Como vai a vida aqui no Canadá (ou: a maior poker face do baseball)

Tem seis meses de assunto represado pra falar aqui no blog – já passei por dois estágios, mais da metade da faculdade já foi embora e rolou até uma inesperada adiantada na papelada pra minha permanência definitiva aqui no Canadá.

Mas este post vai falar é de baseball.

Baseball é um dos esportes mais chatos que existe. Jogos de 3 horas e meia onde o máximo de emoção acontece em lances muito esporádicos, e que duram no máximo uns quinze segundos – e que você só consegue curtir se souber muito bem as (muitas) regras. Exemplo: essa semana um dos lances mais lindos da rodada foi o Kevin Pillar prevenindo um double com uma defesa inacreditável… que, na verdade trata-se apenas de um pobre coitado se estabacando contra uma parede. “Arte é contexto”, diria Marina Abramovic.

É óbvio que baseball é o esporte que eu mais ando curtindo. Eu não sei mais quem é o técnico da seleção brasileira, mas consigo recitar a escalação do Blue Jays (o time daqui de Toronto) todinha – incluindo aquele que rapidamente tornou-se o meu jogador predileto do time: o mexicano Roberto Osuna.

osuna

Talvez você se lembre dos desenhos animados do Charlie Brown, onde ele sobe naquele “montinho” e arremessa a bola pra alguém rebater. Esse é o pitcher (“lançador”), e é a posição mais importante da defesa de um time. Basicamente, um bom pitcher evita que o outro time marque pontos. Por conta disso, os times tem vários pitchers, cada um com uma especialidade: tem os que abrem o jogo e arremessam quase toda a partida (os starters), tem os que entram especificamente pra “aliviar” o starter quando ele cansa (os relievers), e tem uns que quase não aparecem porque são especializados em jogar apenas o finalzinho da partida e fechar o jogo – os chamados closers. É o caso do Osuna – ou seja, meu jogador predileto joga, no máximo, uns 10 minutos por jogo… e nem é em todos os jogos.

A questão não é o quanto joga, e sim como joga. O que eu acho mais fantástico no jogo do Osuna é a consistência. Ele vai lá, arremessa com exatamente a mesma expressão facial o tempo todo (a maior poker face do baseball), fecha o jogo, tira o boné, faz o sinal da cruz, aponta pra cima pra agradecer a Deus e vai embora como se nada tivesse acontecido. É assim quando o time tá ganhando, quando tá perdendo, quando tá prestes a ser eliminado ou quando tá prestes a ganhar campeonato. Quando o Osuna erra um lance e o outro time subitamente ganha de virada, a cara dele continua lá, igualzinha. Quando ele faz inacreditáveis nove strikes seguidos e destrói três rebatedores em três minutos, a cara dele nem se altera.

Esse vídeo de highlights do Osuna em 2015 chega a ser repetitivo por conta disso – repare que ele só demonstra alguma emoção aos 3 minutos e 50 segundos, no jogo em que o Blue Jays quebrou um jejum de mais de uma década e virou campeão da American League East.

Eu nunca na vida tive ídolos no esporte. Na verdade acho que nunca tive ídolo nenhum. Aí me chega esse cara, não faz alarde, tem uma atuação super reduzida e específica, tem um dos menores salários do time, não tá preocupado com fama nem nada – só quer ir lá, fazer o trabalho dele sem pirotecnia ou sofrimento, agradecer e ir embora, independentemente da circunstância.

Acho que é aí o ponto onde eu me identifico. No final do ano passado eu comecei meu primeiro estágio e, quando percebi, tinha caído numa armadilha: era uma vaga de desenvolvimento web onde, no fim das contas, eu não tinha nem acesso ao servidor web. Só dava pra, literalmente, programar em Excel. Mas ao invés de me abater eu mantive a minha poker face, fui lá e fiz o melhor que pude. Quatro meses depois, saí colecionando elogios e deixei minha chefa me pedindo pra ficar por lá mais tempo.

Aí veio mais um semestre de estudo e esse foi, de longe, o semestre mais desastroso de todos: teve professor que entrava na sala e perguntava pra turma o que ele tinha que ensinar, teve professor cancelando o trabalho mais foda que já entreguei porque mais de 80% da sala tinha colado, teve aula de “tecnologias emergentes” onde os dados atualizadíssimos que o professor mostrava eram de 1999, teve trabalho de grupo onde eu tive que carregar o grupo inteiro nas costas – e ainda ter que aguentar os coleguinhas vindo reclamar comigo, uma semana depois do prazo de entrega das paradas, que eu “não dei chance” deles fazerem a parte deles. Mas fui lá, fiz meu melhor, mantive as notas boas e o mais importante: arrumei um lugar fuderosíssimo pra fazer meu segundo estágio.

Isso foi meio que o equivalente do Osuna assinando com o Blue Jays e indo jogar na primeira divisão. Meu estágio é no maior banco canadense, e um dos meus “lugares-meta” pra arrumar um emprego quando me formasse. E mais: entrei num projeto onde meu papel é usar o que há de mais novo em desenvolvimento de software pra modernizar os serviços antigos do banco. E ainda mais: o programa de estágio do banco é famoso por ser o lugar de onde eles fazem suas novas contratações, então eu sabia que, se eu mandasse bem, podia transformar o estágio de hoje no sonhado emprego fixo de amanhã.

É óbvio que a coisa começou complicada: o projeto é enorme e me deram um monte de aplicações incompletas pra eu fazer funcionar. Documentação? Bom, um dos sistemas tinha um arquivo TXT com 20 linhas. Requisitos? Só conversando com um dos arquitetos de sistema, que começava a falar do projeto, depois tinha ideias megalomaníacas, depois se perdia e me perguntava: “do que é que a gente tava falando mesmo?”.

Pra piorar, todos os sistemas usavam tecnologias, frameworks e coisas que eu jamais havia ouvido falar. Aí eu ia pesquisar uma delas no Google e o site onde fica a documentação é bloqueado pelo firewall do Banco. Então eu ia pesquisar outra e, ao achar a página do projeto no GitHub, ela dizia assim:

“Atenção! Este projeto ainda não está pronto para ser usado! Ele ainda está em desenvolvimento e vai ser modificado no futuro”.

Se estivesse na minha situação, o que Osuna faria? Sim, exatamente isso que você pensou: iria manter exatamente a mesma cara impassível e a concentração de sempre e ia lançar as suas bolas.

Nem bem fez um mês de estágio e lá estava eu colocando no ar a minha primeira entrega, já sendo usada por uma das áreas do Banco em outro projeto. Algumas semanas depois e eu entreguei a documentação do sistema, que ficou tão boa que o arquiteto-chefe repassou pro time inteiro dizendo que “este é o padrão que todos vocês tem que seguir daqui pra frente”. E segunda-feira passada, faltando uma semana pra chegar na metade do estágio, a chefona do projeto veio me pedir pra, ao invés de voltar a estudar no semestre que vem, pra eu aceitar uma vaga de emprego full time que ela quer me oferecer.

A vida, como o baseball, é chata e maçante durante 90% do tempo. Mas quando você acerta…

Impressões após um ano de Canadá (ou: Retrospectiva 2015)

Exatamente no dia de hoje, um ano atrás, tudo que eu e a Bê tínhamos eram seis malas (sete, contando com a do Pavlov), uma passagem e uma vaga ideia do que viria pela frente na vida.

ticket

Muita coisa rolou neste primeiro ano canadense. Muita coisa foi inesperada, muita coisa deu errado, muita coisa foi melhor que o previsto. Mudar de país também mudou muito do que eu pensava sobre um monte de coisas, que é o que eu vou tentar resumir neste (longo) post.

1) O mundo é muito maior do que eu imaginava

Quando eu postei sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu fiz um comentário sobre o quanto minha passagem por países diferentes mudou – e principalmente expandiu – a minha visão de mundo. Quanta ingenuidade. Cheguei ao Canadá me achando o Jacques Cousteau da exploração mundial e a cada dia que passa eu vejo que não sei quase nada sobre meu próprio planeta.

No meu bairro, predominantemente negro, jerk deixou de ser só um xingamento e se transformou num delicioso tempero jamaicano. Vendo meus vizinhos, vários deles muçulmanos negros, entendi que o Islã é muuuito maior do que eu imaginava. Quando saio pra andar com o Pavlov tenho que tomar cuidado com as mulheres que usam niqab (aquela roupa que cobre o corpo inteiro), porque meu cachorro é um ser impuro na crença delas. E estou quase aprendendo a diferenciar o turbante dos muçulmanos do turbante dos árabes e o dos Sikh.

No Brasil tem o nordestino, o gaúcho, o mineiro, e cada um tem lá sua cultura e costumes diferentes – vários países dentro de um só. Na Índia é tipo isso, mas umas trinta vezes mais zoado: cada estado tem uma língua diferente, uma religião diferente, é uma bagunça completa. Entre os meus colegas, os sobrenomes “Kaur” e “Patel”, de tão comuns, já soam como “Costa” e “Silva”.

O lado asiático parou de ser apenas dividido em “chinês/japonês” e incorporou o malaio, o filipino, o coreano, e o vietcongue com sua língua maluca que parece onomatopéia pra comida (“nhom nhac” em vietcongue significa “banda de música”). Falando em comida, essa é outra vantagem da expansão asiática: o lamen, por exemplo, virou ramen e ganhou variações coreanas (bi bim bap) e vietnamitas (pho). O curry deixou de ser só aquele pozinho amarelo de sabor único: os supermercados tem prateleiras e mais prateleiras de curries em pasta e em pó, e agora estou indeciso se o tikka masala é melhor que o korma. E a minha geladeira tem um frasco de meio litro de sriracha.
sriracha

Viver em Toronto é experimentar uma espécie de ultramulticulturalismo que eu nunca imaginava encontrar no ocidente.

2) Inglês fluente é só o começo

Modéstia às favas, meu inglês sempre foi muito acima da média do que no Brasil se considera “fluente”. Aí cheguei aqui e passava apertado pra falar ao telefone porque não tinha a “leitura labial” pra me ajudar a entender. Quando a tevê dava a previsão do tempo eu me perdia em frases tipo “overcast above freezing in the single digits” ou com todos os novos tipos de neve (slush, flurries…). E a situação do tráfego, com o monte de nomes de ruas e regiões que eu não conhecia, soava como a professora dos desenhos do Charlie Brown.

weather

Mas com o tempo o seu ouvido vai se acostumando… e então começa o longo processo de reaprender as cores e os pesos das palavras, tão naturais no português, completamente misteriosos na sua nova língua. Um exemplo: eu ficava incomodado quando ia a um restaurante, o garçom me perguntava se eu queria alguma coisa, eu dizia que não e ele me trazia a conta. Custei a entender que o motivo era o “I’m done” que eu dizia quando havia terminado de comer – mas que na verdade significa que eu estou encerrando a refeição.

Toda língua tem sua poesia interna e nenhum livro pode explicá-la.

3) Como é bom o anti-jeitinho brasileiro!

Em outubro, como presente de aniversário, eu me dei uma visita à Art Gallery of Ontario. Quando eu e Bethania chegamos no museu, fui ao caixa e pedi duas entradas, uma delas de estudante.

Como de costume, o cara não me pediu nenhum documento para comprovar meu status de estudante, pois aqui se parte do princípio de que a pessoa está agindo de boa fé. Mas, não satisfeito em me vender uma entrada de estudante, o caixa pergunta pra Bethania:

– Você é estudante também, certo?
– Err… não, não sou – disse Bethania.
– Vai, me ajuda aí. Vou perguntar de novo: você é estudante também, né?
– Bem, e-eu tou fazendo um curso de inglês…
– Pronto, tá aí! Duas entradas de estudante! É que o museu fecha daqui a duas horas, não faz sentido você pagar o preço cheio. Aproveitem!

Toda vez que isso acontece – e é com uma certa frequência que isso acontece – eu sinto uma paz que eu jamais senti no Brasil, a paz que vem da sensação de que, finalmente, eu vivo num lugar onde eu não preciso ficar o tempo todo tomando cuidado pra que ninguém se aproveite de mim. Na verdade, a preocupação agora é garantir que eu estou fazendo o mesmo com as pessoas que me cercam, em todos os momentos. No metrô, por exemplo, eu tomo muito cuidado para não me distrair ouvindo música ou mexendo no telefone, pois pode ter alguém atrás de mim querendo entrar ou sair do vagão e eu não quero que a pessoa passe pelo incômodo de me pedir licença. Outro dia, ao andar com o cachorro no parque, me peguei recolhendo lixo que os outros deixaram no chão. E desenvolvi um ato reflexo de sorrir automaticamente pra todo mundo que fala comigo. O que nos leva ao ponto 4…

4) A todos os garçons brasileiros: me desculpem

Esse ponto é meio polêmico, mas eu preciso falar dele.

Um ponto crucial para entender o Canadá é o fato de que a pirâmide social por aqui é extremamente achatada. No Brasil, quando você diz que alguém é pedreiro, marceneiro, encanador ou garçonete, a ideia que vinha na minha cabeça ignorante era que a pessoa ganha um salário baixo e trabalha em um subemprego. Aí eu me mudei de hemisfério e – surpresa! – não tem mais subemprego: um motorista de ônibus em Toronto, por exemplo, ganha uns cinco mil dólares por mês (quase R$ 15 mil, no câmbio de hoje). Policiais, professores, bombeiros e enfermeiros chegam a ter salários médios de – e aí eu preciso escrever em caps lock – CEM MIL DÓLARES POR ANO. É o mesmo salário de um médico. Moral da história: por aqui, toda ocupação é suficientemente remunerada para que a pessoa tenha uma vida digna. Não tem emprego bom ou ruim: se você contribui para a sociedade com trabalho honesto e legal, você é um bom cidadão.

Logo que cheguei ao Canadá uma das coisas que estranhei foi o tanto que os garçons daqui te dão atenção. Eles se apresentam, sorriem, te explicam o menu todo, fazem uma ou duas brincadeiras pra amenizar o clima, te perguntam o tempo todo se você está precisando de alguma coisa, etc. Não é uma relação comercial, e sim uma relação pessoal. Você não é um cliente, você é uma pessoa como ele ou ela é. E aí eu percebi que meu estranhamento não vinha do fato deles estarem me dando atenção, e sim do fato de que eu é que não dava a devida atenção aos garçons brasileiros. Não cheguei ao extremo de maltratar ninguém, obviamente, mas sabe quando você nem olha pra cara da pessoa, simplesmente faz o seu pedido sem incluir um por favor ou um obrigado? Verdade seja dita, eu me relacionava com aquela pessoa como se ela fosse menos pessoa do que eu.

Admitir isso é algo extremamente vergonhoso pra mim, mas é a mais pura verdade. E, após conversar com alguns outros expatriados e ver que vários deles ficam perplexos porque “o pedreiro daqui ganha bem”, eu acho que preciso tornar pública essa reflexão. E, como na vida a lei do karma é coisa séria, chegamos ao ponto 5…

5) Agora eu sou minoria

Na semana que comecei a escrever este post me ocorreu uma história bem apropriada para esta questão.

Dentre todos os colegas que fiz na faculdade, apenas um é canadense de nascença. Ela se chama Winnie e, apesar de ter nascido aqui, é filha de chineses. Ela é tipo uma versão asiática da Phoebe do Friends: é toda voada e cheia das manias estranhas. Mas é super gente boa.

Há algumas semanas tivemos um feriado bem no meio da semana e eu combinei com ela e com um outro amigo para almoçarmos juntos. Fomos a um rodízio de comida japonesa, bom e barato, no bairro dela mesmo. Depois de nos empanturrarmos de sushi ela comentou que ia pra casa de ônibus e, como bons mineiros (e os únicos de carro), eu e a Bê nos oferecemos pra dar carona pra ela. Depois de muuuuita insistência e de ela ligar pros pais pra confirmar, ela deixou a gente deixá-la no ponto de ônibus mais próximo da casa dela porque, por algum motivo, ela não queria que a gente soubesse exatamente onde ela morava. Até aí tudo bem, botei isso na conta de “a Winnie tem lá suas manias estranhas” e deixei pra lá.

Acontece que o lugar onde faço estágio no centro de Toronto é a um quarteirão do lugar onde ela trabalha, então a gente se encontra pra almoçar toda sexta-feira. Numa dessas sextas, papo vai, papo vem e eu voltei no assunto do nosso almoço de quarta e por que ela não deixou a gente levá-la em casa. Surpresa: ela disse que os pais dela não confiam em latinos, porque tem o estereótipo de que não somos confiáveis, e ela não quis desagradar os pais.

Eu queria muito que essa fosse só uma história isolada, mas outro dia mesmo eu estava saindo do Walmart e vi uma senhora carregando várias sacolas com bastante dificuldade. Me ofereci pra ajudar, ela recusou mas ficamos batendo papo no ponto de ônibus. Cinco minutos de conversa depois e a gente ia comentando da bagunça que estava o Walmart quando ela me solta essa pérola:

– Sabe, eu sou cristã e não é com preconceito que eu falo isso, mas aqueles funcionários negros do Walmart são muito mal educados!

Moral da história: a questão do preconceito é bastante delicada por aqui. Mas eu continuo crendo na boa-fé do canadense e confiando que esses são casos isolados pois, felizmente, tenho um monte de contra-exemplos onde me tratam super bem. E, formalmente, Toronto é super liberal e inclusiva.

Mas mudemos pra um assunto mais alegre…

6) As quatro estações (não são mais um disco do Renato Russo)

Por algum motivo eu sempre quis experimentar como é isso de morar num país com as estações certinhas, igual eu via nos livros de geografia. Parece uma bobagem, mas ver as estações passar dá toda uma nova poesia pra vida.

Ao longo do ano eu tirei umas fotos da vista da minha janela e fiz a montagem aí embaixo (clique para ampliar).

FourSeasons1200

No inverno a encrenca não é só o frio: o que mais me incomodou é que o sol começa a nascer lá pelas 8 da manhã e lá pelas 5 da tarde já está completamente escuro de novo. Acordar cedo pra ir pra aula, com a temperatura em quinze graus negativos e com uma escuridão total na rua é de lascar. Outra chatice são as calçadas e ruas escorregadias. Mesmo depois que você se acostuma a dirigir no inverno, pegar estrada sempre é meio tenso. Os animais todos se escondem ou migram pra lugares mais quentes, e as pessoas naturalmente evitam passar muito tempo na rua. Some-se a isso o fato de que a neve é um ótimo isolante acústico e o resultado disso é o que eu mais gosto no inverno: o silêncio. É indescritível a quietude que o mundo ganha nos meses mais gelados do ano.

winter2

Uma peculiaridade importante do Canadá: aqui não existe a profissão de frentista. Abastecer seu carro no frio de menos trinta graus não é nada divertido…

Em março, quando você já não está aguentando mais passar tanto frio, chega a primavera. Cara, a primavera é um troço completamente mágico: Os troncos de árvore que passaram meses sob temperaturas desumanas e que você já dava como mortos começam a ganhar folhas sabe-se lá Deus como. Os gramados dos parques e das casas ressurgem de repente e se enchem de florzinhas amarelas (dentes-de-leão, super comuns por aqui). Os dias vão ficando progressivamente mais longos e ensolarados, e você passa a comemorar temperaturas de dois graus positivos como se fosse clima de ir pegar praia. Os restaurantes começam a reabrir os seus pátios, os repórteres do noticiário da tevê ficam mais animados para dar as notícias, todo mundo sorri na rua… do jeito mais post de auto ajuda do Facebook possível: primavera é VIDA.

park

O verão é quente mesmo, nível Brasil de quentura, mas com muito menos chuva – o que é ótimo. A cidade fica em polvorosa nessa época e tem evento pra tudo que é canto, tem shows, tem feiras, tem exposições, as pessoas lotam os parques, os pátios, as ciclovias, ninguém quer ficar dentro de casa – a não ser que seja pra escapar um pouco da suadeira debaixo do ar condicionado. Os dias longos te enchem de energia: às cinco e meia da manhã já tem sol rachando lá fora, e ele só se põe às 9 da noite. A galera capricha também na decoração dos jardins – as casas se enchem de lírios e outras flores coloridas. No verão o Canadá vira um outro país. Pra você ter uma ideia da diferença, o espelho d’água na foto abaixo, que fica em frente à prefeitura, é o mais famoso ringue de patinação no gelo da cidade.

nathanphilips

O que fecha o verão não são mais as “águas de março”, e sim o outono. Para compensar o retorno do frio, a chegada de uma chuva chata e constante, e o retorno dos dias progressivamente mais curtos, você é recompensado pelo espetáculo que são as árvores mudando de cor e desfolhando.

fall2

Até os feriados da época são apropriados: primeiro tem o thanksgiving onde você agradece tudo de bom que rolou até então, e depois vem o remembrance day. Nesse dia – o dia 11 do mês 11, precisamente às 11 horas e 11 minutos, os ônibus e o metrô param, todo mundo para o que está fazendo, e todo mundo faz um minuto de silêncio para os soldados que morreram na guerra. E ao longo do mês muita gente usa a tradicional florzinha de papoula vermelha na roupa.

 

7) E o lado ruim do Canadá?

Porque sim, apesar de eu me desdobrar em elogios toda vez que me perguntam sobre a vida em Toronto, aqui também tem lá as suas canseiras.

Uma delas é o transporte público, que está defasado em uns 10 anos. Pra começar, ele é fortemente baseado em ônibus – que, justiça seja feita, são ótimos, tem motores híbridos (diesel/elétrico), todos tem rack para bicicleta, todos tem rampa para cadeira de rodas… mas que são muuuuuito lentos por causa da quantidade de pontos de ônibus espalhados nas ruas. Pra você ter uma ideia, a velocidade média do ônibus que pego todo dia pra ir ao trabalho é de 12km/h. O metrô seria mais rápido, mas Toronto tem míseros 68km de linhas interligando a cidade (São Paulo tem mais de 330km).

Outra chatice é não poder comprar cerveja no supermercado: bebida alcoólica é fortemente regulada e só é vendida em duas lojas (Beer Store – dã! – e LCBO). Beber ao ar livre pode, mas só em áreas licenciadas e fisicamente delimitadas. É comum você ir a um show ou uma feira e ter um “cercadinho” onde as pessoas podem beber.

A Bê me lembrou outras coisas complicadas:

  • O sistema de saúde. Sim, ele funciona e é gratuito, e o Canadá é pioneiro mundial em várias áreas avançadas da medicina (transplantes, por exemplo). Mas pras coisas simples, como fazer um exame de sangue ou comprar seu anticoncepcional, você precisa obrigatoriamente passar por uma consulta médica demorada e inútil. E o padrão da medicina daqui não é nada preventivo: o foco é tratar a doença depois que ela acontece.
  • As festas e a vida noturna. Não tem jeito: ninguém sabe fazer uma boa festa como os brasileiros sabem. As festinhas de escritório então, para aniversariantes, aposentados e etcetera, são desesperadoras. E nem vou comentar o quão ridículo é ver o norte-americano tentando dançar…
  • A tevê. Tirando as minisséries, a programação da TV aberta é praticamente inassistível.
  • O comportamento passivo-agressivo do canadense. Pra gente da cultura latina o normal é sempre deixar claro o que se está sentindo – o que inclui armar eventuais barracos. Já o canadense é reservado e estereotipicamente bonzinho, portanto a sua agressividade é velada e passiva e, portanto, intensamente tóxica. Eu nunca vou me esquecer de um domingo, logo que cheguei, quando eu estava procurando vaga pra estacionar num shopping lotado e, sem querer, “roubei” uma vaga de um cara. Ele passou com o carro do meu lado, me olhou do jeito mais desprezível que existe e disse: “Você sabe dar seta? Pois é, deveria usá-la mais vezes então”.

Mas o principal problema canadense é, sem sombra de dúvida, o inverno. Viver fica bem mais complicado quando você tem boas chances de morrer congelado se sair na rua despreparado.

8) Conclusão?

No post sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu usei uma frase bastante peculiar sobre a minha relação com o país:

E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

Pegando carona nessa mesma analogia, esse primeiro ano de Canadá tem sido como aquele primeiro ano de namoro (a chamada “fase rosa”) onde tudo é alegria. As minhas suspeitas de que “a gente tem tudo a ver um com o outro” estão todas se concretizando. Mas eu estou tentando não me apegar enquanto o outro lado não demonstrar que quer mesmo compromisso – em outras palavras, meu visto tem data pra acabar.

De qualquer forma, mesmo se der tudo errado e eu precisar voltar ao Brasil, o que eu traria comigo é um sentimento que esta estadia canadense tem me demonstrado e que, por uma série de motivos, eu nunca aprendi a cultivar: a gratidão. Acho que essa é a principal herança do ano de 2015 e vou me esforçar pra conservá-la – com ou sem thanksgiving.

Retrospectivas anteriores:

2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Eleições 2015

Assim como no Brasil, aqui no Canadá também querem derrubar o líder do governo.

(brincadeirinha – é que esse ano tem eleições federais :) )

Tem sido fascinante acompanhar o processo eleitoral por aqui. Eis alguns dos meus destaques.

O boneco de Lego e os partidos coloridos

Quando o primeiro ministro anunciou as eleições, em agosto, a imprensa destacou que seria o mais longo período de campanha eleitoral em mais de um século. Como as eleições são em outubro, este enooooooorme período de campanha não chega nem a três meses

O que eu mais gosto no atual primeiro-ministro é que o cabelo dele é idêntico ao de um boneco de Lego:

Stephen-Harper1

Super-resumidamente, o cenário político canadense é dividido em cores:

  • Os azuis são os conservadores, ou “Tories” (longa história). É o partido do Harper e a maioria atual da câmara. Como o governo conservador já vai pra quase uma década tá todo mundo meio que de saco cheio deles.
  • Os laranjas são os “novos democratas” (NDP), o partido de centro-esquerda ou centro-direita, o que for mais conveniente :) . O candidato democrata (Tom Mulcair) parece o FHC, mas só fisicamente. Mas pelo que entendi da história recente, o NDP é meio que “queimado” entre o eleitorado.
  • O vermelho é dos liberais e o seu candidato é o Justin Trudeau: jovem, cheio de marra, e neto de um político famoso do passado. E fisicamente ele também parece o Aécio. As diferenças estão é na ideologia do partido, que quer liberar aborto, maconha e essas coisas todas que tiram o sono dos conservadores.
  • O azul claro é o bloc québecoise, do candidato Gilles Duceppe, mas ninguém fala neles fora do Quebec.

O cartoon abaixo, simplesmente genial, resume tudo no melhor estilo RPG: Harper é o clérigo sem emoções, Trudeau é o bardo fumador de cachimbo, Mulcair é o guerreiro ambidestro e o Duceppe é o morto-vivo.

quest

Além desses quatro tem também os partidos nanicos bizarros, tipo o partido pirata, o Marijuana (!!) e até o Rhinoceros –  que, entre suas origens, cita a história brasileira do rinoceronte Cacareco, e cuja plataforma política é não cumprir nenhuma promessa de campanha. Mas esses nunca aparecem na mídia.

A política passivo-agressiva canadense

O aspecto cultural mais interessante de morar no Canadá é ver que, de fato, o canadense é estereotipicamente bonzinho – e isso reflete na política. O melhor exemplo disso é a campanha difamatória que os conservadores botaram na TV para criticar os liberais. O slogan da campanha difamatória é simplesmente bombástico:

Justin Trudeau – ele simplesmente não está pronto.

Isso é tipo o equivalente político a “não vote no fulano porque ele é bobo feio e chato”.

Os debates são outro bom exemplo. Apesar da campanha curta, os candidatos debateram cinco vezes na tevê. Em setembro tinha debate quase toda semana. Diferentemente do Brasil, o mediador lança um tema e os candidatos podem falar quando querem. Claro que tem bate-boca, mas os candidatos escutam e obedecem o mediador. E ao invés de “o senhor candidato é um mentiroso salafrário”, as críticas são do tipo: “isto não está correto” ou “o senhor precisa verificar estes dados”. É um troço inacreditável.

No último debate que vi teve um lance engraçado: Stephen Harper estava se defendendo de uma crítica e, como o tempo acabou, o mediador pediu que ele resumisse sua opinião em uma frase curta pra encerrar o assunto. Ele deu uma de esperto e falou mais uns 30 segundos. Na sequência, o candidato do NDP deu a cutucada mais canadense de todas: “Mas que frase longa, senhor candidato!” – e a plateia caiu na risada.

Este é o climão maneiro dos debates canadenses.

Uma coisa bem ruim que rolou com os debates é uma estratégia muito retardada mas que parece funcionar bem por aqui: a da distração. Funciona assim: você aborda um tema super polêmico mas pouco importante do ponto de vista nacional e ele vira o foco de todas as discussões, então as pessoas se esquecem de discutir e avaliar outras coisas tipo propostas de reajustes fiscais, melhorias de infraestrutura, desempenho econômico, etc. Aqui a polêmica foi o niqab: aquele véu que as mulheres islâmicas usam para cobrir o rosto quando saem em público. É que para fazer o juramento de cidadania canadense a lei diz que a pessoa não pode encobrir o rosto, e parece que uma imigrante islâmica foi contestar essa proibição e aí fez-se o circo e a mídia ficou “niqab pra lá, niqab pra lá” e ninguém mais falou em mais nada. Foi bem chato.

Tiririca não teria chances na terra da Rainha

Uma coisa na qual os canadenses pegam pesado é na reputação dos candidatos. Esta eleição inclui também votos para a house of commons (a “câmara dos deputados”), e toda semana a mídia dava notícia de algum candidato expulso do seu partido. Os motivos eram sempre coisas seriíssimas:

  • Um candidato foi expulso porque descobriram que, no passado, ele tinha um programa de rádio onde passava trotes para pessoas e, nesses trotes, debochava de deficientes físicos.
  • Muita gente rodou por causa de posts no Facebook e no Twitter. Um candidato foi expulso porque tuitou que “aborto não deveria ser opção de gente irresponsável”, outro porque, anos atrás, xingou alguém dizendo: “você é um desperdício de esperma”.
  • O mais recente foi um candidato expulso porque acharam um artigo de jornal de sua autoria, intitulado “é errado um homossexual se tornar normal?”, onde ele supostamente apoiava a tal “cura gay”. O candidato pediu desculpas e culpou a tradução, dizendo que na tradução (o artigo foi escrito em punjabi) traduziram straight (heterossexual) como “normal”.

No quesito “roubalheiras e contas na Suíça” eu só vi a rebarba de um princípio de escândalo envolvendo o Senado, cujos membros são indicados pelo primeiro-ministro. Parece que, em 2012, um senador (já demitido e respondendo a processo) teria recebido um reembolso de despesas ilegal, na exorbitante quantia de… tcharammm… 90 mil dólares. A reação popular, ao invés do clássico “político é tudo ladrão”, foi o início de uma conversa sobre extinguir o senado inteiro, conversa tão séria que tem apoio de 41% da população!

Neste ponto o Brasil está anos-luz à frente. 90 mil dólares não enchem cueca de nenhum deputado brasileiro.

Por sinal, parece que os deputados daqui ralam bastante e são bem próximos da população. Outro dia fui andar com meu cachorro às 6:30 da manhã, escuro ainda, num frio de 10 graus, e um cara me ofereceu um santinho do candidato democrata aqui do bairro. Quando fui ver, quem me entregou o santinho foi o próprio candidato. 

Mas fica fácil entender por que isso acontece por aqui quando você entende…

O sistema eleitoral canadense: cada voto vale muito.

Aqui rola o chamado voto distrital: cada distrito (aqui chamado de riding) elege um candidato. Como eu moro numa das cidades mais populosas do Canadá, o meu riding é mais ou menos do tamanho do meu bairro. O meu “deputado federal” vai ser o deputado do meu bairro. Achei massa isso.

riding é proporcional à população e não tem voto de legenda ou primeiro e segundo turno: é maioria simples. Isso significa que eleger alguém com, sei lá, 30% dos votos é bem possível. Significa também que rola voto estratégico para evitar o “desperdício” de votos e derrotar a oposição.

Com a eleição chegando, o bairro se enche de plaquinhas dos candidatos nos gramados em frente às casas – que, obviamente, só podem ser colocados pelo dono da casa. Se você nao apoia ninguém, pode dar aquela zoada:

darth

Outra coisa que me surpreendeu: aqui não rola de “chutar o cavalete do candidato da oposição”. Destruir propaganda eleitoral é crime federal.

O governo facilita muito a vida do eleitor canadense. Esse ano o Canadá bateu o recorde do chamado “voto adiantado”: se você não quiser esperar até o dia da eleição, o “TSE canadense” permite registrar e votar durante quatro dias na semana anterior ao dia oficial da votação, pra facilitar a vida de quem trabalha em horários malucos ou só pode ir no final de semana. Se você estiver fora do seu riding (o seu “distrito” eleitoral) ou até fora do país, é só se registrar que o TSE te manda um kit pra você votar pelo correio.

No entanto o voto não é obrigatório, então grande parte da propaganda política não é focada no “vote em mim”, e sim no “vá votar”. O turnout da última eleição foi em torno de 60% e esse número tem tendência de queda. E aparentemente, o que decide a eleição é exatamente isso: quem vota ou deixa de votar. Pelo que andei vendo, o governo conservador atual só está lá porque quem se interessa por política é o canadense conservador, mais velho, e como eu li na mídia outro dia, se a “geração do celular” for votar, o Harper perde.

A cobertura das eleições na mídia, por sinal, me pareceu esquisita no começo. Meio “sem sal”, como se estivesse faltando alguma coisa. Só depois de um tempo é que percebi que, na verdade, eu estava é estranhando a transição do “jornalismo com posicionamento político”, ao qual eu fui exposto à vida toda, para o “jornalismo neutro” daqui. O apoio a um ou outro candidato, quando rola, é feito só na base do editorial.

Mas quem vai ganhar?

As últimas pesquisas apontam vitória liberal, então provavelmente vai dar Aécio Nev… digo, Justin Trudeau :)

Mas o mais legal é ver como o país é dividido: a imagem abaixo mostra cada distrito com a cor do partido que está liderando as pesquisas. O que deve dar a vitória pro Trudeau não aparece muito no mapa, mas é o voto dos grandes centros urbanos: repare em como Vancouver (na costa oeste) e Toronto (no sudeste, no meio de um monte de distritos azuis) estão vermelhinhas.

polls

 

No meu bairro – predominantemente pobre, negro, de imigração caribenha/africana e religião islâmica (!!), o candidato liberal, um imigrante senegalês de nome árabe (?!??) lidera com quase 50% dos votos. Eu queria muito encontrar ele na rua pra bater um papo sobre as propostas do partido, mas não rolou.

O show do Godspeed You! Black Emperor

Pausa nas sagas sofridas do meu estágio canadense (spoiler: tá um saco) pra contar uma coisa muito, muito boa: o show do Godspeed You! Black Emperor de sábado passado.

Preâmbulo: show de quem?

“Saco, lá vem ele falar dessas músicas esquisitas”, você está aí pensando que eu sei. Então eis aqui uma pergunta: você é apaixonado por alguma coisa? Pelo Galão Doido da Massa? Pelo seu carro? Pela sua mulher? Por um livro que putaquepariu cara esse livro explica a VIDA, mano? Claro que é. Tem alguma coisa aí que tu curte pra caralho. A minha é música, particularmente a música que sai do lugar comum e explora um lado inédito, mesmo que esquisito, dessa coisa maluca que é descrever coisas indescritíveis empilhando frequências sonoras.

O Godspeed You! Black Emperor faz isso, e faz usando um som absolutamente colossal, uma massa enorme de fúria composta por três guitarras, dois baixos, duas baterias e uma mocinha tocando violino no meio de tudo. Os guitarristas tocam sentados porque precisam usar os dois pés pra operar suas pedaleiras – e com isso eles conseguem conjurar um som único, uma espécie de leviatã guitarrístico sobrenatural. “Storm”, a faixa que abre o álbum “Lift your skinny fists like antennas to heaven” é uma das músicas mais bonitas que já ouvi.

Nenhuma banda no mundo soa como eles. Eu descobri a banda em 2005, e pra variar dei azar: eles estavam numa espécie de hiato, sem fazer shows ou lançar música nova. O hiato só acabou em 2012, quando veio do nada um (premiado) álbum novo. E esse ano eles não somente lançaram outro álbum como também botaram o pé na estrada pra tocar. E um detalhe muitíssimo importante: eles são canadenses.

Aí esse ano eu tinha tudo pra dar sorte: morando no Canadá, com a banda ressuscitada e fazendo turnê. Mas, como de costume, não alimentei expectativa nenhuma. Até que em julho, o Songkick – um site que te manda alertas de shows das bandas que você curte – mandou o email que eu esperava há décadas.

gube

O show

É claro que precisamente às dezenove horas eu já estava dentro do Danforth Music Hall, bebericando minha cerveja de R$ 301 e morrendo de expectativa.

Duas horas de espera depois, começa o ritual: sem anúncio nem nada, os caras vão entrando, um a um, pegam os instrumentos e começam a fazer o que aparentemente convencionou-se chamar de “hope drone”. Sabe quando a orquestra tá afinando os instrumentos e eles sempre tocam aquela mesma coisa no começo do espetáculo? “Hope drone” é todo mundo da banda esmerilhando os instrumentos e criando uma massa elétrica de ruído absolutamente delicioso por alguns minutos, enquanto quatro projetores Super8 passam rolos de filme semidestruído atrás do palco onde é possível ler apenas uma palavra: “hope”.

Um comentário sobre o ruído: antes do show começar, eu comecei a olhar em volta e todas as pessoas ao meu redor estavam usando protetores auriculares. Honestamente, nem precisou: o show foi muito alto, mas nada fora do comum. E fica aqui o meu abraço pro engenheiro de som, que acertou magistralmente a mão. Há tempos eu não ia num show com acústica tão boa (e não tem nada mais irritante do que ver músicos brilhantes serem assassinados por uma acústica ruim). Eu me lembro de um momento onde os guitarristas tocavam com chaves de fenda, o baixista usava um arco de violoncelo em um dos pratos da bateria, os bateristas esmigalhavam os bumbos, uma bola de dissonância ensurdecedora, mas dava pra ouvir tudo. Aí a banda parava inteira e o guitarrista solo começava um dedilhado baixinho, e o silêncio era tão perfeito que dava pra ouvir a bartender, no fundo do teatro, colocando uma moeda na jarra das gorjetas. Foi mágico. Em termos de som, nesse sábado deu tudo certinho.

De fato, tudo deu certo nesse show. A começar pela primeira música: para surpresa minha e de todos, Storm. Total “gentileza canadense” da banda. Um cara na plateia ainda gritou: “Thank you!!!!!” e todo mundo caiu na risada. E caras… Storm ao vivo. Eu podia morrer ali naquela hora, cabou, a minha existência estava completa, tudo soou alto e lindo e épico exatamente como eu sempre imaginei que soaria. A sequência das músicas do show também foi perfeita, porque eu mal me recuperava de Storm e eles entram com “Peasantry”, a primeira música do último disco, onde o leviatã das guitarras diz o riff mais “agora a porra ficou séria” de toda a história da banda. E teve música nova (!!!), e depois música velha, e no meio do show eles param tudo e o Moya (o guitarrista) entra com “Moya” (a música), que é praticamente o hino não-oficial do Canadá. Foi de chorar. Gritaram “thank you” da plateia de novo e tudo.

Até o final do show foi perfeito. Lá pelas duas horas de barulheira, do mesmo jeito que entraram no palco, sem alarde, os caras começam a abandonar os instrumentos, um a um. A plateia fica lá, estática, enquanto por algum motivo o palco ainda está elétrico, fazendo barulho sozinho. Então um dos bateristas volta e, solenemente, começa a desligar os amplificadores2, um por um. Não teve bis, ninguém pediu, não precisava.

(1) CAD$ 9, mais $1 de gorjeta, mais dólar canadense a R$ 3,00…
(2) Um deles tinha, bastante apropriadamente, uma bandeira canadense de ponta-cabeça.

A saga do primeiro estágio canadense

A principal razão que orientou a minha escolha de faculdade aqui no Canadá não foi qualidade de ensino (que nem tá aquelas coisa toda), e sim a perspectiva de voltar logo pro mercado de trabalho. Foi por isso que escolhi um curso que alternava entre semestres de estudo e do tal “co-op”, que é um semestre onde você faz estágio em alguma empresa. A treta é tão séria que a preparação pro co-op é assunto de uma das matérias do curso, com professor e nota e tudo.

Imagina, cara. Eu, já tendo um bacharelado no currículo, anos de experiência de trabalho, e morando num lugar onde tem Google, IBM, Microsoft, Amazon e um monte de empresa massa pra estagiar… eu não via a hora de chegar a hora do co-op.

Acontece que a minha procura por estágio foi mais ou menos assim…

tumblr_nr7uzhXSkQ1s2yegdo1_250Parte 1: De como fui indicado pra uma vaga no Google

 

Logo que começou a procura por trabalho eu não quis nem saber e comecei mirando alto: pesquisei as empresas onde eu queria trabalhar e fui descobrir como estagiar nelas. Naturalmente, a primeira empresa da lista era a primeira de 11 entre 10 engenheiros de software: o Google. Mas eu sabia que simplesmente jogar meu currículo no RH deles não seria suficiente, então tentei apelar para o meu networking e, sem o menor pudor, acionei tudo que era contato do Google que eu tinha no LinkedIn e demais redes sociais.

A chance era mínima, mas deu certo – um antiquíssimo conhecido do Twitter (sempre o Twitter!) encaminhou minha indicação e o RH de lá entrou em contato comigo. Fiquei empolgadíssimo.

A empolgação durou só uns três emails, onde eu e a mocinha do RH tivemos mais ou menos o diálogo a seguir:

– Recebemos o seu currículo, mas as vagas de estágio são para quem está cursando um bacharelado.
– Eu sei – respondi, cordial. O meu curso atual me dá como título um “advanced diploma”, mas eu já sou bacharel em Ciência da Computação, então creio que eu mais do que satisfaço as condições para esta vaga.
– Sim, mas as vagas são só para quem está em um curso que concede um bacharelado no fim.
– Entendo – insisti eu. Mas veja bem, eu já tenho o título de bacharel. Na verdade, no final do meu curso eu vou ter mais do que o que você pede pra vaga.

É claro que não deu certo. Mas não desanimei, afinal, na paralela do Google eu estava uma metralhadora de currículos, aplicando pra tudo que era vaga de desenvolvimento de software que eu via pela frente. Era questão de tempo até começarem a aparecer as entrevistas, pensava eu.

Parte 2: O silêncio do inbox

Todo dia, depois da aula, eu chegava em casa, pesquisava as vagas de estágio, separava as que interessavam, editava meu currículo para cada uma delas e escrevia uma carta de apresentação para cada uma delas – e só após passar uma ou duas horas pesquisando sobre a empresa na internet para personalizar a carta e demonstrar o maior interesse possível.

Enquanto isso, meus colegas iam recebendo os convites pra entrevistas. “É questão de tempo, daqui a pouco vão me ligar”, pensava eu. Os meus colegas começaram a ser contratados pras vagas onde fizeram entrevistas. Eu continuava mandando currículos, às dezenas, e… nada.

Algo errado com meu currículo, talvez? Não podia ser: ele foi formalmente avaliado pela “professora” do curso de co-op e eu tirei a nota máxima tanto pra ele quanto pra minha carta de apresentação. De fato, ele tava fuderoso: tinha meu GPA(1) altíssimo, tinha meu site, meus projetos pessoais, tinha minha experiência profissional canadense, tava lindão. Ainda assim marquei uma segunda reunião com a professora pra reavaliar o CV e ela continuou falando que tava bom. Os meus colegas contratados também revisaram meu material e também ficaram sem entender por que não me ligavam pra fazer entrevista. “Você é mais bem preparado que eu pra essas vagas”, disse um deles.

Um dia, tarde da noite, frustrado, abri meu currículo pela décima nona vez e, no meio da trigésima sétima revisão, me bateu um palpite bem maldoso. Mas achei que valia a tentativa. Decidi tirar duas coisas do CV:

  • O link pro meu site pessoal
  • O local onde fiz faculdade fora do Canadá – ou seja, tirei a palavra “Brasil” do CV.

Subitamente, o telefone começou a tocar e as entrevistas começaram a aparecer. Chegou ao ponto de me ligarem até depois que eu tinha sido contratado. Eu quero muito crer que a culpa era do meu site, e não do meu país de origem, mas acho que jamais saberemos…

Parte 3: As entrevistas

Ah, as entrevistas. Teve de tudo: tive que debugar scripts PHP no “bloco de notas” de um Mac com teclado desconfigurado, tive que escrever função recursiva pra imprimir árvore binária no campo de chat de texto do Skype, tive que programar à lápis em papel… e teve também as cagadas, tipo quando uma das entrevistadoras me perguntou:

– Que sites você lê pra se manter atualizado sobre tecnologia?
– Bem, eu leio bastante coisa. Atualmente eu ando acessando muito o Hacker News

Mas ao invés de encerrar aí a resposta, eu fui tentar bancar o bonitão:

– …mas esse é bem comum, todo mundo lê.
– Pelo visto eu não sou “todo mundo” – respondeu a entrevistadora, com uma justificadíssima cara de cu.

Lá pela quarta ou quinta entrevista eu, finalmente, fui pegando o jeito. Mesmo porque o semestre de aulas estava acabando e eu precisava arrumar um estágio. O sarrafo de seleção de vagas já tava lá embaixo: eu tava mandando CV até pras vagas de – gasp! – gerente de projeto. E então, finalmente…

Parte 4: A contratação

No último post eu comentei que tenho um lema de vida de que: “expectativas levam à desapontamentos”. Lembra de quando eu comecei a caçar meu co-op, que eu tava pensando em Google e IBM? Acabou que nenhuma empresa quis me contratar.

A única vaga que me ofereceram foi no serviço público, numa divisão do Ministério da Justiça de Ontario. Em circunstâncias normais eu jamais mandaria meu CV prum lugar desses, mas a vaga pedia gente com experiência em desenvolvimento web, então lá fui eu, com a esperança de que pelo menos um Javascriptzinho eu ia fazer.

Como desgraça pouca é bobagem, eu ainda tive a desagradável surpresa de pedir pra minha futura chefe detalhar um pouco mais as responsabilidades da vaga, e eis que me chega uma lista que incluía coisas do tipo:

  • Instalar e configurar as impressoras da equipe
  • Manter o inventário dos equipamentos
  • Realizar manutenção dos cabos e equipamentos de rede, etc

Eu comecei meu semestre falando com o RH do Google e terminei prestes a virar instalador de Windows.

larrymossExpectativa (esq.) vs. realidade (dir.). De fato, meu cabelo tá mais parecido com o do Moss…

Parte 5: o fim?

Talvez vocês tenham a impressão que eu tou mais fudido que a Dilma, que tá tudo dando errado e que tou chorando até dormir todo dia. Mas é exatamente o contrário. Se segura pro momento filosófico do post.

Aquele papo de “expectativa leva ao desapontamento” parece papo de pessimista, mas na verdade tem um viés inacreditavelmente positivo, que é o de tirar a sua cabeça do futuro (ou do passado) e botá-la de volta onde importa, que é o presente. Sonhar em estagiar no Google não adianta nada. Arrumar alguém pra te indicar pro Google é que pode fazer toda a diferença. No meu caso não fez, mas mesmo assim eu colhi vários efeitos colaterais da minha mini-obsessão em descobrir como as empresas contratam desenvolvedores. Descobri que tem um monte de empresa que imita o processo do Google. Descobri até que tem livros especializados em preparação para entrevistas de vagas para programadores. Pro meu próximo semestre de co-op, ao invés de chegar esperançoso, eu vou chegar é muito mais bem preparado.

Outro ponto importante é que, depois de levar muita porrada da vida, a gente aprende que sofrimento e infelicidade são duas coisas completamente diferentes. Eu já comentei aqui da Marina Abramovic, que diz que “você não cresce quando está fazendo o que gosta”. Quando fiz todo esse meu movimento de largar tudo e vir pro Canadá recomeçar uma carreira inteira eu não tinha expectativa de que seria fácil. E eu não alimento ilusões de que vai dar certo, por mais que eu trabalhe duro sempre tem um elemento fora do seu controle(2) e não tem nada que você possa fazer se a vida escolher não sorrir pra você. E no fim dela, ainda por cima, você vai estar morto. Então a única alternativa é extrair satisfação do seu próprio esforço, dar o seu melhor todo santo dia, e o que vier daí é isso mesmo, bom ou ruim.

Mesmo porque de vez em quando vem coisa boa. Por exemplo: esta semana eu comecei o meu bendito estágio de servidor público e – surpresa! – eu tou autorizado pela minha chefe a recusar demandas de TI, porque eles contrataram um help desk terceirizado justamente pra isso e querem usar meu tempo pra projetos mais interessantes. Mas, como de costume, não vou criar muita expectativa :)

Posfácio: Deus abençoe a Rainha

Como governo é igual em todo lugar do mundo, hoje é quarta e ainda não terminaram toda a papelada da minha contratação. No entanto já passei por uma etapa bastante importante: diante do meu gestor e de duas testemunhas, eu, solenemente, proferi o seguinte juramento de lealdade:

Eu juro que serei fiel e portarei lealdade verdadeira à Sua Majestade Elizabeth II, Rainha do Canadá, e seus herdeiros e sucessores. Com a graça de Deus.

Sem brincadeira. Isso foi, sem dúvida, a coisa mais fantástica de toda a minha carreira profissional.

(1) GPA significa Grade Point Average – a média das suas notas. A minha é altíssima: 4.3, de um máximo de 4.5. Se eu me formar com essa média eu me formo com “high honors”, inclusive.

(2) Essa semana mesmo, para a mais profunda ironia do destino, deu na imprensa que o Canadá entrou em recessão. Saí da frigideira pra cair na fogueira :)

A saga do demo

Antes de sair falando da saga (que, obviamente, é de trabalho) eu preciso contar que, sim, além de estudando eu já tou trabalhando. Mas vamos começar do começo…

Parte 1: Meu primeiro emprego canadense (ou: o menor networking do mundo)

Apesar do meu visto de estudante, o governo permite que eu seja contratado por meio período, e naturalmente eu não ia ficar sossegado só assistindo aula – especialmente com o dólar do jeito que tá. Então, logo que meu semestre começou, comecei eu a procurar um emprego part-time.

Graças ao Twitter (sempre ele!) eu vi que a própria faculdade tinha uma vaga para desenvolvedor web. Mandei meu currículo e me chamaram pra uma entrevista. Como era a minha primeira candidatura a trabalho e ela já tinha dado em entrevista o gênio aqui se empolgou e achou que ia ser moleza conseguir o trabalho, já que no Brasil eu passei numas três entrevistas seguidas antes de me mudar pra cá.

É óbvio que não deu certo. Eu estava craque em entrevistas, é verdade, mas em entrevistas na cultura brasileira e para vagas que não eram técnicas. Aí me botaram numa sala com um cara de nome (e sotaque) russo e o maior semblante anal que já vi. Eu não me abalei e comecei a falar dos meus projetos e de como eu aprendo rápido e de como eu resolvo pepinos com clientes difíceis, até que o Serguei me pergunta, sem a menor cerimônia:

– Mas você sabe pra que serve a tecnologia que estamos usando neste projeto?

No dia seguinte chegou o emailzinho dizendo que eu não tinha passado.

Mas acontece que na minha sala tem outro brasileiro. Gente finíssima, paulistano, super tímido, com o inglês ainda bastante travado, mas genial em termos de código. A entrevista dele, pra mesma vaga, foi logo depois da minha. Coincidentemente, na mesma hora que recebi o e-mail da recusa do emprego, ele recebeu o de aprovação. Achei merecidíssimo, baixei minha bolinha e concluí que estou começando mesmo tudo de novo, do zero. Meu inglês fluente, meu PMP, minhas décadas de experiência profissional valem aproximadamente jack shit.

Algumas semanas depois e eis que no apito do WhatsApp chega uma mensagem do meu amigo brasileiro, dizendo que um dos outros estudantes do projeto pediu demissão e ele me indicou pra vaga. Como no curso a gente fez vários trabalhos em grupo ele viu que, de fato, eu mando bem. E pelo que ele sondou, aparentemente eu causei uma boa impressão durante a entrevista, mas o Serguei não acreditou que eu era bom pra programar e por isso não me escolheu pra vaga.

E foi assim que o meu networking canadense, composto por apenas UMA pessoa, me deu meu primeiro emprego. Nunca fiquei tão feliz por ganhar um salário mínimo.

Parte 2: de como os deuses do PMI estão me punindo

Cheguei empolgadíssimo pra minha primeira reunião de trabalho, segunda-feira, de manhã, tudo certinho conforme o clichê. Pelo que entendi do email do Serguei(1), a reunião era pra eu conhecer o resto do time de projeto e me ambientar com o trabalho. Resumidamente, o projeto é um site pra área de saúde, envolvendo hospitais, médicos e pacientes numa plataforma online para atendimentos virtuais.

Mas eu só sei disso por conta própria, porque ninguém me contou. Não é atoa que eu digo que “expectativas conduzem a desapontamentos”. Pra vocês entenderem, a reunião foi mais ou menos assim:

  • Serguei me introduziu ao projeto com uma explicação resumida sobre o escopo do trabalho, o cliente, o que deveríamos fazer e como o projeto estava estruturado. Esta explicação resumida foi composta por apenas uma palavra: “welcome”. Eu JURO pra vocês que isso foi tudo que ele me disse.
  • Depois desta calorosa introdução, o time entrou diretamente numa discussão das próximas funcionalidades que deveríamos entregar. A primeira surpresa já veio logo daí: nenhum sinal das avançadas tecnologias que discutimos na entrevista e que o Serguei esfregou na minha cara; agora o trabalho envolvia o Drupal, um antiquado – e extremamente complexo – sistema de gestão de conteúdo. Pra vocês entenderem do que se trata, quando contei que estava trabalhando com Drupal, uma das minhas antigas gerentes de projeto do Brasil respondeu, em seu inigualável sotaque recifense:

Mai tu gosta é de sofrer, num é mestre?

Como diria um outro colega nordestino, Drupal é bom, mas morrer queimado é muito melhor.

E a gente precisa desenvolver em cima dum site que já existe. E que não tem documentação. E que não tem servidor de teste (a gente usa as nossas próprias máquinas e um repositório gratuito do Bitbucket). E também não tem documentação do que o cliente quer: o que a gente recebe são e-mails de uma linha e layouts em JPG. Uma vez eu tentei discutir as funcionalidades nas reuniões com o cliente pra entendê-las melhor, e o pessoal começou a mudar os layouts durante a reunião, então achei melhor desistir.

Mas o pior não é isso. O pior é que o projeto não tem líder. O Serguei basicamente encaminha os emails do cliente pra gente e fala: “faz aí”. Aí a gente levanta os riscos técnicos, questiona sobre escalabilidade, fala que pra fazer isso no Drupal tem que ser meio que na gambiarra, e ele fala pra “não preocupar com isso”. É tipo o cliente querendo uma mansão e ele falando pra gente botar uma lona no teto em vez de fazer um telhado. Outro dia eu descobri, por acidente, que tem uma segunda equipe de programadores fazendo uma outra versão do site, para celulares/tablets. Eu não tenho a menor ideia de quando o projeto vai pro ar. Na verdade eu não tenho a menor ideia se o projeto está ou não no ar.

Isso possivelmente são os deuses do PMI me punindo por aquele post de 2011, porque agora o que eu mais queria é um bom gerente de projeto me socorrendo e apontando pra onde esse projeto tá indo(2). Durante o trabalho eu até tive contato com um cara que é “assistente de projetos” – pelo menos é o que diz a assinatura do email dele, porque a gente nunca foi formalmente apresentado e ninguém me explicou o que ele faz no projeto, apesar de ele estar em todas as reuniões. Ele é bem sorridente, esse cara. Acho importante isso.

Além dos sorrisos, em toda reunião ele me pergunta como anda a papelada da minha contratação e diz que logo logo tudo vai estar resolvido. Porque, acredite ou não, tem mais de um mês que estou trabalhando e ainda não recebi meu primeiro salário 😉

Parte 3: O dia da demo (ou: parabéns, você ganhou uma camiseta)

Eu escrevi essa papagaiada toda aí em cima só pra contextualizar o que eu queria realmente contar, que é o seguinte.

Eis que numa das reuniões com o cliente ele menciona que vai rolar um evento de inovações na área de tecnologia para medicina. Uma feira, onde ele vai ter um stand pra divulgar o site. Naturalmente, nas reuniões de projeto, o pessoal começou a discutir que funcionalidades precisariam estar prontas para que fosse possível fazer uma demo do site nessa feira. Como a treta era séria, eu mesmo fiz questão de pular em frente ao flip chart durante as reuniões e escrever, certinho, o que iríamos demonstrar na tal demo. Eu também provoquei uma reunião entre o nosso time o time da versão mobile do site pra evitar sobreposições de trabalho. Como era de se esperar, Serguei respondia todas as minhas perguntas sobre a demo com algo parecido como “a gente dá um jeito”, então optei por me preocupar em resolver os problemas do Drupal e deixar ele se estapear pra lá com o cliente.

A feira estava programada pra acontecer em Richmond Hill – o equivalente a Barueri (para os Paulistanos), ou Nova Lima (para os belorizontinos), e obviamente ela era bem no dia em que eu tenho aula o dia todo, e obviamente ela era bem no meio da semana das midterms (as provas cabeludas do meio do semestre(3)). Como o Serguei não disse que a gente “precisava” ir à feira, eu desencanei. Aí, faltando uma semana para o dia D, eis que o Serguei começa a mandar emails pedindo confirmação se a gente ia ou não, e então eu subentendi que ele estava subentendendo que a gente é que iria demonstrar o sistema na feira.

Até aí tá fácil. O que deixou a coisa realmente emocionante foi o seguinte:

  • No domingo anterior à semana da feira, eis que chega um emailzinho com uma nova home page pra gente enfiar no site…
  • Paralelamente a tudo isso, meu colega brasileiro, também insatisfeito com o Drupal, resolveu levantar a bola de que ele não é a melhor ferramenta pra gente usar no site. Como alternativa, ele propôs redesenvolver tudo num framework mais moderno, que ele andava estudando. Pra provar que era possível, o maluco refez o site inteiro em três dias usando o framework novo. Até aí tudo bem – eu mesmo adoraria jogar fora o Drupal e usar um framework apropriado – mas acontece que no processo de convencer a turma a sair do Drupal ele fez um videozinho mostrando como tudo tava funcionando no framework novo e mandou pro Serguei… que encaminhou o vídeo pro cliente dizendo “ei, veja tudo isso que já tá pronto!”.

Resultado: às vésperas da demo eu tinha que lidar com a nova home page no Drupal sozinho, porque meu colega estava ocupado com a nova paixão do cliente: o bendito vídeo. Os pedidos de ajuste no vídeo vinham do cliente e o Serguei nos mandava emails pedindo a “nova versão”do vídeo – sem falar o que o cliente tinha pedido. Típico do Serguei. Às vésperas da demo eu e meu colega brasileiro, ao invés de programar ou testar, estávamos gravando simulações de atendimento online onde ele, usando um jaleco emprestado do laboratório, simulava que era um médico enquanto eu fingia ser um paciente. Ou seja, estávamos, literalmente, brincando de médico.

E então chegou o dia da feira. Os últimos ajustes do site foram salvos por mim às seis e vinte da manhã, enquanto eu comia meu cereal matinal às pressas, depois de dormir por umas três ou quatro horas. Na véspera eu, além de estudar pras provas, separei minha melhor roupitcha social pra ir lá pra feira esbanjar simpatia pros clientes do meu cliente.  Eu queria que tudo estivesse perfeito. Eu ainda não recebi sequer o meu primeiro salário.

Aí a gente chega na feira e… bem, digamos que foi então que eu decidi escrever este post, porque a sequência de caos foi inacreditável.

Logo que chegamos na feira fomos direto ao stand do cliente. Eu já ia tirando o laptop da mochila quando ele me cumprimentou e disse:

– Gente, muito obrigado pelo vídeo. Eu vou deixar ele rolando neste monitor aqui, vocês podem aproveitar a feira. Divirtam-se!

…e então eu entendi que ele não queria que a gente fizesse demo nenhuma, e que ele decidiu usar o vídeo (que era só uma prova de conceito de uma nova tecnologia) pra demonstrar o site.

Algum tempo depois chegou um dos caras do outro time (o do site mobile). Pela mobilização do Serguei, parecia que todo mundo de todos os times (umas nove pessoas) ia pra feira. Só chegou eu, meu colega e esse cara. Quando eu contei que não teria demo nenhuma ele não acreditou, e teve que ir falar com o cliente pra confirmar. E quando ele sacou que não tinha absolutamente NADA pra gente fazer na bendita feira, ele naturalmente saiu à francesa.

Instantes depois, chega Serguei, atrasado e fedendo a cigarros. “Desci no ponto de ônibus errado”, diz ele. Logo depois surge a chefe do Serguei  – uma senhorinha de ar absorto, que eu nunca havia conhecido pessoalmente até aquele instante – e pergunta pro Serguei:

– Ué, cadê sua gravata?

Lembra que eu separei minhas melhores roupas sociais pra feira? Serguei estava vestido de calça jeans, tênis e uma daquelas camisetas com coisas escritas em inglês que vendem na seção de roupas do Extra Hipermercados.

Serguei pediu licença pra ir falar com o cliente e a chefe dele vira pra mim e pro meu colega brasileiro e fala: “vocês já ganharam as camisetas?”

Enquanto olhávamos um pro outro, perplexos, ela tira da bolsa duas camisetas da faculdade e entrega pra gente, àquela altura bem mais perplexos.

Algum tempo depois chega um email do Serguei, dizendo que teve que sair às pressas porque um servidor de um outro projeto tinha caído. Na sequência, chega um email da chefe do Serguei dizendo pra gente: “imagino que vocês vão ficar até o final do evento”. Mas é claro! Especialmente depois de ganharmos uma incrível camiseta.

Fomos embora pouco antes do almoço, depois de ver umas palestras esquisitas(4). Na saída, a surpresa final: encontrei, sozinho, perdido na plateia, o “assistente de projetos” do projeto. De sapatos, calça social… e com a camiseta da faculdade por cima da camisa.

(1) Cara, eu realmente estava com saudade de usar pseudônimos.
(2) Aí você pergunta: “mas você é gerente de projetos! Por que não assume isso?”. E eu respondo que, honestamente, eu estou me segurando pra não pular na frente da porra toda e começar a organizar o projeto. Mas se eu fizer isso (porque eu posso) eu vou deixar de fazer o que eu quero. E eu atravessei o mundo pra perseguir o que eu quero, e não o que eu posso.
(3) Eu não contei, mas fazer faculdade no Canadá é muito mais puxado que no Brasil.
(4) Embora esquisitas e meio verborrágicas demais (muito papo, pouco resultado), todas as palestras do evento foram incrivelmente pontuais. Eu fiquei fascinado: na palestra das nove da manhã o palestrante dizia “good morning”, exatamente às nove, nem um minuto a mais. E na hora do “thank you” final, o relógio marcava exatamente o horário de término.

Impressões sobre a mídia canadense

Recentemente me toquei que este foi meu primeiro ano sem ouvir falar em Big Brother e sem ouvir a bendita musiquinha da Globeleza – o que me lembrou que não comentei nada sobre a tevê canadense até agora.

Mas isso é fácil: basta dizer que a mídia daqui é tão esquisita que chega a ser fascinante.

Os canais abertos: TV para a terceira idade

A sensação é que o público-alvo da tevê aberta por aqui é apenas de pessoas de mais de 60 anos, porque toda a programação tem uma vibe senil, de final de domingo. Os game shows estilo Programa Sílvio Santos estão em toda parte, de segunda à sexta. O Wheel of Fortune, de onde nasceu o “Roletrando”, passa até hoje. No domingo de manhã a CBS tem um programa chamado “Sunday Morning” que parece que está sendo transmitido diretamente de 1986. Sente o drama:

A coisa só moderniza no final do dia, quando o público jovem volta do trabalho/escola e as séries estilo canal Sony dominam a faixa das 8 às 10 da noite.

As notícias são mais ou menos como no Brasil: passam de manhã, no fim do dia e no late night (10 da noite, já que o povo janta às sete). As notícias da manhã são, obviamente, totalmente concentradas no clima; de dez em dez minutos tem previsão do tempo. E, acredite, precisa mesmo.

Quanto aos esportes, bem… para um país com tanta liga profissional de tanto esporte diferente, achei que fosse vê-los todo santo dia. Mas, surpresa: passa bem pouco esporte na TV aberta, possivelmente porque o cabo paga caro pela exclusividade de vender pacotes com a transmissão dos jogos. O torontoniano que quer ver o Maple Leafs na NHL, por exemplo, tem que desembolsar 130 dólares pra comprar o half-season pass, e ainda assim não terá direito a ver os jogos jogados em Toronto. Não duvido que num futuro não muito distante no Brasil isso passe a acontecer…

 A TV a cabo: tudo e nada ao mesmo tempo

Sobre a TV a cabo não tenho como opinar direito. A assinatura é muito cara e não compensa, portanto aqui em casa assistimos apenas os canais abertos e o resto é Netflix e demais streamings via Roku. Mas tive uma amostra da TV a cabo nos primeiros dois meses da mudança, quando morei nos AirBNB da vida. A programação me pareceu, obviamente, menos senil, mas como em todo cabo você é obrigado a pagar por canais estapafúrdios, como o The Fireplace Channel – que, sim, é apenas a imagem de uma lareira, 24 horas por dia.

A modinha dos reality shows continua firme e forte, chegando às vezes a uns extremos do tipo “Master Chef com criancinhas” (é sério) ou o assustador Beyond Scared Straight: crianças rebeldes que querem crescer e virar gangsters são levadas à prisões de verdade e colocadas com criminosos reais, que fazem a maior cena pra matar as crianças de medo de ir pra cadeia. É tortura psicológica feita com o consentimento dos pais, do Estado e explorada comercialmente na tevê. Achei triste.

Os inacreditáveis comerciais da América do Norte.

Meu amigo, minha amiga, nada poderia me preparar para os intervalos comerciais daqui. Pra começo de conversa, mais da metade das propagandas é de serviços de advocacia duvidosos estilo Better Call Saul, com propagandas cheias de trocadilhos hilários tipo “Don’t wait, call 888-8888!” ou o meu preferido: “hurt in a car? Call William Mattar!”.

Aí vem as propagandas de remédio que, aparentemente por alguma questão jurídica, são obrigadas a conter uma enorme lista de efeitos colaterais e alertas que transformam os comerciais em inacreditáveis shows dadaístas: os atores estão lá, vivendo sua vida tranquila, passeando de barco no pôr-do-sol, e o narrador falando que o remédio pode causar úlceras, tontura, degeneração óssea, convulsões e morte.

Já no cabo o nível das propagandas melhora por um lado e piora por outro: a boa notícia é que você esbarra com exemplos notáveis de boa publicidade que há muuuuuuuuito tempo eu não via, como essa propaganda de whiskey.

A má notícia é que o cabo inclui anunciantes locais, e parece que a galera dos canais não tem nenhum pudor (ou controle de qualidade) pra passar coisas tipo o cara que compra ouro:

E as piratarias?

Bom, aqui e nos EUA tem aquelas histórias dos estúdios de Hollywood processando pesado os piratas e tal. Como eu sempre faço tudo certinho nunca me preocupei com isso.

Até que um dia eu fui ver o Game of Thrones novo – tudo certinho, usando a assinatura da HBO que comprei pelo Sling.tv – e tava tudo congestionado e não consegui assistir. Aí fiquei meio revoltado e baixei o episódio pelo torrent. Baixei com a consciência tranquila, afinal eu paguei pelo bendito conteúdo.

Dois dias depois recebi um email do provedor com o assunto “copyright infringement”. Lição aprendida…

Vida de estudante

Acabou que eu ainda não falei nada sobre a minha nova vida como calouro de faculdade.


‘Hello! My name is…’

Toronto é a cidade mais multicultural do mundo, e a faculdade onde estudo é famosa por acomodar muitos estudantes internacionais. Resultado: na minha sala 70% dos colegas são indianos, uns 20% são asiáticos e nos 10% restantes tem gente de lugares bem incomuns como a Guiana ou Barbados. E dois brasileiros – contando eu.

Isso gera um problema sério quando você tenta decorar os nomes dos seus colegas e eles se chamam (exemplos reais):

  • Guashti
  • Krutika
  • Jaswinder
  • Amrita
  • Divyeshkumar
  • Ashish

No caso do ‘Ashish’ eu sempre levo um susto na hora da chamada porque acho que o professor está falando de drogas.

Pra simplificar um pouco, os professores costumam perguntar se a pessoa prefere usar um nickname em inglês. Aí a chinesa que se chama “Yi Won He” vira “Becky”, por exemplo. E como é você que escolhe seu próprio nickname sempre tem aquela pessoa que se empolga. Tipo um indiano da minha turma de College Communications: o professor perguntou qual nickname ele queria usar e ele não pensou duas vezes.

– Pode me chamar de “Jewel”.
– Err.. você quis dizer “Joel”? – pergunta o professor, confuso.
– Não não. “Jewel”.
– Ah, “Jewel” tipo… pedras preciosas?
– Isso mesmo.
– Bem, não sei se você sabe, mas “Jewel” é um nome feminino… se você achar melhor pode escolher um outro.
– Não, eu quero “Jewel” mesmo. Eu gosto de coisas brilhantes e valiosas.

Essa história dos nomes, além das piadas, rende também um conhecimento extra sobre geopolítica. Por exemplo: tem um monte de indianos com o sobrenome “Patel” – que é tipo o “Silva” da Índia. Outro dia perguntei a dois deles se eles eram parentes (de zoeira) e eles ficaram meio incomodados. O motivo é que, segundo eles, nenhum “Patel” quer ficar na Índia. Aí eles tentam imigrar para os EUA e rola um boato forte que se o consulado americano ver o sobrenome Patel num passaporte o visto é automaticamente negado.


Desenvolvendo sistemas com malemolência

Curso de engenharia de software tem sempre aquele aula separada em “teoria” e “laboratório”, onde no laboratório você escolhe um sistema pra passar o semestre todo desenhando. E é sempre um sistema suuuuper emocionante, tipo controle de estoque. Mas dessa vez o professor deixou a turma sugerir o que queria fazer – e criou um sistema tipo speed dating onde todo mundo faz rodízio com todo mundo em conversas de dois minutos pra tentar “vender o peixe” da sua ideia.

Era a chance de ouro de eu ter um semestre menos tedioso. Mas pra isso eu precisava parir, em tipo cinco minutos, uma ideia divertida, não muito complexa, e que pudesse empolgar universitários tímidos e expatriados em uma conversa de dois minutos.

A solução saiu do próprio problema: já que estávamos prestes a fazer um speed dating, resolvi propor um site de namoro exclusivo para a faculdade :)

Funcionou perfeitamente. Todo mundo caía na risada quando eu contava a minha ideia e, no fim, ela acabou entre as mais bem votadas.

Na semana seguinte tivemos a aula teórica da mesma matéria, com o outro professor (que, pra variar, é indiano), e ele pediu aos grupos pra apresentar os projetos escolhidos no laboratório. Quando terminei de contar do site ele sorriu com o canto da boca e perguntou:

“Você é da américa latina, não é?”.


A redação de hambúrger

Eu não sei dizer por que os latinos (e demais povos com “sangue quente”) são mais criativos que a média – mas uma coisa que está ficando mais clara são os motivos pro norte-americano ser tão tedioso e previsível.

Meu curso tem uma aula de College Communications, que nada mais é que um curso de inglês/redação para estudantes internacionais. Cheguei na aula interessado, já que nunca tirei boas notas na parte de writing dos testes de inglês que fiz e queria entender o motivo.

Logo no início o professor foi explicando as partes que compõem a tal da essay: introdução, desenvolvimento, conclusão… nada de novo. De repente – e para meu completo desespero – a estrutura do texto começou a ser completamente esquartejada em um monte de caixinhas cheias de regrinhas descrevendo minuciosamente como as frases devem ser e como os parágrafos devem começar e terminar.

Assim sendo, seu texto deve ser escrito no formato essay hamburger (sem brincadeira, várias escolas usam mesmo essa analogia com os alunos):

essayburger

Tem tanta regra que, semana passada o professor gastou três horas de aula explicando como deve ser o thesis statement: a frase que explica sobre o que o seu texto vai falar. Três horas de aula sobre uma frase.

Aqui, escrever uma redação ou ensaio é praticamente a mesma coisa que preencher um formulário. Não tem espaço pra inventar moda. Tem que seguir o padrão. Aí eu entendi o motivo dos meus textos terem notas ruins nos testes de inglês: eu servi um prato com arroz e feijão, cheio de tempero, achando que estava arrasando, e eles queriam o hambúrger.

Agora, me diz: como é que a criança norte-americana desenvolve alguma espontaneidade crescendo numa cultura onde até as atividades básicas de criação são cheia de regras?

Impressões do primeiro mês de Canadá

Imóveis: tem, mas acabou

Eu achava que o mercado imobiliário de São Paulo era difícil – até procurar um lugar pra alugar em Toronto.

O problema principal não são nem os preços (obviamente altos), e sim o fato de que a taxa de desocupação dos imóveis na cidade não chega a 2%. Isso, casado com uma demanda muito grande, faz com que os bons imóveis que ficam disponíveis pra alugar sejam ocupados em questão de HORAS. É tipo procurar vaga pra parar o carro no shopping na semana antes do Natal.

A treta é muito séria. Logo no começo da procura eu e Bethania visitamos uma casa linda às quatro da tarde de um sábado, com a antiga locatária lá ainda, encaixotando as coisas pra se mudar. No domingo de manhã, quando eu estava mandando a minha application pra ficar com a casa, ela já tinha sido alugada.

A busca por um novo lar só não foi um mar completo de frustrações graças à uma brilhante ferramenta chamada PadMapper – um integrador de buscadores de imóveis com um zilhão de filtros, incluindo um que é fundamental: a “idade” do anúncio. Foi assim que achei nosso apartamento: ajustei o filtro para me mostrar apenas anúncios com um ou dois dias de existência e todo dia olhava as novidades.

Vou te contar que deu muito medo alugar um apê anunciado no sinistríssimo Craigslist – mas o lugar é ótimo, os proprietários são gente finíssima e já nos mudamos de vez.


Clima – o dedo médio da mãe-natureza

“Ah, aí neva e faz frio né!” é a descrição mais incompleta possível do clima canadense.

Por exemplo: antes de vir pra cá eu achava que “neblina” era aquela fumacinha bonitinha, que só surgia em lugares muito altos, de manhã cedinho, e que logo se dissipava. Aí antes do Natal tivemos dois dias seguidos de névoa densa e ininterrupta. É absolutamente surreal ficar dois dias inteiros sem poder ver o sol, o céu, ou qualquer outra coisa que esteja à mais de cinquenta metros de você. Tipo Silent Hill, mas de verdade e por dois dias. Imagine sua vida sem paisagem nenhuma. Imagine o mundo temporariamente deletado da sua vista.

Aí passou o ano novo e o noticiário passou a anunciar um deep freeze de todo o sul do estado de Ontário, com temperaturas em torno de 10 graus negativos e com sensação térmica de -20 por causa do vento. Dia desses, de manhã, fui andar com o cachorro, bateu uma brisa e achei que meu rosto tinha congelado e ia cair da cabeça. O noticiário tá cheio de alertas de “extreme cold“, com conselhos do tipo “vá visitar seus parentes idosos e certifique-se que eles estão OK”. Os abrigos da cidade estão todos mobilizados para tentar convencer os mendigos a se abrigarem neles – porque uns três deles morreram de frio nas últimas semanas. Literalmente.

Por isso, você que está no Brasil lendo este post, ao terminar, saia e vá curtir o sol e o calor imediatamente – e sem reclamar. Porque vocês não tem ideia do paraíso que é o clima brasileiro, especialmente quando comparado com o de um lugar onde a natureza está constantemente mostrando o dedo médio pra você. O recado da mãe-natureza por aqui é: “não era pra existir seres humanos por aqui! Vão logo para a Flórida!”.

(Um parêntese necessário: é assustador também o quanto é boa a previsão do tempo por aqui. Se a tevê fala que vão cair 2,5cm de neve, caem exatamente 2,5cm de neve. A previsão das temperaturas ao longo do dia também é sempre na mosca).


Cultura, parte 1: mais difícil de entender que o clima

Mês passado fui ao Detran daqui pra saber como eu começava o processo de tirar a carteira de motorista de Ontario. Só que o processo começa com você fazendo a prova teórica logo de cara, e eu não sabia disso.

Aí cheguei no guichê do Detran e a conversa foi assim:

– Bom dia. Eu vim me inscrever para obter uma carteira de habilitação canadense.
– Ok. Você está pronto para fazer a prova teórica?
– Er… c-como assim? Eu já posso fazer a prova?
– Volte quando estiver pronto para fazer a prova. Próximo!

Sabe, o clima daqui é difícil, a grana vai embora rápido e tem uma série de outras dificuldades, mas uma coisa que eu subestimei MESMO foi a dificuldade de adaptação cultural. O motivo é simples: cultura não é “ensinável”. Tudo que você lê sobre o canadense (e eu li muito sobre ele e sobre o norte-americano de uma forma geral) é apenas a ponta de um iceberg completamente indocumentável, indescritível, que você só consegue começar a enxergar quando chega aqui e que só vai começar a entender de verdade depois de anos. É como explicar o “jeitinho brasileiro” para um gringo: ele pode até aprender o conceito, mas nunca vai compreendê-lo no mesmo nível de um brasileiro nativo, muito menos conseguir navegar num país onde todo mundo é governado por ele.

Mas voltando à história do Detran: depois de levar umas duas ou três patadas dessas é que eu comecei a entender que não era grosseria ou nada pessoal. É que, como as pessoas daqui seguem as regras muito certinho, elas ficam cegas pro que foge delas ou pro que não está explícito. O que eu deveria ter feito no Detran, por exemplo, era ter perguntado: “o que eu preciso fazer para tirar carteira?”, explicitando que eu não tinha a informação completa do que precisava ser feito. Porque, se eu não fizer isso, a mocinha do Detran não vai subentender que eu estava desinformado e me informar: ela vai simplesmente fazer o papel dela.

(Um parênteses: hoje fiz meu primeiro exame de direção e, felizmente, passei. Agora sou um motorista plenamente habilitado para a província de Ontario – e em tempo recorde: 53 dias desde a minha chegada).


Cultura, parte 2: New York in your fucking face, motherfucker

A melhor forma de deixar alguma coisa bem evidente é colocá-la do lado de algo que seja o oposto dela, pra dar contraste.

Entre o natal e o ano novo viajamos para Nova Iorque para visitar alguns amigos brasileiros que estavam por lá. A viagem foi ótima, mas no metrô era comum ver as pessoas segurando a porta (e atrasando o trem inteiro) para poder embarcar. Teve um dia que vimos bate-boca no vagão, com “shut up bitch” de um lado, “nobody cares” de outro, suco de climão total. Na rua as pessoas se olham feio, não respeitam os sinais de pedestre, e sempre tem alguém fazendo merda no trânsito – e alguém buzinando logo atrás. As placas de “no smoking” são meramente decorativas na maior parte das vezes. E o padrão de atendimento e serviços beira a polidez forçada e a rudeza total.

Aí, na volta pra Toronto, logo que pousamos fomos alugar um carro. A locadora estava fechando, mas as mocinhas do atendimento estavam super agilizadas e tomando conta de uns três clientes ao mesmo tempo – e sorrindo para os três. Aí chegou mais um cliente, dizendo (sorridente) que o carro que tinha acabado de alugar estava fedendo a cigarro, uma das atendentes pediu mil desculpas e foi (sorridente) verificar e ficamos eu, a atendente que restou e o cliente do carro fedido comentando, sorridentes, da falta de consideração das pessoas que fumam num carro alugado. E ficamos um tempão de conversa fiada, falamos do tempo, do preço da gasolina (menos de um dólar por litro e caindo ainda mais) e depois nos despedimos – sim, todos sorridentes :)

“Foi exatamente por isso que eu me mudei” – disse eu pra Bethania, com um calorzinho no peito de quem sente que escolheu certo, quando saímos da locadora.

Até pra dar esporro o canadense é educado. Antes de alugar o apartamento moramos temporariamente num basement – o porão duma casa que, pra não ficar sem uso, é convertido em um pequeno apartamento e alugado em separado pelo dono da casa. Um domingo desses estávamos fazendo faxina e eis que a dona da casa desce pra nos visitar – trazendo um bolo enorme e dizendo que tinha sobrado da festa de natal do escritório dela e ela queria oferecer pra nós. Ela foi super simpática, ofereceu até o metropass dela (o “bilhete único” daqui) emprestado enquanto ela estiver de férias, e bem no meio da conversa pediu – cheia de dedos – pra gente não deixar a porta do basement aberta quando estivéssemos fazendo faxina, porque acaba esfriando também a parte de cima da casa, onde eles moram.

“Ah, já tinham me contado disso no trabalho, quando me falei que estava vindo pro Canadá” – disse Bethania, depois que ela foi embora. “Quando as pessoas aqui precisam te dizer alguma coisa mais delicada eles te trazem comida antes e fazem esse floreio todo”.


Língua – A importância de entender tudo que Taylor Swift diz

Uma coisa que tem facilitado muito, mas muito mesmo, a minha adaptação por aqui é ter um bom inglês. Não estou querendo me gabar, e sim explicar uma impressão que tive desde o começo e que tem ficado cada vez mais forte: aprender a língua é aprender o país.

Eu tenho visto muita gente por aqui com inglês “fluente com sotaque”, tipo inglês de vilão russo de filme de ação. Essas pessoas se viram bem, chegam aqui, arrumam trabalho e vivem bem a vida e, como elas conseguem se comunicar numa boa, estacionam neste ponto do desenvolvimento da língua. Mas eu acho que, com isso, elas perdem muito da experiência canadense. Comunicação é a sua forma de perceber e interagir com o mundo ao seu redor: por que fazer isso com, digamos, apenas 70% de eficiência? É como se você vivesse apenas 70% da sua vida. Quantas portas fechadas e oportunidades perdidas não se perdem nestes 30%? Por exemplo: na faculdade conheci um cara de Barbados (onde se fala inglês) e outro dia ele comentou o quanto é difícil fazer amizade com algumas pessoas porque não consegue entender o que elas falam.

Por isso, minha meta linguística por aqui é fluência total, completa e natural, sem sotaque, exatamente como um nativo falaria. Felizmente o cérebro é um órgão fantástico e reage bem quando estimulado. Outro dia reparei que minha capacidade de entender letras de música em inglês – algo que sempre foi meu calcanhar de aquiles linguístico – melhorou drasticamente.

Mas isso teve um outro efeito colateral inesperado: tenho prestado mais atenção que o normal nas músicas da Taylor Swift…

A saga bancária Brasil-Canadá

Eu sei que é meio babaca essa negócio de se mudar e ficar comparando Brasil com outros países, mas permitam-me contar pra vocês uma pequena historinha.

Tudo começa em outubro de 2014, quando chegou a hora de pagar o primeiro semestre dos estudos na faculdade canadense. Como de costume, tentei fazer a operação pela internet, mas não consegui porque meu banco, por segurança, tem um limite bem baixo de valor para movimentações financeiras. “Hmm, que bom que descobri esse problema – isso vai complicar as transferências do meu dinheiro do Brasil pro Canadá”, pensei. Aí tive que ir à agência e fazer a transferência em pessoa e, pra prevenir problemas futuros, tentei entrar em contato com o meu gerente. Achei que ia ser fácil, pois pelo volume de dinheiro que guardei eu estava enquadrado naquela categoria premium de cliente bancário.

Foi aí que meus problemas começaram.

Demorei DIAS para conseguir FALAR com o meu gerente. Quando finalmente consegui, pra não passar o mesmo aperto, pedi a ele que já deixasse cadastrada a conta corrente de uma casa de câmbio para contornar essa questão do limite e eu pudesse transferir valores maiores sem precisar falar com ele. Ele disse que tinha cadastrado tudo e que eu podia ficar tranquilo.

Aí chega novembro e olha eu, todo pimpão, chegando no Canadá. Naturalmente, precisei fazer outra remessa de dinheiro pra cá e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a conta da casa de câmbio não tinha sido cadastrada e eu continuava travado pelos limites de transferência que eu tinha pedido meu gerente pra aumentar. Ou seja: eu simplesmente não conseguia trazer pra cá nenhuma parte do dinheiro que eu passei anos juntando para a viagem.

Começou, então, a segunda novela de conseguir falar com meu gerente – dessa vez com o agravante de que eu tinha que apelar para telefonemas via Skype feitos em wi-fi emprestada dos Starbucks da vida, que eu tinha que achar saindo de casa e encarando a neve, o vento e a friaca próxima de zero graus. Passei quase uma tarde inteira tentando contato com o filho da mãe até que consegui conversar com o assistente dele, que me confirmou que de fato não tinha rolado nenhum aumento de limite de transferência e que ele não poderia fazer muita coisa porque meu gerente estava fora da agência num treinamento.

Depois de reclamar no SAC, depois na Ouvidoria do Banco, e só depois de ameaçar ir reclamar na Febraban é que, após MESES de briga com o banco, consegui que aumentassem meus limites de transferência. Ironicamente eu tive problemas até pra reclamar na ouvidoria, porque só existe um link para acesso a ela e esse link fica escondido na versão beta da nova interface do internet banking – que foi feita usando como referência o Orkut (não, eu NÃO ESTOU BRINCANDO).

Agora eu gostaria de contar um pouco sobre as minhas experiências bancárias aqui no Canadá.

Logo que chegamos fui ao banco para abrir uma conta corrente. No sábado (sim, os bancos aqui abrem no sábado) visitei uma agência e, usando como documento apenas o meu passaporte, me deram uma conta corrente, uma conta poupança, uma conta específica para dólares americanos e isenção de tarifa por seis meses. O processo todo levou menos de uma hora.

Mas o melhor foi o problema que tive esse final de semana: fui comprar um colchão para a casa nova e, como a compra tinha um valor maior que o usual, o meu cartão do banco daqui deu erro de “limite de compras excedido” – problema bastante parecido com o que tive com a conta brasileira.

Eu já estava prevendo o pior quando o próprio vendedor da loja de colchões falou: “liga lá pro seu banco que eles resolvem isso”. Olhei o número do 0800 atrás do meu cartão e, meu amigo, minha amiga… NADA poderia me preparar para o que aconteceu:

  • O tempo de espera até eu ser atendido foi de ZERO segundos.
  • Após explicar a situação, a atendente confirmou a minha identidade da forma mais simples e intuitiva possível: perguntou o nome da pessoa com quem eu tinha conta conjunta (Bethania) e pediu pra eu contar alguma transação recente que eu tivesse feito com o cartão – valia até mesmo o café que eu havia tomado no Tim Hortons algumas horas atrás.
  • Depois, mudou o meu limite de compras INSTANTANEAMENTE – e ainda aguardou na linha enquanto eu passava o cartão novamente pra comprar o colchão.
  • Sem que eu pedisse, ela se ofereceu pra fazer o cadastro de uma segunda senha pro SAC via telefone – pra facilitar na hora de confirmar minha identidade e agilizar os próximos atendimentos (que, veja você, tinha levado até aquele momento MENOS DE TRÊS MINUTOS).
  • Não satisfeita em resolver meu problema, ainda aproveitou pra me orientar melhor sobre o uso da minha conta poupança, dando macetes (que ela mesma, como pessoa física, usava) de como usá-la para construir um bom score de crédito com o Banco.
  • No fim, ainda me parabenizou pela compra do colchão e desejou boa sorte na montagem da nova casa aqui no Canadá.

Desliguei o telefone e chegou a escorrer uma lagriminha de emoção.