Uma vida, um parágrafo

Celso nasceu em Roraima. Fez curso técnico de contabilidade e queria fazer Direito na faculdade. Tentou quatro vezes, desistiu e virou caixa de banco. Tocava violão porque sonhava ter uma banda e ficar famoso. Escrevia músicas na hora do almoço, fantasiava que as meninas bonitas que vinham à sua agência eram suas fãs. Celso nem tinha amigos suficientes para formar a tal banda, mas não desistiu do sonho nem depois de se aposentar. Morreu num asilo. Deixou de herança, pra quem quisesse, apenas cadernos com letras cuidadosamente passadas a limpo.

Joaquim era órfão e paulista, da capital. Aos quinze anos tinha uma meta: se tornar professor. Acabou engravidando Silvana, com 14 anos na época. Fez bicos aqui e ali para sustentar a família. Quando finalmente se estabilizou como trocador de ônibus, Silvana saiu de casa pra ir morar com um professor. De inglês. Bebia todo dia, o Joaquim, depois desse dia. Virou mendigo. Morreu no hospital aos 25 anos, depois de comer comida podre de um marmitex que achou no lixo.

Varinha era mineira, nascida em Barbacena. Cresceu tímida por causa do nome. Nunca fez amigos na escola e se fechava nos livros. Formou-se em Medicina, com méritos. Queria ser a melhor médica de todos os hospitais onde passou, para curar o orgulho ferido da infância. Quando concluiu a especialização, viajou para o nordeste, de férias. Durante um passeio de buggy nas dunas, ficou conhecendo a família do bugueiro, que morava numa favela. A filha do bugueiro estava mal de pneumonia. Varinha tratou a menina que, curada, agradeceu-a com lágrimas nos olhos. Varinha jamais se esqueceria daquelas lágrimas. Passou três dias sem sair do hotel, depois nunca mais voltou para Minas Gerais. Largou tudo e virou chefe do posto de saúde que havia no pé da favela. Atendeu centenas de milhares de pobres, de graça. Morreu de câncer aos 67 anos. Mudaram o nome do posto para “Posto de Saúde Dona Varinha”.

Maurício herdou o táxi do pai. Sonhava com dinheiro fácil, adulterava o taxímetro, dava voltas para arrancar mais dinheiro dos passageiros mais “trouxas”. Uma vez um “trouxa” deixou cair a identidade no chão ao descer do táxi. Maurício usou o documento para tomar empréstimos e dar calotes. O “trouxa” da identidade era juiz federal, e Maurício foi preso. A pena máxima do estelionato é de oito anos, mas Maurício, inexplicavelmente, passou a vida toda na cadeia.

A pequena Josiane nasceu com uma má formação no pulmão direito. Depois do parto, viveu apenas quatro horas.

Vadão só brincava de boneca quando era criança, para desespero dos pais. Depois de concluir o segundo grau, passou num concurso da Polícia Civil. Ganhou o apelido de “super-homem”: quando foi promovido a delegado, já havia levado quatro tiros, nenhum fatal. Mais três tiros depois, foi promovido à Capitão. Vadão, o invulnerável, o homem das sete balas, diziam os colegas. Jogava na Mega Sena todo santo dia. Nunca ganhou. Casou e teve três filhas. Brincou de boneca com todas. Aposentou-se, comprou uma casa com um jardim enorme, e lá passou o resto dos seus dias.

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