Posts de outubro de 2005


Reunião de 8 às 18

7 de outubro de 2005, 23:11

Quem me conhece sabe que eu tenho uma relação complicada com coisas luxuosas.

Vez por outra a minha profissão me obriga a ter contato com esse tipo de coisa: um almoço suntuoso ali, um hotel de luxo aqui… Eu acho tudo muito bonito, acho a comida realmente boa, o hotel realmente aconchegante, mas pra mim tudo fica rodeado de uma atmosfera meio maldita. Acho que é a minha consciência pesando, por lidar com esse tipo de coisa num país como o Brasil.

Ontem eu passei o dia numa reunião, na sala de convenções de um luxuoso hotel da capital paulista. Era tão luxuoso que dentro do banheiro tinha um sofá. Eu tentei imaginar pra que diabos servia aquele sofá, mas até agora não faço idéia. Será que é pra você se sentar e esperar seu colega terminar de fazer o número 2? Ou só pra você ficar ali curtindo aquele agradável (?!) ambiente?

Por sinal, na quarta eu bati meu “personal trabalhar até tarde record” e fui dormir às duas da manhã, preparando uns dados para a reunião. Dormi umas quatro horas, cheguei cedo no hotel, liguei o computador no datashow e fiquei ali, com as minhas dezenas de planilhas e gráficos a postos.

O pessoal chegou, comentou do tempo, falou de novela, brincou de fazer sombras com a mão no facho de luz do datashow… e chegou a hora do almoço. Grã-fino, é claro. Na mesa, dois garfos, duas facas, e diversas comidas que eu sequer sei pronunciar o nome. O salmão “maldito” estava até gostoso, e o cafezinho que serviram depois, em vez de uma colher para misturar o açúcar, tinha um bastãozinho de canela.

Depois, de volta à reunião, mais conversa… comentaram sobre as idéias pro próximo ano, citaram nome de novos programas desenhando um letreiro no ar com as mãos, igualzinho a gente vê em filme (pessoal de tevê é tudo artista, mesmo se trabalhar na contabilidade), e só lá pelas quatro da tarde o material que eu preparei de madrugada foi usado. Bom, na verdade, apenas parte dele: das dezenas de planilhas e gráficos, o vice-presidente usou apenas três colunas de uma das planilhas.

Aí ele começou a querer mudar de assunto, e eu fui obrigado a fazer valer as minhas horas de sono perdidas:

- Senhores, eu preciso perguntar: na linha 17 temos um prejuízo previsto de cinco milhões(*). O que vamos fazer em relação a isso?

E lá estava eu, peitando vice-presidente de emissora de tevê. Pelo menos deu certo: os cinco milhões devem virar apenas dois, e o cara até me agradeceu no final da reunião.


The End of Days

5 de outubro de 2005, 9:10

- Agora eu não tenho condições físicas de continuar. Até amanhã.

Foi com essa frase que o cara com quem eu me reunia encerrou as atividades do meu dia de ontem. Eram dez da noite, e praticamente todo mundo da emissora já tinha ido embora. Eu estava acordado desde as cinco da manhã, e a partir das seis da tarde eu ganhei uma fiel companheira: a dor de cabeça. Ela ainda dói enquanto escrevo esse post, por sinal.

Peguei o elevador e voltei até a minha sala, pra buscar as minhas coisas e ir embora. Eu sonhava com a minha cama de hotel fofinha quando peguei na maçaneta da porta da sala, mas ela fez “tlec” e não girou: meus colegas já haviam ido embora e trancaram a sala.

Claro que eu tinha uma chave. Estava bem guardada, dentro da minha mochila… dentro da sala.

Alguns telefonemas e meia hora depois, um funcionário da brigada de incêndio chegou com um molho enorme de chaves e abriu a porta. Peguei minhas coisas e desci até o ponto de táxi. Na saída ainda deu tempo de ver uma famosa apresentadora, saindo com o namorado num Audi prateado, mas o que eu queria mesmo era um carro branco com a palavra “TAXI” no teto.

O ponto de táxi que fica em frente tem espaço para uns cinco carros. Estava vazio.

A minha cabeça latejava bastante e eu me preparava pra achar um outro ponto, quando miraculosamente um táxi apareceu. A partir daí, tudo que eu queria era chegar no hotel, pegar o telefone e pedir alguma comida; tanto que, assim que fiz o check-in, peguei o elevador e fui direto pro telefone público do andar (não, meu hotel não tem telefone no quarto):

- Tele-qualquer-coisa, boa noite…
- Boa noite, eu queria fazer um pedido.
- Nós já encerramos, senhor.
- …
- É só até as 23 horas.

Eram 23:05. Vasculhei a minha mochila para procurar outros panfletos de disk-coisas: todos atendiam só até as 23 horas. Tive que pegar novamente o elevador e, no lobby do hotel, procurar um telefone de um disk-qualquer-coisa que entregue depois das 23h. Aí foi só voltar a subir de elevador, ir novamente ao telefone público e fazer o pedido. Coisa simples, não fosse a cabeça latejando.

No quarto, além do telefone, não tem frigobar ou outras amenidades. Nem cozinha o hotel tem. Mas pelo menos a TV tem um Discovery Channel. Fiquei semimorto na cama, assistindo um documentário (extremamente anti-comunismo, por sinal), sobre o acidente de Chernobyl e a sequência de erros humanos envolvidos. Fiquei feliz: quando eu cometo erros no trabalho, pelo menos eles não se tornam uma nuvem de radiação que mata milhares e provoca câncer em gente do mundo todo por 75 anos. O ator que fazia o papel do chefe da sala de controle, um tipinho russo com um bigodinho cafona, fez uma cara impagável de “agora fudeu” quando o reator explodiu. Melhor que qualquer novela da Globo.

E quando a comida (chinesa) chegou, veio um biscoito da sorte, cuja mensagem dizia:

“Na crise, as pessoas cultivam a sabedoria. Na prosperidade, seja frugal. Na adversidade, nada tema”

E no verso tinha uns números para jogar na loteria.


O Cristão

2 de outubro de 2005, 22:48

Olha, eu sou bastante cristão, mas tem horas que não dá.

Hoje eu cheguei em casa e minha irmã estava jogando Wolf ET online. No servidor da Christian Gaming Network.

Enquanto ela metia balas na cabeça de outros jogadores, o servidor exibia citações bíblicas num dos cantos da tela…

Isso só não é pior que o fato de existir uma Associação Cristã de Caçadores de Veados. Porque Jesus deve ter dito, entre os “amai ao próximo como a ti mesmo”, que “bem-aventurados são os que caçam veados na floresta”…

O Profano

- Hmm… ahhh… isso, tira essa blusa, tira…
- Mmm, vai, tira a camisa também, isso…
- Ahh eu adoro esse seu corpo! Vem, vem, vamos pra cama vem…
- Hmm… ei, isso faz cócegas!
- É essa calça sua, muito apertada!
- Tira logo então!… ahhh, isso…
- Hmmm, como é bom…
- Ohhhhh eu quero você… quero você agora…
- Ah, ah, ah…. ahhh que delícia! Hmmm eu quero o Dostoiévsky!!
- Hein?
- Deixa eu ler o Dostoiévsky, por favor…
- Do que diabos você está falando??
- Dostoiévsky, ué. “Crime e Castigo”, está na gaveta do criado mudo, vai, por favor…
- Putz, Jennifer, não acredito! Eu achei que aquilo que saiu nos jornais era mentira!!