Momentos Carnaval

– Dormindo no chão das salas de aula de um colégio público de Belo Horizonte. Meu criado-mudo, onde colocava meus óculos e o celular, era um dos pés do meu tênis.

– O pessoal da cozinha e da manutenção compôs uma música. É um blues, chama-se “O Negócio do Coisa”. Possui frases lindas, como “o Mateus já psicoxou / a Estudos já entendeu”.

– Quinta, véspera do carnaval. Entro numa padaria enquanto Bethania vai na farmácia ao lado. Estava com as mãos sujas de mexer no carro e perguntei a uma das atendentes:

– Tem algum lugar onde eu possa lavar as mãos?
– Er… p-pode ir ali…

Estranhei a cara da menina mas fui. No final, ela puxou conversa e falou, toda risonha:

– Olha, pra lavar a mão a gente cobra uma taxa viu! É trezentos reais…
– Mas tá muito barato, ué! – respondi, entrando na brincadeira.
– Ah, se você quiser pode me levar pra Arraial D’Ajuda nesse carnaval então! – disse outra.
– Er… mas eu quero é sossego… – respondi, surpreso.
– Ah, então vai lá pra casa! – disse uma terceira menina – tá todo mundo viajando, tou sozinha lá. E a cama é de casal, viu!

– Segunda à tarde. Eu, conduzindo uma dinâmica com 20 adolescentes cuja média de idade era de 16 anos. Eles tinham que se imaginar 10 anos mais velhos e descrever como estavam, o que haviam feito da vida e tal. Um deles toma a palavra: Bom, eu estaria com 26 anos, seria designer gráfico e trabalharia na Electronic Arts…

– Todas as manhãs eu acordava com um trecho de música na cabeça. Godspeed You Black Emperor normalmente era o campeão. Mas tivemos muito Belle and Sebastian também: I fought in a war…

– Sábado à noite, meu notebook conectado a um datashow, exibindo, para 200 pessoas, um vídeozinho cujo link encontrei no Fazed. Era o do cara fazendo desenhos com areia…

– Terça-feira, perto de meia-noite. Um colega, que estava trabalhando na cozinha, conversa sobre os manuscritos do mar morto e dança ao mesmo tempo.

– Sábado de manhã. Eu e uma colega vamos ao supermercado comprar biscoitos e outras coisinhas para os oradores que iriam falar para nós no encontro. Na hora de pagar ela chega com um pacote vermelho de absorventes no caixa. Eu digo:

– Ah, por que você não pega os de menta, aqueles verdes ali, em vez desses de morango? São melhores…
– Ah… é mesmo, vou lá trocar – e vai em direção a prateleira.
– ??!?

– Segunda-feira, eu e meus colegas de trabalho reunidos numa sala de aula. Um deles deita-se no chão e… dorme. Seguem-se fotos.

– Sábado à noite. Os 200 jovens presentes no encontro são levados, com vendas nos olhos, para ver uma apresentação de teatro. Durante metade do teatro, todos os jovens não viram nada.

– Terça-feira. Um grupo de pessoas vai em frente ao público reunido para uma performance sobre criatividade. No chão, um lençol branco. Todos, munidos de tinta guache, pulam sobre o lençol, jogam tinta e pisoteiam a esmo, sob o som de cânticos num estilo tribal. A propaganda de Omo mais elaborada que já vi.

– Estourar um balão perto de alguém e mencionar o “novo movimento” fazia com que a pessoa se contorcessem de forma muito engraçada.

– Passei por uma pessoa que me parou e se referiu a mim como “seu ídolo”. Porque eu era formado em Ciência da Computação.

– Domingo, grupo de pessoas reunidos. Uma menina disse que queria comer chocolate. Um dos meninos retrucou, dizendo: “Eu sou garoto”.

– Terça-feira, eu recebo uma rosa. A rosa não vale nada. O significado por trás da rosa eu não vou esquecer.

Eu vou

O carnaval está a algumas horas de começar.

Vou me trancar por quatro dias, longe de samba, axé, forró e outros cânticos demoníacos. Vou dormir no chão. Vou andar de chinelos. Vou ver palestras. Muitas. Vou comer pão com manteiga e tomar chá. Vou bater papo, ver o sol se pôr. Vou ser útil. Vou para a COMEBH.

Depois, vou pra Brasília. Vou comer comidas que não sei o nome. Vou ver palestras. Muitas. Vou comprar um pen drive na feirinha do paraguai. Vou dormir numa cama inacreditavelmente fofinha. Vou nadar na piscina, tomar banho de banheira. Vou para o Encontro Nacional da minha empresa de consultoria.

Double Post!

Post duplo. Fo’ shizzle, my nizzle!

Zé’s Working Saga – Véspera de Carnaval

09:00 – Chego no trabalho. Passarei a manhã fazendo um serviço estúpido: ajudando Cristina (nome fictício) a preparar uns relatórios com o andamento do antigo projeto onde eu estava, que já está no fim. Estes relatórios deveriam ser entregues a outra pessoa, chamada Marcela (nome fic… ah, você já sabe).

Em resumo, vou ajudá-la usar o Word e Excel. Vale lembrar que Cristina é burra como uma porta e passou a noite em claro (o tio dela está no hospital).

09:20 – Depois de Cristina tentar me explicar o que Marcela pediu, eu telefono pra Marcela e descubro que é tudo completamente diferente do que Cristina falou.

10:10 – Neste meio tempo meu telefone toca: é a equipe do outro projeto. Saí da sala para atender.

– Ei cara! Precisamos fazer a apresentação pro site pra reunião de amanhã…
– Mas… mas de tarde eu tenho outra reunião, dura a tarde toda, não vai dar tempo…
– Ah, se vira…

Olho pela janela e vejo o tempo do meu almoço, que saiu voando. Quando eu volto pra sala, Cristina está lá. LENDO O JORNAL.

Parei do lado dela e dei uns 15 segundos para ela se lembrar que eu existo. Não funcionou.

– Cristina…
– Ah! Vamo lá. Continuando aqui…

12:00 – Hora do almoço. Vou resolver o pepino do site. Me sento com o cara do CPD, que tenta reconstruir a página inicial (o micro dele deu pau). Nas caixinhas de som do computador dele, toca Tribalistas, alternado com músicas de forró. Meu cérebro grita.

Na sala ao lado, um casal conversa. O homem diz:

– Putz, tou com dor de cabeça… Você tem Novalgina?
– Tenho…
– Ah, mas não posso tomar “Navagina” não, porque senão minha pressão cai.
– Ah, quando eu tomo “navagina” a minha pressão sobe!

13:05 – Almoço. McDonalds.

13:40 – Saindo do almoço e indo para a reunião da tarde. O pneu do carro fura, mas não dá tempo de colá-lo. Páro num posto e encho o pneu furado só pra conseguir chegar no local da reunião.

14:00 – Reunião. Meu notebook está conectado no datashow. Fiquei “micrando” alegremente a tarde toda, enquanto me dopava com cafeína para não dormir.

22:00 – O dia acabou. Voltando pra casa, um véio dá seta pra entrar na rua onde eu estava. Aí, ele não olhou e foi. Derrapada, impacto, e calota voando em frente ao meu pára-brisa, para meu desespero. Danos no paralama dianteiro direito e arranhões no pára-choque, além da calota (que foi pro limbo).

Os dois paralamas traseiros já estavam arranhados (obra da minha irmã). Só falta agora algum motoqueiro lenhar o paralama esquerdo pra ficar tudo
simétrico.

O bom dos dias em que nada mais pode dar errado é que o dia seguinte só tem uma possibilidade: a de ser melhor.

Da bomb

Meu consultor sênior acaba de me fazer um elogio. Está me parabenizando pelo trabalho que fiz na apresentação de hoje de manhã, que consistiu em:

1) Abrir o Internet Explorer e ver a página inicial do maldito site que estou fazendo.
2) Apertar PRINT SCREEN
3) Abrir o Power Point e colar

Legal né! Aí, exatamente na sequência, um colega comunicou que está pedindo demissão. As coisas ultimamente estão altamente intensas. É bomba atrás de bomba.

Entre tapas e beijos

Cena: Eu, o consultor Xis e a consultora Ipsilon voltando do almoço.

X: Putz cara, minha namorada tem mania de me dar umas mordidas… morde com força, ficam altas marcas e tal. Outro dia o povo me viu sem camisa e me apelidou de “stigmata”…
Y: Pois é, eu vivo mordendo meu namorado também. Ele fica reclamando que passa vergonha quando usa camiseta e vai jogar peteca…
X: A minha namorada também gosta de bater. Dá altos tapas…

Putz. Eu amo minha namorada. Nosso amor não é nada violento.

Serviço estúpido

Hoje eu recebi um email do pessoal de um antigo projeto me pedindo para ir lá ajudá-los a fazer um serviço estúpido.

Liguei para meu consultor sênior:

– Alô meu sênior! Seguinte, o pessoal me ligou e tá me pedindo pra ir lá fazer um serviço estúpido… o que eu faço?

Ele me disse duas coisas. A coisa um é que ele foi lá antes e passou dois dias fazendo serviço estúpido. A coisa dois era pra eu ir lá fazer o serviço estúpido.

Aí, depois de amanhã, eu vou lá fazer o serviço estúpido.

O Primo recomenda: Extermínio

Toda vez que eu ouvia Godspeed You Black Emperor, banda que eu insistentemente menciono aqui no blog, eu entendia perfeitamente a mensagem da música: uma angustiante sensação de vazio. Essa sensação é “tocada” com extrema maestria pelas guitarras e violinos dos geniais músicos canadenses do Godspeed.

Quando Jim (Cillian Murphy) acorda no hospital, após um longo período desacordado, ele não vê ninguém. Não ouve nada. Nas ruas, não há ninguém.

Para o meu mais completo deleite, a primeiríssima música a ser ouvida no filme, enquanto Jim anda perplexo pelas ruas desertas de Londres, é East Hastings, do Godspeed You Black Emperor. E o filme ganhou seus primeiros pontos comigo: uniu a cena perfeita com a trilha sonora perfeita.

Eu não esperava isso do filme. Achei que ia ser simplesmente um filme básico de zumbis. E o que menos se destacou no filme foram os zumbis, ou os “infectados”, como são chamados. E o que mais se destacou no filme foi a profundidade psicológica dos personagens e a forma com que eles lidavam com o aparente “fim do mundo”.

Destaque para a bela fotografia (eu ainda estou me perguntando como diabos eles fizeram para filmar as cidades vazias) e para os cuidados com o roteiro. A falta de eletricidade, por exemplo é levada a sério e não é contornada com nenhum argumento estúpido para facilitar a vida dos protagonistas. Destaque também para o diretor, Danny Boyle, o mesmo do horrendo filme A Praia.

Extermínio tinha tudo para ser um filme hollywoodiano típico, com zumbis, explosões e heróis. Extermínio relegou os zumbis e explosões para o segundo plano, destacou os protagonistas como simples seres humanos, carentes e assustados, e o seu heroísmo não era medido pela quantidade de zumbis que matavam, e sim pela bravura em não se deixarem levar pelo desespero.