A saga do community college canadense

Essa é uma boa vantagem de se mudar pro exterior: todo mundo acha que você está no topo do mundo, acendendo charuto com nota de 100 dólares e tal. Quando eu falo que vim “estudar fora”, nêgo acha que fui fazer mestrado em Harvard. Na verdade, eu fiz um curso que não vale nem um bacharelado em uma escola que não é nem uma faculdade. 

Bem-vindos ao mundo do community college!

Prólogo: Como assim “community college”?

community college é tipo uma “meia-universidade”. É um conceito difícil de entender porque não tem equivalente no Brasil. Na terra da Dilma do Temer, mesmo que você estude numa uniesquina da vida, no fim tu ganha um diploma e recebe o grau de bacharel, reconhecido pelo MEC e tudo. No caso do college, ele te dá um título de “meio-bacharel”, já que o curso tem metade da duração (2 anos). Pra piorar a confusão, o título que o aluno recebe no final chama-se… diploma.

Meu caso é menos pior: como meu curso tem 3 anos, no fim eu receberei um glorioso… (soem os tambores)… advanced diploma de engenharia de software. E como eu já tenho um bacharelado, eu consigo completar o curso em 2 anos e ainda fazer dois semestres de estágio (o tal do co-op que já comentei aqui).

O público-alvo do community college é, basicamente, a sobra do público-alvo das universidades – gente que não passou, que não consegue pagar, etc. Por isso, quando me matriculei, já vim esperando o pior.

O curso termina semana que vem e, depois de seis semestres, posso afirmar que minhas expectativas foram totalmente superadas… para pior, obviamente. Pra vocês sentirem o drama, vou contar pra vocês os causos separados por curso.

Curso: “Comunicação acadêmica”
Proposta do curso: Ensinar inglês no contexto acadêmico, como escrever relatórios, etc.
O que aprendi: Como provar que não colei ao escrever minha “redação-hambúrguer”.

No meio do semestre, o professor sorteou uns temas e deu um trabalho de pesquisa pra fazer em casa. Coisa séria, tinha que escrever cinco páginas no “padrão ABNT” daqui, citar outros textos, troço cheio das nove horas. Como eu gosto de escrever (e de padrões), fiz um textão fuderoso, formatei impecavelmente, e mandei.

Na semana seguinte, chega um email do professor me chamando pra uma reunião com ele antes da aula. O email não mencionava o motivo nem nada. Achei esquisito, mas confirmei. Chegando lá, o cara me solta a bomba…

– Então, como você bem sabe, a minha turma só tem estudantes internacionais e eu sei que o nível geral de inglês é bem básico…

“Bem básico” é elogio – muita gente na minha turma simplesmente não conseguia se comunicar em inglês. Sem exagero: se o prédio pegasse fogo e a pessoa precisasse discar 911 pra pedir socorro, ela morreria queimada. Mas o meu college não quer perder matrículas, então aceita esse povo mesmo assim.

O professor continuou:

– Eu recebi as redações da turma e não entendi nada, porque praticamente todas elas vieram com um inglês impecável. Então estou achando que não foram eles que escreveram. A sua redação, particularmente, estava muito boa, então eu preciso que você me prove que foi você mesmo que escreveu.

E aí ele me fez um monte de perguntas sobre o tema, sobre por que eu escrevi o que escrevi, e acabou convencido. O resto da turma ficou com zero e levou um belo torra.

Essa história da cola – ou “desonestidade acadêmica”, em termos mais educados – é uma das coisas que mais me incomodou.

Curso: “Negócios e tecnologia da informação”
Proposta do curso: Ensinar tudo aquilo que todo bom programador não se interessa em saber.
O que aprendi: Tudo sobre náutica e sobre o mercado imobiliário de Toronto.

Bob, o professor deste curso, ficava se gabando o tempo todo de ser o coordenador do curso de Gerenciamento de Projetos da Universidade de Toronto (a “UFMG” ou “USP” daqui, em termos de reputação). No entanto, todas as aulas do Bob se resumiram a:

  • Bob contando que tem um barco e de tudo que faz com o bendito barco.
  • Bob contando de quando ele trabalhava na Xerox em 1980.
  • Bob contando que vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Bob contando que tem uma namorada – que também vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Repita os assuntos acima até a exaustão.

Mas o mais legal foram as provas que fizemos, que tinham uma inovação surpreendente: questões repetidas. O cara reaproveitava questões de provas passadas nas provas seguintes. Não era nem uma paráfrase – as questões eram idênticas. E, pra melhorar ainda mais: as questões eram todas copiadas da internet, do site da editora do livro que ele (não) usava no curso.

Eu parei de assistir a aula do Bob logo no primeiro mês do curso. E fiquei aliviado de não ter torrado dinheiro e tempo na Universidade de Toronto…

Curso: “Conceitos avançados de bancos de dados”
Proposta do curso: Ensinar conceitos básicos de bancos de dados.
O que aprendi: Sempre pode piorar.

Esse curso foi tão ruim, mas tão ruim, que no lugar das minhas anotações de aula eu fiz uma lista das cagadas do professor, pra reclamar depois. Saca só a lista:

  • Numa aula, ele projetou uma lista com uns 25 itens sem o menor sentido e falou: “isso é o trabalho de conclusão de curso de vocês”. Depois, ao invés de mandar pra todos uma cópia da lista, ele mandou a gente anotar manualmente os itens, porque assim a gente seria “forçado a prestar atenção neles”. Na semana seguinte, como ninguém tinha entendido o que ele queria que fizéssemos, uns alunos foram tirar as dúvidas com ele. Ele ficou furioso: “mas eu já falei!!!”
  • Numa aula prática, ele deu pra turma uns 10 exercícios… todos com a mesma resposta. Pra piorar, o enunciado das questões era algo tipo “escreva uma consulta para extrair dados da tabela XYZ”. Adivinha se ele deu pra gente a estrutura e/ou o conteúdo da tabela XYZ?
  • Vários exercícios de “extraia os dados do banco de dados” não tinham resposta ou a resposta era um conjunto de dados vazio, tipo, “escreva uma consulta para calcular o total de vendas do usuário John Smith”, e a tabela de dados nem tinha um John Smith.
  • Várias aulas terminaram mais cedo porque ele olhou pra turma e falou: “vocês estão com cara de cansados”.
  • No meio do curso ele inventou de usar uma ferramenta da Adobe para aulas online. Aí ele passava metade do tempo da aula configurando a ferramenta, enquanto a gente olhava pra parede. Na segunda metade da aula o troço não funcionava e, quando a gente questionava, ele respondia: “vai digitando aí!”.

Curso: “Tecnologias emergentes”
Proposta do curso: Falar do que há de mais recente no mercado de software. Só que o professor usava slides com dados de 2001…
O que aprendi: A pagar o pato da turma que fica copiando trabalho.

Quase teve guerra civil nesse curso. Logo no começo do semestre o professor deu um trabalho em grupo pra turma, e obviamente a cola foi desenfreada. Por algum motivo eu me esmerei muito mais do que o normal com esse trabalho e entreguei o código-fonte mais lindo da minha vida, um primor de software, Bill Gates ficaria orgulhoso.

Na semana seguinte da entrega do trabalho, o professor mandou um e-mail cabeludíssimo pra turma toda, dizendo que tinha analisado minuciosamente todo mundo que colou e que ia mandar os nomes todos pra coordenação do curso caso as pessoas não assumissem a cola. Nem precisa dizer que eu fiquei rindo até a orelha quando vi esse e-mail.

Minha alegria durou só até o dia da próxima aula. O professor voltou atrás do nada e decidiu que, como tinha muita cola, ele ia cancelar o trabalho e redistribuir os pontos de outro jeito. Eu quase surtei – juntamente com a outra meia dúzia (literalmente) de gente que tinha feito o trabalho honestamente, e só depois de muita briga com o bendito do professor é que ele aceitou manter as coisas como estavam.

Cursos: “Integração de sistemas” e “Data warehouse”
Proposta dos cursos: Não sei, parei de me importar com isso.
O que aprendi: A ignorar o fato de que eu paguei o salário desses professores inúteis com o dólar a R$ 3.

Esses foram, de longe, os “melhores dos piores” cursos. Toda semana tinha uma aula teórica e uma aula prática, cada um com um professor. O da teoria chegava na aula atrasado, projetava o primeiro slide, depois tergiversava o resto da aula sobre como esse conhecimento é importante para o mercado, que os salários são ótimos, que a gente tinha muito que aprender aquilo… basicamente, passava a aula falando que o conteúdo era muito importante e não explicava a porra do conteúdo. Aí a aula acabava, ele notava que não passou do primeiro slide, e mandava o povo ler as coisas em casa.

Um dia ele deu uma prova e eu fiz uma pergunta sobre uma das questões. A resposta dele foi rir da minha cara – literalmente – e dizer que “se eu prestasse atenção nas aulas eu saberia”. Eu escrevi uma reclamação formal no papel da prova, dizendo que essa não era a postura que eu esperava de um professor. Ele me respondeu por e-mail alguns dias depois, reclamando que a culpa era minha de ficar o tempo todo no laptop durante as aulas.

Detalhe: o laptop é porque, ao invés de usar lápis e papel, eu faço as anotações das aulas no Evernote. Ou melhor, fazia, porque depois dessa palhaçada eu desisti de frequentar as aulas desse cara.

Ah, e tem o professor da aula prática, que era ainda mais perdido – mas perdido no nível de confundir o dia/horário da aula e simplesmente não aparecer, e de quando aparecer, entrar na sala e perguntar “o que eu tenho que ensinar hoje mesmo?”.

Mas é tudo choro e ranger de dentes nesse seu curso?

Apesar da maior parte dos professores serem desastrosamente ruins, os bons deram cursos bem produtivos. Nunca vou me esquecer da primeira aula de programação de jogos pra web, por exemplo: logo na primeira aula o cara botou a gente pra usar umas DEZ ferramentas/linguagens/tecnologias diferentes logo na primeira meia hora de aula – basicamente, ensinando a coisa mais importante em desenvolvimento de software: ficar confortável quando tu não tem a menor idéia do que está fazendo.

Teve também um professor de “APIs e microsserviços” que protagonizou um dos momentos mais satisfatórios do curso. No final do semestre ele resolveu que, ao invés de uma prova final, a turma faria um projeto de software e teria que integrar umas três tecnologias diferentes e demonstrar no último dia de aula. A turma foi praticamente toda contra, com a desculpa de que já tinha “trabalhos demais”, mas o motivo real deles quererem a prova é que ela é mais fácil pra colar…

Quando o professor anunciou o trabalho, um dos alunos – obviamente um dos grandes coladores – fez uma cara de coitadinho e um discurso triste de que ele tinha num-sei-quantos trabalhos pra entregar nas próximas semanas.  O professor deu a resposta mais linda de todas:

Amigão, o choro é livre. Imagina se você tá no trabalho, seu chefe chega pra você e fala ‘cara, eu preciso que você faça um projeto integrando esse e esse sistema, é pra daqui a duas semanas’. Você vai virar pra ele e falar ‘ah cara, não quero fazer isso não, será que tem como você me dar uma prova ao invés disso’?”

Entre todos os alunos com quem convivi, salva-se só algo tipo 2% da turma. Destaque para – sem bairrismo, juro! – a turma da américa do sul e da américa central: 

  • Fui fazer um trabalho de Java com uma venezuelana e empaquei numa parada maluca que o professor não sabia explicar e cuja documentação online parecia grego. A menina ficou acordada até as três da manhã só pra resolver o negócio.
  • Tinha também o “mexicano mágico”: no grupo do curso de Android eu estava fazendo o papel de “arquiteto de software” e volta e meia eu soltava umas ideias meio vagas, tipo “isso aqui devia ser um singleton” ou “podíamos usar Retrofit nessa integração”. O cara pegava essas frases soltas e, sem pedir explicações, aprendia as paradas por conta própria e, alguns dias depois me aparecia com os troços lindamente integrados no projeto e funcionando redondinhos.
  • Num dos meus empregos de meio-período, na escola mesmo, trabalhei com uma brasileira que fazia o design das telas do sistema e eu implementava. Normalmente, designer costuma ignorar a parte técnica, pedir uns troços impossíveis de implementar e depois reclamar que não tá bom. Essa menina era o oposto – ela lia a documentação técnica do projeto, entendia o que era possível ou não e só depois desenhava. Chegava a escorrer uma lagriminha de alegria quando ela me mandava um layout novo…
  • Por fim, o melhor programador que conheci ao longo destes dois últimos anos por aqui foi um colega paulistano. Trabalhei com ele num projeto onde deram pra gente um sistema antiquado e pediram pra acrescentar um monte de novas funcionalidades. O cara sugeriu reescrever o sistema do zero usando uma tecnologia mais moderna. Pra provar que essa seria a solução mais eficiente, refez o sistema inteiro… em DOIS DIAS.

Epílogo – Valeu a pena?

Bom, esse calvário todo foi a forma que eu escolhi pra me atualizar pra trabalhar de novo com software sem quebrar (muito) as minhas economias, usar os estágios pra pavimentar o caminho pra um bom emprego, conseguir um visto de trabalho pra digníssima e também os futuros requisitos pra residência permanente. E todos os objetivos foram cumpridos.

Pensando racionalmente, acho que a minha decepção é um tanto quanto injusta. Eu não podia mesmo esperar educação nível MIT pagando o preço de Uniesquina. No entanto, não sei se recomendaria esse mesmo caminho para outras pessoas. Talvez valesse mais a pena economizar mais um bocado e pagar por um mestrado ao invés de outra (meia) graduação.

Mas o que importa é que deu certo, estou plugado de novo na Matrix, e não pretendo mais tomar a pílula azul.

Um dia na vida do Primo (versão 2016)

Num dia desses de insônia estava revendo os arquivos do blog e me lembrei de quando fazia esses posts.

6:40 – O despertador toca e, como já estamos no outono, lá fora ainda é noite e continuará sendo por pelo menos mais meia hora – que é o tempo de eu entrar debaixo do chuveiro pra terminar de acordar.

7:00 – Já estou pronto e vestido. Pavlov, o cachorro, sabe disso e já está me rodeando porque ele sabe que isso significa que ele vai passear. Uma das vantagens de ser disciplinado é que cachorros entendem isso muito bem. Cães gostam de rotina – isso faz com que eles se sintam seguros.

7:24 – Eu e Pavlov temos um acordo tácito de por onde vamos passar todo dia de manhã. Ele, naturalmente, alterna entre os múltiplos caminhos rotineiros sem que eu precise interferir. Quando chove eu costumo optar por um caminho mais curto (e seco) – e de forma sobrenatural Pavlov já sabe disso e sai andando pelo trajeto “seco” sem que eu precise dizer uma palavra.

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Se você se perguntou “cadê a coleira”, boa pergunta. Em Toronto a lei manda que cachorros fiquem sempre de coleira, mas a essa hora nunca tem ninguém na rua mesmo, e se eu encontro alguém eu prendo ele de novo. Além disso, solto assim, fica mais fácil pra Pavlov praticar seu esporte predileto: perseguir esquilos.

7:40 – Hora do café da manhã, que no meu caso é só um punhado de cereal. Enquanto como, eu preparo a “marmita” do almoço e escuto o noticiário matinal da CBC (via TuneIn Radio) – outra das minhas rotinas matinais.

As notícias locais por aqui costumam ser motivo de piada porque nada de relevante acontece em Toronto. No último inverno, por exemplo, a notícia mais marcante da estação foi que os esquilos estavam ficando gordos demais por causa das temperaturas elevadas. Entretanto, neste dia a CBC passou uma entrevista interessantíssima com uma eleitora do Trump – uma canadense, mas com dupla cidadania nos EUA – e comentou de uma campanha brilhante chamada “Tell America it’s Great” (diga à América que ela é excelente). Os comentaristas diziam que essa foi a coisa “mais canadense” que eles já viram. Concordei.

(em tempo: fica aqui a menção honrosa à minha Bose Soundlink, a “pequena notável”. Comprei usada num site de leilão de produtos devolvidos da Best Buy, paguei uma pechincha, e essa caixinha tem o melhor som que já vi NA VIDA. Sem brincadeira.)

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7:55 – Hora de sair de casa e andar até a estação de trem. O frio ainda está bem suportável (10 graus) então basta uma jaquetinha e pronto.

8:07 – Como de costume, o trem vem sempre exatamente na mesma hora.

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Coincidentemente eu moro bem do lado da linha de trem expressa que conecta o aeroporto até o centro da cidade. A passagem costumava ser bem salgada, mas como ninguém estava usando o trem, acabaram abaixando a tarifa para acessíveis CAD$ 5. Só pra efeito de comparação, pegar ônibus/metrô iria me custar CAD$ 3, mas eu levaria no mínimo o dobro do tempo.

Ainda no assunto da rotina: como eu saio de casa exatamente na mesma hora e pego exatamente o mesmo trem, eu vejo exatamente as mesmas pessoas na estação todo dia. Tem o gordinho que sempre está assistindo desenho japonês no celular e embaralhando seu baralho de Magic, tem o indiano de terno, tem a loira do cabelo produzido que começou a paquerar um outro cara no trem, tem o “casal assimétrico” (a menina mede 1,50m e o namorado tem uns 2m de altura)…

8:24 – O trem chega na Union Station, a estação central. De lá são mais 10 minutos de caminhada até o trabalho – tudo por dentro dos prédios interconectados do centro, para que as pessoas não precisem andar pela rua quando está tudo congelante lá fora.

Além do clima, o cuidado do canadense com a segurança é tão exagerado que chega a ser engraçado. No caminho do trem até o trabalho eu passo por nada menos do que onze portas corta-fogo. A foto abaixo é logo depois de quando eu passo pela primeira delas.

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8:40 – Como o mundo dá voltas. Eu comecei minha carreira como analista de sistemas em um banco, e aqui estou novamente.

Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Os tempos mudaram, e ao invés de uma mesa fixa eu agora trabalho numa “sala de guerra” com o time todo no mesmo local, dividindo uma grande sala de reunião. Isso significa que o tempo todo tem mini-reuniões ou teleconferências acontecendo bem do seu lado.

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No início era desesperador tentar trabalhar com dezenas de pessoas conversando ao seu redor – e em inglês, o que aumenta ainda mais a sobrecarga cognitiva na cachola. Mas agora eu já estou (razoavelmente) acostumado. Outra coisa que ajuda é o fato de que a maior parte das estações de trabalho aqui no banco não são fixas e podem ser reservadas online por qualquer pessoa – assim, todo santo dia eu reservo duas ou três horinhas longe da bagunça para conseguir me concentrar.

12:50 – Na minha primeira “temporada” de analista de sistemas eu teria passado a maior parte da manhã procrastinando e vadiando na internet. Atualmente, eu produzo o tempo todo, feliz da vida. Parece aquelas histórias de amor de novela, cheias de desencontros, mas que no fim os protagonistas finalmente descobrem que realmente se amam e foram feitos um para o outro. Eu levei quase uma década flertando com outras carreiras, mas concluí que software é meu amor verdadeiro.

Na hora do almoço, ao invés de sair e ficar duas horas de papo pro ar, eu fiz uma reunião com o meu chefe e ambos almoçamos em frente aos nossos computadores, como é o costume na América do Norte. Abaixo, a minha “marmita” do almoço com uma saudável salada.

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13:58 – Hora de mais reunião, dessa vez no Oasis, que não é a banda londrina e sim o nome do refeitório aqui do andar. Hora também de tomar o chá da tarde (porque o café da máquina daqui é intragável).

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A tevê está ligada no CP24, o canal “oficial” de toda TV pública daqui de Toronto. O canal é tipo uma “Band News” num mosaico fixo de notícias, clima, trânsito, ações, resultados do esporte, tudo na mesma tela.

17:03 – A vantagem de não parar pro almoço é que quando dá cinco horas… acabou o trampo! É hora de voltar pelas minhas onze portas corta-fogo e admirar o trânsito parado do centro da cidade pelas paredes envidraçadas das passarelas onde passo. De carro eu levaria mais de uma hora pra chegar em casa.

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Curiosamente, só porque eu estava registrando este dia pra postar aqui no blog, o trem atrasou uns quinze minutos e veio “lotado”. Nessas horas eu acho engraçado o despreparo do canadense pra lidar com imprevistos. Tava todo mundo indignado com as filas e a muvuca nos corredores do trem…

17:48 – Ao chegar em casa, sou amplamente recepcionado por Pavlov. É sempre assim: eu passo oito horas longe de casa e ele se empolga com a minha chegada como se eu estivesse voltando da Segunda Guerra Mundial. Tanto que mal consegui fotografá-lo pra este post…

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Além dele eu também reencontro Bethania, que chegou de uma viagem de trabalho para NY. Ficamos os dois preguiçosamente no sofá por umas boas duas horas, que foi o tempo de assistir os Blue Jays perderem o quarto jogo da post season e serem eliminados do campeonato pelo time de Cleveland.

Os jogos foram polêmicos, mas por um motivo bem esquisito: o narrador local recebeu uma carta de protesto de um telespectador de origem indígena, e decidiu que não ia usar o nome do time de Cleveland – chamado “Indians” – na transmissão porque aparentemente isso seria “ofensivo”. Teve até um juiz que tentou entrar com um mandato pro time não usar o nome no uniforme e retirar também o seu mascote (um indiozinho pele-vermelha), mas o mandato foi derrubado.

Os torcedores de Cleveland (na foto abaixo), auto-intitulados “a tribo”, não parecem se importar com essas coisas.

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21:19 – Vale lembrar que eu tou numa vida de “jornada dupla”, trabalhando e estudando, então logo depois do jogo, acabou o descanso: hora de ir fazer os trabalhos da faculdade.

Aproveitei a noite pra fechar um trabalho do curso de “game programming” e, ao mesmo tempo, acompanhar o debate presidencial nos EUA.

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O debate foi… bem, digamos que meu trabalho tava muito mais interessante. O professor mandou a gente fazer uma fase de um jogo estilo platformer – joguinho clássico, estilo Mario, de sair pulando em plataformas. A fase precisava ter cinco minutos de gameplay e incluir inimigos, pontuação, sons, etc. Durante a aula o professor viu que meu layout pra fase incluía as clássicas plataformas que se movem e me orientou a tomar cuidado porque “plataformas móveis são difíceis de programar”. E na hora do vamo ver eu levei menos de uma hora pra fazer com que elas funcionassem ¯\_(ツ)_/¯.

A fase inteira não levou nem dois dias pra ficar pronta. Note que o personagem principal veio “emprestado” do Metal Slug, e os sons são “emprestados” do clássico Doom 🙂

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O código-fonte do jogo (Unity/C#) está no meu Github, inclusive.

23:01 – Depois de concluir toda a minha “lição de casa”, hora de dormir e começar tudo de novo amanhã…

Como vai a vida aqui no Canadá (ou: a maior poker face do baseball)

Tem seis meses de assunto represado pra falar aqui no blog – já passei por dois estágios, mais da metade da faculdade já foi embora e rolou até uma inesperada adiantada na papelada pra minha permanência definitiva aqui no Canadá.

Mas este post vai falar é de baseball.

Baseball é um dos esportes mais chatos que existe. Jogos de 3 horas e meia onde o máximo de emoção acontece em lances muito esporádicos, e que duram no máximo uns quinze segundos – e que você só consegue curtir se souber muito bem as (muitas) regras. Exemplo: essa semana um dos lances mais lindos da rodada foi o Kevin Pillar prevenindo um double com uma defesa inacreditável… que, na verdade trata-se apenas de um pobre coitado se estabacando contra uma parede. “Arte é contexto”, diria Marina Abramovic.

É óbvio que baseball é o esporte que eu mais ando curtindo. Eu não sei mais quem é o técnico da seleção brasileira, mas consigo recitar a escalação do Blue Jays (o time daqui de Toronto) todinha – incluindo aquele que rapidamente tornou-se o meu jogador predileto do time: o mexicano Roberto Osuna.

osuna

Talvez você se lembre dos desenhos animados do Charlie Brown, onde ele sobe naquele “montinho” e arremessa a bola pra alguém rebater. Esse é o pitcher (“lançador”), e é a posição mais importante da defesa de um time. Basicamente, um bom pitcher evita que o outro time marque pontos. Por conta disso, os times tem vários pitchers, cada um com uma especialidade: tem os que abrem o jogo e arremessam quase toda a partida (os starters), tem os que entram especificamente pra “aliviar” o starter quando ele cansa (os relievers), e tem uns que quase não aparecem porque são especializados em jogar apenas o finalzinho da partida e fechar o jogo – os chamados closers. É o caso do Osuna – ou seja, meu jogador predileto joga, no máximo, uns 10 minutos por jogo… e nem é em todos os jogos.

A questão não é o quanto joga, e sim como joga. O que eu acho mais fantástico no jogo do Osuna é a consistência. Ele vai lá, arremessa com exatamente a mesma expressão facial o tempo todo (a maior poker face do baseball), fecha o jogo, tira o boné, faz o sinal da cruz, aponta pra cima pra agradecer a Deus e vai embora como se nada tivesse acontecido. É assim quando o time tá ganhando, quando tá perdendo, quando tá prestes a ser eliminado ou quando tá prestes a ganhar campeonato. Quando o Osuna erra um lance e o outro time subitamente ganha de virada, a cara dele continua lá, igualzinha. Quando ele faz inacreditáveis nove strikes seguidos e destrói três rebatedores em três minutos, a cara dele nem se altera.

Esse vídeo de highlights do Osuna em 2015 chega a ser repetitivo por conta disso – repare que ele só demonstra alguma emoção aos 3 minutos e 50 segundos, no jogo em que o Blue Jays quebrou um jejum de mais de uma década e virou campeão da American League East.

Eu nunca na vida tive ídolos no esporte. Na verdade acho que nunca tive ídolo nenhum. Aí me chega esse cara, não faz alarde, tem uma atuação super reduzida e específica, tem um dos menores salários do time, não tá preocupado com fama nem nada – só quer ir lá, fazer o trabalho dele sem pirotecnia ou sofrimento, agradecer e ir embora, independentemente da circunstância.

Acho que é aí o ponto onde eu me identifico. No final do ano passado eu comecei meu primeiro estágio e, quando percebi, tinha caído numa armadilha: era uma vaga de desenvolvimento web onde, no fim das contas, eu não tinha nem acesso ao servidor web. Só dava pra, literalmente, programar em Excel. Mas ao invés de me abater eu mantive a minha poker face, fui lá e fiz o melhor que pude. Quatro meses depois, saí colecionando elogios e deixei minha chefa me pedindo pra ficar por lá mais tempo.

Aí veio mais um semestre de estudo e esse foi, de longe, o semestre mais desastroso de todos: teve professor que entrava na sala e perguntava pra turma o que ele tinha que ensinar, teve professor cancelando o trabalho mais foda que já entreguei porque mais de 80% da sala tinha colado, teve aula de “tecnologias emergentes” onde os dados atualizadíssimos que o professor mostrava eram de 1999, teve trabalho de grupo onde eu tive que carregar o grupo inteiro nas costas – e ainda ter que aguentar os coleguinhas vindo reclamar comigo, uma semana depois do prazo de entrega das paradas, que eu “não dei chance” deles fazerem a parte deles. Mas fui lá, fiz meu melhor, mantive as notas boas e o mais importante: arrumei um lugar fuderosíssimo pra fazer meu segundo estágio.

Isso foi meio que o equivalente do Osuna assinando com o Blue Jays e indo jogar na primeira divisão. Meu estágio é no maior banco canadense, e um dos meus “lugares-meta” pra arrumar um emprego quando me formasse. E mais: entrei num projeto onde meu papel é usar o que há de mais novo em desenvolvimento de software pra modernizar os serviços antigos do banco. E ainda mais: o programa de estágio do banco é famoso por ser o lugar de onde eles fazem suas novas contratações, então eu sabia que, se eu mandasse bem, podia transformar o estágio de hoje no sonhado emprego fixo de amanhã.

É óbvio que a coisa começou complicada: o projeto é enorme e me deram um monte de aplicações incompletas pra eu fazer funcionar. Documentação? Bom, um dos sistemas tinha um arquivo TXT com 20 linhas. Requisitos? Só conversando com um dos arquitetos de sistema, que começava a falar do projeto, depois tinha ideias megalomaníacas, depois se perdia e me perguntava: “do que é que a gente tava falando mesmo?”.

Pra piorar, todos os sistemas usavam tecnologias, frameworks e coisas que eu jamais havia ouvido falar. Aí eu ia pesquisar uma delas no Google e o site onde fica a documentação é bloqueado pelo firewall do Banco. Então eu ia pesquisar outra e, ao achar a página do projeto no GitHub, ela dizia assim:

“Atenção! Este projeto ainda não está pronto para ser usado! Ele ainda está em desenvolvimento e vai ser modificado no futuro”.

Se estivesse na minha situação, o que Osuna faria? Sim, exatamente isso que você pensou: iria manter exatamente a mesma cara impassível e a concentração de sempre e ia lançar as suas bolas.

Nem bem fez um mês de estágio e lá estava eu colocando no ar a minha primeira entrega, já sendo usada por uma das áreas do Banco em outro projeto. Algumas semanas depois e eu entreguei a documentação do sistema, que ficou tão boa que o arquiteto-chefe repassou pro time inteiro dizendo que “este é o padrão que todos vocês tem que seguir daqui pra frente”. E segunda-feira passada, faltando uma semana pra chegar na metade do estágio, a chefona do projeto veio me pedir pra, ao invés de voltar a estudar no semestre que vem, pra eu aceitar uma vaga de emprego full time que ela quer me oferecer.

A vida, como o baseball, é chata e maçante durante 90% do tempo. Mas quando você acerta…

Impressões após um ano de Canadá (ou: Retrospectiva 2015)

Exatamente no dia de hoje, um ano atrás, tudo que eu e a Bê tínhamos eram seis malas (sete, contando com a do Pavlov), uma passagem e uma vaga ideia do que viria pela frente na vida.

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Muita coisa rolou neste primeiro ano canadense. Muita coisa foi inesperada, muita coisa deu errado, muita coisa foi melhor que o previsto. Mudar de país também mudou muito do que eu pensava sobre um monte de coisas, que é o que eu vou tentar resumir neste (longo) post.

1) O mundo é muito maior do que eu imaginava

Quando eu postei sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu fiz um comentário sobre o quanto minha passagem por países diferentes mudou – e principalmente expandiu – a minha visão de mundo. Quanta ingenuidade. Cheguei ao Canadá me achando o Jacques Cousteau da exploração mundial e a cada dia que passa eu vejo que não sei quase nada sobre meu próprio planeta.

No meu bairro, predominantemente negro, jerk deixou de ser só um xingamento e se transformou num delicioso tempero jamaicano. Vendo meus vizinhos, vários deles muçulmanos negros, entendi que o Islã é muuuito maior do que eu imaginava. Quando saio pra andar com o Pavlov tenho que tomar cuidado com as mulheres que usam niqab (aquela roupa que cobre o corpo inteiro), porque meu cachorro é um ser impuro na crença delas. E estou quase aprendendo a diferenciar o turbante dos muçulmanos do turbante dos árabes e o dos Sikh.

No Brasil tem o nordestino, o gaúcho, o mineiro, e cada um tem lá sua cultura e costumes diferentes – vários países dentro de um só. Na Índia é tipo isso, mas umas trinta vezes mais zoado: cada estado tem uma língua diferente, uma religião diferente, é uma bagunça completa. Entre os meus colegas, os sobrenomes “Kaur” e “Patel”, de tão comuns, já soam como “Costa” e “Silva”.

O lado asiático parou de ser apenas dividido em “chinês/japonês” e incorporou o malaio, o filipino, o coreano, e o vietcongue com sua língua maluca que parece onomatopéia pra comida (“nhom nhac” em vietcongue significa “banda de música”). Falando em comida, essa é outra vantagem da expansão asiática: o lamen, por exemplo, virou ramen e ganhou variações coreanas (bi bim bap) e vietnamitas (pho). O curry deixou de ser só aquele pozinho amarelo de sabor único: os supermercados tem prateleiras e mais prateleiras de curries em pasta e em pó, e agora estou indeciso se o tikka masala é melhor que o korma. E a minha geladeira tem um frasco de meio litro de sriracha.
sriracha

Viver em Toronto é experimentar uma espécie de ultramulticulturalismo que eu nunca imaginava encontrar no ocidente.

2) Inglês fluente é só o começo

Modéstia às favas, meu inglês sempre foi muito acima da média do que no Brasil se considera “fluente”. Aí cheguei aqui e passava apertado pra falar ao telefone porque não tinha a “leitura labial” pra me ajudar a entender. Quando a tevê dava a previsão do tempo eu me perdia em frases tipo “overcast above freezing in the single digits” ou com todos os novos tipos de neve (slush, flurries…). E a situação do tráfego, com o monte de nomes de ruas e regiões que eu não conhecia, soava como a professora dos desenhos do Charlie Brown.

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Mas com o tempo o seu ouvido vai se acostumando… e então começa o longo processo de reaprender as cores e os pesos das palavras, tão naturais no português, completamente misteriosos na sua nova língua. Um exemplo: eu ficava incomodado quando ia a um restaurante, o garçom me perguntava se eu queria alguma coisa, eu dizia que não e ele me trazia a conta. Custei a entender que o motivo era o “I’m done” que eu dizia quando havia terminado de comer – mas que na verdade significa que eu estou encerrando a refeição.

Toda língua tem sua poesia interna e nenhum livro pode explicá-la.

3) Como é bom o anti-jeitinho brasileiro!

Em outubro, como presente de aniversário, eu me dei uma visita à Art Gallery of Ontario. Quando eu e Bethania chegamos no museu, fui ao caixa e pedi duas entradas, uma delas de estudante.

Como de costume, o cara não me pediu nenhum documento para comprovar meu status de estudante, pois aqui se parte do princípio de que a pessoa está agindo de boa fé. Mas, não satisfeito em me vender uma entrada de estudante, o caixa pergunta pra Bethania:

– Você é estudante também, certo?
– Err… não, não sou – disse Bethania.
– Vai, me ajuda aí. Vou perguntar de novo: você é estudante também, né?
– Bem, e-eu tou fazendo um curso de inglês…
– Pronto, tá aí! Duas entradas de estudante! É que o museu fecha daqui a duas horas, não faz sentido você pagar o preço cheio. Aproveitem!

Toda vez que isso acontece – e é com uma certa frequência que isso acontece – eu sinto uma paz que eu jamais senti no Brasil, a paz que vem da sensação de que, finalmente, eu vivo num lugar onde eu não preciso ficar o tempo todo tomando cuidado pra que ninguém se aproveite de mim. Na verdade, a preocupação agora é garantir que eu estou fazendo o mesmo com as pessoas que me cercam, em todos os momentos. No metrô, por exemplo, eu tomo muito cuidado para não me distrair ouvindo música ou mexendo no telefone, pois pode ter alguém atrás de mim querendo entrar ou sair do vagão e eu não quero que a pessoa passe pelo incômodo de me pedir licença. Outro dia, ao andar com o cachorro no parque, me peguei recolhendo lixo que os outros deixaram no chão. E desenvolvi um ato reflexo de sorrir automaticamente pra todo mundo que fala comigo. O que nos leva ao ponto 4…

4) A todos os garçons brasileiros: me desculpem

Esse ponto é meio polêmico, mas eu preciso falar dele.

Um ponto crucial para entender o Canadá é o fato de que a pirâmide social por aqui é extremamente achatada. No Brasil, quando você diz que alguém é pedreiro, marceneiro, encanador ou garçonete, a ideia que vinha na minha cabeça ignorante era que a pessoa ganha um salário baixo e trabalha em um subemprego. Aí eu me mudei de hemisfério e – surpresa! – não tem mais subemprego: um motorista de ônibus em Toronto, por exemplo, ganha uns cinco mil dólares por mês (quase R$ 15 mil, no câmbio de hoje). Policiais, professores, bombeiros e enfermeiros chegam a ter salários médios de – e aí eu preciso escrever em caps lock – CEM MIL DÓLARES POR ANO. É o mesmo salário de um médico. Moral da história: por aqui, toda ocupação é suficientemente remunerada para que a pessoa tenha uma vida digna. Não tem emprego bom ou ruim: se você contribui para a sociedade com trabalho honesto e legal, você é um bom cidadão.

Logo que cheguei ao Canadá uma das coisas que estranhei foi o tanto que os garçons daqui te dão atenção. Eles se apresentam, sorriem, te explicam o menu todo, fazem uma ou duas brincadeiras pra amenizar o clima, te perguntam o tempo todo se você está precisando de alguma coisa, etc. Não é uma relação comercial, e sim uma relação pessoal. Você não é um cliente, você é uma pessoa como ele ou ela é. E aí eu percebi que meu estranhamento não vinha do fato deles estarem me dando atenção, e sim do fato de que eu é que não dava a devida atenção aos garçons brasileiros. Não cheguei ao extremo de maltratar ninguém, obviamente, mas sabe quando você nem olha pra cara da pessoa, simplesmente faz o seu pedido sem incluir um por favor ou um obrigado? Verdade seja dita, eu me relacionava com aquela pessoa como se ela fosse menos pessoa do que eu.

Admitir isso é algo extremamente vergonhoso pra mim, mas é a mais pura verdade. E, após conversar com alguns outros expatriados e ver que vários deles ficam perplexos porque “o pedreiro daqui ganha bem”, eu acho que preciso tornar pública essa reflexão. E, como na vida a lei do karma é coisa séria, chegamos ao ponto 5…

5) Agora eu sou minoria

Na semana que comecei a escrever este post me ocorreu uma história bem apropriada para esta questão.

Dentre todos os colegas que fiz na faculdade, apenas um é canadense de nascença. Ela se chama Winnie e, apesar de ter nascido aqui, é filha de chineses. Ela é tipo uma versão asiática da Phoebe do Friends: é toda voada e cheia das manias estranhas. Mas é super gente boa.

Há algumas semanas tivemos um feriado bem no meio da semana e eu combinei com ela e com um outro amigo para almoçarmos juntos. Fomos a um rodízio de comida japonesa, bom e barato, no bairro dela mesmo. Depois de nos empanturrarmos de sushi ela comentou que ia pra casa de ônibus e, como bons mineiros (e os únicos de carro), eu e a Bê nos oferecemos pra dar carona pra ela. Depois de muuuuita insistência e de ela ligar pros pais pra confirmar, ela deixou a gente deixá-la no ponto de ônibus mais próximo da casa dela porque, por algum motivo, ela não queria que a gente soubesse exatamente onde ela morava. Até aí tudo bem, botei isso na conta de “a Winnie tem lá suas manias estranhas” e deixei pra lá.

Acontece que o lugar onde faço estágio no centro de Toronto é a um quarteirão do lugar onde ela trabalha, então a gente se encontra pra almoçar toda sexta-feira. Numa dessas sextas, papo vai, papo vem e eu voltei no assunto do nosso almoço de quarta e por que ela não deixou a gente levá-la em casa. Surpresa: ela disse que os pais dela não confiam em latinos, porque tem o estereótipo de que não somos confiáveis, e ela não quis desagradar os pais.

Eu queria muito que essa fosse só uma história isolada, mas outro dia mesmo eu estava saindo do Walmart e vi uma senhora carregando várias sacolas com bastante dificuldade. Me ofereci pra ajudar, ela recusou mas ficamos batendo papo no ponto de ônibus. Cinco minutos de conversa depois e a gente ia comentando da bagunça que estava o Walmart quando ela me solta essa pérola:

– Sabe, eu sou cristã e não é com preconceito que eu falo isso, mas aqueles funcionários negros do Walmart são muito mal educados!

Moral da história: a questão do preconceito é bastante delicada por aqui. Mas eu continuo crendo na boa-fé do canadense e confiando que esses são casos isolados pois, felizmente, tenho um monte de contra-exemplos onde me tratam super bem. E, formalmente, Toronto é super liberal e inclusiva.

Mas mudemos pra um assunto mais alegre…

6) As quatro estações (não são mais um disco do Renato Russo)

Por algum motivo eu sempre quis experimentar como é isso de morar num país com as estações certinhas, igual eu via nos livros de geografia. Parece uma bobagem, mas ver as estações passar dá toda uma nova poesia pra vida.

Ao longo do ano eu tirei umas fotos da vista da minha janela e fiz a montagem aí embaixo (clique para ampliar).

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No inverno a encrenca não é só o frio: o que mais me incomodou é que o sol começa a nascer lá pelas 8 da manhã e lá pelas 5 da tarde já está completamente escuro de novo. Acordar cedo pra ir pra aula, com a temperatura em quinze graus negativos e com uma escuridão total na rua é de lascar. Outra chatice são as calçadas e ruas escorregadias. Mesmo depois que você se acostuma a dirigir no inverno, pegar estrada sempre é meio tenso. Os animais todos se escondem ou migram pra lugares mais quentes, e as pessoas naturalmente evitam passar muito tempo na rua. Some-se a isso o fato de que a neve é um ótimo isolante acústico e o resultado disso é o que eu mais gosto no inverno: o silêncio. É indescritível a quietude que o mundo ganha nos meses mais gelados do ano.

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Uma peculiaridade importante do Canadá: aqui não existe a profissão de frentista. Abastecer seu carro no frio de menos trinta graus não é nada divertido…

Em março, quando você já não está aguentando mais passar tanto frio, chega a primavera. Cara, a primavera é um troço completamente mágico: Os troncos de árvore que passaram meses sob temperaturas desumanas e que você já dava como mortos começam a ganhar folhas sabe-se lá Deus como. Os gramados dos parques e das casas ressurgem de repente e se enchem de florzinhas amarelas (dentes-de-leão, super comuns por aqui). Os dias vão ficando progressivamente mais longos e ensolarados, e você passa a comemorar temperaturas de dois graus positivos como se fosse clima de ir pegar praia. Os restaurantes começam a reabrir os seus pátios, os repórteres do noticiário da tevê ficam mais animados para dar as notícias, todo mundo sorri na rua… do jeito mais post de auto ajuda do Facebook possível: primavera é VIDA.

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O verão é quente mesmo, nível Brasil de quentura, mas com muito menos chuva – o que é ótimo. A cidade fica em polvorosa nessa época e tem evento pra tudo que é canto, tem shows, tem feiras, tem exposições, as pessoas lotam os parques, os pátios, as ciclovias, ninguém quer ficar dentro de casa – a não ser que seja pra escapar um pouco da suadeira debaixo do ar condicionado. Os dias longos te enchem de energia: às cinco e meia da manhã já tem sol rachando lá fora, e ele só se põe às 9 da noite. A galera capricha também na decoração dos jardins – as casas se enchem de lírios e outras flores coloridas. No verão o Canadá vira um outro país. Pra você ter uma ideia da diferença, o espelho d’água na foto abaixo, que fica em frente à prefeitura, é o mais famoso ringue de patinação no gelo da cidade.

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O que fecha o verão não são mais as “águas de março”, e sim o outono. Para compensar o retorno do frio, a chegada de uma chuva chata e constante, e o retorno dos dias progressivamente mais curtos, você é recompensado pelo espetáculo que são as árvores mudando de cor e desfolhando.

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Até os feriados da época são apropriados: primeiro tem o thanksgiving onde você agradece tudo de bom que rolou até então, e depois vem o remembrance day. Nesse dia – o dia 11 do mês 11, precisamente às 11 horas e 11 minutos, os ônibus e o metrô param, todo mundo para o que está fazendo, e todo mundo faz um minuto de silêncio para os soldados que morreram na guerra. E ao longo do mês muita gente usa a tradicional florzinha de papoula vermelha na roupa.

 

7) E o lado ruim do Canadá?

Porque sim, apesar de eu me desdobrar em elogios toda vez que me perguntam sobre a vida em Toronto, aqui também tem lá as suas canseiras.

Uma delas é o transporte público, que está defasado em uns 10 anos. Pra começar, ele é fortemente baseado em ônibus – que, justiça seja feita, são ótimos, tem motores híbridos (diesel/elétrico), todos tem rack para bicicleta, todos tem rampa para cadeira de rodas… mas que são muuuuuito lentos por causa da quantidade de pontos de ônibus espalhados nas ruas. Pra você ter uma ideia, a velocidade média do ônibus que pego todo dia pra ir ao trabalho é de 12km/h. O metrô seria mais rápido, mas Toronto tem míseros 68km de linhas interligando a cidade (São Paulo tem mais de 330km).

Outra chatice é não poder comprar cerveja no supermercado: bebida alcoólica é fortemente regulada e só é vendida em duas lojas (Beer Store – dã! – e LCBO). Beber ao ar livre pode, mas só em áreas licenciadas e fisicamente delimitadas. É comum você ir a um show ou uma feira e ter um “cercadinho” onde as pessoas podem beber.

A Bê me lembrou outras coisas complicadas:

  • O sistema de saúde. Sim, ele funciona e é gratuito, e o Canadá é pioneiro mundial em várias áreas avançadas da medicina (transplantes, por exemplo). Mas pras coisas simples, como fazer um exame de sangue ou comprar seu anticoncepcional, você precisa obrigatoriamente passar por uma consulta médica demorada e inútil. E o padrão da medicina daqui não é nada preventivo: o foco é tratar a doença depois que ela acontece.
  • As festas e a vida noturna. Não tem jeito: ninguém sabe fazer uma boa festa como os brasileiros sabem. As festinhas de escritório então, para aniversariantes, aposentados e etcetera, são desesperadoras. E nem vou comentar o quão ridículo é ver o norte-americano tentando dançar…
  • A tevê. Tirando as minisséries, a programação da TV aberta é praticamente inassistível.
  • O comportamento passivo-agressivo do canadense. Pra gente da cultura latina o normal é sempre deixar claro o que se está sentindo – o que inclui armar eventuais barracos. Já o canadense é reservado e estereotipicamente bonzinho, portanto a sua agressividade é velada e passiva e, portanto, intensamente tóxica. Eu nunca vou me esquecer de um domingo, logo que cheguei, quando eu estava procurando vaga pra estacionar num shopping lotado e, sem querer, “roubei” uma vaga de um cara. Ele passou com o carro do meu lado, me olhou do jeito mais desprezível que existe e disse: “Você sabe dar seta? Pois é, deveria usá-la mais vezes então”.

Mas o principal problema canadense é, sem sombra de dúvida, o inverno. Viver fica bem mais complicado quando você tem boas chances de morrer congelado se sair na rua despreparado.

8) Conclusão?

No post sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu usei uma frase bastante peculiar sobre a minha relação com o país:

E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

Pegando carona nessa mesma analogia, esse primeiro ano de Canadá tem sido como aquele primeiro ano de namoro (a chamada “fase rosa”) onde tudo é alegria. As minhas suspeitas de que “a gente tem tudo a ver um com o outro” estão todas se concretizando. Mas eu estou tentando não me apegar enquanto o outro lado não demonstrar que quer mesmo compromisso – em outras palavras, meu visto tem data pra acabar.

De qualquer forma, mesmo se der tudo errado e eu precisar voltar ao Brasil, o que eu traria comigo é um sentimento que esta estadia canadense tem me demonstrado e que, por uma série de motivos, eu nunca aprendi a cultivar: a gratidão. Acho que essa é a principal herança do ano de 2015 e vou me esforçar pra conservá-la – com ou sem thanksgiving.

Retrospectivas anteriores:

2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Eleições 2015

Assim como no Brasil, aqui no Canadá também querem derrubar o líder do governo.

(brincadeirinha – é que esse ano tem eleições federais 🙂 )

Tem sido fascinante acompanhar o processo eleitoral por aqui. Eis alguns dos meus destaques.

O boneco de Lego e os partidos coloridos

Quando o primeiro ministro anunciou as eleições, em agosto, a imprensa destacou que seria o mais longo período de campanha eleitoral em mais de um século. Como as eleições são em outubro, este enooooooorme período de campanha não chega nem a três meses

O que eu mais gosto no atual primeiro-ministro é que o cabelo dele é idêntico ao de um boneco de Lego:

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Super-resumidamente, o cenário político canadense é dividido em cores:

  • Os azuis são os conservadores, ou “Tories” (longa história). É o partido do Harper e a maioria atual da câmara. Como o governo conservador já vai pra quase uma década tá todo mundo meio que de saco cheio deles.
  • Os laranjas são os “novos democratas” (NDP), o partido de centro-esquerda ou centro-direita, o que for mais conveniente 🙂 . O candidato democrata (Tom Mulcair) parece o FHC, mas só fisicamente. Mas pelo que entendi da história recente, o NDP é meio que “queimado” entre o eleitorado.
  • O vermelho é dos liberais e o seu candidato é o Justin Trudeau: jovem, cheio de marra, e neto de um político famoso do passado. E fisicamente ele também parece o Aécio. As diferenças estão é na ideologia do partido, que quer liberar aborto, maconha e essas coisas todas que tiram o sono dos conservadores.
  • O azul claro é o bloc québecoise, do candidato Gilles Duceppe, mas ninguém fala neles fora do Quebec.

O cartoon abaixo, simplesmente genial, resume tudo no melhor estilo RPG: Harper é o clérigo sem emoções, Trudeau é o bardo fumador de cachimbo, Mulcair é o guerreiro ambidestro e o Duceppe é o morto-vivo.

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Além desses quatro tem também os partidos nanicos bizarros, tipo o partido pirata, o Marijuana (!!) e até o Rhinoceros –  que, entre suas origens, cita a história brasileira do rinoceronte Cacareco, e cuja plataforma política é não cumprir nenhuma promessa de campanha. Mas esses nunca aparecem na mídia.

A política passivo-agressiva canadense

O aspecto cultural mais interessante de morar no Canadá é ver que, de fato, o canadense é estereotipicamente bonzinho – e isso reflete na política. O melhor exemplo disso é a campanha difamatória que os conservadores botaram na TV para criticar os liberais. O slogan da campanha difamatória é simplesmente bombástico:

Justin Trudeau – ele simplesmente não está pronto.

Isso é tipo o equivalente político a “não vote no fulano porque ele é bobo feio e chato”.

Os debates são outro bom exemplo. Apesar da campanha curta, os candidatos debateram cinco vezes na tevê. Em setembro tinha debate quase toda semana. Diferentemente do Brasil, o mediador lança um tema e os candidatos podem falar quando querem. Claro que tem bate-boca, mas os candidatos escutam e obedecem o mediador. E ao invés de “o senhor candidato é um mentiroso salafrário”, as críticas são do tipo: “isto não está correto” ou “o senhor precisa verificar estes dados”. É um troço inacreditável.

No último debate que vi teve um lance engraçado: Stephen Harper estava se defendendo de uma crítica e, como o tempo acabou, o mediador pediu que ele resumisse sua opinião em uma frase curta pra encerrar o assunto. Ele deu uma de esperto e falou mais uns 30 segundos. Na sequência, o candidato do NDP deu a cutucada mais canadense de todas: “Mas que frase longa, senhor candidato!” – e a plateia caiu na risada.

Este é o climão maneiro dos debates canadenses.

Uma coisa bem ruim que rolou com os debates é uma estratégia muito retardada mas que parece funcionar bem por aqui: a da distração. Funciona assim: você aborda um tema super polêmico mas pouco importante do ponto de vista nacional e ele vira o foco de todas as discussões, então as pessoas se esquecem de discutir e avaliar outras coisas tipo propostas de reajustes fiscais, melhorias de infraestrutura, desempenho econômico, etc. Aqui a polêmica foi o niqab: aquele véu que as mulheres islâmicas usam para cobrir o rosto quando saem em público. É que para fazer o juramento de cidadania canadense a lei diz que a pessoa não pode encobrir o rosto, e parece que uma imigrante islâmica foi contestar essa proibição e aí fez-se o circo e a mídia ficou “niqab pra lá, niqab pra lá” e ninguém mais falou em mais nada. Foi bem chato.

Tiririca não teria chances na terra da Rainha

Uma coisa na qual os canadenses pegam pesado é na reputação dos candidatos. Esta eleição inclui também votos para a house of commons (a “câmara dos deputados”), e toda semana a mídia dava notícia de algum candidato expulso do seu partido. Os motivos eram sempre coisas seriíssimas:

  • Um candidato foi expulso porque descobriram que, no passado, ele tinha um programa de rádio onde passava trotes para pessoas e, nesses trotes, debochava de deficientes físicos.
  • Muita gente rodou por causa de posts no Facebook e no Twitter. Um candidato foi expulso porque tuitou que “aborto não deveria ser opção de gente irresponsável”, outro porque, anos atrás, xingou alguém dizendo: “você é um desperdício de esperma”.
  • O mais recente foi um candidato expulso porque acharam um artigo de jornal de sua autoria, intitulado “é errado um homossexual se tornar normal?”, onde ele supostamente apoiava a tal “cura gay”. O candidato pediu desculpas e culpou a tradução, dizendo que na tradução (o artigo foi escrito em punjabi) traduziram straight (heterossexual) como “normal”.

No quesito “roubalheiras e contas na Suíça” eu só vi a rebarba de um princípio de escândalo envolvendo o Senado, cujos membros são indicados pelo primeiro-ministro. Parece que, em 2012, um senador (já demitido e respondendo a processo) teria recebido um reembolso de despesas ilegal, na exorbitante quantia de… tcharammm… 90 mil dólares. A reação popular, ao invés do clássico “político é tudo ladrão”, foi o início de uma conversa sobre extinguir o senado inteiro, conversa tão séria que tem apoio de 41% da população!

Neste ponto o Brasil está anos-luz à frente. 90 mil dólares não enchem cueca de nenhum deputado brasileiro.

Por sinal, parece que os deputados daqui ralam bastante e são bem próximos da população. Outro dia fui andar com meu cachorro às 6:30 da manhã, escuro ainda, num frio de 10 graus, e um cara me ofereceu um santinho do candidato democrata aqui do bairro. Quando fui ver, quem me entregou o santinho foi o próprio candidato. 

Mas fica fácil entender por que isso acontece por aqui quando você entende…

O sistema eleitoral canadense: cada voto vale muito.

Aqui rola o chamado voto distrital: cada distrito (aqui chamado de riding) elege um candidato. Como eu moro numa das cidades mais populosas do Canadá, o meu riding é mais ou menos do tamanho do meu bairro. O meu “deputado federal” vai ser o deputado do meu bairro. Achei massa isso.

riding é proporcional à população e não tem voto de legenda ou primeiro e segundo turno: é maioria simples. Isso significa que eleger alguém com, sei lá, 30% dos votos é bem possível. Significa também que rola voto estratégico para evitar o “desperdício” de votos e derrotar a oposição.

Com a eleição chegando, o bairro se enche de plaquinhas dos candidatos nos gramados em frente às casas – que, obviamente, só podem ser colocados pelo dono da casa. Se você nao apoia ninguém, pode dar aquela zoada:

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Outra coisa que me surpreendeu: aqui não rola de “chutar o cavalete do candidato da oposição”. Destruir propaganda eleitoral é crime federal.

O governo facilita muito a vida do eleitor canadense. Esse ano o Canadá bateu o recorde do chamado “voto adiantado”: se você não quiser esperar até o dia da eleição, o “TSE canadense” permite registrar e votar durante quatro dias na semana anterior ao dia oficial da votação, pra facilitar a vida de quem trabalha em horários malucos ou só pode ir no final de semana. Se você estiver fora do seu riding (o seu “distrito” eleitoral) ou até fora do país, é só se registrar que o TSE te manda um kit pra você votar pelo correio.

No entanto o voto não é obrigatório, então grande parte da propaganda política não é focada no “vote em mim”, e sim no “vá votar”. O turnout da última eleição foi em torno de 60% e esse número tem tendência de queda. E aparentemente, o que decide a eleição é exatamente isso: quem vota ou deixa de votar. Pelo que andei vendo, o governo conservador atual só está lá porque quem se interessa por política é o canadense conservador, mais velho, e como eu li na mídia outro dia, se a “geração do celular” for votar, o Harper perde.

A cobertura das eleições na mídia, por sinal, me pareceu esquisita no começo. Meio “sem sal”, como se estivesse faltando alguma coisa. Só depois de um tempo é que percebi que, na verdade, eu estava é estranhando a transição do “jornalismo com posicionamento político”, ao qual eu fui exposto à vida toda, para o “jornalismo neutro” daqui. O apoio a um ou outro candidato, quando rola, é feito só na base do editorial.

Mas quem vai ganhar?

As últimas pesquisas apontam vitória liberal, então provavelmente vai dar Aécio Nev… digo, Justin Trudeau 🙂

Mas o mais legal é ver como o país é dividido: a imagem abaixo mostra cada distrito com a cor do partido que está liderando as pesquisas. O que deve dar a vitória pro Trudeau não aparece muito no mapa, mas é o voto dos grandes centros urbanos: repare em como Vancouver (na costa oeste) e Toronto (no sudeste, no meio de um monte de distritos azuis) estão vermelhinhas.

polls

 

No meu bairro – predominantemente pobre, negro, de imigração caribenha/africana e religião islâmica (!!), o candidato liberal, um imigrante senegalês de nome árabe (?!??) lidera com quase 50% dos votos. Eu queria muito encontrar ele na rua pra bater um papo sobre as propostas do partido, mas não rolou.

O show do Godspeed You! Black Emperor

Pausa nas sagas sofridas do meu estágio canadense (spoiler: tá um saco) pra contar uma coisa muito, muito boa: o show do Godspeed You! Black Emperor de sábado passado.

Preâmbulo: show de quem?

“Saco, lá vem ele falar dessas músicas esquisitas”, você está aí pensando que eu sei. Então eis aqui uma pergunta: você é apaixonado por alguma coisa? Pelo Galão Doido da Massa? Pelo seu carro? Pela sua mulher? Por um livro que putaquepariu cara esse livro explica a VIDA, mano? Claro que é. Tem alguma coisa aí que tu curte pra caralho. A minha é música, particularmente a música que sai do lugar comum e explora um lado inédito, mesmo que esquisito, dessa coisa maluca que é descrever coisas indescritíveis empilhando frequências sonoras.

O Godspeed You! Black Emperor faz isso, e faz usando um som absolutamente colossal, uma massa enorme de fúria composta por três guitarras, dois baixos, duas baterias e uma mocinha tocando violino no meio de tudo. Os guitarristas tocam sentados porque precisam usar os dois pés pra operar suas pedaleiras – e com isso eles conseguem conjurar um som único, uma espécie de leviatã guitarrístico sobrenatural. “Storm”, a faixa que abre o álbum “Lift your skinny fists like antennas to heaven” é uma das músicas mais bonitas que já ouvi.

Nenhuma banda no mundo soa como eles. Eu descobri a banda em 2005, e pra variar dei azar: eles estavam numa espécie de hiato, sem fazer shows ou lançar música nova. O hiato só acabou em 2012, quando veio do nada um (premiado) álbum novo. E esse ano eles não somente lançaram outro álbum como também botaram o pé na estrada pra tocar. E um detalhe muitíssimo importante: eles são canadenses.

Aí esse ano eu tinha tudo pra dar sorte: morando no Canadá, com a banda ressuscitada e fazendo turnê. Mas, como de costume, não alimentei expectativa nenhuma. Até que em julho, o Songkick – um site que te manda alertas de shows das bandas que você curte – mandou o email que eu esperava há décadas.

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O show

É claro que precisamente às dezenove horas eu já estava dentro do Danforth Music Hall, bebericando minha cerveja de R$ 301 e morrendo de expectativa.

Duas horas de espera depois, começa o ritual: sem anúncio nem nada, os caras vão entrando, um a um, pegam os instrumentos e começam a fazer o que aparentemente convencionou-se chamar de “hope drone”. Sabe quando a orquestra tá afinando os instrumentos e eles sempre tocam aquela mesma coisa no começo do espetáculo? “Hope drone” é todo mundo da banda esmerilhando os instrumentos e criando uma massa elétrica de ruído absolutamente delicioso por alguns minutos, enquanto quatro projetores Super8 passam rolos de filme semidestruído atrás do palco onde é possível ler apenas uma palavra: “hope”.

Um comentário sobre o ruído: antes do show começar, eu comecei a olhar em volta e todas as pessoas ao meu redor estavam usando protetores auriculares. Honestamente, nem precisou: o show foi muito alto, mas nada fora do comum. E fica aqui o meu abraço pro engenheiro de som, que acertou magistralmente a mão. Há tempos eu não ia num show com acústica tão boa (e não tem nada mais irritante do que ver músicos brilhantes serem assassinados por uma acústica ruim). Eu me lembro de um momento onde os guitarristas tocavam com chaves de fenda, o baixista usava um arco de violoncelo em um dos pratos da bateria, os bateristas esmigalhavam os bumbos, uma bola de dissonância ensurdecedora, mas dava pra ouvir tudo. Aí a banda parava inteira e o guitarrista solo começava um dedilhado baixinho, e o silêncio era tão perfeito que dava pra ouvir a bartender, no fundo do teatro, colocando uma moeda na jarra das gorjetas. Foi mágico. Em termos de som, nesse sábado deu tudo certinho.

De fato, tudo deu certo nesse show. A começar pela primeira música: para surpresa minha e de todos, Storm. Total “gentileza canadense” da banda. Um cara na plateia ainda gritou: “Thank you!!!!!” e todo mundo caiu na risada. E caras… Storm ao vivo. Eu podia morrer ali naquela hora, cabou, a minha existência estava completa, tudo soou alto e lindo e épico exatamente como eu sempre imaginei que soaria. A sequência das músicas do show também foi perfeita, porque eu mal me recuperava de Storm e eles entram com “Peasantry”, a primeira música do último disco, onde o leviatã das guitarras diz o riff mais “agora a porra ficou séria” de toda a história da banda. E teve música nova (!!!), e depois música velha, e no meio do show eles param tudo e o Moya (o guitarrista) entra com “Moya” (a música), que é praticamente o hino não-oficial do Canadá. Foi de chorar. Gritaram “thank you” da plateia de novo e tudo.

Até o final do show foi perfeito. Lá pelas duas horas de barulheira, do mesmo jeito que entraram no palco, sem alarde, os caras começam a abandonar os instrumentos, um a um. A plateia fica lá, estática, enquanto por algum motivo o palco ainda está elétrico, fazendo barulho sozinho. Então um dos bateristas volta e, solenemente, começa a desligar os amplificadores2, um por um. Não teve bis, ninguém pediu, não precisava.

(1) CAD$ 9, mais $1 de gorjeta, mais dólar canadense a R$ 3,00…
(2) Um deles tinha, bastante apropriadamente, uma bandeira canadense de ponta-cabeça.

A saga do primeiro estágio canadense

A principal razão que orientou a minha escolha de faculdade aqui no Canadá não foi qualidade de ensino (que nem tá aquelas coisa toda), e sim a perspectiva de voltar logo pro mercado de trabalho. Foi por isso que escolhi um curso que alternava entre semestres de estudo e do tal “co-op”, que é um semestre onde você faz estágio em alguma empresa. A treta é tão séria que a preparação pro co-op é assunto de uma das matérias do curso, com professor e nota e tudo.

Imagina, cara. Eu, já tendo um bacharelado no currículo, anos de experiência de trabalho, e morando num lugar onde tem Google, IBM, Microsoft, Amazon e um monte de empresa massa pra estagiar… eu não via a hora de chegar a hora do co-op.

Acontece que a minha procura por estágio foi mais ou menos assim…

tumblr_nr7uzhXSkQ1s2yegdo1_250Parte 1: De como fui indicado pra uma vaga no Google

 

Logo que começou a procura por trabalho eu não quis nem saber e comecei mirando alto: pesquisei as empresas onde eu queria trabalhar e fui descobrir como estagiar nelas. Naturalmente, a primeira empresa da lista era a primeira de 11 entre 10 engenheiros de software: o Google. Mas eu sabia que simplesmente jogar meu currículo no RH deles não seria suficiente, então tentei apelar para o meu networking e, sem o menor pudor, acionei tudo que era contato do Google que eu tinha no LinkedIn e demais redes sociais.

A chance era mínima, mas deu certo – um antiquíssimo conhecido do Twitter (sempre o Twitter!) encaminhou minha indicação e o RH de lá entrou em contato comigo. Fiquei empolgadíssimo.

A empolgação durou só uns três emails, onde eu e a mocinha do RH tivemos mais ou menos o diálogo a seguir:

– Recebemos o seu currículo, mas as vagas de estágio são para quem está cursando um bacharelado.
– Eu sei – respondi, cordial. O meu curso atual me dá como título um “advanced diploma”, mas eu já sou bacharel em Ciência da Computação, então creio que eu mais do que satisfaço as condições para esta vaga.
– Sim, mas as vagas são só para quem está em um curso que concede um bacharelado no fim.
– Entendo – insisti eu. Mas veja bem, eu já tenho o título de bacharel. Na verdade, no final do meu curso eu vou ter mais do que o que você pede pra vaga.

É claro que não deu certo. Mas não desanimei, afinal, na paralela do Google eu estava uma metralhadora de currículos, aplicando pra tudo que era vaga de desenvolvimento de software que eu via pela frente. Era questão de tempo até começarem a aparecer as entrevistas, pensava eu.

Parte 2: O silêncio do inbox

Todo dia, depois da aula, eu chegava em casa, pesquisava as vagas de estágio, separava as que interessavam, editava meu currículo para cada uma delas e escrevia uma carta de apresentação para cada uma delas – e só após passar uma ou duas horas pesquisando sobre a empresa na internet para personalizar a carta e demonstrar o maior interesse possível.

Enquanto isso, meus colegas iam recebendo os convites pra entrevistas. “É questão de tempo, daqui a pouco vão me ligar”, pensava eu. Os meus colegas começaram a ser contratados pras vagas onde fizeram entrevistas. Eu continuava mandando currículos, às dezenas, e… nada.

Algo errado com meu currículo, talvez? Não podia ser: ele foi formalmente avaliado pela “professora” do curso de co-op e eu tirei a nota máxima tanto pra ele quanto pra minha carta de apresentação. De fato, ele tava fuderoso: tinha meu GPA(1) altíssimo, tinha meu site, meus projetos pessoais, tinha minha experiência profissional canadense, tava lindão. Ainda assim marquei uma segunda reunião com a professora pra reavaliar o CV e ela continuou falando que tava bom. Os meus colegas contratados também revisaram meu material e também ficaram sem entender por que não me ligavam pra fazer entrevista. “Você é mais bem preparado que eu pra essas vagas”, disse um deles.

Um dia, tarde da noite, frustrado, abri meu currículo pela décima nona vez e, no meio da trigésima sétima revisão, me bateu um palpite bem maldoso. Mas achei que valia a tentativa. Decidi tirar duas coisas do CV:

  • O link pro meu site pessoal
  • O local onde fiz faculdade fora do Canadá – ou seja, tirei a palavra “Brasil” do CV.

Subitamente, o telefone começou a tocar e as entrevistas começaram a aparecer. Chegou ao ponto de me ligarem até depois que eu tinha sido contratado. Eu quero muito crer que a culpa era do meu site, e não do meu país de origem, mas acho que jamais saberemos…

Parte 3: As entrevistas

Ah, as entrevistas. Teve de tudo: tive que debugar scripts PHP no “bloco de notas” de um Mac com teclado desconfigurado, tive que escrever função recursiva pra imprimir árvore binária no campo de chat de texto do Skype, tive que programar à lápis em papel… e teve também as cagadas, tipo quando uma das entrevistadoras me perguntou:

– Que sites você lê pra se manter atualizado sobre tecnologia?
– Bem, eu leio bastante coisa. Atualmente eu ando acessando muito o Hacker News

Mas ao invés de encerrar aí a resposta, eu fui tentar bancar o bonitão:

– …mas esse é bem comum, todo mundo lê.
– Pelo visto eu não sou “todo mundo” – respondeu a entrevistadora, com uma justificadíssima cara de cu.

Lá pela quarta ou quinta entrevista eu, finalmente, fui pegando o jeito. Mesmo porque o semestre de aulas estava acabando e eu precisava arrumar um estágio. O sarrafo de seleção de vagas já tava lá embaixo: eu tava mandando CV até pras vagas de – gasp! – gerente de projeto. E então, finalmente…

Parte 4: A contratação

No último post eu comentei que tenho um lema de vida de que: “expectativas levam à desapontamentos”. Lembra de quando eu comecei a caçar meu co-op, que eu tava pensando em Google e IBM? Acabou que nenhuma empresa quis me contratar.

A única vaga que me ofereceram foi no serviço público, numa divisão do Ministério da Justiça de Ontario. Em circunstâncias normais eu jamais mandaria meu CV prum lugar desses, mas a vaga pedia gente com experiência em desenvolvimento web, então lá fui eu, com a esperança de que pelo menos um Javascriptzinho eu ia fazer.

Como desgraça pouca é bobagem, eu ainda tive a desagradável surpresa de pedir pra minha futura chefe detalhar um pouco mais as responsabilidades da vaga, e eis que me chega uma lista que incluía coisas do tipo:

  • Instalar e configurar as impressoras da equipe
  • Manter o inventário dos equipamentos
  • Realizar manutenção dos cabos e equipamentos de rede, etc

Eu comecei meu semestre falando com o RH do Google e terminei prestes a virar instalador de Windows.

larrymossExpectativa (esq.) vs. realidade (dir.). De fato, meu cabelo tá mais parecido com o do Moss…

Parte 5: o fim?

Talvez vocês tenham a impressão que eu tou mais fudido que a Dilma, que tá tudo dando errado e que tou chorando até dormir todo dia. Mas é exatamente o contrário. Se segura pro momento filosófico do post.

Aquele papo de “expectativa leva ao desapontamento” parece papo de pessimista, mas na verdade tem um viés inacreditavelmente positivo, que é o de tirar a sua cabeça do futuro (ou do passado) e botá-la de volta onde importa, que é o presente. Sonhar em estagiar no Google não adianta nada. Arrumar alguém pra te indicar pro Google é que pode fazer toda a diferença. No meu caso não fez, mas mesmo assim eu colhi vários efeitos colaterais da minha mini-obsessão em descobrir como as empresas contratam desenvolvedores. Descobri que tem um monte de empresa que imita o processo do Google. Descobri até que tem livros especializados em preparação para entrevistas de vagas para programadores. Pro meu próximo semestre de co-op, ao invés de chegar esperançoso, eu vou chegar é muito mais bem preparado.

Outro ponto importante é que, depois de levar muita porrada da vida, a gente aprende que sofrimento e infelicidade são duas coisas completamente diferentes. Eu já comentei aqui da Marina Abramovic, que diz que “você não cresce quando está fazendo o que gosta”. Quando fiz todo esse meu movimento de largar tudo e vir pro Canadá recomeçar uma carreira inteira eu não tinha expectativa de que seria fácil. E eu não alimento ilusões de que vai dar certo, por mais que eu trabalhe duro sempre tem um elemento fora do seu controle(2) e não tem nada que você possa fazer se a vida escolher não sorrir pra você. E no fim dela, ainda por cima, você vai estar morto. Então a única alternativa é extrair satisfação do seu próprio esforço, dar o seu melhor todo santo dia, e o que vier daí é isso mesmo, bom ou ruim.

Mesmo porque de vez em quando vem coisa boa. Por exemplo: esta semana eu comecei o meu bendito estágio de servidor público e – surpresa! – eu tou autorizado pela minha chefe a recusar demandas de TI, porque eles contrataram um help desk terceirizado justamente pra isso e querem usar meu tempo pra projetos mais interessantes. Mas, como de costume, não vou criar muita expectativa 🙂

Posfácio: Deus abençoe a Rainha

Como governo é igual em todo lugar do mundo, hoje é quarta e ainda não terminaram toda a papelada da minha contratação. No entanto já passei por uma etapa bastante importante: diante do meu gestor e de duas testemunhas, eu, solenemente, proferi o seguinte juramento de lealdade:

Eu juro que serei fiel e portarei lealdade verdadeira à Sua Majestade Elizabeth II, Rainha do Canadá, e seus herdeiros e sucessores. Com a graça de Deus.

Sem brincadeira. Isso foi, sem dúvida, a coisa mais fantástica de toda a minha carreira profissional.

(1) GPA significa Grade Point Average – a média das suas notas. A minha é altíssima: 4.3, de um máximo de 4.5. Se eu me formar com essa média eu me formo com “high honors”, inclusive.

(2) Essa semana mesmo, para a mais profunda ironia do destino, deu na imprensa que o Canadá entrou em recessão. Saí da frigideira pra cair na fogueira 🙂

A saga do demo

Antes de sair falando da saga (que, obviamente, é de trabalho) eu preciso contar que, sim, além de estudando eu já tou trabalhando. Mas vamos começar do começo…

Parte 1: Meu primeiro emprego canadense (ou: o menor networking do mundo)

Apesar do meu visto de estudante, o governo permite que eu seja contratado por meio período, e naturalmente eu não ia ficar sossegado só assistindo aula – especialmente com o dólar do jeito que tá. Então, logo que meu semestre começou, comecei eu a procurar um emprego part-time.

Graças ao Twitter (sempre ele!) eu vi que a própria faculdade tinha uma vaga para desenvolvedor web. Mandei meu currículo e me chamaram pra uma entrevista. Como era a minha primeira candidatura a trabalho e ela já tinha dado em entrevista o gênio aqui se empolgou e achou que ia ser moleza conseguir o trabalho, já que no Brasil eu passei numas três entrevistas seguidas antes de me mudar pra cá.

É óbvio que não deu certo. Eu estava craque em entrevistas, é verdade, mas em entrevistas na cultura brasileira e para vagas que não eram técnicas. Aí me botaram numa sala com um cara de nome (e sotaque) russo e o maior semblante anal que já vi. Eu não me abalei e comecei a falar dos meus projetos e de como eu aprendo rápido e de como eu resolvo pepinos com clientes difíceis, até que o Serguei me pergunta, sem a menor cerimônia:

– Mas você sabe pra que serve a tecnologia que estamos usando neste projeto?

No dia seguinte chegou o emailzinho dizendo que eu não tinha passado.

Mas acontece que na minha sala tem outro brasileiro. Gente finíssima, paulistano, super tímido, com o inglês ainda bastante travado, mas genial em termos de código. A entrevista dele, pra mesma vaga, foi logo depois da minha. Coincidentemente, na mesma hora que recebi o e-mail da recusa do emprego, ele recebeu o de aprovação. Achei merecidíssimo, baixei minha bolinha e concluí que estou começando mesmo tudo de novo, do zero. Meu inglês fluente, meu PMP, minhas décadas de experiência profissional valem aproximadamente jack shit.

Algumas semanas depois e eis que no apito do WhatsApp chega uma mensagem do meu amigo brasileiro, dizendo que um dos outros estudantes do projeto pediu demissão e ele me indicou pra vaga. Como no curso a gente fez vários trabalhos em grupo ele viu que, de fato, eu mando bem. E pelo que ele sondou, aparentemente eu causei uma boa impressão durante a entrevista, mas o Serguei não acreditou que eu era bom pra programar e por isso não me escolheu pra vaga.

E foi assim que o meu networking canadense, composto por apenas UMA pessoa, me deu meu primeiro emprego. Nunca fiquei tão feliz por ganhar um salário mínimo.

Parte 2: de como os deuses do PMI estão me punindo

Cheguei empolgadíssimo pra minha primeira reunião de trabalho, segunda-feira, de manhã, tudo certinho conforme o clichê. Pelo que entendi do email do Serguei(1), a reunião era pra eu conhecer o resto do time de projeto e me ambientar com o trabalho. Resumidamente, o projeto é um site pra área de saúde, envolvendo hospitais, médicos e pacientes numa plataforma online para atendimentos virtuais.

Mas eu só sei disso por conta própria, porque ninguém me contou. Não é atoa que eu digo que “expectativas conduzem a desapontamentos”. Pra vocês entenderem, a reunião foi mais ou menos assim:

  • Serguei me introduziu ao projeto com uma explicação resumida sobre o escopo do trabalho, o cliente, o que deveríamos fazer e como o projeto estava estruturado. Esta explicação resumida foi composta por apenas uma palavra: “welcome”. Eu JURO pra vocês que isso foi tudo que ele me disse.
  • Depois desta calorosa introdução, o time entrou diretamente numa discussão das próximas funcionalidades que deveríamos entregar. A primeira surpresa já veio logo daí: nenhum sinal das avançadas tecnologias que discutimos na entrevista e que o Serguei esfregou na minha cara; agora o trabalho envolvia o Drupal, um antiquado – e extremamente complexo – sistema de gestão de conteúdo. Pra vocês entenderem do que se trata, quando contei que estava trabalhando com Drupal, uma das minhas antigas gerentes de projeto do Brasil respondeu, em seu inigualável sotaque recifense:

Mai tu gosta é de sofrer, num é mestre?

Como diria um outro colega nordestino, Drupal é bom, mas morrer queimado é muito melhor.

E a gente precisa desenvolver em cima dum site que já existe. E que não tem documentação. E que não tem servidor de teste (a gente usa as nossas próprias máquinas e um repositório gratuito do Bitbucket). E também não tem documentação do que o cliente quer: o que a gente recebe são e-mails de uma linha e layouts em JPG. Uma vez eu tentei discutir as funcionalidades nas reuniões com o cliente pra entendê-las melhor, e o pessoal começou a mudar os layouts durante a reunião, então achei melhor desistir.

Mas o pior não é isso. O pior é que o projeto não tem líder. O Serguei basicamente encaminha os emails do cliente pra gente e fala: “faz aí”. Aí a gente levanta os riscos técnicos, questiona sobre escalabilidade, fala que pra fazer isso no Drupal tem que ser meio que na gambiarra, e ele fala pra “não preocupar com isso”. É tipo o cliente querendo uma mansão e ele falando pra gente botar uma lona no teto em vez de fazer um telhado. Outro dia eu descobri, por acidente, que tem uma segunda equipe de programadores fazendo uma outra versão do site, para celulares/tablets. Eu não tenho a menor ideia de quando o projeto vai pro ar. Na verdade eu não tenho a menor ideia se o projeto está ou não no ar.

Isso possivelmente são os deuses do PMI me punindo por aquele post de 2011, porque agora o que eu mais queria é um bom gerente de projeto me socorrendo e apontando pra onde esse projeto tá indo(2). Durante o trabalho eu até tive contato com um cara que é “assistente de projetos” – pelo menos é o que diz a assinatura do email dele, porque a gente nunca foi formalmente apresentado e ninguém me explicou o que ele faz no projeto, apesar de ele estar em todas as reuniões. Ele é bem sorridente, esse cara. Acho importante isso.

Além dos sorrisos, em toda reunião ele me pergunta como anda a papelada da minha contratação e diz que logo logo tudo vai estar resolvido. Porque, acredite ou não, tem mais de um mês que estou trabalhando e ainda não recebi meu primeiro salário 😉

Parte 3: O dia da demo (ou: parabéns, você ganhou uma camiseta)

Eu escrevi essa papagaiada toda aí em cima só pra contextualizar o que eu queria realmente contar, que é o seguinte.

Eis que numa das reuniões com o cliente ele menciona que vai rolar um evento de inovações na área de tecnologia para medicina. Uma feira, onde ele vai ter um stand pra divulgar o site. Naturalmente, nas reuniões de projeto, o pessoal começou a discutir que funcionalidades precisariam estar prontas para que fosse possível fazer uma demo do site nessa feira. Como a treta era séria, eu mesmo fiz questão de pular em frente ao flip chart durante as reuniões e escrever, certinho, o que iríamos demonstrar na tal demo. Eu também provoquei uma reunião entre o nosso time o time da versão mobile do site pra evitar sobreposições de trabalho. Como era de se esperar, Serguei respondia todas as minhas perguntas sobre a demo com algo parecido como “a gente dá um jeito”, então optei por me preocupar em resolver os problemas do Drupal e deixar ele se estapear pra lá com o cliente.

A feira estava programada pra acontecer em Richmond Hill – o equivalente a Barueri (para os Paulistanos), ou Nova Lima (para os belorizontinos), e obviamente ela era bem no dia em que eu tenho aula o dia todo, e obviamente ela era bem no meio da semana das midterms (as provas cabeludas do meio do semestre(3)). Como o Serguei não disse que a gente “precisava” ir à feira, eu desencanei. Aí, faltando uma semana para o dia D, eis que o Serguei começa a mandar emails pedindo confirmação se a gente ia ou não, e então eu subentendi que ele estava subentendendo que a gente é que iria demonstrar o sistema na feira.

Até aí tá fácil. O que deixou a coisa realmente emocionante foi o seguinte:

  • No domingo anterior à semana da feira, eis que chega um emailzinho com uma nova home page pra gente enfiar no site…
  • Paralelamente a tudo isso, meu colega brasileiro, também insatisfeito com o Drupal, resolveu levantar a bola de que ele não é a melhor ferramenta pra gente usar no site. Como alternativa, ele propôs redesenvolver tudo num framework mais moderno, que ele andava estudando. Pra provar que era possível, o maluco refez o site inteiro em três dias usando o framework novo. Até aí tudo bem – eu mesmo adoraria jogar fora o Drupal e usar um framework apropriado – mas acontece que no processo de convencer a turma a sair do Drupal ele fez um videozinho mostrando como tudo tava funcionando no framework novo e mandou pro Serguei… que encaminhou o vídeo pro cliente dizendo “ei, veja tudo isso que já tá pronto!”.

Resultado: às vésperas da demo eu tinha que lidar com a nova home page no Drupal sozinho, porque meu colega estava ocupado com a nova paixão do cliente: o bendito vídeo. Os pedidos de ajuste no vídeo vinham do cliente e o Serguei nos mandava emails pedindo a “nova versão”do vídeo – sem falar o que o cliente tinha pedido. Típico do Serguei. Às vésperas da demo eu e meu colega brasileiro, ao invés de programar ou testar, estávamos gravando simulações de atendimento online onde ele, usando um jaleco emprestado do laboratório, simulava que era um médico enquanto eu fingia ser um paciente. Ou seja, estávamos, literalmente, brincando de médico.

E então chegou o dia da feira. Os últimos ajustes do site foram salvos por mim às seis e vinte da manhã, enquanto eu comia meu cereal matinal às pressas, depois de dormir por umas três ou quatro horas. Na véspera eu, além de estudar pras provas, separei minha melhor roupitcha social pra ir lá pra feira esbanjar simpatia pros clientes do meu cliente.  Eu queria que tudo estivesse perfeito. Eu ainda não recebi sequer o meu primeiro salário.

Aí a gente chega na feira e… bem, digamos que foi então que eu decidi escrever este post, porque a sequência de caos foi inacreditável.

Logo que chegamos na feira fomos direto ao stand do cliente. Eu já ia tirando o laptop da mochila quando ele me cumprimentou e disse:

– Gente, muito obrigado pelo vídeo. Eu vou deixar ele rolando neste monitor aqui, vocês podem aproveitar a feira. Divirtam-se!

…e então eu entendi que ele não queria que a gente fizesse demo nenhuma, e que ele decidiu usar o vídeo (que era só uma prova de conceito de uma nova tecnologia) pra demonstrar o site.

Algum tempo depois chegou um dos caras do outro time (o do site mobile). Pela mobilização do Serguei, parecia que todo mundo de todos os times (umas nove pessoas) ia pra feira. Só chegou eu, meu colega e esse cara. Quando eu contei que não teria demo nenhuma ele não acreditou, e teve que ir falar com o cliente pra confirmar. E quando ele sacou que não tinha absolutamente NADA pra gente fazer na bendita feira, ele naturalmente saiu à francesa.

Instantes depois, chega Serguei, atrasado e fedendo a cigarros. “Desci no ponto de ônibus errado”, diz ele. Logo depois surge a chefe do Serguei  – uma senhorinha de ar absorto, que eu nunca havia conhecido pessoalmente até aquele instante – e pergunta pro Serguei:

– Ué, cadê sua gravata?

Lembra que eu separei minhas melhores roupas sociais pra feira? Serguei estava vestido de calça jeans, tênis e uma daquelas camisetas com coisas escritas em inglês que vendem na seção de roupas do Extra Hipermercados.

Serguei pediu licença pra ir falar com o cliente e a chefe dele vira pra mim e pro meu colega brasileiro e fala: “vocês já ganharam as camisetas?”

Enquanto olhávamos um pro outro, perplexos, ela tira da bolsa duas camisetas da faculdade e entrega pra gente, àquela altura bem mais perplexos.

Algum tempo depois chega um email do Serguei, dizendo que teve que sair às pressas porque um servidor de um outro projeto tinha caído. Na sequência, chega um email da chefe do Serguei dizendo pra gente: “imagino que vocês vão ficar até o final do evento”. Mas é claro! Especialmente depois de ganharmos uma incrível camiseta.

Fomos embora pouco antes do almoço, depois de ver umas palestras esquisitas(4). Na saída, a surpresa final: encontrei, sozinho, perdido na plateia, o “assistente de projetos” do projeto. De sapatos, calça social… e com a camiseta da faculdade por cima da camisa.

(1) Cara, eu realmente estava com saudade de usar pseudônimos.
(2) Aí você pergunta: “mas você é gerente de projetos! Por que não assume isso?”. E eu respondo que, honestamente, eu estou me segurando pra não pular na frente da porra toda e começar a organizar o projeto. Mas se eu fizer isso (porque eu posso) eu vou deixar de fazer o que eu quero. E eu atravessei o mundo pra perseguir o que eu quero, e não o que eu posso.
(3) Eu não contei, mas fazer faculdade no Canadá é muito mais puxado que no Brasil.
(4) Embora esquisitas e meio verborrágicas demais (muito papo, pouco resultado), todas as palestras do evento foram incrivelmente pontuais. Eu fiquei fascinado: na palestra das nove da manhã o palestrante dizia “good morning”, exatamente às nove, nem um minuto a mais. E na hora do “thank you” final, o relógio marcava exatamente o horário de término.

Impressões sobre a mídia canadense

Recentemente me toquei que este foi meu primeiro ano sem ouvir falar em Big Brother e sem ouvir a bendita musiquinha da Globeleza – o que me lembrou que não comentei nada sobre a tevê canadense até agora.

Mas isso é fácil: basta dizer que a mídia daqui é tão esquisita que chega a ser fascinante.

Os canais abertos: TV para a terceira idade

A sensação é que o público-alvo da tevê aberta por aqui é apenas de pessoas de mais de 60 anos, porque toda a programação tem uma vibe senil, de final de domingo. Os game shows estilo Programa Sílvio Santos estão em toda parte, de segunda à sexta. O Wheel of Fortune, de onde nasceu o “Roletrando”, passa até hoje. No domingo de manhã a CBS tem um programa chamado “Sunday Morning” que parece que está sendo transmitido diretamente de 1986. Sente o drama:

A coisa só moderniza no final do dia, quando o público jovem volta do trabalho/escola e as séries estilo canal Sony dominam a faixa das 8 às 10 da noite.

As notícias são mais ou menos como no Brasil: passam de manhã, no fim do dia e no late night (10 da noite, já que o povo janta às sete). As notícias da manhã são, obviamente, totalmente concentradas no clima; de dez em dez minutos tem previsão do tempo. E, acredite, precisa mesmo.

Quanto aos esportes, bem… para um país com tanta liga profissional de tanto esporte diferente, achei que fosse vê-los todo santo dia. Mas, surpresa: passa bem pouco esporte na TV aberta, possivelmente porque o cabo paga caro pela exclusividade de vender pacotes com a transmissão dos jogos. O torontoniano que quer ver o Maple Leafs na NHL, por exemplo, tem que desembolsar 130 dólares pra comprar o half-season pass, e ainda assim não terá direito a ver os jogos jogados em Toronto. Não duvido que num futuro não muito distante no Brasil isso passe a acontecer…

 A TV a cabo: tudo e nada ao mesmo tempo

Sobre a TV a cabo não tenho como opinar direito. A assinatura é muito cara e não compensa, portanto aqui em casa assistimos apenas os canais abertos e o resto é Netflix e demais streamings via Roku. Mas tive uma amostra da TV a cabo nos primeiros dois meses da mudança, quando morei nos AirBNB da vida. A programação me pareceu, obviamente, menos senil, mas como em todo cabo você é obrigado a pagar por canais estapafúrdios, como o The Fireplace Channel – que, sim, é apenas a imagem de uma lareira, 24 horas por dia.

A modinha dos reality shows continua firme e forte, chegando às vezes a uns extremos do tipo “Master Chef com criancinhas” (é sério) ou o assustador Beyond Scared Straight: crianças rebeldes que querem crescer e virar gangsters são levadas à prisões de verdade e colocadas com criminosos reais, que fazem a maior cena pra matar as crianças de medo de ir pra cadeia. É tortura psicológica feita com o consentimento dos pais, do Estado e explorada comercialmente na tevê. Achei triste.

Os inacreditáveis comerciais da América do Norte.

Meu amigo, minha amiga, nada poderia me preparar para os intervalos comerciais daqui. Pra começo de conversa, mais da metade das propagandas é de serviços de advocacia duvidosos estilo Better Call Saul, com propagandas cheias de trocadilhos hilários tipo “Don’t wait, call 888-8888!” ou o meu preferido: “hurt in a car? Call William Mattar!”.

Aí vem as propagandas de remédio que, aparentemente por alguma questão jurídica, são obrigadas a conter uma enorme lista de efeitos colaterais e alertas que transformam os comerciais em inacreditáveis shows dadaístas: os atores estão lá, vivendo sua vida tranquila, passeando de barco no pôr-do-sol, e o narrador falando que o remédio pode causar úlceras, tontura, degeneração óssea, convulsões e morte.

Já no cabo o nível das propagandas melhora por um lado e piora por outro: a boa notícia é que você esbarra com exemplos notáveis de boa publicidade que há muuuuuuuuito tempo eu não via, como essa propaganda de whiskey.

A má notícia é que o cabo inclui anunciantes locais, e parece que a galera dos canais não tem nenhum pudor (ou controle de qualidade) pra passar coisas tipo o cara que compra ouro:

E as piratarias?

Bom, aqui e nos EUA tem aquelas histórias dos estúdios de Hollywood processando pesado os piratas e tal. Como eu sempre faço tudo certinho nunca me preocupei com isso.

Até que um dia eu fui ver o Game of Thrones novo – tudo certinho, usando a assinatura da HBO que comprei pelo Sling.tv – e tava tudo congestionado e não consegui assistir. Aí fiquei meio revoltado e baixei o episódio pelo torrent. Baixei com a consciência tranquila, afinal eu paguei pelo bendito conteúdo.

Dois dias depois recebi um email do provedor com o assunto “copyright infringement”. Lição aprendida…

Vida de estudante

Acabou que eu ainda não falei nada sobre a minha nova vida como calouro de faculdade.


‘Hello! My name is…’

Toronto é a cidade mais multicultural do mundo, e a faculdade onde estudo é famosa por acomodar muitos estudantes internacionais. Resultado: na minha sala 70% dos colegas são indianos, uns 20% são asiáticos e nos 10% restantes tem gente de lugares bem incomuns como a Guiana ou Barbados. E dois brasileiros – contando eu.

Isso gera um problema sério quando você tenta decorar os nomes dos seus colegas e eles se chamam (exemplos reais):

  • Guashti
  • Krutika
  • Jaswinder
  • Amrita
  • Divyeshkumar
  • Ashish

No caso do ‘Ashish’ eu sempre levo um susto na hora da chamada porque acho que o professor está falando de drogas.

Pra simplificar um pouco, os professores costumam perguntar se a pessoa prefere usar um nickname em inglês. Aí a chinesa que se chama “Yi Won He” vira “Becky”, por exemplo. E como é você que escolhe seu próprio nickname sempre tem aquela pessoa que se empolga. Tipo um indiano da minha turma de College Communications: o professor perguntou qual nickname ele queria usar e ele não pensou duas vezes.

– Pode me chamar de “Jewel”.
– Err.. você quis dizer “Joel”? – pergunta o professor, confuso.
– Não não. “Jewel”.
– Ah, “Jewel” tipo… pedras preciosas?
– Isso mesmo.
– Bem, não sei se você sabe, mas “Jewel” é um nome feminino… se você achar melhor pode escolher um outro.
– Não, eu quero “Jewel” mesmo. Eu gosto de coisas brilhantes e valiosas.

Essa história dos nomes, além das piadas, rende também um conhecimento extra sobre geopolítica. Por exemplo: tem um monte de indianos com o sobrenome “Patel” – que é tipo o “Silva” da Índia. Outro dia perguntei a dois deles se eles eram parentes (de zoeira) e eles ficaram meio incomodados. O motivo é que, segundo eles, nenhum “Patel” quer ficar na Índia. Aí eles tentam imigrar para os EUA e rola um boato forte que se o consulado americano ver o sobrenome Patel num passaporte o visto é automaticamente negado.


Desenvolvendo sistemas com malemolência

Curso de engenharia de software tem sempre aquele aula separada em “teoria” e “laboratório”, onde no laboratório você escolhe um sistema pra passar o semestre todo desenhando. E é sempre um sistema suuuuper emocionante, tipo controle de estoque. Mas dessa vez o professor deixou a turma sugerir o que queria fazer – e criou um sistema tipo speed dating onde todo mundo faz rodízio com todo mundo em conversas de dois minutos pra tentar “vender o peixe” da sua ideia.

Era a chance de ouro de eu ter um semestre menos tedioso. Mas pra isso eu precisava parir, em tipo cinco minutos, uma ideia divertida, não muito complexa, e que pudesse empolgar universitários tímidos e expatriados em uma conversa de dois minutos.

A solução saiu do próprio problema: já que estávamos prestes a fazer um speed dating, resolvi propor um site de namoro exclusivo para a faculdade 🙂

Funcionou perfeitamente. Todo mundo caía na risada quando eu contava a minha ideia e, no fim, ela acabou entre as mais bem votadas.

Na semana seguinte tivemos a aula teórica da mesma matéria, com o outro professor (que, pra variar, é indiano), e ele pediu aos grupos pra apresentar os projetos escolhidos no laboratório. Quando terminei de contar do site ele sorriu com o canto da boca e perguntou:

“Você é da américa latina, não é?”.


A redação de hambúrger

Eu não sei dizer por que os latinos (e demais povos com “sangue quente”) são mais criativos que a média – mas uma coisa que está ficando mais clara são os motivos pro norte-americano ser tão tedioso e previsível.

Meu curso tem uma aula de College Communications, que nada mais é que um curso de inglês/redação para estudantes internacionais. Cheguei na aula interessado, já que nunca tirei boas notas na parte de writing dos testes de inglês que fiz e queria entender o motivo.

Logo no início o professor foi explicando as partes que compõem a tal da essay: introdução, desenvolvimento, conclusão… nada de novo. De repente – e para meu completo desespero – a estrutura do texto começou a ser completamente esquartejada em um monte de caixinhas cheias de regrinhas descrevendo minuciosamente como as frases devem ser e como os parágrafos devem começar e terminar.

Assim sendo, seu texto deve ser escrito no formato essay hamburger (sem brincadeira, várias escolas usam mesmo essa analogia com os alunos):

essayburger

Tem tanta regra que, semana passada o professor gastou três horas de aula explicando como deve ser o thesis statement: a frase que explica sobre o que o seu texto vai falar. Três horas de aula sobre uma frase.

Aqui, escrever uma redação ou ensaio é praticamente a mesma coisa que preencher um formulário. Não tem espaço pra inventar moda. Tem que seguir o padrão. Aí eu entendi o motivo dos meus textos terem notas ruins nos testes de inglês: eu servi um prato com arroz e feijão, cheio de tempero, achando que estava arrasando, e eles queriam o hambúrger.

Agora, me diz: como é que a criança norte-americana desenvolve alguma espontaneidade crescendo numa cultura onde até as atividades básicas de criação são cheia de regras?