Dois filmes do final de semana

Edifício Master – Documentário brasileiro sobre alguns moradores deste prédio, que fica em copacabana e tem uns duzentos apartamentos. Tinha tudo para ser um pé no saco mas, graças à histórias peculiares de alguns dos moradores, tornou-se interessante. Destaque para o belíssima cena de um senhor que faz uma performance inacreditável de “My Way”, do Frank Sinatra, durante a entrevista, e termina em lágrimas, dizendo:

– Essa música me toca muito… dá até uns “shivers” – diz ele, apontando para o braço arrepiado.

Levou um “melhor documentário” no Festival de Gramado de 2002, por sinal.

Chave Mestra – Filmete de suspense do mesmo roteirista de “O Chamado”. Só que eu detesto filme de terror, e só fui assistir esse porque o maldito primo da minha noiva não disse que era de terror. Mas paciência…

A história é sobre uma enfermeira que vai cuidar de um véio numa casa antiga, e se envolve em uma série de eventos sobrenaturais e misteriosos (que não vou citar pra não estragar a trama). A maior parte do filme segue o procedimento operacional padrão de como dar sustos no espectador:

1) Escureça tudo e coloque o protagonista andando em câmera lenta.
2) Coloque uma música tensa em um vagaroso crescendo
3) Sincronize o ápice da música com uma ação do protagonista que revele algo novo (ex.: abrir uma porta)
4) Quando o protagonista agir, não coloque nada que assuste neste momento. Retire a música e aguarde uns 10 segundos.
5) Sem avisar, insira o susto de verdade, aproveitando que o espectador achou que o momento tenso acabou…

Apesar de tudo o final do filme é surpreendente. O Vilaça deu até três estrelas pra ele.

Uma vida, um parágrafo (parte 2)

Milton era bem nascido. Filho de um famoso arquiteto. Cresceu numa casa enorme, entrou para a faculdade de direito. Tomou uns chopes a mais na calourada, saiu de carro. Estava cantando “Jackie Tequila”, do Skank, na maior altura, balançando a cabeça com os olhos fechados, quando ouviu o pára-brisa estourando. Viu de relance um corpo cair do teto do carro. Saiu em disparada. Prometeu nunca mais beber. A festa de formatura foi no Automóvel Clube. Bebeu champanhe pra poder brindar com os pais. Cancelou a promessa. Fez mestrado na Nova Zelândia. Abriu um escritório quando voltou, casou-se, teve uma filha. Pelo menos uma vez por mês tinha pesadelos com o atropelamento, e acordava gritando. Tratou-se com um psicólogo até os cinquenta e quatro anos. Teve uma grave intoxicação alimentar aos sessenta, e morreu.

Wander era superdotado. Com três anos, lia e escrevia. Com dezenove, ao terminar a faculdade, mudou-se para Chicago para fazer mestrado. Num dezembro, nevou quarenta centímetros. Na pressa de fugir do frio, Wander entrou por uma porta errada da faculdade: a da sala do grupo de teatro. Conheceu Tracy. Atriz amadora, loira, linda. Foi amor à primeira vista, embora platônico: ela nunca o notava. A cabeça de artista não a deixava ver muita coisa além da dramaturgia. Wander concluiu o mestrado com louvor, e surpreendeu seus avaliadores do doutorado ao descobrir a solução para o Axioma de Friedrik. O único problema que ele não resolvia era como conquistar Tracy. Acabou conhecendo Valerie, uma moça com QI exatamente igual ao dele. Casou-se e foi criar os filhos numa grande casa no subúrbio. Tinha um robô pra cortar a grama (os vizinhos morriam de inveja). Virou chefe de desenvolvimento da empresa onde trabalhava. Acompanhava secretamente a vida de Tracy, nessa época já casada com um ator. Às vezes, de noite, Wander pegava o carro e passava pela porta da casa de Tracy, com os olhos marejados de lágrimas. Quando se aposentou, reuniu a família para uma viagem de carro. Na primeira noite da viagem, um caminhão desgovernado matou Wander e sua família. Durante o funeral, pouca gente notou uma bela mulher, loira, linda, chorando baixinho no fundo da igreja.

Marluce era pobre. A mãe bebia, o pai também. Aprendeu a ler num curso comunitário que deram na favela. Quando o pai batia nela, ela corria pra biblioteca pública. Passava dias escondida, lendo. Uma das bibliotecárias virou sua “padrinha” e lhe pagou os estudos. Fez curso técnico de enfermagem, arrumou emprego num hospital. Com o primeiro salário, comprou um walkman, daquele modelo amarelo da Sony. Não sabia inglês, mas cantava Guns’n Roses o dia todo enquanto limpava o vômito dos pacientes. Um deles até acordou de um coma enquanto ela cantava. Nunca se preocupou em namorar ou casar. Morava sozinha num quarto-e-sala no centro da cidade. Passava os dias lendo. Também aprendeu a tocar flauta doce, estudando sozinha nos domingos. Quando se aposentou, passou para a flauta transversa. Aos setenta e oito anos, foi dormir e não acordou mais.

Aníbal só aprendeu a falar aos três anos de idade. Passou a adolescência tirando o atraso: era o cara mais conversador da sala. Conhecia todo mundo na escola. Virou presidente do Diretório Acadêmico na faculdade. Começou a fumar maconha. Depois, começou a vender, e ficou ainda mais popular. Numa segunda-feira, tomou um LSD. Na viagem da droga, ao invés de falar, ele escrevia loucamente. Romances psicotrópicos, ensaios de filosofia transcedental, teoremas matemáticos complexos. Teve overdose umas três vezes, mas não morreu. Foi morar junto com uma cliente: uma menina, filha de vereador, descendente de alemães, que fugiu de casa depois de ser molestada pelo pai. Viveram bem por décadas, usando o cartão de crédito da menina, cujo limite estranhamente nunca estourava. Aníbal já acumulava pilhas de cadernos preenchidos sob efeito do ácido, quando morreu engasgado com uma semente de pêssego. Algumas semanas depois do enterro, sua companheira, que estava na faculdade de matemática, achou um teorema anotado nos cadernos-viagem de Aníbal. Ela propôs o teorema na sua monografia, como se fosse seu. Usaram o sobrenome dela para batizá-lo: axioma de Friedrik

Josias jogava bola desde menino. Jogava bem. Dezesseis anos e ele já estava no time júnior do Atlético Mineiro. Treinava de dia e estudava à noite. No terceiro mês de cursinho, foi atropelado quando andava até o ponto de ônibus. Ficou paraplégico, passou dois meses em coma. Acordou quando uma menina da enfermaria cantarolava “Sweet Child O’Mine”, enquanto dava-lhe banho. Josias não aceitou direito o fato de não poder mais jogar bola, e entrou para a faculdade de psicologia. Arrumou um novo hobby: fotografia. Era muito bom nas preto-e-brancas. Aos trinta e dois anos, foi vítima de um sequestro-relâmpago. O susto fez com que a dor de ser incapacitado aflorasse novamente. Engordou, tornou-se hipertenso. Sentia raiva de tudo. Uma vez, na clínica, tratou um paciente que havia cometido um atropelamento bem parecido com o seu. Quanto mais tratava este paciente, mais revivia seu trauma. No fim, enlouqueceu, envenenou o paciente, depois jogou-se da janela. Josias caiu por quatro segundos. Sentiu que voava. Nunca havia se sentido tão livre em toda a sua vida.

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