Posts de janeiro de 2006


O Primo Recomenda: Músicas difíceis

5 de janeiro de 2006, 23:22

Untilted, disco do Autechre. Eu só conhecia o Autechre de ver o seu nome em trabalhos conjuntos com o Tortoise, até que consegui ver um dos seus shows em Toronto.

Sabe aquela banda que vai crescendo dentro de você? Por mais gay que isso seja, é exatamente o que aconteceu com o Autechre.

O “miolo” de Untilted está nas entrelinhas, nas sutilezas. Tanto que, para aproveitá-lo bem, bons fones de ouvido são simplesmente indispensáveis. E todas elas, as sutilezas, são geniais. A começar pelo título, trocadilho com untitled (sem título) e tilt, que significa algo como “um deslocamento errático”, exatamente o que eles fizeram com a palavra untitled. Mas, embora pareça, de errático o disco não tem nada.

Por exemplo, Ipacial Section, a faixa 02, é minha favorita. Ela começa com três batidas: “Tum, tum, tum”, e depois o caos come solto. Só que este “TUM” é um “TUM” com uma textura simplesmente inacreditável, é um timbre selvagem, que mordisca parcelas graves e agudas do espectro de frequência, que vibra metálico e doce ao mesmo tempo (Por favor, continue lendo, eu não sou louco).

Mas não se empolgue porque só dá pra perceber isso lá pela terceira audição do disco. Se preferir, comece por uma faixa mais fácil (como fermium, faixa 06). Ela tem sons mais familiares mas que, no fundo, não são o que parecem. E quando, depois de algum tempo, cai a ficha disso no seu ouvido, Autechre torna-se uma das coisas mais geniais que você já ouviu.

Músicas fáceis

Carboot Soul, disco do Nightmares on Wax.

Carboot Soul é um disco que desce redondo. Eu nunca tinha entendido o porquê desse slogan da Skol, até que tomei uma de suas cervejas num dia quente e percebi que nada descreve corretamente a sensação da cerveja passando pela sua garganta melhor do que “descer redondo”. É exatamente isso que acontece com esse disco, cujas camadas de funk downtempo com hip hop combinam perfeitamente para um carro passando tranquilo por uma estrada vazia que corre ao longo do litoral num dia ensolarado.

Vale notar que o Nightmares on Wax tem meio que uma orientação para a maconha – eles tem, inclusive, outro disco com uma capa psicodélica chamado Smoker’s Delight (“delírio do fumadô”). Apesar disso, graças a Deus, ele não contém absolutamente nada que soe como o gênero musical mais chato de todos os tempos: o reggae.


O Primo Recomenda: Músicas tranquilas

5 de janeiro de 2006, 22:51

Takk, o disco novo do Sigur Rós. Eu sei que já tentei falar dele, mas me faltaram as palavras. Agora vai.

Imagine que você foi no cinema ver um filme qualquer e, por acidente, acabou assistindo algum que se tornou o melhor filme que você já viu em toda a sua vida. Aí você está maravilhado durante os minutos finais, com o coração disparado e um sorriso daqueles de pura satisfação espiritual, quando entra a música da última cena. Hoppipolla, a terceira faixa do disco, seria esta música. Deu pra entender?

Curiosidade: Sigur Rós é “Rosa da Vitória” em islandês.

Systems/Layers, disco da banda Rachel’s, foi indicação de Luiz. Outro dia eu tava na casa dele, ele tava copiando umas músicas pro meu pen drive e mencionou esta banda. “Ah, entrei no last.fm e tinha um cara que só ouvia isso”.

Copiei o disco sem a menor idéia de que tipo de som eles tocavam, então esperava qualquer coisa: grindcore melódico, emo eletrônico, illbient vocal, psychobilly, o que viesse eu guentava.

Nada podia me preparar para o que veio: avant-chamber, ou música de câmara de vanguarda. Cordas, pianos, oboé, tudo sutil, tudo profundo. Cada música é uma cena diferente, um clima diferente, embora o disco tenha uma personalidade musical, um “tema” (apresentado na segunda faixa, Water from the same source), que abre e fecha essa obra-prima.

A crítica do AMG resume tudo perfeitamente bem com duas frases:

- (Referindo se às músicas): Estes mini-filmes dão a sensação daquelas manhãs chuvosas, e o ouvinte quase pode sentir o cheiro do café de lanchonete enquanto passa apressado por nuvens de fumaça de cigarro e de escapamento de caminhão de padaria.
- Systems/Layers é cerebral e humano, e lhe transporta sem insultar sua inteligência.


Alô criançada, 2006 chegou…

4 de janeiro de 2006, 22:21

O reveillon foi a tradicional bagunça de sempre na Serra do Cipó.

Logo após a virada, a primeiríssima coisa que fiz em 2006 foi tomar um banho. Do champanhe cidra que um amigo estourou em cima de mim.

No dia 02 de janeiro eu já tinha viajado quase 700 km em 2006…

Numa estimativa por baixo, eu devo percorrer mais de 50 mil quilômetros até o final do ano.

A minha lista de resoluções para o ano novo é essa aí embaixo:

- 1024×768
- 800×600
- 640×480

Exercitando um pouco a futurologia. No mundo da tecnologia, em 2006…

- Alguém (infelizmente) vai comprar o Opera
- A Microsoft e o Google vão levar um susto com um cara que andou correndo por fora em 2005.
- 2006 será o ano do boom da Web 2.0, que tem potencial para impulsionar uma nova… bolha de internet.

Previsões mais profissionais aqui e aqui.

E como ainda estou verborrágico hoje, vamos falar de música.

O maldito – e genial – Fatboy Slim

Sabe esse careca aí embaixo?


Foto cortesia do site da Astralwerks

Esse cara produzia discos muitos bons, como o Better Living Through Chemistry, mas nem era assim tão famoso. Aí por alguma razão ele fez um disco chamado You’ve Come a Long Way, Baby, cuja faixa número 2 era uma bomba chamada Rockafeller Skank. Ela começava com uma voz masculina repetindo algo em inglês que se parecia muito com “cheque não, mãe! Eu sei que sou pobre…”

Aí fudeu tudo.

Como, na época, essa coisa toda de música eletrônica estava começando a pegar, The Rockafeller Skank simplesmente devastou Billboards, pistas de dança, listas de mais vendidos e pá. Como ele mesmo disse num dos discos, Fatboy Slim is fucking in heaven. E aí veio o terceiro disco, que teve o mesmo impacto de um segundo disco de uma banda ótima ou de um Matrix Reloaded… ou seja, foi uma bosta.

Halfway between the gutter and the stars é um disco chatérrimo, cheio de ego trips e de parcerias com seres medonhos da música, como Macy Gray, a cantora que deveria ver um fonoaudiologista em vez de fazer shows. Eu me senti roubado quando comprei este CD e não consegui ouví-lo de uma vez só até o final.

Foi por isso que eu nem pensei em comprar o Palookaville, o disco subsequente. Nele, o careca até tentou voltar à velha forma (vide as faixas Slash Dot Dash e Jingo) mas já era tarde demais.

No entanto, por alguma estranha razão, o cara aí ainda acerta a mão como DJ. Acerta muito. Tirando o On The Floor At The Boutique, disco mixado que fica inaudível depois da sexta faixa, seus DJ sets são inacreditáveis de bons. Mas bons mesmo. O cara toca o créme de la créme da dance music, é automaticamente divertido.

Tanto que me causam uma sensação singular, como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada ao ouvir seus sets. Como se eu fosse diabético e estivesse escorrendo o conteúdo de uma lata de 5 litros de leite condensado diretamente dentro da minha boca. É uma delícia mas eu não deveria estar fazendo aquilo.

E ele tá vindo em Belo Horizonte mês que vem. E eu vou ver.

(Nota: falando em DJs… muita coisa boa pra baixar no site especializado em música mixada chamado Blentwell. Tudo a zero reais.)