Quinhentos e tantos quilômetros em dois atos

Ato 1

E, pela segunda vez este mês, um taxista me perguntou se eu estava indo pra Brasília receber meu mensalão.

–o–

Abrir o notebook na sala de embarque do aeroporto provocou uma inesperada reação: várias crianças vieram pescoçar o que eu estava fazendo.

A tentação de abrir o emulador e jogar um Street Fighter Zero, só pra esnobar, foi grande.

–o–

Palavras, palavras… eu queria palavras e pedi a aeromoça que me arrumasse uma revista. Nesse meio tempo achei uma revistinha de palavras cruzadas, esquecida no bolsão em frente ao meu assento.

A sorte: ela estava todinha em branco, pronta pra ser desvirginada pela minha enorme, hã, caneta.
O azar: ela era da categoria “moleza super-fácil letra grande”.

Testei uma delas e, noventa segundos depois, vi que teria que me contentar com a revista mesmo. Também não adiantou: meia hora depois e até reportagens do tipo “Troque o Prada pelo prana”, escrita por uma professora de yoga, eu já tinha traçado.

Voltei para as palavras cruzadas e decidi ver quantas eu conseguia fechar antes do avião aterrisar. Não me lembro quantas foram, mas a última eu fechei entre o instante em que o trem de pouso tocou o chão e o momento em que o avião parou no terminal…

Ato 2

O cabelo daquela aeromoça estava me incomodando muito. Aquele coque dela, o gel e o tingido de loiro davam a impressão de que estava tudo repuxado para trás, esticando a pele do rosto até doer. Mas ela ria e nem se incomodava, enquanto eu não conseguia tirar os olhos dela. Eu olhava esperando dor e via só um sorriso. Aquilo era muito bizarro. Talvez fosse o whisky, o suor do copo que ficava molhando os meus dedos gordos. Eu não devia ter bebido esse whisky, mas nessa altura isso não vai mais fazer diferença.

Eu só conseguia alternar o olhar entre o telão e a aeromoça. Aquele maldito filme ianque finalmente acabou e a tela mostrava só a rota do avião, em algum lugar sobre o Mediterrâneo. No meu relógio ainda faltavam quatro horas pra terminar a viagem. E o coque da aeromoça fazia parecer que a pele dela ia estourar a qualquer momento. Ela foi chegando mais perto e eu prestava ainda mais atenção, enquanto ela me dizia alguma coisa em inglês, toda sorridente. Acho que ela pediu que eu a acompanhasse. Era bonita, a moça, e estávamos a 12500 pés de altitude, segundo o telão. Sei porque vi de relance, enquanto eu e ela passávamos pelo corredor. Tinha uma senhora saindo do banheiro, então a aeromoça parou e esperou que ela passasse. A senhora tinha a pele normal. Dobrinhas, rugas e tudo o mais. O cabelo estava solto, e seria normal não fosse aquela cor esquisita. “Acaju”, diria minha irmã. Pra mim era vermelho. A aeromoça ainda estava sorrindo, e aquele coque-tortura repuxando o rosto dela. Talvez fosse por isso que ela não tivesse nenhuma ruga. Nenhuma mesmo. E os olhos castanhos pareciam ainda maiores, repuxados, me olhando esquisito da cabeça aos pés.

Eu nem sei se ela me empurrou para o banheiro ou pediu que eu entrasse, mas sei que acendeu uma luzinha engraçada no teto quando ela trancou a porta. Um tal de “occupied”. Eu achei aquilo engraçado mas não consegui ler muito mais porque ela começou a me beijar. Apesar de todo aquele repuxado eu achei que fosse sentir algo estranho quando o rosto dela tocou o meu, mas estava macio. Macio e um pouco dormente. Deve ter sido o Whisky, ou a pressão atmosférica dos 12500 pés. O resto do corpo não estava dormente, porque ela passava as unhas pelos meus ombros e eu sentia tudo. A minha mão estava na cintura dela, metade sobre aquele casaquinho estranho, metade sobre a blusa branca por baixo. Era macio e liso, 50% algodão, 50% poliéster. Não sei se era isso, mas parecia com uma camisa que eu tinha e que, na etiqueta, dizia isso. A mão dela não desceu muito pelas costas e logo passou para a frente, pra ir desabotoando a minha blusa. Eu não estava entendendo mas não conseguia pensar muito pra decidir o que diabos era aquilo, por causa do maldito coque, ali na minha frente, amarrado numa redinha esquisita que mantinha o cabelo preso, e porque estava gostoso, aquilo tudo. Menos o coque.

Aí de repente ela ficou impaciente e arrancou a camisa num golpe só, depois parou com uma cara assustada quando ela viu toda aquela dinamite em volta da minha barriga. A cara repuxada dela fez uma expressão diferente, como se fosse gritar, e eu tive que pensar rápido. Não ia ter jeito mesmo, então puxei o pino do detonador.

Ninguém viu a bola de fogo sob o céu do Mediterrâneo.

3 thoughts on “Quinhentos e tantos quilômetros em dois atos”

  1. Bizarro…

    Vc sonhou isso ou tá com esse tempo todo pra inventar essas coisas? 🙂

    Eu tb fico incomodado com esses cabelos amarrados das comissárias, hehehehe.

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