Chique no úrtimo 2 – Debaixo da ponte (aérea)

Continuando a série “como é chique o mundo da consultoria”: quando você está de terno e gravata, todos os seus problemas ganham uma dimensão muito mais superior e sofisticada, e suas reclamações giram em torno de coisas suuuuperchiques, como aviões e hotéis.

“Mas meu vôo atrasou duas horas, sabe… e ainda sumiram com minha reserva do hotel”, dizem os chiques. Pra ficar ainda mais beleza, basta completar a frase com algo do tipo: “Estou super estressado com os stakeholders, preciso ir pra um SPA”.

Eu ainda não cheguei nesse segundo nível de sofisticação. Sempre que alguém diz stakeholders eu penso naqueles garçons de churrascaria. E uma vez uma colega de trabalho tirou da bolsa uma nécessaire com o logotipo do Club Med. Até outro dia eu achava que isso era um clube para médicos ou coisa parecida.

Voltando à vida real: Eram quase nove da noite da segunda-feira quando eu finalmente consegui sair do trabalho e chegar ao hotel. Como eram (bem) mais de seis da tarde, minha reserva havia sido cancelada. Normas do hotel. Fui pra fila do check-in, onde havia umas cinco pessoas. A mulher que estava na minha frente perguntou:

– Ei, você tem reserva?
– Não, por quê?
– Porque só tem mais dois quartos disponíveis. Um é o meu, outro é desse senhor aqui na frente.

Tudo culpa da minha gravata, entidade maldita que, além de atrair molho de tomate, cria um vórtice interdimensional na minha frente e automaticamente causa trevas, destruição e hotéis cheios.

Alguns telefonemas depois e achei outro lugar pra dormir. No caminho, o taxista aparentemente gostou tanto de minha nobre presença que demorou quase uma hora pra achar o bendito hotel novo. Acho até que foi de propósito, já que não existem taxistas que se aproveitam de forasteiros, principalmente em São Paulo, terra da finesse no trânsito. O novo hotel era bem mais luxuoso, cheio de firulas fashion no quarto que nem vi direito. Só me lembro da cama e do rádio relógio, que marcava meia-noite.

Era segunda-feira e eu estava acordado há dezenove horas. Mas, para não perder a classe, ainda tive um pouco de insônia e só peguei no sono às duas da manhã…

Voltar pra casa também não é coisa rápida: é uma jornada gloriosa entre táxis, aviões e salas de espera. As salas de espera de aeroporto são o metiê das pessoas sofisticadas: a administração do aeroporto, inclusive, fica mudando os portôes de embarque pra fazer com que nós desfilemos um pouco mais da nossa elegância apressada pelos saguões. Somando todos os atrasos, hoje eu bati meu personal tempo-para-chegar-em-casa record: Saí do trabalho (em SP) às seis da tarde e pisei no meu quarto, em Belo Horizonte, somente cinco horas e meia depois…

Faça as contas: 586 quilômetros entre BH e SP, percorridos em cinco horas e meia. A velocidade média é de 106,5 km/h… Um carro chique a 230 km/h, como um Porsche ou uma Ferrari, levaria só duas horas e meia para concluir o mesmo trajeto. Vale lembrar que isso só é possível com um acessório: a modelo loira default no banco do passageiro…

P.s.: É necessária uma observação, antes que vocês me rotulem de burguesinho. Acho que deu pra notar que minhas referências à sofisticação ou a “ser chique” são comentários sarcásticos. Eu só visto terno e ando de avião porque meu emprego não deixa outra opção.

P.p.s.: Sabiam que p.s. significa post scriptum? Pois é. É latim, coisa chique…

3 thoughts on “Chique no úrtimo 2 – Debaixo da ponte (aérea)”

  1. Tá bom, vai, pode tripudiar que eu não ligo 😛
    E só pra você não dizer que eu não sou sua amiga, a sacada é a seguinte: garantia de no show. Faça reserva de hotel com esse troço aí, que eles são obrigados a segurar seu apartamento até a manhã seguinte.
    Palavra de quem atendeu muito engravatado 😉

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