10 coisas que pensei enquanto organizava meus 10 GB de MP3

Eu sei que isso é uma egotrip e que pouca gente vai entender, mas…

Glass Museum, do Tortoise, é uma das músicas mais bonitas que já ouvi em toda a minha vida.
Onde eu estava com a cabeça quando baixei esses MP3 do Paul Oakenfold?!?
A trilha sonora que o Air compôs para o filme The Virgin Suicides é um dos melhores discos de todos os tempos, escondido na prateleira das trilhas sonoras…
The Private Psychedelic Reel e Where do I begin? são, sozinhas, melhores que qualquer outra música que os Chemical Brothers fizeram depois do Dig Your Own Hole
Ventura, dos Los Hermanos, é um herói. Eu nunca escutei esse disco mas também nunca deletei do HD, e ele vive sobrevivendo às minhas faxinas. Separei ele pra ser gravado num CD pra ouvir no carro. Quem sabe dirigindo eu me disponha a ouvir esses barbudos…
Eri e Markus Popp, a dupla chamada So, compôs um dos discos mais difíceis que eu gosto de ouvir. Como o Venice, do Fennesz, ou o Confusion is Sex, do Sonic Youth.
Tive um calafrio ao apagar um disco inteiro do Oliver Ho: será que eu estou parando de gostar de hard techno? Bom, baseado no tanto de DJ sets que eu ando baixando, acho que não.
Rebellion (lies), do Arcade Fire, toca toda hora no rádio. Resultado: em vez de promover a banda, no meu caso, acabou me fazendo enjoar da música.
O Mombojó foi a primeira banda brasileira a conseguir colocar a palavra “merda” numa música sem fazer a música ficar uma… merda.
Uma vez, Luiz gravou pra mim um CD duplo de uma coletânea de música eletrônica-experimental chamada “Clicks and Cuts”. Outro dia eu fiz uma seleção das 10 melhores músicas da coletânea.

Tem uma, chamada Pop, composta por Curd Duca, que é basicamente aquele chiado de disco de vinil repetindo por um minuto e dezoito segundos.

Ela entrou nas 10 melhores…

Falha na Matrix

Hora do almoço e nós fomos no Swiss Chalet. Resolvi ir ao banheiro.

Peguei um corredor estreito e abri a porta com o desenho do homenzinho. Depois de tirar a água do joelho, saí do banheiro, saí do corredor e estava de volta no… Harveys?!???

Cinco segundos depois eu descobri o problema: os dois restaurantes são vizinhos e compartilham os mesmos banheiros. O corredor onde passei começa num restaurante e termina no outro…

Eu realmente preciso de férias.

Falando nisso, contagem regressiva… faltam 11 dias pra eu voltar pro Brasil. Depois, só Deus sabe pra onde eu vou. Enquanto isso, vamo brincar de TOP 5…

TOP 5 coisas do Brasil das quais eu tenho saudade

(Tirando o óbvio, é claro)

Guaraná Antarctica, especialmente o de garrafa.
Encostar em pessoas. Acho que nesses cinco meses aqui eu nunca ganhei um abraço de nenhum canadense.
Terça Standard, a tradicional saída com os amigos que acontece há uns 10 anos. Começa no Stadt Jever e termina de madrugada no Recanto Verde
Dirigir um carro com câmbio manual
Milk-shake de ovomaltine do Xodó da Praça da Liberdade. Nham.

TOP 5 coisas do Canadá das quais eu vou sentir saudade

Entrar numa loja de CDs e ver CDs que eu realmente gosto
Minha casa canadense. Pelo lugar e pelas pessoas. Ah, como é bom chegar do trabalho e ficar sentado na varanda, jogando conversa fora com os caras e olhando os barquinhos pescando na Frenchmen’s Bay…
Segurança. Eu podia escrever um post inteiro só sobre isso. A sensação de poder deixar a porta de casa aberta, ou de andar no centro de Toronto com sua câmera digital pendurada no pescoço, e ter certeza que NADA vai acontecer, é indescritível.
Internet sem fio absurdamente rápida. Ontem eu baixei um filme, Monty Python em busca do Cálice Sagrado. Foram 700 MB em apenas duas horas.
Comidas nada saudáveis e deliciosas. Café sabor french vanilla, rosquinha Boston Cream do Tim Hortons, chicken wings gordurentas e crocantes…

Algonquin

Segunda-feira passada foi Victoria Day aqui no Canadá. Tem uns fogos no fim do dia, a Rainha aparece na TV e tal. Aproveitando o dia extra, resolvemos viajar para Algonquin, o famoso parque da província de Ontario.

Durante a semana passada, sempre que eu dizia pra alguém que estava indo pra Algonquin, ouvia de volta:

– Não esqueça o repelente de insetos.

Nem precisou tanto. A chuva intermitente dos três dias ajudou a espantar a mosquitada (que, realmente, era assustadora). Mas a chuva e os mosquitos foram a única coisa incômoda dos três dias. O resto foi muita caminhada, canoagem e paisagem de livro de geografia: “Fig. IX – Vegetação de países de clima temperado”…

Mas nos livros não era tão bonito assim.

Além das belíssimas paisagens, outro destaque do parque é a organização: No começo de cada uma das dezenas de trilhas, por exemplo, tem livretos com informações sobre a caminhada. O centro de visitantes tem um pequeno museu e um mini-cinema, que passa um filme de uns 10 minutos sobre as origens e as atrações do parque. Quando o filme termina, aparece uma mensagem que diz: “Agora vá e veja você mesmo a melhor das nossas atrações”. Na sequência, abre-se uma porta ao lado da tela, que dá acesso ao deck de observação…

No primeiro dia ficamos passeando pelas trilhas. Éramos nove pessoas no total, divididos em dois carros, um “prata” e um “bege”. No fim do dia, como estava chovendo, eu e uma das meninas desistimos de uma das trilhas e ficamos conversando fiado dentro do carro prata. A chave do carro bege estava comigo, porque era onde minhas coisas estavam.

Algum tempo depois o pessoal completou a trilha e decidimos ir embora pro hotel; o carro prata começou a viagem de volta primeiro e, como eu já estava dentro dele, continuei lá. As viagens de carro eram longas mas interessantes, porque a gente sempre topava com algum bicho. Dessa vez foi uma raposa com filhotes…

Além da raposa, tinha também uma anta: eu, que só percebi que estava com a chave do carro bege depois de meia hora na estrada. Mais meia hora pra voltar e reencontramos um pouco mais da fauna do parque: um bando de homo sapiens revoltados…

No hotel, na hora do jantar, pedi um prato chamado Arlington’s Poor Boy. Nada mais apropriado.

Falando no hotel, o Arlington na verdade era um albergue que, por fora, dava até medo. Mas por dentro ele era simples, limpo e confortável.

Outra coisa divertida pra se fazer em Algonquin é andar de canoa. No domingo passamos o dia remando pelos extensos lagos do parque, parando nas ilhas pra algumas fotos e aproveitando a vista. Numa das ilhas deu até pra ver um pouco mais da fauna do lugar: um cara usando apenas uma toalha enrolada na cintura

Mas o bicho que mais tinha em Algonquin era o alce. No total vimos uns quatro ou cinco alces. Apesar do tamanho eles parecem ser bastante dóceis: no domingo eu pude tirar fotos tranquilamente, a uns três metros desse aqui da foto. Só faltou a gente ver algum urso, mas não apareceu nenhum.

De noite, quando acabavam as atrações do parque, era hora de fazer uma bagunça no melhor estilo brasileiro. Depois do jantar do domingo, por exemplo, o carro prata (uma Cherokee) virou uma boate ambulante na viagem de volta. No som tocava Fatboy Slim, enquanto todo mundo piscava loucamente as luzes internas e gritava em coro:

Cheroka! Cheroka! Boate da Cheroka!
O urso! O urso! Eu quero ver o urso!

Algumas fotos extras do passeio:

O hidroavião da brigada de incêndio do parque;
Os restaurantezinhos de beira-de-estrada onde a gente comia. O café da manhã que eles serviam era sempre alguma coisa ‘levinha’: ovos, bacon, torradas cheias de manteiga e batata frita. Haja coração;
Veados. Esse aí a gente viu passando saltitante pela estrada. Realmente, veados são, hã, muito gays;
A estação de trem abandonada da cidade de Maynooth. Teoricamente era pra ser uma atração turística, mas não é nada mais do que um prédio caindo aos pedaços. Valeu pela pichação do lado de fora: “NIRVONA RULES”. Coitado do Kurt Cobain;
Pra encerrar, mais uma panorâmica do parque…

Newsflash

E ontem teve a fatídica reunião. As chances de que eu passe uma temporada extra aqui no hemisfério norte variaram bastante durante o dia. De manhã elas caíram pra 10%.

No final do dia eram de 90%…

Surpresa: o preço da gasolina aqui no Canadá varia durante o dia. No posto aqui perto de casa, de manhã o litro é mais caro: 0,845 CDN$. No fim do dia o preço cai pra 0,775 CDN$.

Segunda que vem é feriado aqui, o tal Victoria Day. Agenda do feriadão: ir para Algonquin, dar um alô pros ursos e alces…

Hoje

Já passou de meia noite. Daqui a algumas horas eu descobrirei se volto em definitivo pro Brasil no dia 10 de junho ou se passo mais uma temporada por aqui. Tudo depende de uma reunião e das pessoas certas gostarem do nosso trabalho.

Agora há pouco eu colocava minhas carnes de molho na banheira. Trilha sonora: The Delgados – Universal Audio. A letra da sexta faixa era profética…

are you gonna sink or swim?
from coast to coast is more than you bargain for
are you gonna lose or win?
from ties and lies is something worth trying for

Rotina

Pelo menos até as 8 da manhã eu sei exatamente o que vai acontecer no meu dia

6:40 – Algum dos meus housemates vai entrar no banho e eu vou acordar com o barulho do chuveiro e logo em seguida dormir de novo.
7:00 – O despertador vai tocar.
7:05 – Vou criar coragem de sair da cama e ir até o banheiro lavar o rosto.
7:08 – Três itens vão estar cumpridos: cabelo, desodorante e lentes de contato.
7:09 – Ao olhar para a direita eu vou ver exatamente a mesma cena lá fora: a equipe de remo treinando na Frenchmen’s Bay e um dos vizinhos passeando com o cachorro. Sempre, exatamente isso.

7:20 – Estarei sentado com uma colher na mão direita e uma tigela na minha frente. Na tigela vai ter leite e cereal (70% de Cheerios, 30% de All Bran). A TV vai estar ligada no Breakfast Television.

7:30 – Aquele bipe chato do carro avisando que falta botar o cinto de segurança vai me irritar.

7:50 – Se nesse horário ainda estivermos antes de Ajax, o trem interestadual vai passar à nossa direita.

8:00 – Pegarei, hesitante, a maçaneta da porta principal do escritório, com medo de levar um choque por causa da eletricidade estática. Depois de entrar, direi good morning para a secretária que fica logo em frente, e ela responderá com um sorriso.

Depois disso eu já não garanto nada.