Estudando a Dance Music

28 de abril de 2013, 20:47

Parte 1 – Estudando a DANCE MUSIC?!

Sim, porque se você me conhece deve estar se perguntando por que diabos eu vou escrever um post enorme sobre – gasp! – dance music. Então é importante uma explicação e um pedido. O pedido é que você faça como eu e abra seu coração a uma opinião que pode soar completamente discordante, ou até mesmo diametralmente oposta, a que você possa ter sobre o assunto. Isto posto, a explicação é a seguinte.

A chegada da idade adulta me trouxe uma série de vantagens inesperadas, como não sentir tanto sono quanto antes e também deixar de ter aquele desejo adolescente bobo de me apegar às coisas como verdades absolutas, de achar que meu ponto de vista tem que ser apaixonadamente defendido até a morte. Isso me fez passar a ver as coisas com olhos mais maduros, imparciais e, principalmente, mais abrangentes para entender/analisar as coisas da vida, especialmente aquelas que eu nunca gostei. Como a homossexualidade, por exemplo (brincadeira).

Para a música, especificamente, isso me fez deixar de frescura e entender que há um valor intrínseco em todos os estilos musicais. “Até funk carioca?”, pergunta você. Meu amigo, o funk carioca talvez seja uma das manifestações culturais mais geniais que nosso país tenha produzido desde a bossa nova. Mas isso é assunto para outro post.

E, se você não parou de ler depois do que falei sobre a bossa nova (obrigado!), concluo dizendo que, quando você se dispõe a deixar o preconceito de lado e tentar entender um estilo musical pela sua própria estética, pelo seu propósito e como ele busca cumprí-lo, você pode se divertir um bocado no processo. E é interessante começar nosso estudo justamente por aí…

Parte 2 – Música para dançar: propósito e escopo

Olha, nem tem como enrolar muito aqui: o propósito de um gênero musical chamado dance music é óbvio.

É importante frisar aqui que o que eu estou encaixando na alcunha de dance music não é só aquilo que os leitores com mais de 30 anos (meu caso) ouviam na boate nos anos 90: é tudo que tenha sido construido, como bem diz a Wikipedia, “com o objetivo específico de facilitar ou acompanhar o ato de dançar”. Ou seja, é música pra fazer você mexer a sua bunda. Aqui entram os estilos clássicos com batida 4×4 (o velho “tumtistum” quadradinho, como o house, techno, trance e similares) como também os estilos modernos, com batida quebrada (drum’n bass, dubstep).

Mas para facilitar a análise vamos estreitá-la a alguns poucos gêneros, notadamente eletrônicos, para poder isolar os aspectos que eu considero  fundamentais para se entender a dance music. Vamos chegar neles em breve.

Parte 3 – Eu me remexo muito: os fundamentos de uma música dançante

Pense na música como veículo de expressão emocional. Você ouve o “OK Computer” do Radiohead, por exemplo, e toda a angústia de Thom Yorke é evidente em cada lamento e cada riff de guitarra. E repare que você não precisa entender a letra para capturar este significado; o diálogo da música com o ouvinte acontece em um nível de significância que não é lógico nem evidente. Há gêneros musicais inteiros batizados puramente na base do seu tom emocional (como o emocore) ou com base no fato de serem mais analíticos do que emotivos (math rock). Já a dance music, de uma certa maneira, transcende a obviedade de significado e também todo o aspecto emocional – ou a ausência dele – porque, para ser eficiente, ela precisa falar ao ouvinte em um nível muito mais básico. Ela precisa estimular em você não uma emoção, mas sim um instinto, como o instinto de sobrevivência ou o instinto – tcharammm… – sexual. Afinal, não é para você ponderar sobre a inexorabilidade da vida: é para você mexer a sua bunda.

Talvez não seja exagero dizer que a dance music conversa diretamente com o homo sapiens que existe dentro de cada um de nós. É por isso que uma boa faixa de dance music é marcada não pelo som rebuscado, pela complexidade harmônica ou pelo virtuosismo dos instrumentistas (quais, né?), e sim pela exploração máxima dos elementos mais básicos da música.

Vamos aprender com um exemplo de um dos grandes mestres da dance music: Fatboy Slim e sua icônica Rockafeller Skank. Aperte play no vídeo, siga lendo e repare em como ele constrói a faixa inteira trabalhando, basicamente, quatro elementos:

  • Repetição, o elemento mais importante de qualquer música dançante, usada para deixá-la previsível e, por isso, confortável. Com 30 segundos de música, você já tem que ser apresentado à praticamente todos os elementos que a compõem. A estrutura da música muito raramente foge do padrão verso/refrão/verso, normalmente preenchendo o intervalo entre cada parte com “breaks” onde você pisa um pouco no freio mas vai aumentando a pressão gradativamente até explodir de volta no verso principal.
  • Ritmo, sempre cru, intenso e marcado. Principal responsável por lhe provocar sensações estranhas do umbigo pra baixo, nunca foge muito do bumbo/caixa/prato.
  • Textura sonora, sempre gritante (nunca discreta) e sempre contemporânea – também para conforto. Em Rockafeller Skank os elementos são samples bastante familiares de guitarra e baixo, repetidos (lembra?) ao longo da faixa.
  • Vocais, para humanização da música e  com letras “postiças”, usadas só pra reforçar o efeito pretendido e/ou dar instruções de como a música deve ser apreciada/dançada. “Check it out now! The funk soul brother” não é uma letra de música: são as instruções de como ouví-la.

Parte 4 – A semelhança entre o sushi e a dance music

Agora que aprendemos que a estrutura da dance music é básica e previsível, você pode estar imaginando que “qualquer idiota faz isso”. Mas não se iluda: tornar-se um grande produtor de dance music é algo muito mais difícil que parece, por um motivo muito simples: na dance music você tem muito menos espaço para trabalhar.

Puramente para fins científicos, vamos comparar a composição de uma música dançante com o trabalho de um sushiman. O sushi japonês tradicional (desconsiderando essas viagens com morango e cream cheese que servem nos restaurantes aqui no Brasil) é apenas uma fatia de peixe sobre um punhado de arroz. Na alta culinária você tem uma infinidade de sabores, temperos e preparos que pode usar pra fazer pratos deliciosos, mas se você quiser fazer um sushi maravilhosamente gostoso, você pode variar apenas dois elementos: o peixe e o arroz. Não dá pra botar sal, cozinhar mais (ou menos) ou acrescentar qualquer outro elemento sem descaracterizar o sushi. Na dance music é a mesma coisa: qualquer tentativa de quebrar sua estrutura ou forma praticamente padronizada a transforma em “não-Dance Music”, então o produtor se vê forçado a fazer tudo “igual mas diferente”.

E é aí que reside a genialidade: em conseguir um nível enorme de qualidade em um espaço muito pequeno de manobra. Outro dia assisti Jiro Dreams of Sushi, documentário sobre um sushiman japonês cujo restaurante tem meses de fila de espera e três estrelas no guia Michelin. O sushi dele é exatamente “peixe sobre arroz”, mas com tudo, desde a seleção dos ingredientes até a forma de preparo, aperfeiçoada em ínfimos detalhes e ao longo de décadas de trabalho. Esta é exatamente a característica dos mestres da música dançante: é tudo “tumtistum”, mas uns são evidentemente melhores que os outros.

Parte 5 – Os grandes mestres: uma exploração ilustrada

Aperte play nos vídeos e siga lendo.

Estudo de caso “a”: The Chemical Brothers

É importante começar pelos clássicos: os caras praticamente ajudaram a inventar/popularizar a música eletrônica, então deles você não espera nada menos do que genialidade. ”Star Guitar” é um ótimo primeiro exemplo. Construída em cima da mesma harmonia da guitarra da introdução de “Starman”, de David Bowie, Star Guitar gira em torno de uma mesma nota praticamente o tempo todo, algumas notas se repetem em ritmo de metralhadora e, principalmente, ela abusa dos “filter sweeps”: quando você coloca um filtro no som e ele desliza do agudo pro grave (bzzzziouunnnn!) e depois pro agudo de novo (whooooosh!). Repare bem: Star Guitar é inteirinha filtrada, e os filtros lhe dão um movimento único e um tom místico, quase astral, reforçado pelo vocal do refrão que diz que “you should feel what I feel, you should take what I take”. Estariam eles falando de drogas, talvez? :)

Repare também que o clipe (dirigido por Michel Gondry) é uma representação visual da música: todos os elementos que você vê se repetem no ritmo dela, e se transformam conforme o som se transforma.

Os trabalhos mais recentes dos Brothers estão cada vez mais “dancefloor-oriented”. A música da cena da boate em “O Cisne Negro”, por exemplo, é deles, e contém um único vocal, que diz: “Don’t think – just let it flow”. Na dance music o espírito é exatamente este.

Estudo de caso “b”: Basement Jaxx

Se existe um Olimpo da música dançante, os caras do Basement Jaxx estão lá. “Back 2 The Wild” é o single mais recente deles.

O Basement Jaxx está num nível completamente jedi de produção musical. O normal é você ter uns 5 canais  numa mixagem de música dance: a batida, alguma coisa como baixo, um lead qualquer, um vocal por cima e alguns efeitos, e fazer isso tudo soar bem junto dá mais trabalho do que parece. Mas nas músicas do Basement Jaxx sempre tem tipo quarenta e cinco coisas diferentes tocando ao mesmo tempo, e nada é invasivo, nada briga com nada. Eu já ouvi “back 2 the wild” umas 50 vezes e toda vez eu acho algum elemento que não tinha ouvido antes.

Exercício: tente encontrar, em “Back 2 The Wild”:

  1. Um apito
  2. O “woop!” de “Sound of da police”, do KRS-One
  3. Uma buzina de carro (esse é difícil, mas acredite, tá lá)

E o mais legal é que eles também conseguem perverter a regra da repetição: alguns destes elementos são usados apenas uma vez na música toda, e nunca mais voltam.

Estudo de caso “c”: Crookers

Se você jogou “Ballad of Gay Tony”, a expansão do Grand Theft Auto 4, você já ouviu Crookers: foram eles os responsáveis pelas músicas da boate onde o protagonista trabalha.

A genialidade dos Crookers é seu “custo-benefício”: faixas extremamente simples e incrivelmente poderosas. Ao contrário do Basement Jaxx, as faixas tem uma batida seca com no máximo três elementos (bumbo, caixa, prato), um lead muitas vezes dobrado junto com o baixo, e… apenas isso. Só que eles tem uma capacidade ímpar de escolher exatamente a batida certa, exatamente o lead certo, e de repetir isso na linha extremamente tênue entre o divertido e a idiotice. A impressão inicial ao ouvir Crookers é a de que você está tendo um derrame, mas que isso é divertido.

Repare que “Knobbers” tem apenas um instrumento na música toda… mas ele pesa uma tonelada.

Apêndice: Leitura (auditiva) Complementar

Outros nomes interessantes da música dançante para explorar:

  • Buraka Som Sistema – Produtores portugueses que “recolonizaram” a África e pegaram emprestado seus melhores elementos rítmicos. Fora que dance music cantada em português é sempre engraçado. (Amostra: Sound of Kuduro – não é aquela porcaria da novela, é “the real deal”, direto de Angola)
  • Simian Mobile Disco – Eles tem uns discos ruins, mas o Attack Decay Sustain Release é um espetáculo, e alguns álbuns menos conhecidos (como o “Delicacies”) são feitos bem especificamente para a pista de dança. (Amostra: Hustler)
  • Rustie – Décadas ouvindo música eletrônica e nunca ouvi nada como esse cara. A energia contida em cada uma das suas faixas poderia alimentar uma pequena cidade por 6 meses. (Amostra: Ultra Thizz)
  • Vitalic – No mesmo estilo “Crookers”, mas para um público mais classe A, faixas simples mas que pesam uma tonelada. (Amostra: La Rock 01)
  • Toy Selectah – Essa história de globalização tem uns produtos engraçados, tipo essa mistura de raggaton colombiano com música de festa rave. (Amostra: La Ravertona)


E aí, como foi de férias?

23 de fevereiro de 2013, 17:50

(crédito de quase todas as imagens: Bethania)

Lembram da minha resolução de ano novo, de menos estresse e mais diversão? Então. Saí de férias no começo de fevereiro e fomos pros EUA. Destino: Las Vegas e road trip na Califórnia.

Essa é uma lista resumida do que fizemos em três semanas de viagem:

  • Ganhar, do nada, um upgrade de quarto em Las Vegas. Fomos parar numa suite maior que o meu apartamento. A foto abaixo é de metade da varanda. A outra metade não cabe na foto porque ela dá a volta por todo o quarto.
Varanda do hotel
  • Perder dinheiro nos cassinos. Fomos jogar só no último dia. Eu vim preparado: há meses eu vinha jogando blackjack no celular, estudei a estratégia básica e tudo. Aí me sentei numa mesa e perdi US$ 60 em cinco minutos. Lição aprendida. Ah, e vi a Milla Jovovich num dos cassinos. Acredite se quiser, mas a pele dela ao vivo é horrorosa.
Caesar Palace
  • Comer como um louco nos “all-you-can-eat buffets”. Implodi uns bons meses de regime nessas, mas valeu a pena. Bufê em Vegas parece coisa de turista, mas o do Caesar Palace foi recém-reformado, é enorme, caro, mas é imperdível: tem todas as variedades possíveis de comida, do japonês ao hambúrger, da lagosta à pizza… e não é tudo feito na baciada, é comida nível gourmet mesmo. A foto abaixo é só a parte de sobremesas do Caesar. Já comeu pirulito de cheesecake? Não parece, mas é uma delícia.
Caesar Palace buffet
  • Atirar com uma arma de fogo. Sim, esse é o tipo de coisa que dá pra se fazer em Vegas! Pra ficar ainda melhor, foi com uma AK47 (foto da esquerda), vários outros fuzis e pistolas e até uma Browning M1919 (a da direita)!

Atirando com uma AK-47 e uma Browning M1919

  • Visitar o Grand Canyon. Mas como o tempo era curto, fomos de helicóptero.

Helicópteros pousados

  • Ver mulher pelada em Vegas, mesmo estando com a esposa junto. Foi no Zumanity, o show “adulto” do Cirque du Soleil. Apresentado por uma drag queen, tem desde contorcionistas seminuas numa banheira transparente até um anão stripper-trapezista. Mas tudo com muita classe.
  • Dirigir 1000 km até o Napa Valley, na Califórnia. Contornamos o Yosemite Park no meio de cenários fantásticos como esse aí embaixo.

Estrada nevada da California

  • Passar o dia percorrendo vinícolas e provando vinhos, de bicicleta. Por sinal, você sabe que virou adulto quando percebe que gastou mais dinheiro com vinhos do que com eletrônicos numa viagem pro exterior…

Bicicleta no Napa Valley

  • Jantar num restaurante com estrela do guia Michelin. Foi no vale do Napa mesmo, no Solbar, que apesar de estrelado é acessível para meros mortais como eu. Eu não tenho coragem de tentar descrever a comida aqui, basicamente, estrela Michelin = a porra fica muito séria.
  • Conhecer a prisão de Alcatraz, em San Francisco. Fiquei uns 30 segundos dentro da solitária e não consegui imaginar como as pessoas aguentavam dias ali dentro. E ainda vi uma Tommy Gun de verdade!

Tommy Gun

  • Atravessar a ponte Golden Gate… também de bicicleta. É meio tétrico ver os telefones para “emergência e aconselhamento em momentos de crise” espalhados pela ponte, com as plaquinhas de “ainda há esperança, não pule, ligue para…”. Numa nota mais positiva, é de chorar o tanto que as cidades californianas são boas pra andar de bicicleta.

Ponte Golden Gate

  • Visitar a sede da Apple, em Cupertino. Porque, né. O mais irônico foi que dias antes eu havia comprado um Nexus 4 :)
  • Conhecer o aquário de Monterey. Achei que era só um aquário mas, cara… é embasbacante. Tinha gente chorando de tão bonito.

Aquário de Monterrey

  • Descer de carro pelo Big Sur. Meus amigos… esse dia foi foda. O Big Sur é um trecho da Pacific Coast Highway que desce de Carmel até próximo a San Luis Obispo, ladeando o oceano. É uma das estradas mais bonitas do mundo, com certeza. Esse dia foi perfeito do início ao fim: começamos fazendo a 17-mile drive em Monterey (que também é linda), dirigimos o dia todo ouvindo a discografia do Nightmares on Wax – a música perfeita para aquela estrada – e terminamos vendo o sol se pôr no oceano, numa praia cheia de leões marinhos descansando.

Big Sur

  • Comer os melhores cinnamon rolls da Califórnia. Foi puramente por acidente, estávamos lavando roupa num laundromat de San Luis Obispo e, pra matar o tempo, atravessamos a rua pra ver o que tinha. Aí passamos em frente ao Emily’s Cinnamon Rolls e o cara da loja do lado nos disse: “Cuidado, isso aí é viciante”. Se um dia na sua vida você passar próximo à San Luis Obispo, você PRECISA comer um desses.

Emily's Cinnamon Rolls

  • Fazer um piquenique nas praias selvagens de Lompoc. O caminho até lá é curioso: você passa umas plantações, depois uns radares do exército norte-americano (?), depois uns galpões da Nasa (!), e aí chega na praia. Que estava bem cheia, como vocês podem ver aí embaixo.

Praia de Lompoq

  • Pegar um barco e ver baleias no Oceano Pacífico. Que nesse dia fez juz ao nome e estava parecendo uma enorme piscina, de tão tranquilo. Ps.: a foto não é de uma baleia com escoliose, é que na verdade são duas.
Baleias na baía de Ventura, California
  • Conhecer os estúdios da Warner, em Los Angeles. Esse é um tour “adulto”, não é como o da Universal, que na verdade é apenas mais um “brinquedo” do parque temático deles. Na Warner, enquanto o guia te leva pra ver os sets de um monte de séries (entramos no de The Big Bang Theory!), ele explica muito do processo de produção cinematográfica, que foi o que mais me interessou, de longe. E pra completar o lado turístico da coisa, você pode tirar uma foto no sofá de Friends, montado numa réplica do set do Central Perk, e ver o “museu do automóvel” deles, que tem TODOS os Batmóveis de todos os filmes.

Sofá de Friends e Batmóvel modelo 2012

  • Comprei uma Buddha Machine, na Amoeba Records de Los Angeles. Sempre quis ter uma! Bethania não entendeu nada quando eu entrei numa loja com milhões de CDs e saí só com um “radinho AM”. No hotel, ela caiu na gargalhada quando viu que aquela caixinha só toca loops repetitivos. E, alguns minutos depois, caiu no sono por causa deles :)
Buddha Machine
  • Ver de perto um ônibus espacial de verdade. Foi a Endeavour, que se aposentou recentemente e foi levada para o California Science Museum. Nerdgasm total. Esse é o tipo de coisa que você tem que ver ao vivo, porque ele é completamente diferente das fotos, muito maior do que eu achava, e parece todo acolchoado por causa da proteção térmica/de radiação.

Endeavour

  • Passar debaixo da “Levitated Mass”, obra de Michael Heizer, que fica nos jardins do LACMA. É basicamente uma rocha de 240 toneladas montada nas paredes de uma trincheira, de maneira que você pode ficar lá debaixo desse monstro rochoso. Vocês podem achar isso uma grande bobagem, mas isso era uma das coisas que eu mais queria ver na viagem.

Levitated Mass

  • Ver a Shamu no SeaWorld. Bethania queria nadar com os golfinhos (e nadou), já eu fiquei só vendo os shows. Todos eles começam com umas apresentações institucionais de como o SeaWorld resgata animais no mundo todo, mas ao mesmo tempo no celular eu lia  uns posts do PETA crucificando o parque como um monte de “porcos capitalistas mentirosos”. Não sei bem o que pensar.

Shamu, no SeaWorld

  • …e para o gran finale, já no caminho de volta pro Brasil, alugar um Mustang conversível e passear por Miami. Primeira vez na vida que precisei de protetor solar pra sair de carro :)

Mustang conversível

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Ainda na onda “menos businessman, mais hustler”, resolvi usar os skills de trabalho pra dentro de casa e toquei a viagem como um projeto, minuciosamente planejado e montado em várias madrugadas e finais de semana. Tínhamos planilha de custo, roteiro (cronograma) para todos os dias, um “backup” impresso com todas as reservas de hotéis/atrações, incluindo os roteiros de estrada plotados no Google Maps (parte do meu gerenciamento de riscos). Fiz até a playlist da viagem no iPod, horas de música especificamente selecionada pra pegar estrada na Califórnia.

Resultado final? Sucesso completo, tudo dentro do prazo, custo “estourado dentro do previsto”, com Bethania me promovendo a “planejador oficial das viagens de férias” do casal. Como é bom ser gerente de projetos :)

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Estas férias espetaculares não seriam possíveis sem esta coisa maravilhosa chamada internet. Agradecimentos especiais para:

  • Wikivoyage, a Wikipedia de viagem. É perfeita para o básico dos lugares que você vai visitar e tem indicações de coisas que nunca tem em guia turístico. (ps.: assim como na Wikipedia, ignore a versão em português)
  • Reddit Travel. O “buscai e achareis” bíblico funciona muito bem ali. Vários itens inusitados da minha programação (exemplo: as armas de fogo em Vegas) vieram das sugestões de outros redditors.
  • TripAdvisor, para indicações de hotéis e passeios. Indispensável pra separar o joio do trigo, especialmente em lugares tipo Las Vegas, cheios de armadilha pra turista.
  • Yelp!, para restaurantes. Yelp era simplesmente infalível nos EUA, todos os lugares que fomos por indicação dele eram ótimos. Exemplo: a Eating House em Miami, restaurante barato, criativo (couve-de-bruxelas com lo mein, waffles de Foie Gras, sobremesa que parece um vaso de plantas), delicioso e que nunca apareceria num guia de viagem. Uma pena não funcionar no Brasil.
  • Google Maps, para a parte “terrestre” da viagem. Calculei nele todos os tempos de estrada, estudei o trânsito caótico de Los Angeles, no Street View conferi a cara das cidadezinhas minúsculas que escolhemos pra dormir, as estradas que escolhemos, e ainda imprimi todos os roteiros.
  • Garmin, pelo seu GPS sempre certeiro, que literalmente nos conduziu pelo vale da morte (é sério, no primeiro dia de viagem, sem saber, passamos pelo Death Valley!). Nosso modelo indicava onde tinha engarrafamentos e mostrava até uma imagem da placa que ia aparecer em cima da saída da freeway, pra não ter erro. Gostamos tanto que Bethania deu um nome pra ele: “Aguiar” (pegou essa? “a guiar”…)


Observações pertinentes e oportunas sobre assuntos totalmente aleatórios

23 de janeiro de 2013, 16:01

Achei que tinha desenvolvido uma tolerância à cafeína depois que comecei a ficar com sono logo depois de beber café espresso. Mas aí reparei que a forma que bebo cafeína é que faz diferença no tanto que ele me acorda.

Donde temos a seguinte escala:

  • Espresso – Efeito nulo ou negativo (me dá sono)
  • Café de coador – Efeito leve. Os cafés ruins de escritório (estilo ‘café de asa de barata’), sem açúcar, são um pouquinho mais eficientes.
  • Café solúvel – Efeito considerável. Destaque para o Nestlé DuoGrão (a.k.a. “do ogrão”), que mistura café solúvel com pó de café puro. A cafeína lhe dá um tabefe na cara quando você bebe.
  • Café americano (aquele do Starbucks) – Efeito bastante consideravel, mesmo no tamanho pequeno (“tall”).  No final do copo eu já estou me sentindo meio Papaléguas.

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Estava vendo minha music library e pensando: é praticamente um milagre eu não usar drogas. Nos últimos tempos eu ando ouvindo muuuuita música de noiado/frito/v1d4l0k4. Exemplos:

  • Mad Lib: Discos com 50 faixas de 1 minuto cada, todas feitas de uma brisa das mais abstratas. É filosofia stoner, versão musical.
  • Ras G: Eu ouço e dá pra imaginar o próprio Ras no meio da nuvem de fumaça, falando, arrastado: “Dude…. duuuude… u feelin this?…” (ps.: a faixa 11 do disco se chama “jus feel”)
  • Emeralds: A música se repete, repete, repete, repete, repete… e então o ácido bate.
  • OOIOO: Versão japonesa do Santo Daime.
  • Rustie: É tipo o cara que cheira uma linha e sai andando pela pista de dança se sentindo o próprio Alexandre Frota.
  • SugarBeats: Tu toma um “E” e aquele show de funk (não o carioca, o de James Brown) subitamente fica… crocante.

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Eu continuo naquelas de contratar gente, o que significa ver milhares de CVs, o que significa ver coisas bizarras como:

  • Gente que manda CV e no cabeçalho, logo debaixo do nome, vem o nome artístico.
  • Gente que coloca hashtags no subject do email. Tipo: #Curriculo #Vaga #Projetos.
  • Teve uma menina que incluiu uma citação de Mary Poppins no final do CV. Dizia assim:

Em cada trabalho a ser feito há um elemento de diversão. Você acha a diversão e – pronto! – o trabalho vira um lazer!

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Num fim de semana desses aí fomos conhecer Campos do Jordão. Sim, tá no verão, mas os dias estavam chuvosos e frios (a.k.a. “verão em São Paulo”).

As pessoas chamam Campos do Jordão de “a Suíça brasileira”. Na verdade é uma “Suíça wannabe“, como bem definiu Bethania. Os caras fazem os telhados pontudinhos, servem fondue por tudo que é canto e – voilá! – eis a Suíça… versão brega.

Pra piorar, a cidade não funciona/não entrega:

  • No posto de informações turísticas, logo na porta da cidade, ao ser perguntada sobre opções de turismo para dias chuvosos como aquele, a mocinha respondeu: “então né… chovendo assim é complicado…”
  • Agendamos uma visita à fábrica da Baden Baden, quando o tour começou a mocinha disse que não teríamos acesso à fábrica por questões de segurança e o “tour” foi ela levando a gente pra ver uns barris de cerveja e lendo uma timeline com a história da cervejaria pregada na parede. Durou 10 minutos. No final deram dois copos de cerveja pra cada um, possivelmente pra ver se, bebendo, a gente esquecia aquela picaretagem.
  • O Palácio da Boa vista fecha pro almoço (bem na hora que chegamos lá). Aí, pra não perder a viagem, resolvemos ir ao Café do Palácio, que – surpresa! – não tinha café.
  • A aclamada “Fazenda Lenz Gourmet” é uma terrível armadilha pra turistas: de gourmet só o nome, porque o garçom errou tudo do nosso pedido, do ponto da carne às bebidas. A “área de lazer” da fazenda é deprimente, parece um galpão abandonado.


(Anti) Retrospectiva 2012

16 de dezembro de 2012, 22:49

Sendo bem sincero com vocês:

Eu passei as últimas duas horas olhando pro computador e tentando escrever uma retrospectiva desse ano. Desisti.

Digamos que 2012 foi um ano de perdas. Muitas. Perdi brigas, perdi fé, perdi esperanças, perdi sono, perdi 13kg (sim!) e mais um monte de coisa. E, principalmente, perdi a vontade de ficar me desgastando dia após dia.

Então achei que, ao invés de ficar remoendo um ano complicado neste post, era melhor botar uma meta para o ano que vem. Isso deu muito certo em 2010, inclusive.

Assim sendo, declaro para todos os fins que, em 2013, minha meta é me divertir.

Não estou falando de virar um doido inconsequente. A ideia aqui é batalhar forte como batalhei em 2012, mas com o espírito mais leve. Sofrer menos e comemorar mais. Priorizar mais as voltinhas de 50km na ciclovia da marginal do que o trampo de fim de semana. Tomar mais cervejas nas noites de terça com os caras. Se der insônia, ir jogar videogame de madrugada. Ouvir mais música boa, ver mais filmes bons, fugir como louco de qualquer momento de tédio. Trampar sério, mas não tão à sério.

Menos businessman, mais hustler.

No fim todos estaremos mortos, é tudo irrelevante. Foda-se.

Então vem, 2013. Já vou chegar beliscando a sua bunda.


Uma centena de metros em uma linha reta perfeita

31 de outubro de 2012, 1:26

Debaixo do proverbial sol de meio-dia de sábado e já uns 15 quilômetros haviam ficado pra trás: os primeiros até a estação Santo Amaro e, de lá, os restantes lado a lado à fedorenta margem do Rio Pinheiros. Sempre ao norte, até o fim da ciclovia, onde tem um posto de apoio debaixo do viaduto que salta sobre a estação Ceasa do trem.

Comprar uma bicicleta – a clássica Caloi 10, mas no modelo 2012 – foi uma grande ideia. Na verdade foi inevitável, depois que entendi que existe um mundo além das mountain bikes e que esse é um mundo de bikes speed, que me ultrapassaram tantas vezes quando fui me aventurar na ciclovia usando a bike tosca de supermercado que eu precisava experimentar como era isso de bicicletas feitas pra voar pelo asfalto liso, ao invés de sofrer em trilhas poeirentas ou de despencar morro abaixo. Nunca vou me esquecer de quando montei na Caloi 10 pela primeira vez: arredia e instável quando lenta, algumas pedaladas depois e eu fascinado com o quanto ela corria. “Isso é um foguete”, pensava.

Pedalar pro norte na ciclovia é normalmente contra o vento, portanto bem sofrido e mais devagar, mas aí você para no posto de apoio e bebe uma água e checa o celular, com a desculpa de ver se aquele app de GPS tá mapeando certo o trajeto, mas que no fundo é pra aliviar a consciência de que ninguém te ligou com alguma bomba no trabalho. O que me remete aos momentos antes de sair pra pedalar. Eu trançando pela casa, inquieto, com um nó no estômago, sem entender se aquilo era ansiedade para sair logo de casa e pedalar ou se era o resultado da semana caótica e da insônia da última quinta-feira. Eu nem me lembro do que eu via na tevê às quatro da manhã de quinta, pra tentar pela décima nona vez ocupar a cabeça com algo que me acalmasse – ou com qualquer outra coisa que não fosse a angústia de ver as horas passando e nenhum sinal de sono, mesmo estando exausto do trabalho, e esse dilema do cansado-mas-aceso dando um aperto no peito, exatamente igual ao que eu sentia na manhã de sábado, capacete da bike na mão, garrafa d’água na outra, decidindo ir logo pra rua pra ver se aquilo passava independentemente da causa.

Então eu fui, e assei no sol de meio-dia, e suei e cheguei bem cansado no posto de apoio e no meu celular não tinha nenhum telefonema do trabalho, só umas notificações do Facebook que nem quis ver pra não quebrar a sensação de que aquele momento ali era só meu.

Era só meu e o caminho da volta ia ser com vento a favor, e ainda restava uma boa meia hora do podcast de Drum’n Bass nos fones. Eu devo boa parte dos 10 quilos que perdi nos últimos meses à precisa curadoria de DJ Risky em seu podcast (semi) semanal. “Risky killin’ it from every single angle!”, diz uma das suas muitas vinhetas. O sentimento é de que você pode levantar qualquer peso na academia, correr qualquer distância, e de que a violência do esforço de músculos cansados na verdade é uma delícia e vai ser ótimo esmigalhar os pedais e acelerar ciclovia abaixo com vento a favor. É um foguete a Caloi, com vento a favor então é ainda mais. E ninguém me ligou, então eu estava livre.

Nos primeiros metros de retorno à ciclovia o velocímetro passou fácil dos 30 quilômetros por hora, e à frente só a longa reta que termina na ponte Cidade Universitária, nenhum outro ciclista por perto. Larguei o guidão, respirei fundo o ar podre do rio Pinheiros e abri os braços por alguns instantes. Antes arredia e instável, agora a Caloi 10 seguiu quase uma centena de metros em uma linha reta perfeita, e me senti relaxado.

Foi o único momento da semana inteira em que me senti relaxado.

No fim das contas acabei exagerando e pedalei cinquenta quilômetros no total – uma ida e volta completa em toda a extensão da ciclovia. Cheguei em casa e demorei umas 2 horas só pra conseguir levantar do sofá e tomar um banho. Com corpo e mente com cansaço finalmente sincronizado, alternei cochilos e sono noturno picado até o final do domingo – mas pelo menos dormi alguma coisa.

Durou só até essa madrugada de terça pra quarta. São duas da manhã e nem tentei ir dormir ainda.

2012 não está sendo fácil. 2012 não está sendo nada fácil.


Você não precisa nem do seu nome

19 de agosto de 2012, 10:47

Toda vez que eu escuto o podcast do The Hype Machine eu acabo tendo altos insights, não apenas sobre música mas sobre um monte de coisas.

O podcast tem um quadro onde eles entrevistam gente da “blogosfera musical” e pedem indicações musicais. Na edição de agosto os entrevistados foram os caras do No Fear of Pop, e eles contaram uma história fantástica…

Eles receberam um email anônimo, de uma linha, dizendo apenas: “oi, eu sou um produtor anônimo e esta é uma das minhas músicas”. Foram ver e a faixa era tipo um pós-UK-grime estilo Burial, mas muito bem produzido, e então eles acabaram postando a música. E a partir daí toda semana foram recebendo outros emails anônimos com mais faixas.

E acabou que esse cara totalmente anônimo foi a recomendação musical deles no Hype Machine. Foi curioso ouvir o locutor anunciando: “All right, let’s check it out, this is ‘unknown’ on Hype Machine Radio”.

Pensa bem: um cara anônimo produziu umas coisas em casa, mandou um email pra um casal de blogueiros berlinenses e isso foi parar  em vários outros ouvidos mundo afora – simplesmente surfando no hype. Não foi preciso nenhuma divulgação, jabá, publicidade, endosso de celebridade, nada. Não precisou nem do nome do compositor.

E é interessante como a “máquina do hype” é poderosa. No mesmo podcast comentaram sobre o disco novo do Tame Impala que sai em outubro e dizendo que a banda soltou alguns singles online e os blogs todos repostaram. E só então me toquei que eu nunca vi sequer um bannerzinho em flash em nenhum canto da internet dizendo “Ouça o novo do Tame Impala”. O fato é que, fora do mainstream, simplesmente não existe publicidade para bandas e ainda assim o Tame Impala lotou o Cine Jóia aqui em SP semana passada.

O que me leva a crer que há uma grande chance de que a minha nova profissão não exista mais daqui a algumas décadas.


O fracasso total da minha primeira compra na iTunes Store BR

16 de junho de 2012, 13:12

O Satanique Samba Trio é uma das pouquíssimas bandas brasileiras que eu sou realmente fã: comprei todos os discos, a maioria no saudoso eMusic, (que por uma imbecilidade jurídica está bloqueado para brasileiros), fui em vários shows deles (um deles na maldita Brasília)… até a única camiseta de banda que tenho é deles.

O último disco deles era de 2010, e como não tenho mais tempo pra acompanhar música, só na última quinta descobrir que eles tinham lançado um disco novo em janeiro desse ano. Fiquei louco e, na pressa de descobrir a maneira mais rápida de adquirir o disco, lembrei da iTunes Store brasileira. E ele tava lá, a US$ 10, preço mais do que justo. Comprei na hora.

Resolvi separar o pouquíssimo tempo diário que eu consigo passar sozinho e sem interrupções – ou seja, o trajeto de trem que eu faço de casa pro trabalho – pra poder saborear o disco novo tranquilamente. Aí me preparei todo, botei o disco em dois iPods diferentes pra não ter erro, peguei meus caríssimos fones de ouvido novos, saí de casa e, sorridente, apertei o play.

E então eu descobri que todas as faixas tinham sido baixadas pela metade.

Sim, faixas originais, compradas diretamente da Apple na iTunes Store brasileira… todas com a porra do download corrompido! Arruinou completamente a minha primeira audição de um disco que eu esperava desde 2010.

Mas o que mais me indignou é que, se eu tivesse baixado o disco no torrent ou nos inumeros blogspots de música pirata da internet, com toda certeza do mundo o disco ia estar perfeitamente funcional.

Foi minha primeira e última compra na iTunes Store.  E se bobear minha primeira e última compra em qualquer distribuição digital que não seja diretamente relacionada ao artista.

Update: Nas últimas semanas tá rolando um rebuliço na internet por causa da história de Ellen White, estagiária da NPR (uma rádio norte-americana), que escreveu um post dizendo que tem 11000 músicas no iTunes e que só comprou 15 CDs até hoje. Uma das melhores respostas foi uma longa carta aberta do músico David Lowery que é tão tocante que me fez abandonar completamente e de uma vez por todas o download de música pirata na internet. É sério, acabo de gastar US$ 30 no Bleep.com inclusive :)


Delírio sobre viagens de avião

16 de maio de 2012, 23:17

Um dia desses eu tive a ideia de colocar a coleção inteira de Sandman no iPad, pra ler no avião. E que ideia boa: tenho devorado as edições, fascinado. Nunca vi quadrinhos tão bem escritos.

Coincidentemente, lá pela edição 43, Sandman decide viajar à maneira dos mortais e embarca ele mesmo num avião com sua irmã caçula, Delirium.

Delirium é desenhada como uma menina meio maluquinha, de cabelo colorido e esgadanhado, de olhos cada um de uma cor. Como era de se esperar, Delirium não costuma fazer muito sentido quando fala, mas é dela o comentário mais sensato sobre voar de avião que já vi:

Sabe qual a melhor coisa sobre aviões? Digo, além dos amendoins nos saquinhos prateados.

É olhar as nuvens pela janela e pensar que eu poderia andar ali. Que talvez seja um lugar especial onde tudo está bem.

E às vezes eu ando de verdade nas nuvens, mas é só frio e molhado e vazio, mas quando você vê de dentro do avião é um mundo especial… e eu gosto disso.

Acho que é por isso que sempre escolho voar sentado na janela.

(Além do mais, quem sabe um dia desses eu não vejo uma menininha passeando entre as nuvens?)


Silêncio

26 de fevereiro de 2012, 2:09

Se você parar pra pensar, a ideia usual que se tem do silêncio é uma ausência, um vazio.

Daí hoje de madrugada eu aproveitei a quietude da cidade pra pensar nisso e percebi que há um aspecto que normalmente a gente não considera: o do silêncio como uma possibilidade. A falta de sons como a chance de qualquer um deles.

Talvez seja isso que John Cage pensou ao conceber 4’33, sua composição mais famosa, composta unicamente de silêncio. Não usar nenhum som não significa nada, na verdade implica em um universo interpretativo onde tudo é possível.

Alem disso, a não-coisa não existe apenas para que a coisa ao qual ela contrasta exista. Se a sombra é a ausência de luz, isso não faz com que a sombra seja uma não-coisa, pois ela é também um conceito concreto, mesmo que seja feita da ausência de algo. Mas no universo sonoro o silêncio – a não-coisa que define o som – é, por alguma razão, desvalorizado ou até desconsiderado.

Da próxima vez em que tiver a (rara) oportunidade de ouvir o silencio, observe como ele é aquilo que “podia ter sido e que não foi”*. Talvez nisto esteja a base da sua intrínseca beleza.

* – Aproveitando aqui a frase de Manuel Bandeira, para descrever o indescritível.


O gerente de projeto mais rápido do oeste

17 de fevereiro de 2012, 7:42

Daí que esse ano teremos um projetão monstruoso na agência e o contrato dele com o cliente inclui um GP full-time – que eu estava suando pra achar pra contratar.

Muitos CVs e entrevistas depois, achei um cara. Ele começou a trabalhar na agência numa quarta-feira. Na segunda da outra semana, como ele já estava ambientado, resolvi dar as “boas vindas” oficiais como eu sempre faço: eu tiro uma foto do cara e mando um email pra todo mundo, de SP e de Recife, apresentando “virtualmente” a pessoa pra equipe inteira.

Como de costume, o pessoal de Recife sempre responde o email fazendo alguma piadinha. Dessa vez o pessoal começou a responder com vídeos do YouTube, como:

- “Welcome to the jungle”, do Guns’n Roses

- A cena do bombardeio em Apocalypse Now, ao som da cavalgada das valquírias

- O clipe de “Cilada”, do Grupo Molejo, ou o clássico “É uma cilada, bino!”, do Carga Pesada

Quinze minutos depois dos emails, o cara me chama pra conversar, diz que recebeu uma outra proposta de um projeto “irrecusável” e pede demissão… :)


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