Esquiando (de novo) em Blue Mountain

Pra começar esse post nada melhor do que a bela cena que vi quando parei o carro, ontem, no estacionamento do resort…

O dia estava perfeito para esquiar: céu claro, máquinas de fazer neve desligadas, menos 10 graus celsius. E eu segurando a empolgação de sair como louco pelas pistas, por causa daquele velho postulado: o que mata é o excesso de autoconfiança.

Por isso comecei devagar e fui para a pista mais fácil: a easy street. Depois, desci umas duas vezes (sem cair) pela graduate, onde passei praticamente o dia todo da última vez, e em seguida fui na Happy Valley.

Aí embaixo sou eu, prestes a descer a Happy Valley e a levar o primeiro tombo do dia.

Apesar de tudo eu caí muito menos, porque finalmente peguei a manha de fazer curvas e parar com segurança. Os tombos aconteciam só quando eu me deparava com alguma circunstância nova, como gente atravessando na minha frente ou quando eu encontrava gelo no meio da neve.

Experimentei muitas pistas novas, de nível advanced: Waterfall, Cruiser, Sunrise, Dr.Doug, L-Hill, Tranquility… e completei várias delas sem cair, de primeira.

Continuei com minha fama de esquiador louco: quando a gente estava descendo alguma pista nova, o pessoal me falava:

– Ó, vai devagar hein, porque aqui é inclinado…

Eu dizia: “Tá bom”. E descia em altíssima velocidade. Por várias e várias vezes eu era o primeiro a chegar no final de uma pista e ficava lá, entediado, esperando os meus colegas terminarem de descer.

Não sei o que dava em mim, quando eu via algum obstáculo eu não sentia medo, e sim uma vontade louca de passar por ele. E depois vinha a vontade de tentar pistas mais novas e mais difíceis. Só não experimentei as pistas de nível “expert” porque já tinha anoitecido, o cansaço bateu e achei prudente parar.

Hoje, dia seguinte, estou bastante quebrado, mas não tanto quanto da primeira vez. O pessoal já está marcando de ir novamente à Blue Mountain depois do carnaval. Talvez lá eu arrisque até um snowboard

I believe

Pois é.

Aqui no blog eu fico só contando as coisas boas e agradáveis da minha estadia aqui no Canadá. Mas, obviamente, nem tudo é moleza por aqui.

O trabalho é do jeito que eu previa: muito. As reuniões difíceis de trabalho agora são em inglês. E seus colegas de trabalho não vão embora no fim do dia: Eles vão pra casa com você. É tudo um grande Big Brother.

Já estou sentindo o stress acumulando. Sexta-feira passada eu tive dor nas costas. Passou quando eu percebi que era por causa de tensão. O inverno acentua a tendência natural de procurar o chamado food confort com consequências nefastas pro meu colesterol, então fico tendo que me defender com muito chiclete Trident (somente CDN$ 2,19 o pacote com 4 caixinhas, no Loblaws mais perto de você).

Nessas horas eu dou graças pela Internet. Plaquinha wireless aqui, webcam ali e eu posso ficar chorando as mágoas no ombro virtual de Bethania.

Outra coisa que eu dou graças é a música. Hoje, depois de matar a saudade da Bê pelo MSN, liguei um bom hard techno nos fones de ouvido. O barulho era tanto que o mundo lá fora sumiu e eu, finalmente, tive um pouco de paz…

A despeito do fato de eu ser cristão, DJ Rush, mixado por Jeff Mills, foi meu profeta particular por alguns instantes:

I believe in the rythm!
I believe in the bass!
I believe in the music!
That’s gonna make my body move!…

Musical Traffic Jam

Ontem, depois do trabalho, acabei incumbido de levar o consultor-sênior do nosso projeto no aeroporto, em Toronto. Como o trânsito estava ruim, a viagem de 40 minutos levou uma hora a mais.

Nessa hora extra acabamos conversando bastante sobre o velho e bom róquenroul e até ouvimos alguns dos CDs dele: um das mulheres loucas do L7, outro (meio chatinho) do Megadeth… aí ele se empolgou e acabou deixando o porta-CDs comigo.

Na viagem de volta resolvi ouvir algumas das coisas dele. Achei logo um Nirvana Greatest Hits de camelô e taquei no som, só pra relembrar os crássicos dos primórdios do grunge.

Só então eu reparei, ali, engarrafado na infinita highway canadense, o tanto que a letra de Come As You Are é parecida com as do Humberto Gessinger…

Come, as you are
As you were
As I wanted you to be
As I friend, as a trend,
As an old enemy
Take your time, hurry up,
The choice is yours, don’t be late…
Take a rest, as a friend,
As an old memoriiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa
(…)
And I swear that I don’t have a gun…

Depois, achei um CD do Nightwish, de gênero definido pelo meu colega como “metal medieval”, e pensei: “Taí, vamos ver do que diabos isso é feito”.

Aquele, meus caros, foi um momento inacreditável.

Guitarras moendo, bateria destruíndo e, ao fundo, violinos e até, Bach que me perdoe, um cravo repetindo o solo de guitarra! Meus olhos tavam esbugalhados quando entrou o vocalista(*), apoiado por um coral lírico, cantando letras aventureiras no melhor falsete estilo Massacration.

E na minha mente eu enxergava aquela cavalgada épica, exércitos em disparada sob o pôr do sol, as armaduras metálicas, os cabelos ao vento, as espadas branindo no ar: nunca uma definição de estilo musical foi tão perfeita quanto metal medieval.

Era como se eu tivesse me tornado onisciente e conseguisse ler a mente de todos aqueles jovens nerds cabeludos com camisa de banda de metal que perambulam pela Savassi. Eu até entendi o que O Excêntrico dizia quando mencionava que tal ou tal banda tinha bateria com “bumbo duplo, aquele com dois pedais, que o cara vai tudutudutudutudutudutudutudum…”

Nem eu estou acreditando, mas eu adorei o CD do Nightwish. Podem me xingar, eu provavelmente mereço, mas não vou negar que dirigi a metade final da viagem com um sorriso largo no rosto, exclamando de quando em quando:

– Putz, esse CD é muito doido!…

(*) – Update: O Georges, leitor do blog, me fez uma apropriada correção outro dia pelo MSN. Fui enganado pelo falsete, o vocal é de uma mulher. Essa daqui, ó

Long time no see…

Ah, que belo dia aqui no Canadá. 18 graus negativos lá fora, e acabou a água quente na nossa casa… no meio do meu banho.

Acho que bati meu personal tempo-sem-atualizar-o-blog record. Tá tudo muito corrido aqui. Vamos a um resumo básico dos últimos fatos relevantes:

Sábado à noite fomos lá na tal The Guvernment. Lugar legal, espaçoso, bela iluminação, sistema de som excelente. Eu esperava ficar ouvindo um trance chato mas o set da DJ da noite (Sandra Collins) foi todo de um tech-house excelente. Sente o nível:

O público da boate era basicamente de duas nacionalidades: asiático e drogado. Nunca vi tanta gente quimicamente alegre como vi lá. Foi por isso que a mulher que me revistou na entrada apalpou, com vontade, TODAS as partes do meu corpo e até enfiou o dedo dentro do meu sapato pra ver se não tinha nada debaixo do meu pé. Por sorte ela não quis enfiar o dedo em nenhum outro lugar.

Domingo foi dia de almoço em Toronto. Fomos ao Marche, que na verdade é um mercado com barraquinhas: você pega sua bandeja e escolhe onde vai pedir sua comida. Acabei fazendo uma refeição completa:

– Entrada: Salada de vegetais sortidos com uma, hã, bruschetta
– Prato principal: Rösti (batata suíça), ou melhor, batata fatiada numa frigideira…
– Sobremesa: Torta de maçã. Fatia tamanho “extra-large”.

Depois, cinema: A despeito do que falaram, Elektra é um filme bom. Destaques do filme:

– Jennifer Garner
– Jennifer Garner de roupa vermelha
– Jennifer Garner beijando outra mulher

Segunda e terça foi, basicamente, só trabalho. Ao chegar em casa… trabalho doméstico, lava uma roupinha aqui, passa outra ali, etc. Mas o fim de semana promete ser melhor: vou esquiar de novo lá em Blue Mountain. Mal posso esperar…

Sexta e Sábado

Agora que a semana finalmente acabou, deu pra ter algum lazer aqui nessa terra gelada. Sexta-feira o pessoal resolveu ir ao cinema depois do trabalho e o filme escolhido por eles foi um de “ficção científica”, segundo o site do cinema: era o White Noise, estrelando “Batman” Michael Keaton.

No fim das contas o filme era de suspense/terror, usando como argumento os chamados EVP, electronic voice phenomena, ou aqueles vídeos e áudios com chiado de rádio e de TV onde aparecem imagens e mensagens de pessoas mortas. Só pra constar: eu odeio filme de terror. Passo medo e desisto de ver sim, não tenho vergonha de assumir. Mas esse eu vi até o final.

Pra melhorar um pouco mais as coisas, eu ia dormir sozinho em casa naquela noite…

Mas foi interessante ver como é o cinema aqui no hemisfério norte: o pessoal compra ingresso para um filme mas pode ficar passeando por qualquer uma das salas. A média de idade do público do cinema era de 15 anos, e o pessoal assiste os filmes mais no intuito de ficar fazendo piada com os amigos do que de realmente se deixar levar pela história.

No sábado o programa do dia acabou sendo almoçar no shopping. Aproveitei para pedir como entrada do meu almoço uma coisa tipicamente canadense: poutine. Ou, se preferir, batata frita com queijo e molho.

Só sei que o prato era ENORME. Se aquilo fosse uma entrada, era pra umas quatro pessoas. Eu sempre amei batatas fritas, mas nunca achei que um dia fosse dizer “nossa, não aguento mais batata frita”. E já disse isso duas vezes desde que cheguei…

Depois o programa foi ficar perambulando pelas lojas. Acabei comprando duas coisas: um chaveiro com lanterna embutida e um par de meias. Total gasto: dois dólares…

Mas não se enganem porque as coisas aqui, no geral, são muito caras. Roupas, por exemplo: eu não achei nenhuma peça de roupa média (camisa, calça, blusa, suéter, moleton, etc) com preço abaixo de $20. E você acha, com muita frequência, coisas com preços inacreditavelmente altos, como jaquetas que custam $300 (isso dá R$ 660 com o câmbio do dia de hoje).

Na saída do shopping o pessoal resolveu parar num Tim Hortons, uma lanchonete que serve cafés, donuts, bagels, muffins e similares. O Tim Hortons é pior que McDonalds: tem em absolutamente tudo quanto é canto. Tomei um cappuccino sabor “french toffee” e comi um donut sabor canadian maple e entendi porque é que eu via gente circulando com copos de café do Tim Hortons em todos os lugares que eu ia: é muito gostoso!

Detalhe: na frente do caixa havia uma caixinha para depositarem doações para os desabrigados do tsunami na ásia. Aí eu comentei, todo sorridente, com o atendente:

– Uau, só se fala em tsunami mesmo hein…

O atendente respondeu, num tom super sério que me deixou até com vergonha:

– Eles precisam de toda a ajuda que conseguirmos.

Depois fomos fazer um “mini city tour” pela nossa vizinhança. Fomos até o porto na margem do Lago Ontario. Havia uma pequena enseada com um pier que nem parecia um pier, pois estava sem os barcos e todo congelado.

Mas do outro lado, onde a margem era maior, eu tive uma visão fantástica: ondas, como ondas do mar, batendo nas pedras da margem. E o vento estava forte, carregando a neve que caía para cima da água e formando um tapete branco sobre a arrebentação. Tentei tirar várias fotos, mas estava muito escuro e a sensação térmica estava lá nos -30 graus, daí saí correndo de volta pro carro e levou um certo tempo até que eu descongelasse a ponta dos meus dedos…

Agora eu vou encerrar este post porque daqui a pouco vou sair para conhecer o maior club do Canadá: The Guvernment. Eu só não me conformei com o fato de não ter NENHUM ambiente techno nesse lugar. Vou ter que me contentar com o house/trance mesmo.

E já estou com medo: meus colegas estão levando glowsticks

Nickelback is back

A banda canadense (tee hee) chamada Nickelback lançou uma música em 2001, chamada How You Remind Me. E, em 2003, outra chamada Someday.

Se você tocar as duas ao mesmo tempo, surpresa! É EXATAMENTE A MESMA MÚSICA!!!

Este flash aqui toca as duas pra você, uma em cada caixa de som. Ouça com fone de ouvido pra ficar bem legal.

Espetacular!!

(Vi no Fazed)

Tá com a mão amarela!

Ontem à noite a temperatura caiu bastante. Eu e meus colegas de trabalho passamos no shopping pra comprar alguma coisa de comer e, na pressa de sair, acabamos não colocando nossas luvas.

Aí, quando chegamos em casa, entre o instante de sair do carro e o de entrar em casa ficamos uns 45 segundos com as mãos nuas, expostas ao vento. Primeiro veio o frio, depois a dor de frio, as mãos foram ficando amarelas e depois veio uma sensação bizarra de pele queimada: era o tal frost bite começando.

Frost bite não é apenas um joguinho de Atari, é a “queimadura de frio” devido ao congelamento dos tecidos. Os casos mais graves podem acabar em gangrena e amputação. No nosso caso só doeu um pouco mas já tá normal.

E hoje de manhã o Personal Frio Record caiu de novo. Dois graus a menos na temperatura. Mas o windchill continua o mesmo da última vez.

Pra dar uma idéia de como é isso: no nosso carro tem uma garrafinha de água mineral que ninguém tomou e acabou ficando lá. A água da garrafinha está congelada desde que eu cheguei aqui.

País moderno é isso aí, nem precisa de frigobar no carro…

Greve é grave

Uma coisa daqui que eu esqueci de contar…

Antes do início da temporada de hóquei deste ano aqui na América do Norte, a NHL quis colocar um teto salarial para os jogadores. Aí os jogadores não concordaram e a coisa ficou tão feia que hoje eles estão de greve por tempo indeterminado e a temporada deste ano está, hã, “congelada”.

Ontem eu vi na TV uma propaganda da cerveja Molson Canadian cujo mote era: “Volta, hóquei”…

Curiosidades

O trabalho deu uma amenizada esta tarde. Aproveitei pra me lembrar de umas curiosidades inúteis que eu nunca lembro de contar…

– Como todo lugar fechado daqui tem aquecimento, o ar é bem seco e você acaba se entupindo de eletricidade estática. Levar choque quando você encosta na lataria do carro é muito comum. E quando estou tirando a roupa, depois de chegar em casa, ela sempre “estala” por causa da carga elétrica.

– Tem anúncio de games por tudo quanto é lado: na TV, no rádio, na rua. Como não tem pirataria do jeito que tem no Brasil, a indústra de games por aqui é levada tão a sério quanto Hollywood cuida dos seus filmes.

– Outro dia noticiaram um homicídio na tevê. Foi o primeiro do ano, em toda a província de Ontario. Putz, e pensar que em Belo Horizonte, onde nasci, tem uns 10 homicídios por final de semana…

– Se você fuma aqui no Canadá, azar o seu. Aqui a proibição do fumo em lugares fechados vale mesmo, e sair pra fumar unzinho ao ar livre pode ser bem desagradável nessas temperaturas daqui. Os impostos sobre cigarro são altíssimos e a propaganda anti-tabaco da TV é encabeçada, em pessoa, pela governadora da província de Ontario.

– Se você é um deficiente aqui no Canadá, sorte a sua. Absolutamente TUDO é adaptado para deficientes. Todas as lojas tem banheiros para deficiente, portas largas, rampas e o escambau. No aeroporto então, haviam dezenas de cadeiras de roda bem do lado do desembarque, caso alguém precisasse.

– Por incrível que pareça, peidar e arrotar em público é comum. Coincidentemente, enquanto eu escrevia este post, ouvi alguém soltando um “traque” num cubículo próximo…