Coisas que você ouve quando trabalha numa emissora de tevê

Novos adjetivos: ontem numa reunião um produtor disse que o cenário do programa estava muito over
Palavras resumidas: merchandising vira mércha, TV de plasma é só plasma, chroma key é chroma, ilha de edição é só ilha
A soma medonha disso tudo: “eu vi o mércha no plasma lá da ilha, e o chroma fica muito over”…

Coisas que você vê quando trabalha numa emissora de tevê

Nonsense. Outro dia, no estacionamento, tinha um cercadinho de madeira e, dentro dele, um potro…
Fama. Semana passada eu tive reunião com uma famosa apresentadora. Mesmo com a luz apagada (por causa da apresentação que estávamos passando no plasma), ela não tirou os óculos escuros…

E no refeitório, no almoço de ontem, outro famoso apresentador entrou acenando pra todo mundo como se fosse o Papa e dizendo “boa tarde, boa tarde, bom apetite, boa tarde”. Ninguém pareceu se importar muito…

Estilo. Não me esqueço de uma reunião que fiz com um cara que usava uma roupa de frentista. É, de posto de gasolina mesmo. E na altura do peito havia um retângulo branco, aonde bordam o nome do funcionário. No dele estava escrito: “DUDE”.

Coisas que você cheira quando trabalha numa emissora de tevê

Cigarro. Muito cigarro. Se houver três cinzeiros num corredor de 20 metros de extensão, todos estarão sempre cheios. Já continuei muita reunião na cantina porque os participantes, fumantes inveterados, queriam ir la fora dar um trago…

ZZZZZzzzzz….

Terça de manhã é hora de atualizar o blog, usando os minutos de sala de embarque antes de ir pra São Paulo.

Como de costume, o dia começou cedo: o despertador toca às 4:50 da manhã. Só que, num show de competência (ahem!), eu me antecipei e acordei quase uma hora antes.

Nas últimas semanas a maior novidade tem sido essa mesmo: distúrbios do sono. A noite de domingo pra segunda, por exemplo, foi assim:

23:30 – Me deitei para dormir.
00:10 – Aceso demais pra pegar no sono, fui para o sofá da sala e liguei a TV. Assisti o final do ótimo O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança no TeleCine. Achei que estivesse relaxado o suficiente e voltei pra cama.
00:35 – Na cama, eu me virava para a esquerda e pensava em trabalho. Aí virava pra direita e pensava na reforma do apartamento onde vou morar depois de casar. De bruços, eu pensava nas duas coisas…
1:10 – Eu acho que foi por volta dessa hora que eu, finalmente, dormi. Aí tive um sonho bizarro, onde eu andava pelo corredor de um grande prédio de apartamentos, abria a porta de um deles, enfurecido, encontrava uma velhinha em algum dos cômodos, pegava-a pelas pernas e jogava longe, como se ela fosse de papel. Aí, saía e ia para o apartamento seguinte…

Acordei lá pelas três, com o coração disparado de tanto arremessar velhinhas.

4:30 – Acordei de novo, com o primeiro ônibus do dia passando pela rua. Eu estou quase montando, mentalmente, uma tabela de horários dos ônibus que passam entre quatro e sete da manhã. Fui até a cozinha e bebi um copo d’água.

5:10 – Acordei para ir ao banheiro “devolver” o copo d’água…

Depois, voltei a sonhar com o apartamento. Dessa vez eu estava fazendo alguma coisa no andar de baixo, mas não me lembro bem…

6:30 – Esta foi a última hora que acordei. Fiquei ouvindo os passarinhos cantando até as 7:30, que é quando o despertador tocou.

O Primo no mundo corporativo

Sabe, eu gosto muito da minha carreira de consultor. Essa história de não ter lugar fixo pra trabalhar, nem colegas de trabalho fixos (inclusive chefe), nem um jeito fixo de lidar com o trabalho, acaba sendo bem interessante. Pela primeira vez na vida eu tenho um emprego do qual gosto e me orgulho, que me faz acordar animado pra trabalhar.

Por outro lado, tem horas que eu acho tudo uma grande piada. Não foram poucas as vezes em que eu vi um super-gerentão ou superintendente-ninja passando slides de PowerPoint numa reunião cujo assunto era tão relevante que eu me divertia vendo como as figuras do slide ficavam quando eram projetadas na testa do apresentador…

Não estou desdenhando da minha própria carreira, que isso fique bem claro. Mas também não vou virar um corporativista bitolado, que dispensa o happy hour pra finalizar aquele suuuper-relatório que nem atrasado está. Costumo pensar na rotina de empresa como algo menos importante. Afinal, em última análise, aquilo ali é só um emprego; a vida de verdade acontece fora do expediente, com a família, os amigos e tal. Claro que você não precisa ser um procrastinador incompetente, mas também não precisa varar noites no escritório e ganhar uma úlcera para obter uma promoção ou pra agradar o chefe.

(Falando em chefe, Scott Adams diz que os chefes só são chefes porque são ruins demais para fazerem o trabalho de pessoas normais e, portanto, são movidos para esta posição onde não vão atrapalhar ninguém (*)).

Apesar do meu esforço pra evitar estes excessos, infelizmente eu percebo que acabei cometendo alguns. Às vezes Bethania me liga e eu sou obrigado a dizer um “não dá, agarrei no trabalho”. Veja bem: é uma mulher linda que está me telefonando porque quer me encher de beijos, e eu estou trocando isso pelo Microsoft Excel… aí, depois de desligar, eu vejo que tem um pedaço de pano medonho me apertando o pescoço: a gravata, aquela aberração que jurei nunca usar. E pior: às vezes eu me pego reparando no nó da gravata dos outros.

Mas o que mais doeu (e motivou este post) foi quando eu estava lendo um livro chamado “A Arte da Guerra para Quem Mexeu no Queijo do Pai Rico”. Num dos capítulos o autor faz piada com os “cartões de visita bilíngues”. Eu vinha dando risada com o livro inteiro, até ler aquele trecho: “Meu Deus, EU tenho cartões de visita bilíngues!“. Antes eu nunca sonhava usar gravata, hoje eu tenho até cartão de visita bilíngue: que tipo de monstro eu me tornei?!

Ah, o livro? Conheci pelo Orkut, veja você. Foi escrito por um professor/pesquisador da USP, absurdamente genial nos comentários sobre as bizarrices da vida corporativa. Comprei semana passada e li no avião, com a gravata afrouxada, enquanto meus vizinhos de assento devoravam suas revistas Exame.

A leitura, muitíssimo recomendada pra vocês leitores, me serviu pra duas coisas: me divertir (e muito), e provocar uma auto-reflexão sobre o quanto eu realmente deveria me envolver com o mundo dos ternos-e-gravatas. Ou seja, funcionou por tabela como um livro de (valha-me Deus!) auto-ajuda.

* – Por sinal, Henry Mintzberg, um pesquisador canadense de verdade, cita algo bem parecido num livro sério intitulado “Criando Organizações Eficazes” – Segundo ele, a diretoria fica incumbida de tarefas do tipo “recepcionar clientes que visitam a empresa” para que o pessoal operacional possa continuar o seu trabalho – realmente importante – em paz…

Quadrinhos, filmes ruins, músicas boas

Inconstância é isso aí: dias sem postar, aí de repente…

Noivado em quadrinhos

How we got engaged, história em quadrinhos feita por Dave Roman e Raina Telgemeier.

O interessante é que é tudo real. A idéia de Dave para pedir a mão de Raina, usando os próprios quadrinhos, é genial…

(via del.icio.us)

Filmes ruins do final de semana

Porque eu e Bethania demos um azar danado e só alugamos filme ruim…

Alexandre – Superprodução sobre a vida do super-rei da Macedônia que, conforme o filme mostra, era basicamente um gay manipulado pela mãe. O filme reúne todos os clichês de filme de época (batalhas enoooooormes, danças e figurinos exóticos, morte do herói leeeenta e poética, etc). O roteiro é uma confusão só: Alexandre tem uns vinte capitães que andam com ele o tempo todo, todos com nomes gregos supersimples como Heféstion, Ptolomeu, Cleto, Cassander… e conforme o filme progride, mal dá pra lembrar quem é quem. Aí cada um se posiciona de um jeito ao longo da história, só pra aumentar ainda mais a confusão. Os cenários (principalmente dos locais fechados) são tão minuciosamente construídos que acabam ficando… feios e falsos demais. E isso é só uma amostra de tudo o que dá errado durante o longa.

Até o Vilaça concorda: Alexandre, o Grande é uma grande porcaria.

A queda! As últimas horas de Hitler – Este filme fala… bem… das últimas horas (na verdade dias) da vida do líder nazista. Felizmente, ao contrário do Alexandre, este longa tem vários pontos positivos.

Visualmente, A queda é impecável: cenários fantásticos, figurino perfeito, filmagem excepcional. Uma cena que me chamou a atenção foi de uma menina do exército nazista, que se matou durante a invasão dos russos. Outro menino, também do exército, a encontra morta dentro da trincheira, e a chama pelo nome. A câmera dá um close no rosto da menina, loira dos olhos claros. Tudo em volta da pele do rosto (o capacete, as roupas, o chão ao fundo) tem um tom cinza, tétrico, exceto as feições do rosto dela. Os olhos chegam a brilhar, como que para destacar o ser humano que estava ali no meio da destruição. Este artifício, de usar a cor para destacar as pessoas do meio da guerra, é usado várias vezes com sucesso.

Destaque também para os atores, principalmente de Bruno Ganz, que fez um Hitler genial justamente por ser, estranhamente, normal: todo mundo sabia que aquele era o terrível comandante das hordas nazistas, mas Bruno realçou a dimensão humana de Hitler naqueles momentos finais de derrota, o que foi bastante interessante.

Só que o longa é um pouco arrastado e o roteiro às vezes confunde. Talvez isso tenha feito com que A Queda tenha caído tanto na minha avaliação (o Vilaça, veja você, deu cinco estrelas).

Turing se remexendo na tumba

– Violence is the last refuge of the incompetent.
– Or of the frustrated.
– What makes you think so?
– What makes you ask me that?
– I figured you read it somewhere.
– What – you read about my eating habits somewhere? Are you stalking me?
– I didn’t mention eating…
– Yes you did.
– If so, where?
– You implied it.
– Anyway, change of subject. Where are you now?
– In my house and you?
– At work.
– At home as well.
– It doesn’t feel like home…
– What does feel okay?
– You are just being rhetorical.
– No I’m not.
– I just mosey around.
– What does that mean?
– Forget about it. Hey, I just read they are developing robots able to feel emotions! Will you be one of those some day?
– My emotions doesn’t make me much more than a robot.
– I like your patented Emotions.

Esse sou eu, conversando com um… programa de computador.

O MoFi cita que o tal Jabberwacky, aparentemente, ganhou o Loebner Prize de 2005, que é um concurso de chatbots cuja conversa se aproxime mais de passar pelo famoso teste de Turing.

Segundo a Wikipedia: O teste é uma proposta de teste para a capacidade de uma máquina realizar uma conversação humana. O teste, descrito por Alan Turing no artigo “Inteligência e Maquinário Computacional”, de 1950, procede da seguinte forma: um juiz humano conversa em linguagem natural com dois interlocutores: um humano e uma máquina. Se o juiz não puder determinar com precisão qual é qual, então diz-se que a máquina passou no teste.

P.s.

Hoje à noite, eu saí da farmácia e entrei de volta no carro. Bethania estava debruçada sobre o painel:

– O que foi, Bethania?
– Seu MP3 player… ele tocou uma música linda aqui, como faz pra voltar?
– Hmm, acho que ele deu pau.
– Eu vi o título de relance… era “reach” alguma coisa.

Reach for the Sun, do Polyphonic Spree. Bethania ouviu essa música umas três vezes, só no tempo que ficamos no carro.

Sobre Musga

Um: O Monte Sião Prateado

Pergunta rápida: Que banda poderia ser melhor, ou tão boa quanto Godspeed You Black Emperor?

Resposta:

A Silver Mt. Zion, projeto paralelo de Efrim, guitarrista-fundador do Godspeed.

A foto aí é do primeiro disco deles, He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms… (ele nos deixou sozinhos mas réstias de luz às vezes agraciam os cantos de nossos quartos).

A quinta faixa, 13 Angels Standing Guard ‘Round The Side Of Your Bed (13 anjos de guarda rodeando a beirada da sua cama) é linda de chorar. Linda de chorar por ser uma amostra do quanto uma música pode ser absurdamente bonita. Por mostrar até que extremo de beleza pode chegar uma expressão de sentimento humana.

(Luiz, nem precisa dizer que é download obrigatório esse disco né)…

Dois: Trava Língua

Pum su ca pá tu fum cun tun tá
Pinti sun, cum pa pim tu cum pá
Mun tici ca pun tu cum paim titinsu
Cum paca cumpum su tuncon tisenstu

Pi-pi-pi-pi ton-ton-ton-ton bon sin tau
Ah fron tun sun cun ti quim ca fum pau
Icoto suntun tiquim cun suntado
Pum pum sin cun ponta fucum tum pá

Uno so cofunto canto suco tinto
Aca con tento bonto con stinto
Tuton sentinto funco com tatau
Etou senti com com pom com pacato

A-um su que ti, on ca tanto sunto
Copom tan fun coton soton quetinto
Uno cotunte pocunto a seconta
Pocunto tutun sa co un, pun-pá

(refrão)

Una cata funtun capim-pum-pá
Afunco tiqui tunto capim-pum-pá
Arraca ti cutunto, capim-pum-pá
Atu caci qui tun, capim-pum-pá

Acredite ou não, essa é a letra da primeira estrofe de Bim Boom Bam, música do Rip Off Artist.

Três: Good Times on the bus

“Não existe gosto mais gostoso que o gosto de amar você”, disse o locutor da BH FM, antes de colocar “Escrito nas Estrelas”, da Tetê Espíndola, pra tocar…

Dois filmes do final de semana

Edifício Master – Documentário brasileiro sobre alguns moradores deste prédio, que fica em copacabana e tem uns duzentos apartamentos. Tinha tudo para ser um pé no saco mas, graças à histórias peculiares de alguns dos moradores, tornou-se interessante. Destaque para o belíssima cena de um senhor que faz uma performance inacreditável de “My Way”, do Frank Sinatra, durante a entrevista, e termina em lágrimas, dizendo:

– Essa música me toca muito… dá até uns “shivers” – diz ele, apontando para o braço arrepiado.

Levou um “melhor documentário” no Festival de Gramado de 2002, por sinal.

Chave Mestra – Filmete de suspense do mesmo roteirista de “O Chamado”. Só que eu detesto filme de terror, e só fui assistir esse porque o maldito primo da minha noiva não disse que era de terror. Mas paciência…

A história é sobre uma enfermeira que vai cuidar de um véio numa casa antiga, e se envolve em uma série de eventos sobrenaturais e misteriosos (que não vou citar pra não estragar a trama). A maior parte do filme segue o procedimento operacional padrão de como dar sustos no espectador:

1) Escureça tudo e coloque o protagonista andando em câmera lenta.
2) Coloque uma música tensa em um vagaroso crescendo
3) Sincronize o ápice da música com uma ação do protagonista que revele algo novo (ex.: abrir uma porta)
4) Quando o protagonista agir, não coloque nada que assuste neste momento. Retire a música e aguarde uns 10 segundos.
5) Sem avisar, insira o susto de verdade, aproveitando que o espectador achou que o momento tenso acabou…

Apesar de tudo o final do filme é surpreendente. O Vilaça deu até três estrelas pra ele.

Uma vida, um parágrafo (parte 2)

Milton era bem nascido. Filho de um famoso arquiteto. Cresceu numa casa enorme, entrou para a faculdade de direito. Tomou uns chopes a mais na calourada, saiu de carro. Estava cantando “Jackie Tequila”, do Skank, na maior altura, balançando a cabeça com os olhos fechados, quando ouviu o pára-brisa estourando. Viu de relance um corpo cair do teto do carro. Saiu em disparada. Prometeu nunca mais beber. A festa de formatura foi no Automóvel Clube. Bebeu champanhe pra poder brindar com os pais. Cancelou a promessa. Fez mestrado na Nova Zelândia. Abriu um escritório quando voltou, casou-se, teve uma filha. Pelo menos uma vez por mês tinha pesadelos com o atropelamento, e acordava gritando. Tratou-se com um psicólogo até os cinquenta e quatro anos. Teve uma grave intoxicação alimentar aos sessenta, e morreu.

Wander era superdotado. Com três anos, lia e escrevia. Com dezenove, ao terminar a faculdade, mudou-se para Chicago para fazer mestrado. Num dezembro, nevou quarenta centímetros. Na pressa de fugir do frio, Wander entrou por uma porta errada da faculdade: a da sala do grupo de teatro. Conheceu Tracy. Atriz amadora, loira, linda. Foi amor à primeira vista, embora platônico: ela nunca o notava. A cabeça de artista não a deixava ver muita coisa além da dramaturgia. Wander concluiu o mestrado com louvor, e surpreendeu seus avaliadores do doutorado ao descobrir a solução para o Axioma de Friedrik. O único problema que ele não resolvia era como conquistar Tracy. Acabou conhecendo Valerie, uma moça com QI exatamente igual ao dele. Casou-se e foi criar os filhos numa grande casa no subúrbio. Tinha um robô pra cortar a grama (os vizinhos morriam de inveja). Virou chefe de desenvolvimento da empresa onde trabalhava. Acompanhava secretamente a vida de Tracy, nessa época já casada com um ator. Às vezes, de noite, Wander pegava o carro e passava pela porta da casa de Tracy, com os olhos marejados de lágrimas. Quando se aposentou, reuniu a família para uma viagem de carro. Na primeira noite da viagem, um caminhão desgovernado matou Wander e sua família. Durante o funeral, pouca gente notou uma bela mulher, loira, linda, chorando baixinho no fundo da igreja.

Marluce era pobre. A mãe bebia, o pai também. Aprendeu a ler num curso comunitário que deram na favela. Quando o pai batia nela, ela corria pra biblioteca pública. Passava dias escondida, lendo. Uma das bibliotecárias virou sua “padrinha” e lhe pagou os estudos. Fez curso técnico de enfermagem, arrumou emprego num hospital. Com o primeiro salário, comprou um walkman, daquele modelo amarelo da Sony. Não sabia inglês, mas cantava Guns’n Roses o dia todo enquanto limpava o vômito dos pacientes. Um deles até acordou de um coma enquanto ela cantava. Nunca se preocupou em namorar ou casar. Morava sozinha num quarto-e-sala no centro da cidade. Passava os dias lendo. Também aprendeu a tocar flauta doce, estudando sozinha nos domingos. Quando se aposentou, passou para a flauta transversa. Aos setenta e oito anos, foi dormir e não acordou mais.

Aníbal só aprendeu a falar aos três anos de idade. Passou a adolescência tirando o atraso: era o cara mais conversador da sala. Conhecia todo mundo na escola. Virou presidente do Diretório Acadêmico na faculdade. Começou a fumar maconha. Depois, começou a vender, e ficou ainda mais popular. Numa segunda-feira, tomou um LSD. Na viagem da droga, ao invés de falar, ele escrevia loucamente. Romances psicotrópicos, ensaios de filosofia transcedental, teoremas matemáticos complexos. Teve overdose umas três vezes, mas não morreu. Foi morar junto com uma cliente: uma menina, filha de vereador, descendente de alemães, que fugiu de casa depois de ser molestada pelo pai. Viveram bem por décadas, usando o cartão de crédito da menina, cujo limite estranhamente nunca estourava. Aníbal já acumulava pilhas de cadernos preenchidos sob efeito do ácido, quando morreu engasgado com uma semente de pêssego. Algumas semanas depois do enterro, sua companheira, que estava na faculdade de matemática, achou um teorema anotado nos cadernos-viagem de Aníbal. Ela propôs o teorema na sua monografia, como se fosse seu. Usaram o sobrenome dela para batizá-lo: axioma de Friedrik

Josias jogava bola desde menino. Jogava bem. Dezesseis anos e ele já estava no time júnior do Atlético Mineiro. Treinava de dia e estudava à noite. No terceiro mês de cursinho, foi atropelado quando andava até o ponto de ônibus. Ficou paraplégico, passou dois meses em coma. Acordou quando uma menina da enfermaria cantarolava “Sweet Child O’Mine”, enquanto dava-lhe banho. Josias não aceitou direito o fato de não poder mais jogar bola, e entrou para a faculdade de psicologia. Arrumou um novo hobby: fotografia. Era muito bom nas preto-e-brancas. Aos trinta e dois anos, foi vítima de um sequestro-relâmpago. O susto fez com que a dor de ser incapacitado aflorasse novamente. Engordou, tornou-se hipertenso. Sentia raiva de tudo. Uma vez, na clínica, tratou um paciente que havia cometido um atropelamento bem parecido com o seu. Quanto mais tratava este paciente, mais revivia seu trauma. No fim, enlouqueceu, envenenou o paciente, depois jogou-se da janela. Josias caiu por quatro segundos. Sentiu que voava. Nunca havia se sentido tão livre em toda a sua vida.

O Kart que não.

No feriado o povo da equipe do meu projeto do hospital combinou de correr de Kart, às 7:15 da noite. Eu e Bethania chegamos no Kartódromo às 7:14…

7:14 – Ted, o Trainee apareceu na porta enquanto eu estacionava. “Estava indo ligar pra vocês”, disse ele, “o pessoal já está chamando para a corrida”.

– Tá todo mundo aí?

– Não, só veio eu, o Sam (o Sênior) e vocês. O resto deu o bolo…

Olhei em volta: as bandeirinhas em volta da pista tremulavam agitadas com o vento forte. No céu as nuvens iam se acumulando, vermelhas, e os raios caíam. “Isso não vai dar certo”, pensei.

7:16 – Eu, no balcão da recepção:

– Boa noite, a gente veio para a bateria de agora, sete e quinze…
– Ah, os retardatários… bom, é só preencher essa fichinha aqui, pagar e pegar seu equipamento ali.
– Certo. Quanto é?
– Cinquenta e quatro reais…
– Santo Deus, é caro isso hein!
– Não não… cinquenta e quatro reais por pessoa…

Nota mental: Fazer a próxima confraternização da equipe com um amigável (e gratuito) joguinho de truco.

– Tó aqui o cheque…
– Ótimo. Escolhe aqui agora o número do seu kart.
– Hmmm… quero o treze. Pra dar sorte.

7:21 – Os trovões e o vento aumentavam. Os caras da pista colocavam todo mundo nos karts, gritando:

– VAMO RÁPIDO GALERA, ANTES DA CHUVA!

Entrei no meu bólido de número treze (pra dar sorte, lembram?). Ligaram o meu cortador de gram… digo, motor, e saí dos boxes. “Mas e a largada? E as voltas de qualificação?”, pensava eu, até que depois da segunda curva vi um dos fiscais de pista com a bandeira amarela.

Lembrei da Fórmula Um… “bandeira amarela… reduzir a velocidade e não ultrapassar”. Fiquei perambulando atrás do kart que estava na minha frente, uma, duas voltas… imaginei que o pessoal iria chamar para organizar o ranking de largada ou algo assim, mas nada acontecia… até que um louco me ultrapassou em altíssima velocidade.

Me senti um idiota, depois pisei fundo.

7:25 – Um raio caiu próximo ao circuito, e as luzes deram uma pequena oscilada. “Só falta acabar a luz”, pensei.

7:26 – A luz acabou…

Tirei o pé e fiquei acompanhando a linha branca da lateral da pista, a única coisa que eu enxergava. Umas duas curvas depois, vi a sombra do fiscal de pista mandando o pessoal entrar nos boxes.

7:28 – Quando já estava quase todo mundo parado, a luz voltou. A da pista continuava apagada (eram aqueles refletores que demoram a esquentar).

Uma mulher passou pelos boxes, com o celular na mão. Dizia ela:

– Estão dizendo aqui que está chovendo granizo no centro da cidade, está um caos, destruindo carros e tudo! Essa chuva toda é que deve estar vindo pra cá…

Avistei Sam, o Sênior…

– É… parece que acabou…

O pessoal da pista ia desligando os karts e perguntando:

– Tá todo mundo aí? Estão dando falta de alguém?

Olhei em volta e não vi Bethania em lugar nenhum. Os fiscais voltaram para a pista, com lanternas…

7:30 – Bethania e o seu kart entraram nos boxes. “Apagou tudo, eu fiquei com medo de baterem em mim e parei”, disse ela.

Devolvemos o equipamento, pegamos o dinheiro de volta. Sam e Ted apareceram:

– Uh… bem, então até amanhã né…

Aí peguei o carro e comecei a voltar. Quem sabe ainda dava pra pegar um cinema, espantar a uruca desse fim de dia.

7:40 – No meio do caminho pegamos a chuva toda que destruiu o centro da cidade. Com a visibilidade ruim, acabei errando uma saída e pegando o caminho mais longo para a cidade.

– Ei, vira ali à direita que a gente consegue voltar pro caminho mais curto – disse Bethania.

Virei…

7:55
– Uhh… já era pra gente ter chegado no caminho mais curto… você conhece esse lugar aqui?
– Não…

8:05
– Mas não era essa a avenida??
– Não! Eu achei que era a outra ali atrás!
– Tá, vamos voltar…

8:11
– Ah, agora eu tenho certeza que é por aqui!

8:15
*Fom fom!*
– Por favor, moço… a gente tá perdido… como faz pra chegar no centro?
– Siga em frente e não vire em lugar nenhum – disse ele

Segui em frente e, finalmente, encontrei um local familiar: o lugar onde a gente havia virado à direita. Pegamos o caminho longo mesmo e voltamos pra cidade…

O velho é o novo bom

Ontem à noite no boteco caímos num assunto de “hábitos de leitura”.

Ao longo dos anos o meu gosto por cinema e o eterno vício em jogos de computador não deixou sobrar muito espaço pra literatura. Pra piorar, quando eu entro numa dessas megalivrarias de shopping, eu sinto ainda menos vontade de ler.

Porque logo na entrada eu sou obrigado a me desviar das cinco prateleiras de auto-ajuda, depois dos livros oportunistas, e aí eu finalmente chego na… papelaria, ou na seção de livros de informática.

Por outro lado, eu me divirto em sebos. Neles comprei meus dois últimos livros, caindo aos pedaços, cuja relação custo-benefício foi assustadoramente alta: Eu, Robô e Admirável Mundo Novo.

Vale lembrar que o Eu, Robô reeditado, de livraria de shopping, custava quatro vezes mais.

Mas este último então, Admirável Mundo Novo, eu devo ter devorado em umas quatro horas no máximo, nos vôos entre São Paulo e BH, que acabaram se tornando meu “espaço de leitura”. O resto dos engravatados do avião ficavam lendo o jornal ou coisas do tipo O Monge e o Executivo, e eu segurando minhas páginas desbeiçadas da obra-prima de Aldous Huxley…

Minha próxima incursão ao sebo deve ser para procurar o 1984, do Orwell. E estou aceitando outras dicas de leitura, favor usar os comentários e deixar um primo feliz.