Diversas

E amanhã é dia de acordar às 4:30 da manhã e voar pra São Paulo. Pra coisa ficar ainda mais divertida, na noite passada sonhei que estava num avião que sofreu um acidente. Mas podem ficar tranquilos: o acidente do sonho não foi nada sério e todo mundo sobreviveu…

Como a minha vida anda bem sem-graça, estou tendo que apelar para a ficção. Portanto, quando você vir que a letra mudou por aqui, saiba que nada mais é verdade. Abaixo segue um exemplo.

–o–

A borracha mole do botão do controle remoto fazia-o emperrar toda hora. Mas o Souza continuava zapeando pela TV do hotel, naquela tarde de domingo. Domingo é um dia complicado, principalmente à tarde e principalmente quando você está num quarto de hotel do Rio de Janeiro, longe de casa e sem ter absolutamente nada pra fazer porque o céu está se derretendo todo lá fora.

A tevê só tinha canais abertos e estava lá, ligada, vomitando a programação dominical. Até que o controle emperrou de novo e acabou saltando dois canais e indo parar na Globo, no Domingão do Faustão. Tinha uma dupla caipira fazendo show enquanto o apresentador repetia seus chavões de sempre: “Mais do que nunca, quem sabe faz ao vivo galera!”. Depois, levantou o CD da dupla para que a câmera focalizasse. Souza ainda se perguntava se aquilo era ou não playback quando a câmera cortou para as dançarinas. Eram umas vinte, fazendo coreografias sem sentido, robóticas, decoradas com um sorriso automático. Estendido na cama, Souza se lembrou da festa de sábado.

No sábado a parte “oficial” da sua viagem de negócios acabara. Eram umas seis da tarde quando encerraram o seminário e começaram o coquetel. A empresa de Souza era muito pequena e desconhecida, então ele passou a maior parte do tempo no bar, vendo o movimento e tentando ver se conseguia lembrar o nome das celebridades que volta e meia perambulavam pelo saguão.

Foi quando o “cara da gravata bege” chegou. Ele não sabia quem era, só viu a figura debruçar-se sobre o bar, pedir outra bebida e puxar conversa da maneira mais padonizada possível:

– Festão hein!
– Pois é…
– Cara, olha isso, quanta mulher maravilhosa tem aqui!
– Verdade.
– Mas o melhor é que dá pra pegar qualquer uma. Qualquer uma mermo

Souza riu e pensou que aquele cara já havia bebido mais que devia. Como não tinha nada a perder, resolveu continuar o papo. Pelo menos ia espantar o tédio.

– No duro? Eu não acredito…
– Pode crer, mermão! Todas as mulheres são umas prostitutas ocultas, é só saber dar o preço que elas pulam no seu colo…
– Eu acho que você está generalizando um pouco demais, não?

O bebum deu dois tapinhas no ombro de Souza e chegou mais perto. A gravata bege pulou para fora do paletó e ele assumiu um tom de voz mais misterioso.

– Olha aqui, vou te contar um segredo. Sabe aquelas dançarinas do Domingão do Faustão? Todas são “da vida”. Putas, quengas, chame como quiser. Mas são sim!
– Sim sim, claro… – desdenhava Souza enquanto bebia outro gole do martini.
– Olha, se você está duvidando, faça o teste. Amanhã, na hora das videocassetadas, eles vão mostrar o rosto de umas duas ou três meninas. Escolha a que mais te agradar e ligue para este telefone aqui…

O engravatado mostrou discretamente um guardanapo dobrado na mão esquerda. Souza riu, pegou o guardanapo e guardou no bolso sem dar a menor atenção. Até moveu-se discretamente, para alimentar a fantasia do engravatado, que continuou delirando sobre sua rede de prostituição na TV aberta:

– Aí quando o programa acabar, eles mandam a mina pra onde você tiver. Não é lá muito barato, mas as meninas são maravilhosas e fazem qualquer coisa. Garantido, mermão!
– Claro, claro. Bom, deixa eu ir ali tirar uma água do joelho.

Dali, Souza foi direto para o táxi. E agora estava deitado na cama, lembrando-se da conversa do homem da gravata bege. Ficou curioso, abriu o armário e meteu a mão no bolso do paletó: o guardanapo dobrado ainda estava lá. Ao desdobrá-lo, a surpresa: um número de telefone.

“Com o patrocínio da Fininvest, vem aí as Videocassetadas, galera!” – Anunciava Faustão.

Souza ajeitou o travesseiro e logo vieram os vídeos. Havia uma noiva desmaiando num casamento, uma criança que cambaleia pela sala e bate a cabeça na câmera, um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Aí a tevê mostrou a primeira dançarina: loira, com olhos castanhos, estava rindo da “cassetada” do cachorro. Depois vieram mais, uma série de “tombos em festas”, com vários americanos gordos se espatifando no chão: uns subiam em mesas e caíam, outros cismavam de rodopiar com suas esposas gordas e acabavam tropeçando. O bloco acabou e mostraram outra dançarina, ruiva, com grandes olhos verdes. Alguns minutos depois, mais cassetadas e a terceira menina, também morena, com dentes alvos e uma pele muito bonita.

Souza nunca havia notado que a tevê realmente mostrava as dançarinas entre os blocos de videocassetadas. Olhou para suas mãos: o controle remoto em uma, na outra o guardanapo com o telefone. Resolveu discar.

Foi num misto de curiosidade e descrédito que ele ouviu o telefone chamar. Uma, duas, três vezes. Na quarta, a linha fez um ruído e uma voz masculina atendeu.

– Alô.
– Er.. de onde fala?

A voz masculina não respondeu e desligou. Aquilo estava cada vez mais estranho. Souza esperou alguns instantes e ligou de novo:

– Alô.
– Eu queria a terceira menina – Disse Souza, destemido.

Resolveu entrar no jogo; se aquilo fosse um engano, ele diria que discou errado e desligaria. Se fosse uma pegadinha, ele sabia que não podem exibí-la sem sua autorização. Na verdade Souza acreditava que aquilo não ia dar em nada. Não fazia sentido que o Domingão do Faustão servisse de “catálogo televisionado” para garotas de programa. Mas a voz masculina do outro lado da linha prosseguiu.

– OK, a morena ainda está livre. Pra quando, agora?

Souza não sabia o que dizer. A voz continuou.

– Senhor, o programa é para agora?
– S-sim, é para agora.
– Certo. São quinhentos reais, duas horas, o táxi é por nossa conta. Qual o endereço?

Souza segurava o telefone com força. A curiosidade era maior que o espanto, por isso deu o endereço mesmo assim. Aquilo devia ser um trote, provavelmente o próprio engravatado iria aparecer, apontar o dedo para a cara de Souza e gritar “te peguei!”. Ou uma quadrilha ia lhe sequestrar e fazer um tour pelos caixas eletrônicos do Rio, limpando todas as suas economias pelo caminho e abandonando-o, seminu, num terreno baldio qualquer. Pelo menos é o que Souza pensava. Enquanto ele se sentia um idiota por ter dado o endereço, o homem continuou:

– Então está combinado. Eu preciso apenas que o senhor pague a menina assim que ela chegar. São as normas. Em quinze minutos… não, vinte, por causa da chuva, ela chega em seu endereço.

E desligou. Assim que o fone tocou o gancho, a vinheta da teve dizia: “é fantastico… tcham!”.

Souza voltou a se deitar, preocupado. Glória Maria narrava os destaques do programa da noite, mas ele nem ouvia.

Duas batidas na porta interrompem os vinte minutos mais longos de sua vida. Souza ainda hesitou, andou lentamente até a porta, passou o trinco e girou lentamente a maçaneta. Do outro lado, lá estava ela. A dançarina do Domingão do Faustão, ainda com a maquiagem do programa no rosto.

– Posso entrar? – disse ela, com a voz doce e provocante.

Ao vivo ela era ainda mais bonita que na tevê. Sem tirar os olhos de Souza, ela passou, empurrou a porta e tomou-o pela mão.

– Vem pra cama comigo.

Foi exatamente como o engravatado dissera: ela fez de tudo com Souza. Um bom tempo depois, os dois se aconchegaram na cama. No escuro, os móveis do quarto faziam sombras que piscavam nas paredes, conforme a tevê ia anunciando: “Hoje, no Domingo Maior…”

Eram sete e quinze da manhã quando Souza acordou, sobressaltado. O quarto estava vazio. No criado mudo, sua carteira estava aberta: faltavam quinhentos reais. E o guardanapo com o telefone havia sumido.

Na tevê estava passando a vinheta de abertura do Bom Dia Brasil.

Quinhentos e tantos quilômetros em dois atos

Ato 1

E, pela segunda vez este mês, um taxista me perguntou se eu estava indo pra Brasília receber meu mensalão.

–o–

Abrir o notebook na sala de embarque do aeroporto provocou uma inesperada reação: várias crianças vieram pescoçar o que eu estava fazendo.

A tentação de abrir o emulador e jogar um Street Fighter Zero, só pra esnobar, foi grande.

–o–

Palavras, palavras… eu queria palavras e pedi a aeromoça que me arrumasse uma revista. Nesse meio tempo achei uma revistinha de palavras cruzadas, esquecida no bolsão em frente ao meu assento.

A sorte: ela estava todinha em branco, pronta pra ser desvirginada pela minha enorme, hã, caneta.
O azar: ela era da categoria “moleza super-fácil letra grande”.

Testei uma delas e, noventa segundos depois, vi que teria que me contentar com a revista mesmo. Também não adiantou: meia hora depois e até reportagens do tipo “Troque o Prada pelo prana”, escrita por uma professora de yoga, eu já tinha traçado.

Voltei para as palavras cruzadas e decidi ver quantas eu conseguia fechar antes do avião aterrisar. Não me lembro quantas foram, mas a última eu fechei entre o instante em que o trem de pouso tocou o chão e o momento em que o avião parou no terminal…

Ato 2

O cabelo daquela aeromoça estava me incomodando muito. Aquele coque dela, o gel e o tingido de loiro davam a impressão de que estava tudo repuxado para trás, esticando a pele do rosto até doer. Mas ela ria e nem se incomodava, enquanto eu não conseguia tirar os olhos dela. Eu olhava esperando dor e via só um sorriso. Aquilo era muito bizarro. Talvez fosse o whisky, o suor do copo que ficava molhando os meus dedos gordos. Eu não devia ter bebido esse whisky, mas nessa altura isso não vai mais fazer diferença.

Eu só conseguia alternar o olhar entre o telão e a aeromoça. Aquele maldito filme ianque finalmente acabou e a tela mostrava só a rota do avião, em algum lugar sobre o Mediterrâneo. No meu relógio ainda faltavam quatro horas pra terminar a viagem. E o coque da aeromoça fazia parecer que a pele dela ia estourar a qualquer momento. Ela foi chegando mais perto e eu prestava ainda mais atenção, enquanto ela me dizia alguma coisa em inglês, toda sorridente. Acho que ela pediu que eu a acompanhasse. Era bonita, a moça, e estávamos a 12500 pés de altitude, segundo o telão. Sei porque vi de relance, enquanto eu e ela passávamos pelo corredor. Tinha uma senhora saindo do banheiro, então a aeromoça parou e esperou que ela passasse. A senhora tinha a pele normal. Dobrinhas, rugas e tudo o mais. O cabelo estava solto, e seria normal não fosse aquela cor esquisita. “Acaju”, diria minha irmã. Pra mim era vermelho. A aeromoça ainda estava sorrindo, e aquele coque-tortura repuxando o rosto dela. Talvez fosse por isso que ela não tivesse nenhuma ruga. Nenhuma mesmo. E os olhos castanhos pareciam ainda maiores, repuxados, me olhando esquisito da cabeça aos pés.

Eu nem sei se ela me empurrou para o banheiro ou pediu que eu entrasse, mas sei que acendeu uma luzinha engraçada no teto quando ela trancou a porta. Um tal de “occupied”. Eu achei aquilo engraçado mas não consegui ler muito mais porque ela começou a me beijar. Apesar de todo aquele repuxado eu achei que fosse sentir algo estranho quando o rosto dela tocou o meu, mas estava macio. Macio e um pouco dormente. Deve ter sido o Whisky, ou a pressão atmosférica dos 12500 pés. O resto do corpo não estava dormente, porque ela passava as unhas pelos meus ombros e eu sentia tudo. A minha mão estava na cintura dela, metade sobre aquele casaquinho estranho, metade sobre a blusa branca por baixo. Era macio e liso, 50% algodão, 50% poliéster. Não sei se era isso, mas parecia com uma camisa que eu tinha e que, na etiqueta, dizia isso. A mão dela não desceu muito pelas costas e logo passou para a frente, pra ir desabotoando a minha blusa. Eu não estava entendendo mas não conseguia pensar muito pra decidir o que diabos era aquilo, por causa do maldito coque, ali na minha frente, amarrado numa redinha esquisita que mantinha o cabelo preso, e porque estava gostoso, aquilo tudo. Menos o coque.

Aí de repente ela ficou impaciente e arrancou a camisa num golpe só, depois parou com uma cara assustada quando ela viu toda aquela dinamite em volta da minha barriga. A cara repuxada dela fez uma expressão diferente, como se fosse gritar, e eu tive que pensar rápido. Não ia ter jeito mesmo, então puxei o pino do detonador.

Ninguém viu a bola de fogo sob o céu do Mediterrâneo.

Momento queima-filme de sexta

Estavam eu e Sam (o sênior) debruçados sobre o computador de Ted (o trainee).

Ted abre seu email e clica em “Anexar Arquivo”. A caixa de diálogo abre, apontando para a última pasta utilizada. O Windows XP, ao perceber que se tratava de uma pasta com imagens, automaticamente gerou e mostrou miniaturas das imagens.

Eram todas de mulher pelada…

Coisas que eu ouvi no avião

*ding dong* – Sinal de chamada para a aeromoça
– Pois não, senhora, o que deseja?
– Por favor, o que é mouse?
– Como é?
Mouse… o que é mouse? Vocês falaram aí nas instruções de segurança que não pode usar aparelho eletrônico ou mouse, e eu não sei o que é isso…

*ding dong* – Sinal de chamada para a aeromoça
– Pois não, senhor?
– Me diz uma coisa, quantas meia-horas ainda vai demorar pra gente decolar?
– Bom, senhor, a informação do comandante é que estamos aguardando passageiros de conexão…
– Ah tá. Brigado.

Cinco minutos depois: *ding dong*
– Pois não, senhor?
– Num tem nada de comer aqui não? Tou com uma fome…
– Durante o vôo vamos servir no serviço de bordo, mas por enquanto o senhor quer uma água ou algo assim?
– Sim, obrigado…

Mais cinco minutos depois: *ding dong*
– Pois não, senhor?
– Cê me traz mais uma água, por gentileza?

A aeromoça sai. O cara comenta com o colega na poltrona ao lado:

– Putz, gostei dessa mocinha, cara…
– Hehehe, tem quanto tempo que você não… (assobio) ?
– Ô! Tempão…

Chique no úrtimo 2 – Debaixo da ponte (aérea)

Continuando a série “como é chique o mundo da consultoria”: quando você está de terno e gravata, todos os seus problemas ganham uma dimensão muito mais superior e sofisticada, e suas reclamações giram em torno de coisas suuuuperchiques, como aviões e hotéis.

“Mas meu vôo atrasou duas horas, sabe… e ainda sumiram com minha reserva do hotel”, dizem os chiques. Pra ficar ainda mais beleza, basta completar a frase com algo do tipo: “Estou super estressado com os stakeholders, preciso ir pra um SPA”.

Eu ainda não cheguei nesse segundo nível de sofisticação. Sempre que alguém diz stakeholders eu penso naqueles garçons de churrascaria. E uma vez uma colega de trabalho tirou da bolsa uma nécessaire com o logotipo do Club Med. Até outro dia eu achava que isso era um clube para médicos ou coisa parecida.

Voltando à vida real: Eram quase nove da noite da segunda-feira quando eu finalmente consegui sair do trabalho e chegar ao hotel. Como eram (bem) mais de seis da tarde, minha reserva havia sido cancelada. Normas do hotel. Fui pra fila do check-in, onde havia umas cinco pessoas. A mulher que estava na minha frente perguntou:

– Ei, você tem reserva?
– Não, por quê?
– Porque só tem mais dois quartos disponíveis. Um é o meu, outro é desse senhor aqui na frente.

Tudo culpa da minha gravata, entidade maldita que, além de atrair molho de tomate, cria um vórtice interdimensional na minha frente e automaticamente causa trevas, destruição e hotéis cheios.

Alguns telefonemas depois e achei outro lugar pra dormir. No caminho, o taxista aparentemente gostou tanto de minha nobre presença que demorou quase uma hora pra achar o bendito hotel novo. Acho até que foi de propósito, já que não existem taxistas que se aproveitam de forasteiros, principalmente em São Paulo, terra da finesse no trânsito. O novo hotel era bem mais luxuoso, cheio de firulas fashion no quarto que nem vi direito. Só me lembro da cama e do rádio relógio, que marcava meia-noite.

Era segunda-feira e eu estava acordado há dezenove horas. Mas, para não perder a classe, ainda tive um pouco de insônia e só peguei no sono às duas da manhã…

Voltar pra casa também não é coisa rápida: é uma jornada gloriosa entre táxis, aviões e salas de espera. As salas de espera de aeroporto são o metiê das pessoas sofisticadas: a administração do aeroporto, inclusive, fica mudando os portôes de embarque pra fazer com que nós desfilemos um pouco mais da nossa elegância apressada pelos saguões. Somando todos os atrasos, hoje eu bati meu personal tempo-para-chegar-em-casa record: Saí do trabalho (em SP) às seis da tarde e pisei no meu quarto, em Belo Horizonte, somente cinco horas e meia depois…

Faça as contas: 586 quilômetros entre BH e SP, percorridos em cinco horas e meia. A velocidade média é de 106,5 km/h… Um carro chique a 230 km/h, como um Porsche ou uma Ferrari, levaria só duas horas e meia para concluir o mesmo trajeto. Vale lembrar que isso só é possível com um acessório: a modelo loira default no banco do passageiro…

P.s.: É necessária uma observação, antes que vocês me rotulem de burguesinho. Acho que deu pra notar que minhas referências à sofisticação ou a “ser chique” são comentários sarcásticos. Eu só visto terno e ando de avião porque meu emprego não deixa outra opção.

P.p.s.: Sabiam que p.s. significa post scriptum? Pois é. É latim, coisa chique…

Chique no úrtimo

Ontem no MSN a Luiza disse pra mim:

“O importante é que você é um cara chique que vive no aeroporto”…

Realmente. Deixa eu contar pra vocês como é ser um cara “chique”.

As pessoas sofisticadas como eu já começam o dia de terno, às 5:30 da manhã. Felizes e com um sorriso radiante no rosto, digno de uma capa de revista Caras, nós nos dirigimos até o aeroporto. Aqui em Belo Horizonte a coisa é mais chique ainda, porque o aeroporto fica nos arredores da cidade vizinha de uma cidade próxima, portanto o “dirigir-se ao aeroporto” se estende por quase uma hora.

Outra coisa que é super chique é ter problemas pra embarcar. O executivo de verdade não é aquele que faz o check-in e embarca sem problemas. Tem que passar raiva no balcão, xingar, perder vôo, sair correndo pelo saguão do aeroporto e tudo o mais. Hoje é a segunda vez que embarco pra São Paulo; da primeira tive vários problemas pra fazer a reserva e, quando cheguei no aeroporto, ela ainda estava errada e quase não voei.

Quanto à hoje, bem, se eu tivesse embarcado sem problemas eu não estaria aqui na sala de embarque escrevendo este post…

O Primo alerta: NÃO ASSISTA Diário de uma Louca


Este é o poster de Diário De Uma Louca. Se você o vir por aí, corra. Pra bem longe.

Eu tinha um ranking de filmes ruins que possuía algumas pérolas, como Anaconda, Godzilla, Dungeons and Dragons, etc. Hoje este ranking ganhou um novo líder: Diário de uma Louca.

Este é, de longe, o pior de todos os filmes que eu já vi… e dos que vou ver também.

Antes de mais nada, uma explicação: eu só vi esta bomba porque eu e Bethania estávamos sem nada pra fazer. Até tinha o remake de Herbie, mas como era dublado acabamos optando pelo Diário. Seria melhor ter visto o Herbie dublado, na primeira fileira, com dezenas de crianças fazendo guerra de pipoca em cima de nós.

A história do filme já começa clichê: Helen, esposa de Charles, um advogado rico e bem sucedido, é trocada pela amante e expulsa de casa, indo parar na casa da sua tia chamada Madea (a véia do poster). O filme já começou mal: Charles expulsa Helen de casa de um jeito tão estúpido que nem parece real. A partir daí o filme começa o seu longo declínio: a tia Madea é na verdade Tyler Perry, o roteirista, vestido de mulher. Tyler ainda acumula três papéis “cômicos” (atenção às aspas): Joe e Brian, outros dois velhos.


O “travesti senil” chamado Madea (Tyler Perry) e a imbecil Helen (Kimberly Elise).

Teoricamente, Madea deveria ser o ponto engraçado do filme, mas ela não é nada além de uma velha negra que fala com sotaque de negra e tem aquela atitude geniosa de velha negra de filme. Aliás, o filme parte do pressuposto que só existem negros no mundo, pois, depois da primeira cena, o filme passa mais de uma hora sem nenhum branco aparecer. Nem como figurante.

Além da comédia ineficaz, os diálogos, mesmo os mais comuns, eram sofríveis. Helen alternava entre frases dignas dos Cavaleiros do Zodíaco, como “O que foi que você disse?”, e leituras em off do seu diário, que começavam com “querido diário” e tudo. Por sinal, para minha surpresa, após 20 minutos de projeção, Madea desaparece e a história torna-se um drama pior do que novela mexicana, tipo Maria do Bairro. As cenas são patéticas e sem o menor sentido: numa delas, Helen aparece melancólica num restaurante, observando um casal de jovens apaixonados. Ela chora e depois sai, sem maiores explicações. A música de fundo é de lascar: uma mistura de Kenny G com música de elevador, que se repete por TODAS, eu disse TODAS as cenas dali em diante.

Seguindo sua trajetória de “mulherzinha dando a volta por cima”, Helen começa a fazer um super-previsível par romântico com Orlando, um peão de siderúrgica. As cenas de Orlando e Helen são até doloridas de tão ruins: uma das piores é quando os dois estão dançando num clube de jazz (frequentado apenas por negros, vale lembrar) e Helen pensa algo parecido com um capítulo daqueles livros estilo Sabrina: “Oh, como será que ele sabe que eu gosto de ser abraçada assim? Eu deveria ter juízo e dizer a ele pra parar, mas não consigo”. O golpe final é quando Helen pensa:

– Isto está tão perfeito, aposto que agora ele vai dizer algo bem típico de homem e estragar o clima romântico.
– Parece um conto de fadas, não é? – diz Orlando
– E não é que ele não disse? – pensa Helen, surpresa.

Nessa hora eu e Bethania não conseguimos nos conter e gritamos juntos: “NÃO DISSE? Como assim ele NÃO disse?”. Helen ainda solta outras pérolas, como quando ela passa a noite na casa de Orlando (sem sexo) e narra para seu diário: “Ele é um homem bonito, atencioso e, acima de tudo, cristão“. Hein?! Como assim?


Helen e Orlando, o peão de siderúrgica que é um gentleman. O prato predileto dele é salmão (é sério!)

Já que a comédia ficou esquecida mesmo, além dessa história, o filme ainda inventa dramas paralelos sem sentido. Debrah, a irmã de Helen, por exemplo, é uma drogada que largou o casamento pra viver nas ruas. E Charles, o ex-marido, acaba tendo que defender um antigo amigo traficante no tribunal. Ao receber a condenação, esse “amigo”, de forma altamente ninja, arruma um jeito de (algemado!) puxar a arma de um dos guardas e atirar em Charles, que fica paralítico. Pra filme ficar ainda mais novela, só faltava alguém com amnésia…

Assim, Helen, que estava feliz com seu “namorado cristão”, faz a coisa mais imprevisível e idiota que eu já vi num roteiro: primeiro, larga Orlando para tomar conta de Charles. Sim, aquele mesmo que a enxotou de casa pra ficar com outra mulher. Depois, cisma que vai “revidar” tudo que sofreu e maltrata o marido aleijado, deixando-o passar fome e fazendo todo tipo de tortura psicológica, coisas que simplesmente não tem nada a ver com sua personagem carinhosa e submissa.

Aí aparece a mãe de Helen e fala que não é bem assim, que ela devia perdoá-lo. Helen vai lá, o marido pede desculpas por tudo e ela o perdoa. A irritante trilha sonora estilo Richard Clayderman para elevadores continua tocando sem parar, enquanto tudo vai ficando lindo e azul: Charles é mostrado na fisioterapia, começando a recuperar o movimento das pernas, enquanto Debrah, a irmã drogada de Helen é mostrada entrando numa clínica de reabilitação… Qualquer episódio de Chaves teria um roteiro melhor do que esse filme.

Aí, quando o caos parecia estar completo e eu achei que não havia mais espaço pro filme piorar, eis que vem a terrível cena da igreja…


Helen e sua mãe na igreja. Deus que me perdoe…

Todos os personagens estão presentes, ouvindo a pregação do reverendo Carter (negro, é claro), que se extende por uns cinco intermináveis minutos. Depois, vem o coral: Tiffany, filha de Debrah (a drogada), canta um solo. Enquanto a menina canta, surpresa: a dublagem é de uma mulher adulta! O reverendo também canta, depois o coral todo se empolga e os milagres começam a acontecer: Charles, emocionado, anda sozinho até o altar e, na sequência, Debrah (a drogada) entra na igreja cantando como se fosse a Whitney Houston. Pensa bem: o aleijado andou, a drogada se curou, aquilo ali era uma baita duma sessão do descarrego!!!

Foi só aí que a ficha caiu: Durante o filme os personagens soltavam um ou outro comentário sobre Deus, fé ou religião. Eu não havia entendido o porquê disso até ver todos ali na igreja, louvando e cantando: aquele era um filme gospel.

Sim, aquele era um filme gospel!!!

Só agora vi na internet que Tyler Perry (o roteirista e ator que fez a Madea) é escritor de peças teatrais gospel. Foi ele que, por sinal, pagou sozinho por metade do custo de produção do filme. O papo de “comédia” que envolvia o marketing do filme era, portanto, apenas uma isca para atrair gente aos cinemas. O propósito do filme estava ali, claro, enquanto eu via todo mundo cantando na igreja: o filme é um truque para tentar converter o público para o protestantismo…

Um detalhe: na censura americana o filme é PG-13 devido ao conteúdo que inclui drogas (um dos velhinhos que mora com Madea é maconheiro), referências sexuais (do mesmo velhinho, que insiste em xavecar a mãe de Helen) e violência (Madea anda com uma arma, Charles é fuzilado no tribunal, Helen o maltrata na cadeira de rodas). Tudo isso num filme GOSPEL!!!

Quer mais tosquice? Então toma: Madea’s Family Reunion, a continuação dessa bomba, já vai começar a ser produzida. Deus nos acuda.

Sonhos de uma noite paulistana

A noite passada foi a primeira das muitas que vou passar por aqui em São Paulo. O engraçado é que há tempos eu não dormia tão bem…

Acordei completamente descansado na manhã seguinte. Até tive um sonho esquisitíssimo: sonhei que estava escrevendo aqui no blog, e o post era intitulado “Top 5 razões pelas quais a Microsoft é uma empresa de ponta”. No post eu tecia elogios à empresa de Bill Gates, e ficava repetindo pra mim mesmo: “Puxa, olha só, como eu não havia pensado nisso antes”…

Durante o dia eu até tentei lembrar quais eram os argumentos que me faziam pensar assim. Não consegui.

Estou achando o máximo esse ambiente de emissora. Sempre tem alguma coisa diferente pra ver. A novidade do dia foi passar por um estúdio do telejornal e ver o apresentador, todo maquiado. Na TV nem dá pra notar mas, ao vivo, um homem maquiado é muito, muito gay…

E aquela frase clássica que diz “você parecia mais bonito na tevê” é totalmente verdade.

Na segunda feira, quando o avião se aproximava da pista de pouso de Guarulhos, levei um susto ao ver a quantidade de heliportos no topo dos prédios. Por sinal, logo ao lado da sala onde trabalho fica o heliporto da emissora, que recebe gente umas duas ou três vezes por dia.

A Incrível Sabedoria dos Taxistas

A minha agenda de trabalho agora inclui alguns dias em São Paulo, o que significa andar de táxi e avião. Imaginei que isso fosse gerar umas histórias pra contar, só não imaginei que iria ser tão rápido.

Ontem eram sete da manhã e eu estava de terno, entrando num táxi para o aeroporto. O motorista me fez duas perguntas: pra onde ele iria me levar e…

– Você está indo pra Brasília receber seu mensalão, é?

Pra piorar, na sequência ele começou a explicar o por quê da crise do PT.

– Olha, esse problema aí tem origem bem antes… é na forma que o PT chegou ao poder. Sabe, eu sou socialista de carteirinha, e tenho certeza que nada disso teria acontecido se o PT tivesse chegado ao poder do jeito certo: por um golpe de estado. É verdade!

Passei a viagem toda balançando a cabeça, dizendo “sim, sim” e tentando não parecer muito assustado.