Conto


Fazia dez minutos que ela olhava aquela mancha molhada no travesseiro. Era saliva: ela tinha babado a noite toda sobre o cetim daquela fronha rosada. Sempre acontecia isso quando ela bebia whisky. “Da próxima vez eu só bebo vinho”, dizia ela para si mesma, sem fazer esforço algum para tentar se enganar.

A mão direita tateou o criado-mudo, desviou-se do maço de cigarros, da estatueta de Shiva e alcançou o relógio. Era um relógio antigo, de bolso, com uma inscrição em japonês no verso que dizia “harmonia”. Ela ficou exatos vinte e três segundos observando o movimento dos ponteiros, e se levantou quando eram exatamente duas e trinta e quatro da tarde. Deitar-se ou levantar da cama em horários ímpares trazia má sorte. Pisar no chão com o pé esquerdo também.

Na verdade ela entrou e saiu por todas as portas usando só o pé direito. Foi ao banheiro, entrou no closet, voltou ao banheiro, abriu o chuveiro. Usou o resto do sabonete indiano para se lavar, sempre de cima para baixo, porque as energias negativas são atraídas pelo solo. Enxugou-se assim também.

O ar puro da varanda fazia bem a ela. Riscou um fósforo e acendeu um incenso e um cigarro, meio que por hábito mesmo. Deixou ambos no chão, o incenso inclinado sobre o cinzeiro, pra que as cinzas de ambos fossem parar no mesmo lugar. E, no tapete de palha trançada, tentou fazer um pouco de yoga para a ressaca melhorar. “É o sol da tarde, droga. Não tem mais vitalidade quanto o da manhã”, reclamou.

Desceu as escadas para a grande sala de paredes ora brancas, ora arroxeadas. Muitos espelhos, pirâmides de cristal e estatuetas de Buda, sempre colocadas de costas para a porta de entrada. Sobre a mesa, sua criada havia deixado um rápido desjejum e um dos cadernos do jornal. Como de costume, porque não era ela mulher de descumprir hábitos, foi logo ler o horóscopo.

Júpiter no terceiro quadrante vai deixar você especialmente produtivo hoje. Aproveite para dar o melhor de si no trabalho. Quem sabe aquela tão sonhada promoção aparece…

Desapontada, ela chamou a criada. Estava torcendo pra que o horóscopo fosse igual o de ontem, “separe este dia para renovar suas energias”, porque aí ela teria uma desculpa para não ir ao estúdio.

– O Bill da produtora já telefonou duas vezes hoje, senhora – disse a criada assim que chegou.
– Pode mandar ele vir aqui me buscar – resmungou ela de volta. Tem daquele biscoito integral aí?
– Vou trazer.

Se alguma palavra pudesse descrever o desjejum daquela tarde, seria “eclético”: duas torradas, ricota, húmus, geléia de kiwi, pão integral, chá de jasmim, leite de cabra, um copo d’água e um comprimido para dor de cabeça. Ela uniu as mãos, rezou mecanicamente a sidarhamana, prece dos celtas para dar graças ao alimento, e tentou comer. Pensou em ir fazer uma massagem, talvez uma sessão de cromoterapia antes do trabalho, mas Bill já devia estar a caminho.

Depois de comer, foi cuidar da voz. Gargarejou com uma solução de água e gengibre, entoou um mantra por alguns minutos e cumpriu a rotina de alongamentos. A sensação de estômago embrulhando começou a deixá-la irritada: “Pela Deusa… estou até vendo, a sessão de hoje com o Bill não vai render nada. Ele vai vir com aquele papo de que eu não estou em harmonia com a mãe-terra, que assim eu não produzo, vai ser um suplício. Juro que da próxima vez eu só bebo vinho. Só vinho”. E gritou pra que a empregada trouxesse mais um comprimido para dor de cabeça.

Algum tempo depois, Bill chegou e sentou-se numa das ante-salas da casa. A cortina semitransparente balançava com o vento e roçava uma estátua dourada de Anubis, o deus egípcio. Bill olhou para as orelhas pontudas da estátua e lembrou-se do Batman. Depois lembrou-se do chilique que ela havia dado quando ele contou aquela piada com os xamãs incas. Ficou horas ouvindo as reclamações dela sobre como ele não tinha o menor respeito com os ancestrais do nosso planeta. “É louca mesmo. Não fossem os milhões de discos, eu já devia ter cancelado o contrato com essa mulher”, pensava ele.

No corredor entre o salão principal e a ante-sala onde Bill estava havia um espelho, octogonal por causa do I Ching. Ela aproveitou para conferir o visual antes de ir trabalhar. Vestia um vestido indiano, bege, longo e minuciosamente bordado, desde as mangas compridas até a orla. Cobrindo a cabeça e os ombros, usava um xale, também bege, todo bordado. Estaria linda, não fosse o rosto horrível: os lábios secos, olheiras profundas, e um resto de maquiagem que não saiu direito no banho. Ajeitou os cabelos com pressa e ia apagando o cigarro e o incenso quando Bill apareceu do outro lado do corredor.

– Porra, Enya, cê tá de ressaca de novo?

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