Diversas

E amanhã é dia de acordar às 4:30 da manhã e voar pra São Paulo. Pra coisa ficar ainda mais divertida, na noite passada sonhei que estava num avião que sofreu um acidente. Mas podem ficar tranquilos: o acidente do sonho não foi nada sério e todo mundo sobreviveu…

Como a minha vida anda bem sem-graça, estou tendo que apelar para a ficção. Portanto, quando você vir que a letra mudou por aqui, saiba que nada mais é verdade. Abaixo segue um exemplo.

–o–

A borracha mole do botão do controle remoto fazia-o emperrar toda hora. Mas o Souza continuava zapeando pela TV do hotel, naquela tarde de domingo. Domingo é um dia complicado, principalmente à tarde e principalmente quando você está num quarto de hotel do Rio de Janeiro, longe de casa e sem ter absolutamente nada pra fazer porque o céu está se derretendo todo lá fora.

A tevê só tinha canais abertos e estava lá, ligada, vomitando a programação dominical. Até que o controle emperrou de novo e acabou saltando dois canais e indo parar na Globo, no Domingão do Faustão. Tinha uma dupla caipira fazendo show enquanto o apresentador repetia seus chavões de sempre: “Mais do que nunca, quem sabe faz ao vivo galera!”. Depois, levantou o CD da dupla para que a câmera focalizasse. Souza ainda se perguntava se aquilo era ou não playback quando a câmera cortou para as dançarinas. Eram umas vinte, fazendo coreografias sem sentido, robóticas, decoradas com um sorriso automático. Estendido na cama, Souza se lembrou da festa de sábado.

No sábado a parte “oficial” da sua viagem de negócios acabara. Eram umas seis da tarde quando encerraram o seminário e começaram o coquetel. A empresa de Souza era muito pequena e desconhecida, então ele passou a maior parte do tempo no bar, vendo o movimento e tentando ver se conseguia lembrar o nome das celebridades que volta e meia perambulavam pelo saguão.

Foi quando o “cara da gravata bege” chegou. Ele não sabia quem era, só viu a figura debruçar-se sobre o bar, pedir outra bebida e puxar conversa da maneira mais padonizada possível:

– Festão hein!
– Pois é…
– Cara, olha isso, quanta mulher maravilhosa tem aqui!
– Verdade.
– Mas o melhor é que dá pra pegar qualquer uma. Qualquer uma mermo

Souza riu e pensou que aquele cara já havia bebido mais que devia. Como não tinha nada a perder, resolveu continuar o papo. Pelo menos ia espantar o tédio.

– No duro? Eu não acredito…
– Pode crer, mermão! Todas as mulheres são umas prostitutas ocultas, é só saber dar o preço que elas pulam no seu colo…
– Eu acho que você está generalizando um pouco demais, não?

O bebum deu dois tapinhas no ombro de Souza e chegou mais perto. A gravata bege pulou para fora do paletó e ele assumiu um tom de voz mais misterioso.

– Olha aqui, vou te contar um segredo. Sabe aquelas dançarinas do Domingão do Faustão? Todas são “da vida”. Putas, quengas, chame como quiser. Mas são sim!
– Sim sim, claro… – desdenhava Souza enquanto bebia outro gole do martini.
– Olha, se você está duvidando, faça o teste. Amanhã, na hora das videocassetadas, eles vão mostrar o rosto de umas duas ou três meninas. Escolha a que mais te agradar e ligue para este telefone aqui…

O engravatado mostrou discretamente um guardanapo dobrado na mão esquerda. Souza riu, pegou o guardanapo e guardou no bolso sem dar a menor atenção. Até moveu-se discretamente, para alimentar a fantasia do engravatado, que continuou delirando sobre sua rede de prostituição na TV aberta:

– Aí quando o programa acabar, eles mandam a mina pra onde você tiver. Não é lá muito barato, mas as meninas são maravilhosas e fazem qualquer coisa. Garantido, mermão!
– Claro, claro. Bom, deixa eu ir ali tirar uma água do joelho.

Dali, Souza foi direto para o táxi. E agora estava deitado na cama, lembrando-se da conversa do homem da gravata bege. Ficou curioso, abriu o armário e meteu a mão no bolso do paletó: o guardanapo dobrado ainda estava lá. Ao desdobrá-lo, a surpresa: um número de telefone.

“Com o patrocínio da Fininvest, vem aí as Videocassetadas, galera!” – Anunciava Faustão.

Souza ajeitou o travesseiro e logo vieram os vídeos. Havia uma noiva desmaiando num casamento, uma criança que cambaleia pela sala e bate a cabeça na câmera, um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Aí a tevê mostrou a primeira dançarina: loira, com olhos castanhos, estava rindo da “cassetada” do cachorro. Depois vieram mais, uma série de “tombos em festas”, com vários americanos gordos se espatifando no chão: uns subiam em mesas e caíam, outros cismavam de rodopiar com suas esposas gordas e acabavam tropeçando. O bloco acabou e mostraram outra dançarina, ruiva, com grandes olhos verdes. Alguns minutos depois, mais cassetadas e a terceira menina, também morena, com dentes alvos e uma pele muito bonita.

Souza nunca havia notado que a tevê realmente mostrava as dançarinas entre os blocos de videocassetadas. Olhou para suas mãos: o controle remoto em uma, na outra o guardanapo com o telefone. Resolveu discar.

Foi num misto de curiosidade e descrédito que ele ouviu o telefone chamar. Uma, duas, três vezes. Na quarta, a linha fez um ruído e uma voz masculina atendeu.

– Alô.
– Er.. de onde fala?

A voz masculina não respondeu e desligou. Aquilo estava cada vez mais estranho. Souza esperou alguns instantes e ligou de novo:

– Alô.
– Eu queria a terceira menina – Disse Souza, destemido.

Resolveu entrar no jogo; se aquilo fosse um engano, ele diria que discou errado e desligaria. Se fosse uma pegadinha, ele sabia que não podem exibí-la sem sua autorização. Na verdade Souza acreditava que aquilo não ia dar em nada. Não fazia sentido que o Domingão do Faustão servisse de “catálogo televisionado” para garotas de programa. Mas a voz masculina do outro lado da linha prosseguiu.

– OK, a morena ainda está livre. Pra quando, agora?

Souza não sabia o que dizer. A voz continuou.

– Senhor, o programa é para agora?
– S-sim, é para agora.
– Certo. São quinhentos reais, duas horas, o táxi é por nossa conta. Qual o endereço?

Souza segurava o telefone com força. A curiosidade era maior que o espanto, por isso deu o endereço mesmo assim. Aquilo devia ser um trote, provavelmente o próprio engravatado iria aparecer, apontar o dedo para a cara de Souza e gritar “te peguei!”. Ou uma quadrilha ia lhe sequestrar e fazer um tour pelos caixas eletrônicos do Rio, limpando todas as suas economias pelo caminho e abandonando-o, seminu, num terreno baldio qualquer. Pelo menos é o que Souza pensava. Enquanto ele se sentia um idiota por ter dado o endereço, o homem continuou:

– Então está combinado. Eu preciso apenas que o senhor pague a menina assim que ela chegar. São as normas. Em quinze minutos… não, vinte, por causa da chuva, ela chega em seu endereço.

E desligou. Assim que o fone tocou o gancho, a vinheta da teve dizia: “é fantastico… tcham!”.

Souza voltou a se deitar, preocupado. Glória Maria narrava os destaques do programa da noite, mas ele nem ouvia.

Duas batidas na porta interrompem os vinte minutos mais longos de sua vida. Souza ainda hesitou, andou lentamente até a porta, passou o trinco e girou lentamente a maçaneta. Do outro lado, lá estava ela. A dançarina do Domingão do Faustão, ainda com a maquiagem do programa no rosto.

– Posso entrar? – disse ela, com a voz doce e provocante.

Ao vivo ela era ainda mais bonita que na tevê. Sem tirar os olhos de Souza, ela passou, empurrou a porta e tomou-o pela mão.

– Vem pra cama comigo.

Foi exatamente como o engravatado dissera: ela fez de tudo com Souza. Um bom tempo depois, os dois se aconchegaram na cama. No escuro, os móveis do quarto faziam sombras que piscavam nas paredes, conforme a tevê ia anunciando: “Hoje, no Domingo Maior…”

Eram sete e quinze da manhã quando Souza acordou, sobressaltado. O quarto estava vazio. No criado mudo, sua carteira estava aberta: faltavam quinhentos reais. E o guardanapo com o telefone havia sumido.

Na tevê estava passando a vinheta de abertura do Bom Dia Brasil.

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