tudo na minha vida, foi bem simples:

  • Primeiro eu fui juntando dinheiro pra poder dar de entrada.
  • Enquanto isso veio o boom imobiliário e os preços tipo duplicaram num espaço de três anos.
  • Junto com os preços para compra, subiram também os aluguéis – e meu contrato de aluguel começou a ficar perigosamente próximo de vencer.
  • Trabalhar 12 horas por dia na agência não me deixa exatamente com tempo livre para ficar procurando imóveis. A solução foi usar uns 40 minutos que me sobravam de manhã cedo pra escarafunchar apartamentos na internet, e usar os finais de semana pra ir visitar os bons.
  • Durante estas visitas a gente via que 90% dos “bons da internet” eram um lixo na vida real: eram perto de favelas, eram longe de tudo, eram colados em avenidas barulhentas, eram debaixo da rota dos aviões de Congonhas, enormes mas velhos, novinhos mas minúsculos, etc, etc. Então todo final de semana terminava comigo frustrado e vendo os preços subindo 2% ao mês.
  • Repita os últimos 2 passos por SETE MESES.
Até que, no último sete de setembro, enquanto todo mundo curtia seu feriadão, lá fomos eu e Bethania ver mais apartamentos – e vimos um com preço muito baixo (porque precisava de umas reformas), não muito pequeno e – o mais importante – extremamente bem localizado na Chácara Santo Antônio, a 2km do trabalho de Bethania e com uma estação de trem pertinho, pra eu ir trabalhar. Fizemos uma proposta, a proprietária topou e a saga, finalmente, acabou…
Agora é encarar as próximas sagas que vem por aí: a mudança maluca, as reformas recalcitrantes e o financiamento feroz


“You will eat their shit”

29 de junho de 2011, 9:25

Sabe o Petyr “Littlefinger” Baelish, o ardiloso tesoureiro dos Sete Reinos em Game of Thrones? Foi o mesmo ator que fez Tommy Carcetti, o ambicioso conselheiro (e depois prefeito) de Baltimore na excelentíssima série The Wire, também da HBO.

Na quarta temporada, quando ele se candidata, há uma cena inesquecível onde ele almoça com Tony, um antigo prefeito de Baltimore, para pegar alguns conselhos. Aí Carcetti pergunta: “por que você não se candidatou à reeleição? Na época ninguém tinha uma reputação tão boa quanto a sua ou estava tão bem organizado no partido quanto você”.

E aí Tony passa dois minutos inteiros dando uma minuciosa descrição de como era o dia-a-dia da prefeitura.

No primeiro dia você se senta lá e pensa: ‘puxa, não tem como ser melhor do que isso’. Aí escuta alguém batendo na porta e aí vem seu assessor com uma enorme bandeja prateada com tigelas enormes, toda enfeitada, e diz: ‘os sindicatos mandaram pra você’. E você pensa que é um presente de boas-vindas, mas quando vai olhar… é nojento. “O que diabos é isso?”, você pergunta. “Ora, o que você acha que é? Isso é merda!”, ele responde. “Merda? E o que diabos é pra eu fazer com isto?”, você diz. E ele responde: “É pra você comer”. “Comer??”. “Sim. Você é o prefeito, é você quem come a merda deles”. Então tá, é meu primeiro dia, meu assessor sabe mais do trabalho do que eu, então você vai lá e come. Quando você termina, alguém bate na porta e aí entra seu assessor com outra tigela prateada enorme. “Essa é a dos negros”. “Mais uma??” você diz. Mas vai lá e come. E quando você termina escuta outra batida na porta e vem outra tigela. “Essa é dos polacos”. Depois, mais uma, “essa é dos bispos”. E, quer saber, Tommy? É assim. Você lá, sentado, comendo merda dia após dia, ano após ano. Quando eu percebi isso, concluí que um trabalho de advogado e ver a minha família toda noite era suficiente pra mim.

Eu estou contando essa história toda porque aí há uma lição preciosa sobre liderança. Estar à frente de qualquer coisa é legal, desafiante, te permite construir coisas que você jamais construiria se trabalhasse apenas na operação, mas tudo isto implica, invariavelmente, que você vai comer muita merda.


De por quê eu adoro transporte coletivo

17 de junho de 2011, 18:03

14:10 – Estou na Vila Olímpia, após um almoço com um fornecedor. Ligo para a cooperativa e peço um táxi pra voltar pro trabalho. A menina me diz que me liga em seguida para informar qual o número do carro que vai me atender.

Mau sinal. Se ela não me disse o número do carro na mesma hora é porque não tem carro livre…

14:20 – Cansei de esperar a ligação. Começo a andar até a estação do trem.

14:30 – Chego na estação e pego o trem.

14:45 – Desço do trem.

14:50 – Chego no trabalho, escovo os dentes.

15:05 – Entro numa reunião.

15:20 – Saio da reunião.

15:25 – O telefone toca. É a cooperativa, dizendo o número do carro e avisando que ele chega em 5 minutos.


Como perder o ônibus de maneira épica

4 de junho de 2011, 1:02

8:45:33 – Estou terminando de comer meu café da manhã na padaria da esquina. A padaria é bem em frente ao ponto de ônibus que eu usaria para chegar ao trabalho (já que a CPTM tava de greve).

Distraído, observo os ônibus passando enquanto dou minha última mordida no pão. Veio um, dois, cinco ônibus, e nenhum era o meu. Aí pensei: “aposto que, quando eu estiver pagando minha conta no caixa, meu ônibus vai passar e eu vou perder”.

8:45:40 – “Bom, já que é assim eu não vou levantar, assim não perderei o ônibus”.

8:45:45 – “Tá, mas se eu não me levantar eu não chego no trabalho, então não tenho muita opção”.

8:46:02 – Estou na fila do caixa. Olho para o lado e – adivinha! – é o meu ônibus. Sorrio um sorriso amarelo de descrença e self-schadenfreude e começo a me sentir duplamente um idiota: por acreditar nessa superstição de que eu perderia o ônibus e por ela realmente ter acontecido.

8:46:04 – Reparei que haviam mais dois ônibus na frente do meu, fazendo uma espécie de fila no ponto. Olhei para a fila do caixa e só havia uma pessoa na minha frente.

E me deu um estalo: se eu for rápido o suficiente e entregar o dinheiro trocado, dá pra correr até o ponto em tempo de pegar o ônibus.

8:46:06 – O primeiro ônibus arranca e vai embora. Olho pra conta na minha mão: 3,00 do suco de laranja mais 1,50 do pão na chapa. Abro a carteira apressado, retiro duas notas de R$ 2 e começo a escarafunchar o compartimento de moedas, rezando para achar cinquenta centavos.

8:46:08 – Olho de novo pro ponto. O segundo ônibus já havia parado e saído, e só sobrou meu ônibus, já abrindo as portas pro embarque/desembarque. A fila do caixa continuava parada e, no meio das minhas moedas, só achei uma de R$ 1.

8:46:09 – “Que se dane!”, pensei. Peguei os R$ 5, deixei em cima do balcão junto com a conta e comecei a correr em direção ao ponto.

8:46:10 – Meu ônibus arrancou e saiu.


10 minutos

29 de maio de 2011, 17:16

Daí que minha operação em Recife tá mudando de prédio neste fim de semana e eu vim para ajudar na mudança.
No domingo, lá pelas 16h, encerramos o dia. Voltei pro hotel e decidi que queria tomar uma água de coco na praia, no quiosque que fica bem em frente ao hotel.
Agora tou aqui, HORRORIZADO.
Fiquei no quiosque não mais do que 10 minutos. Nestes 10 minutos eu:
  • Fui abordado por quatro pessoas (um mendigo e três pivetes) pedindo esmola.
  • Vi um dos mendigos comprando crack.
  • Vi o traficante que vendeu o crack do item 2 juntar mais uns capangas e fazer a contabilidade do dia com todos, no meio da calçada.
Cara. Foram DEZ MINUTOS. E eu não tava na boca da favela, tava na praia de Boa Viagem.
Pelo visto a Dilma ainda tem muito trabalho pela frente…


Minha primeira demissão

6 de maio de 2011, 0:27

Primeiramente é bom esclarecer que não, eu não fui demitido. Na verdade eu estava é do outro lado da mesa: um dos meus gerentes de projeto pisou feio na bola e, como o problema era recorrente e não se resolvia mesmo depois de um monte de feedbacks e segundas chances, acabei obrigado a desligá-lo.

Antes de assumir cargos de gestão eu, como muita gente, achava que ser chefe é uma função de tirano: manda prender e manda soltar ao seu bel prazer. E junto dessa tirania costuma vir a impressão de que uma demissão é “coisa que chefe tem um prazer perverso em fazer”.

Mas pra mim vocês não fazem idéia do quanto isso é distante da verdade.

Na noite anterior à demissão eu já estava fritando e mal dormi. E nessa eu sei que o sono não vai vir fácil, porque o tempo todo eu fico pensando que, em algum lugar dessa cidade, alguém chegou em casa desempregado, sentindo-se um fracassado, e com uma incerteza em relação ao futuro tão grande quanto a angústia que se acomoda dentro dela. E que fui eu o responsável por isso.

Não que a demissão tenha sido injusta – porque não foi. Na verdade eu até fui paciente demais: tolerei atitudes que não devia ter tolerado, tolerei coisas que inclusive poderiam ter comprometido meu trabalho. Mas com a mesma clareza com a qual eu entendo todos os fatos que justificam a demissão, eu também entendo como essa pessoa deve estar se sentindo.

Mas é a vida. “It’s all in the game, yo”, diria Omar Little – num contexto criminoso, é verdade, mas nem por isso menos brutal.


Top Chef – Comida Caseira Edition

12 de abril de 2011, 0:24

Aqui em casa anda-se comendo muito bem. Méritos todos de Bethania, já que minha participação se resume apenas a arrumar a cozinha depois.

Uma das causas disto é que outro dia uma amiga mineira veio nos visitar e acabou emprestando um livro de receitas: “Revolução na Cozinha”, de Jamie Oliver. Eu sempre achava que “culinária de TV” era tudo picaretagem, até que Bethania começou a fazer algumas receitas do livro.

Meu amigo, minha amiga, eu fiquei perplexo. Cê junta meia dúzia de ingredientes (as receitas são surpreendentemente simples) e de repente sai comida nível “restaurante grã-fino que ganha estrelas Michelin”. Sem exagero.

A última que fizemos foi um stir-fry de salmão, à moda asiática. A combinação do peixe com o leite de coco e o curry ficou, simplesmente, espetacular. E o tempo de cozimento foi o mesmo de um miojo: TRÊS minutos.

 

Mas foi no carnaval que a gente abusou do livro. Fizemos um salmão com molho pesto, vagens e batatas amassadas que, meu amigo…

Nunca imaginei que molho pesto ia tão bem com salmão. Acho que daí é que vem a genialidade do livro: combinações inusitadas, simples e surpreendentemente boas.

Outra delas é a ideia de enrolar frango em presunto parma, temperar e fritar. Fica inacreditavelmente crocante.

Outra variação dessa história de enrolar que achamos no livro envolvia bacalhau e nada menos do que bacon – a iguaria predileta de toda a internet. Claro que bacon transforma tudo em uma bomba de colesterol, mas eu simplesmente TINHA que comer aquilo.

 

O livro é tão bom que acabou “sequestrado” aqui em casa, e estamos deliberadamente enrolando pra devolvê-lo para sua dona original (que, por sinal, fez um frango indiano incrível pra nós – em receita também retirada do livro). Mas é questão de tempo até comprarmos nossa própria cópia – que custa uns R$ 60, mas que rende dezenas de jantares que com certeza custariam o triplo disso.


Explosions in the PowerPoint

11 de abril de 2011, 23:47

Outro dia, na agência, o cara de uma produtora de software foi lá apresentar seus serviços pra ver se a gente o contratava.

Aí a gente se sentou, ele ligou seu Macbook no projetor, lascou um F5 no seu PowerPoint e, de repente, WHOOSH! – um raio luminoso corta a tela inteira, deixando partículas eletrificadas no ar que, lentamente, vão desenhando uma frase: “Inovação em Software”.

E eu pensando: “Não.”

Mas os raios e trovões continuavam: ZAP! “Soluções em TI”. BZIIIUM! “Resultados”. E, estupefato, tive que aceitar os fatos: eu estava diante de uma daquelas infames introduções em Flash. Mas era no PowerPoint.

A cena final tinha o nome e logomarca da empresa… e um meteoro de luz caindo ao fundo e explodindo na forma de uma galáxia. KA-BOOM!

Foi um arraso.


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