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Acharam isso em frente a uma igreja. Inacreditável…
Hoje a temperatura tá amena (-6 graus celsius) mas, se eu tivesse um personal neve record, acabei de batê-lo. Está nevando horrores nesta manhã.
Quando saí de casa havia mais ou menos um palmo de neve cobrindo o carro. Devido ao tanto de gelo e neve na pista, tive que dirigir muuuuuito lentamente até o trabalho (média de 40km/h) ou o carro patinava. Dá uma olhada em como estava a estrada por onde passei…
Pra piorar, tive que parar pra abastecer. Eu já contei que os postos de gasolina aqui são self service? Não né…
O lado bom foi que eu estava sozinho no carro e pude ir ouvindo o meu CD do Godspeed You Black Emperor. Combina perfeitamente com esse clima maluco…

A novidade aqui foi a caminhada do estacionamento até o trabalho: os pêlos do nariz vão congelando conforme você respira.
Viram ali o “feels like” de -22 graus? É por causa do vento… deixa eu tentar explicar como é isso:
Na saída do trabalho eu e meu colega daqui de casa andamos por 1:30 minutos ao ar livre. Foi o tempo de sair do prédio e andar até o carro no estacionamento.
Mesmo dentro do carro saía aquela fumacinha da nossa boca quando falávamos. E ficou assim por uns 10 minutos, até o aquecedor do carro elevar a temperatura a um nível aceitável. Meu queixo estava batendo, meus dedos doíam mesmo debaixo da luva e, apesar de estar agasalhado, eu tremia de frio.
Imagine que você está dentro da sua geladeira. Agora, remova toda a sua roupa. Era mais ou menos o que eu estava sentindo.
Mas depois que entramos no carro a gente acabou indo a um jantar com um pessoal da empresa-cliente. Depois, mais frio, na hora de entrar no carro e voltar pra casa. O engraçado é que qualquer coisa que ficasse 30 segundos em contato com o ar frio da noite gelava na hora. A chave do carro parecia que tinha sido esquecida na geladeira. A bolsa do notebook, então, estava tão quente quanto uma daquelas caixas de isopor cheias de cerveja.
E segundo a Weather Network amanhã eu vou acordar com -19 graus celsius na minha porta…
No sábado meus colegas de casa resolveram fazer uma pequena viagem até um ski resort chamado Blue Mountain. Passamos o dia todo e esquiamos até as 10 da noite, horário em que as pistas fecham.
E hoje, um dia depois, apesar das 10 horas de sono, foi com muito sacrifício que saí da cama para escrever este post. TODOS os músculos do meu corpo estão doendo devido ao esforço e as dezenas (sim, dezenas) de tombos. Mas eu estou louco pra fazer tudo de novo, porque esquiar é muuuuuuuuito bom.
Lá no resort a gente comprou um pacote que incluía aluguel do equipamento, passes para o lift (aquele teleférico que te leva pro alto da montanha) e um treinamento para iniciantes. O desafio já começa logo depois de calçar as botas para esqui, que são rígidas: você fica com um caminhar de quem fez cocô na calça e descer três degraus de qualquer escadaria fica impossível sem um corrimão.
Como faltava uma hora e meia para o início do treinamento, resolvemos experimentar os esquis na primeira pista, chamada Easy Lane. Apesar do meu caminhar desengonçado, fiquei olhando o que o pessoal fazia e depois escorregava alguns metros da descida, tentando repetir: “Hmm, então é mais ou menos assim que vira… hmm, e freia assim”… e, cheio de autoconfiança, resolvi pegar o lift e tentar descer sozinho.
Só que eu esqueci de um detalhe: a cadeirinha do lift não pára pra você descer no alto da montanha, então você tem que se levantar dela e sair esquiando. Mas como diabos eu ia sair esquiando dela se eu não sabia esquiar? O resultado, obviamente, foi meu primeiro tombo. Ainda tive mais três para terminar de descer a pista. Resolvi esperar a hora do treinamento na cafeteria mesmo. Mal sabia eu que, ao invés do lift, tinha também uma esteira rolante que eu poderia pegar para subir até metade da pista e que era muito mais fácil para principiantes…
Aí deu a hora do treinamento e, finalmente, aprendi alguns fundamentos do esqui, incluindo a famosa pergunta: onde diabos ficam os freios dessa coisa. Também graças ao treinamento eu peguei a dica mais importante do dia, sem a qual eu jamais teria aprendido a esquiar: lean forward, ou seja, incline-se para a frente. Mais no fim do dia, enquanto subia pelo lift, ficava vendo os outros iniciantes se esborrachando na neve: sempre de costas, exatamente por não observarem este sábio ensinamento, que lhe ajuda a distribuir seu peso corretamente, aumentando o equilíbrio e, consequentemente, o controle.
Já mais confiante (porque agora eu podia parar antes de bater dos outros), comecei a usar a esteira e descer, devagar, primeiramente tentando aprender a virar direito. Depois, passei a usar o lift e descer a pista toda, ainda com um pouco de dificuldade mas bem melhor do que no começo. “Ok, agora que já estou bom acho que posso tentar uma pista mais difícil”, pensei.
Segui as plaquinhas até a pista chamada “Graduate”, feita para quem, hã, já se “graduou” no treinamento de iniciante. Ela era 30% maior e mais inclinada que a anterior. Depois que desci do lift, lá em cima, fiquei completamente embasbacado com a vista: dava para ver todo o resort, com a baía Georgian ao fundo (com um farol na margem e tudo).
Esta foi a vista mais linda que já vi em toda a minha vida. E, obviamente, a anta aqui havia trancado a máquina fotográfica num guarda-volumes e deixado a chave com um outro colega… por isso não tenho foto. Mas essa abaixo, do site do Blue Mountain, tem um pouquinho da vista…

Mas era hora de vencer o pensamento de “eu vou morrer quando descer isso aqui” e começar a esquiar. Da primeira vez que tentei descer a pista toda, foram três tombos. Até perdi um dos esquis num deles. Aí minha meta passou a ser fazer a descida completa, sem cair. Precisei de umas seis tentativas…
Falando em tombos, foi nesta pista que tive o meu pior tombo do dia. Numa das descidas eu desisti de ficar fazendo curvas e fui direto: no final da pista, demorei a começar a freiar… e só parei na rede de proteção, bem do lado da fila do lift. Todo mundo ficou olhando quem diabos era aquele louco que não conseguiu parar…
Mas eu estava muito empolgado e, conforme me sentia mais seguro, tentava coisas novas. A última delas era um salto, usando um morrinho de neve que havia no final da pista, mas não consegui subir mais do que um palmo do chão.
Enquanto tentava, um colega me viu e saiu correndo para a cafeteria, onde estava o resto do pessoal (havia outra equipe de consultores, colegas nossos, esquiando naquele dia). Ele chegou gritando:
- Gente! O Zé é louco, tá tentando dar um salto lá na Graduate!
Foi por isso que quando cheguei na cafeteria levei um susto: todo mundo foi logo gritando e estava numa empolgação danada querendo saber se eu tinha conseguido, se eu já tinha esquiado antes, etc, etc. Aparentemente o marketing havia me tornado “o esquiador louco-revelação do dia” e todo mundo queria sair pra esquiar comigo.
Ah, olha aqui uma foto minha, já de noite, no alto da Graduate, com meu uniforme “esquiador Counter-Strike”. Se um dia você for esquiar, siga meu conselho e leve uma balaclava como a minha: cobre o rosto todo, é uma maravilha contra o vento frio.

Mas a turma acabou voltando na Graduate para umas duas descidas e depois o pessoal começou a pedir que eu fosse com eles em outra pista, chamada “Happy Valley”. Teoricamente, tamb&;eacute;m era uma pista de iniciantes e acabei concordando.
Subimos no lift e o lift foi subindo, subindo… e eu fui ficando preocupado. Lá do alto é que deu pra ver o tamanho da encrenca: a pista era umas quatro vezes mais longa que a Graduate, e cheia de curvas e inclinações traiçoeiras. E como era noite, os refletores projetavam a sombra dos pinheiros na neve branca e lembravam um cenário d’A Bruxa de Blair. “Pronto. Hoje eu morro aqui”, pensei. Mas desci assim mesmo e contabilizei três novos tombos…
As pistas iam fechar às dez da noite e, apesar do cansaço, estava na fomeagem e voltei para a Graduate: depois de oito horas de “esquiagem” eu já estava bem habilidoso: descia em zigue-zague parecendo um esquiador de verdade e aproveitava a velocidade no fim do percurso pra ir parar apenas na fila do lift. Depois, saltava do lift lá em cima, fazia uma curva e ia direto para a descida…
Eu definitivamente quero fazer isso de novo.
Hoje foi um dia de turismo no trabalho: visitamos dois grandes pátios de ferro-velho. Vimos pilhas enormes de sucata e ouvimos as histórias dos funcionários.
Uma delas é curiosa: o supervisor de um dos pátios vivia preocupado com o sumiço dos capacetes de segurança. Às vezes ele comprava uma dúzia de capacetes e no fim do mês todos haviam sumido. Desconfiado de que os funcionários andavam fazendo coleção de capacete em casa, ele teve uma idéia: encomendar capacetes na cor rosa choque.
Nenhum deles sumiu desde então…
Devido a tanta atividade ao ar livre acabei batendo meu personal frio record: sensação térmica de -15 graus celsius (por causa do vento) no alto de um maquinário de uns 12 metros de altura. Minhas orelhas começaram a doer de frio e eu não sentia meus lábios direito.
Mais tarde fomos almoçar com um funcionário brasileiro, chamado Guile, que nos deu carona até o restaurante. O Guile foi falando com o Ryu:
- O som desse carro é muito bom, cara. Tem até um CD aqui que eu gosto de usar pra testar o som, saca só.
- Que disco é esse? – perguntei, enquanto ele apertava o play
- Dire Straits…
E aí começou a tocar “Money for Nothing” no último volume. Guile e Ryu, no banco da frente, iam sorridentes, balançando a cabeça. Além desse acabei ouvindo mais dois CDs brasileiros durante o trajeto: o da banda Cálix e o novo disco do Skank.
Quando estávamos voltando, o disco do Skank começou a tocar uma das prediletas de Bethania; “Amores imperfeitos”. Aí a saudade bateu forte, conforme o Samuel Rosa ia cantando:
Sei que amores imperfeitos
São as flores da estação…
Hoje foi um dia quente em Pickering, tivemos quinze graus positivos. E de manhã as nuvens deixaram ver meu primeiro nascer do sol do hemisfério norte…

Taí, direto da janela da sala aqui de casa.
O dia foi normal, ou seja, trabalho em ritmo alucinante. O almoço foi no Burger King onde eu e o Ryu comemos… salada.
No jantar, acabei comendo… salada de novo. Nem parece que tou na terra das batatas fritas.
E ficou definido o meu programa para sábado: esquiar. Aguardem as fotos…
Novamente, muitos acontecimentos e pouco tempo pra blogar…
Terça
Na casa onde moro somos três pessoas: eu, Ryu e Ken (nomes fictÃcios, é claro). Existem duas chaves da porta de entrada. Na manhã de terça, o Ken avisou que ia para um jantar de negócios e pegou uma das chaves. Peguei a outra chave e entrei no carro pra irmos trabalhar.
Quando chegamos no trabalho a chave não estava mais comigo e eu não a encontrei em nenhum dos meus bolsos: ela sumiu. Quando disse isso ao Ryu ele falou
- Ah, deixa isso pra lá, a outra chave tá junto com a chave do carro, então não vai ter problema.
Acontece que era junto com a chave do carro do Ken, que a essa altura já tinha ido para o jantar…
Quando percebemos a desgraça, saà pra procurar a outra chave que tinha sido perdida dentro do carro. Acabei batendo meu personal frio record: Quinze minutos ao ar livre num frio de -8 graus, escarafunchando cada canto do carro. Às vezes eu tirava a luva pra enfiar a mão debaixo do banco, mas não conseguia ficar assim mais do que um minuto porque a mão começava a doer.
Aà não teve jeito, a gente teve que ficar fazendo hora no serviço até dar tempo do Ken chegar em casa com a chave.
No fim do dia a fome estava brava, então fui até a vending machine que fica na área do café. Me ferrei, porque só tinham chocolates e batata frita na máquina. Me ferrei ainda mais porque encontrei uma fonte pecaminosa de calorias: uma barra de chocolate chamada Oh Henry. Eu já tinha comido Oh Henrys no Brasil, mas com um nome diferente: Rally. E o pior: aqui existe Oh Henry de chocolate branco, meu favorito.
Terei sérios problemas para resistir a isso.
Já no fim do dia, sem mais o que fazer no trabalho, fomos a uma academia (enorme) de ginástica na qual o Ryu queria se inscrever e, depois, ao supermercado. Só depois dessa maratona é que conseguimos entrar em casa.
Quarta
Eu nunca tinha entendido porque diabos os canadenses são tão vidrados em previsão do tempo. Até que hoje me peguei, de manhã cedo, ligando a TV pra ver como estava o clima. E já é a terceira vez seguida que faço isso.
Lá estava escrito: 2 graus positivos e, ao lado, a frase “Freezing Rain”. Isso significa que estava chovendo e que a chuva congelava em alguns pontos do chão, tornando-o super escorregadio: isso é o chamado “black ice”.
Graças a isso chegamos no trabalho muito atrasados. Houve um acidente na auto-estrada e levamos uma hora pra achar um outro caminho. No trabalho ouvi relatos impressionantes de gente dizendo que viu carros patinando em giros completos de 360 graus…
Na hora do almoço fomos ao banco: eu precisava abrir uma conta para receber reembolso dos meus gastos por aqui. A moça sentou-se no computador e foi digitando meus dados. Com uma risadinha, ela exclamou:
- Tem uma pessoa com nome exatamente igual ao seu que já é cliente aqui do banco. Olha aqui. Inclusive ele mora em Kitchener, Ontario.
A tarde de trabalho transcorreu normal. Até ouvi uma frase infladora de ego de uma funcionária da contabilidade: “Oh, você é brasileiro? Seu inglês é muito bom”…
Quando o dia acabou eu saà pra fazer compras num shopping: precisava me preparar para o frio bravo previsto pro final de semana. Logo que entrei fui olhando as lojas e pensando:
- Hmm, preciso de agasalhos, boas luvas e… ei, aquilo ali é uma loja de discos?
Era uma tal Music World. Entrei só pra dar uma olhada quando vi uma prateleira enorme escrito: “Alternative”. E aqui cabe uma explicação:
Aqui no Canadá eu já andei sobre um lago congelado, já dirigi um Ford Explorer a 120 por hora, já tive reuniões cabulosas de trabalho em inglês, já fiquei trancado fora de casa com frio de -8 graus, já comi comidas desumanamente picantes e em NENHUM desses momentos eu me alterei, senti raiva, medo ou ansiedade.
Quando eu me coloquei de pé sobre a prateleira dos “Alternatives” e, num passar de olho, vi bandas como Blonde Redhead, The Coral, Modest Mouse, Wilco, The Polyphonic Spree, Peaches e muitas outras, ao alcance da mão… meu coração disparou.
Pela primeira vez em toda a minha vida eu estava numa loja de CDs onde eu conseguia encontrar bandas que eu gosto.
Após um breve minuto de contemplação, não resisti e fui direto na letra “G”. Meus olhos mal acreditavam no que eu via: Estava ali, na minha frente, o CD “Yanqui U.X.O.”, do Godspeed You Black Emperor
Este aqui:

Eu juro: Foi com mãos trêmulas de emoção que levei este CD até o caixa.
Fui procurar as roupas de inverno e só achei coisas carÃssimas. Andei no shopping até as 9 da noite, que foi quando as lojas começaram a fechar e não tive escolha a não ser ir pra casa. Obviamente, coloquei o CD pra tocar no carro.
Mais um momento “coração disparado”. Não sei se já mencionei aqui mas os caras do Godspeed… são canadenses. A sensação de dirigir pela noite gelada do Canadá ao som de GYBE é absolutamente indescritÃvel, parece que a música foi feita para a estrada.
Agora são 23:15. Meu quarto está uma zona, eu tenho louça pra lavar, minhas lentes de contato estão embaçando por causa do sono e eu preciso muito de um banho. Mas, depois de achar assim por acidente o CD do Godspeed, eu vou dormir muito, mas muito feliz.
E olha que ainda faltam 3 CDs…
Ah, tantas novidades, tão pouco tempo pra escrever aqui… vamos a um resumo dos dois últimos dias:
Domingo
Eram oito da manhã, hora local, quando acordei. Ainda não estou totalmente adaptado ao fuso horário e não consegui pegar mais no sono. Aproveitei pra matar a saudade de Bethania e do pessoal da minha casa, graças ao Skype e ao MSN.
Como todos os meus colegas de trabalho estavam dormindo, resolvi fazer um passeiozinho ao ar livre e andei em direção à Frenchmen’s Bay, que é o “braço” do Lago Ontario logo atrás da casa onde estou.
Esta parte do lago está totalmente congelada. E, mais ou menos 600 metros à frente, haviam carros no meio do lago. Abaixo, na foto, eu estou de pé sobre o gelo da beirada.

Havia um rastro que iniciava onde eu estava e ia até bem longe no meio do gelo. Aí tomei coragem e resolvi dar uma de Jesus Cristo: “caminhar sobre as águas”. Andei alguns minutos e cheguei ao meio da baía.
Os carros eram de canadenses que estavam pescando. Eles traziam uns “saca-rolhas” gigantes, usavam-os para furar o gelo (que tinha uns 40cm de espessura) e deixavam varas apoiadas em suportes. As varas tem sininhos nas pontas, de modo que quando um peixe morde, o sininho toca e os pescadores saem correndo pra tentar pegar o peixe.
Conversei um pouco com um dos pescadores, um velho banguela, com brinquinho na orelha e que arrotava sem parar. Depois voltei pra casa e fomos almoçar em Toronto.
Além do lugar onde almoçamos (chamado Red Lobster), passeamos um pouco pela cidade. Visitei a famosa loja de ofertas chamada Honest Ed’s. A loja tem a fachada de um cassino e por dentro, zilhões de cartazes de musicais e filmes antigos. E mais zilhões de cartazes de preços, pintados à mão, e outros com dizeres sobre o quanto o Ed era um idiota de vender tão barato.
Por sinal, o Canadá é o país dos trocadilhos. Do lado da minha casa tem um cartaz de uma imobiliária que diz que “X-Sell”. Em Toronto vi uma loja de botas chamada “Body and Sole” e, no Ed’s, vi um cartaz que dizia:
Ed’s got prices just like the birds – Cheap, cheap, cheap!
Quando saímos do Ed’s acabei vendo, do lado do prédio, uma portinhola escondida sob um tanto de cartazes esquisitos: era uma locadora de vídeos underground. Mas MUITO underground mesmo, com todo tipo de bizarrice que você imaginar. Tanto que lá dentro a prateleira dos vídeos pornôs fica no meio dos filmes normais e tem categorias inacreditáveis, como “Sexploitation & other weirdnesses”. E na porta tem um cartaz procurando atrizes jovens para estrelar em um filme que envolvia “retro roleplaying and some nudity”. Medo.
Outras coisas curiosas que vi em Toronto:
Sem-teto pedindo esmola na rua
Sinal de pedestre com aviso sonoro de que está aberto
Pichações
Cartazes, daqueles baratos de papel mesmo, anunciando o lançamento do GTA San Andreas, espalhados pelos tapumes de madeira de uma construção.
(Update: Acabo de ver um comercial na TV também!)
Depois voltamos para o centro. Um colega resolveu patinar em frente ao modernoso City Hall (abaixo) e o resto da equipe foi ao Eaton Mall, que já estava fechando.

Acabei descobrindo que no Canadá, quando uma loja está fechando, ninguém vai atendê-lo, porque os atendentes não recebem hora extra. E eles são bem disciplinados quanto a isso.
À noite o fuso horário somado com a noite mal dormida acabou me fazendo ir pra cama mais cedo. Afinal, o dia seguinte ia ser um dia de trabalho: meu primeiro dia de trabalho aqui no país da folhinha vermelha.
Segunda
Eu e um dos meus housemates acabamos madrugando pra buscar outro colega no aeroporto, e depois fomos trabalhar. Acho que bati meu Personal Frio Record no estacionamento do trabalho, porque estava ventando e a sensação térmica me fez sentir algo que até então, curiosamente, eu não tinha sentido: frio.
O escritório onde estamos é um típico escritório do hemisfério norte: baias por toda parte. Até o corredorzinho da máquina de xerox e da máquina de café é exatamente igual à aqueles dos filmes. Mas o pessoal se veste bastante informalmente por lá.
Agora, o mais inacreditável foi quando entrei na sala de um gerente, pra ser apresentado, e na parede do seu escritório havia nada mais nada menos que uma reprodução, em tamanho natural, daquela pintura do Kramer que é feita num dos episódios de Seinfeld (que pode ser comprado aqui)

Eu estou embasbacado até agora.
O dia de trabalho foi bom e corrido: na hora do almoço comemos fast-food num lugar chamado Wendy’s e só voltamos cedo do trabalho porque meu colega mal dormiu no vôo da noite anterior e está ali agora, capotado no sofá, enquanto escrevo essas palavras. Por sinal, não preciso procurar por nenhum colega canadense de trabalho depois das 4:30 da tarde: todos vão embora nesse horário.
Um detalhe: quem dirigiu no trajeto de volta do trabalho fui eu. Foi a primeira vez que peguei na direção aqui. O trânsito canadense é muito peculiar por uma série de coisas:
Toda conversão à direita é livre. Se você estiver num sinal vermelho e quiser virar à direita, não precisa esperar o sinal abrir.
TODO MUNDO, eu disse, TODO MUNDO dá seta quando vai virar ou mudar de faixa. Estou fascinado!!!
As highways são excelentes transportes entre as cidades. Estou trabalhando numa cidade chamada Whitby e morando em outra chamada Pickering, ambas ao leste de Toronto. Tem uns 25km entre Whitby e Pickering, mas a viagem de volta depois do trabalho leva apenas 15 minutos numa velocidade média de 120km/h. E é perfeitamente seguro dirigir nesta velocidade na auto-estrada.
A gasolina aqui é caríssima. Encher o tanque do carro custou uns 70 dólares canadenses.
Por sinal, nosso carro é alugado: um Ford Explorer supermodernoso. Ele tem câmbio automático: foi difícil conter o impulso de pisar na embreagem a cada sinal vermelho…
(Nota: horários na hora canadense, ou seja, Brasília menos 3 horas)
06:01 - O avião começou a descer. Atravessou a cadeia de nuvens e permitiu que eu tivesse a primeira visão, ainda noturna, da cidade.
Toronto, à noite, de cima, é uma visão espetacular. O detalhe que mais chama a atenção é que é tudo absolutamente plano. Só se vê o contorno das ruas e dos quarteirões, desenhado pela iluminação dos postes. Conforme o avião descia, dava pra ver a neve amontoada ao lado das estradas, os caminhões passando, as luzes de freio dos carros, os nomes dos luminosos das lojas…
06:44 - O avião pousou e estabeleci a marca inicial do meu “Personal Frio Record”: menos 2 graus celsius, na pista de pouso. A sensação é mais ou menos como entrar dentro da sua geladeira. Aposto que esse recorde aí não dura nem uma semana…
07:25 - Passei pela imigração e demais burocracias e, finalmente, estava a caminho da casa que vou dividir com outros colegas consultores. Como já havia amanhecido, deu pra ver melhor como é a cidade e papear com meus novos colegas de trabalho.
07:50 – A cena, enquanto descarregávamos os carros na frente da casa, era de um filme. A vizinhança compunha o cenário, enquanto uma leve camada de neve caía lentamente.
A casinha onde vamos ficar é muito boa, com vista para o Lago Ontario (congeladíssimo) e tudo. Volta e meia passam esquilos pelo peitoril da janela, e no céu vêem-se grupos e mais grupos de gansos passando, voando em “V”. A calefação permite ficarmos de camiseta dentro de casa sem o menor problema.
Eu comecei a descarregar minhas malas mas acabei me mudando pra casa ao lado (tem duas casas por conta dos consultores), então não deu tempo de arrumar tudo.
11:40 – Parada no banco canadense pro pessoal tirar dinheiro e pra que eu pudesse trocar meus dólares americanos por canadenses. Eu estranhei muito o banco onde fui: na entrada não tinha porta giratória com detector de metal, eu fiquei apenas 5 segundos na fila e, no fim, o caixa foi extremamente educado comigo.
12:20 – Chegamos no local do almoço: um tal de Pacific Mall, que é um shopping localizado ao lado de uma vizinhança toda chinesa. Portanto, o shopping só tem lojas de chineses, e 99% do público era asiático. Eu nem me sentia no Canadá, parecia que eu fui parar em Pequim.
Mas antes de vermos as lojas, fomos pra praça de alimentação, já que os estômagos estavam todos vazios. Sentamos num restaurante de comida tailandesa/japonesa/Sri-Lankesa e, tentando me orientar pelo menu em chinês/inglês, pedi um prato chamado “chicken fried noodle”, que é macarrão chinês frito com frango.
Só não me disseram que era com pimenta. Muita, MUUUUUITA pimenta.
Pelas “casquinhas” que contei no prato deveriam haver aproximadamente umas seis pimentas vermelhas enormes, de uns 8cm cada, misturadas na minha comida. Eu nunca havia comido nada tão picante. Resisti bravamente e comi 70% do prato, rebatendo a queimação bucal com um suco de banana que também pedi.
13:15 – Hora de compras. O Pacific Mall tem de tudo: roupas, eletrônicos, ervas medicinais, mangás, CDs… Eu vi até escapamento de carro e DVD que toca DivX à venda. Acabei ficando com dois itens essenciais para a sobrevivência aqui:
- Um adaptador Wireless PCMCIA (porque a internet da casa é sem fio)
- Uma webcam vagabunda.
17:18 – Por incrível que pareça já é noite em Toronto. Aproveitamos o final do dia pra comprar comida num supermercado próximo.
A coisa aqui é engraçada: os eletrônicos tem preços inacreditavelmente baixos, mas as coisas “do lar” são bem caras. Um exemplo: um identificador de chamadas telefônicas (o velho e bom BINA) e um vidro de xampu tem o mesmo preço: sete dólares canadenses.
21:01 – Meus housemates saíram pra uma festa de aniversário e estou sozinho em casa, escrevendo este post. A televisão está ligada num canal parecido com o Bloomberg, mas que tem 2 horas que só fala no Tsunami da ásia. Vou terminar de desfazer minhas malas, tomar um bom banho e cair na cama.
Acho que amanhã vai ser dia de turismo em Toronto…