Rapidinhas

Hoje de manhã liguei a TV na MTV, só pra servir de “descanso de tela” enquanto eu me vestia pra trabalhar.

Aí começa a tocar uma música chamada “Bonde do dom”. Apesar de ter nome de funk, é um sambinha muito bom e, para minha surpresa, Marisa Monte é quem canta, e a letra é surpreendentemente legal. Acho que era a primeira vez que eu gostava de uma música dela.

Aí o clipe acabou e a surpresa foi ainda maior ao perceber que quem ajudou a compor a música foi ninguém menos do que o bosta do Carlinhos Brown e o tosco do Arnaldo Antunes…

Na sequência a MTV tocou “Metal is the law”, clipe hilário do Massacration. A música começa com as guitarras comendo e o vocalista, na sua melhor voz de Angra Cover, mandando ver na letra:

– AI! AI AI AI!! AI AI AI AI AI AI AI…

E fechando com chave de ouro:

… em cima embaixo e puxa e VAI!!

Essa você tem que ver.

A cada dia que passa eu amo um pouquinho mais o meu iPod… e odeio um pouco mais o iTunes. Ontem mesmo eu estava fuçando as configurações dele e cliquei numa opção chamada “Sync Videos” pensando que ele ia sincronizar automaticamente só os meus vídeos. Mal cliquei e meus 15 GB de música no iPod foram instantaneamente deletados. Até agora estou tentando entender o porquê…

Felizmente eu tinha tudo backupeado no micro e foi fácil copiar de volta. Já estou vacinado contra essas perdas de dados, tenho backup de tudo que tenho em uns três lugares diferentes. A gente acaba ficando assim depois de perder um HD de 40 GB

Falando em iPod, acho que vou converter o vídeo da Cicarelli pra botar no meu. Só por diversão.

Já que tem espaço sobrando nele mesmo, estou fazendo uma seleção de vídeos “crássicos” pra eu rever quando estiver atoa no aeroporto ou algo asim. Alguns que já incluí até agora:

Prabu Deva, o cara mais foda da Índia, no clipe da música “Kaanuri Vanil”, que em português significa “Rivaldo, sai desse lago”.
– Outro clássico das arábias: Daler Mehndi (“Ahá! Chegue mais, chegue mais…”)
– O famoso clipe legendado do Daileon (“O Cara Tussiu”)
A propaganda da Apple com Ellen Feiss e sua inesquecível cara de maconhada
David Elsewhere, dança mal que só vendo. O “slow motion” que ele faz é inacreditável…

Cute papa!

Tio Lúcio falou:

“Tem uma dócil garota, a pequena indie Maya Bond, uma japonesa que vive no Texas (ou o contrário), que é conhecida como a “pequena Karen O”. Ela lançou seu disquinho quando tinha 4 anos. Acredite: ela manja. Hoje com 6 anos, suas letras (sim, ela escreve as letras) falam sobre seu amado papai e principalmente sobre fantasmas, guerra e morte, suas maiores obsessões. Confira a sensacional “Cute Papa”, que está no YouTube, junto com o espontâneo comentário de alguém: “I wish I was that hardcore when I was 6”.”

Viajar é preciso

Eficiência é isso aí: logo na segunda-feira e eu já estava me superando.

Dessa vez eu consegui bater meu personal record de tempo em viagem:

1:10 horas de avião
2:40 horas de ônibus
4:10 horas de carro (inclui táxis e carro da empresa-cliente)
1:35 horas de espera em aeroporto/rodoviária
Total: 9 horas e 35 minutos

Isso tudo aí foi porque eu voei de BH pra São Paulo de manhã, depois peguei um carro pra Windturn City, depois peguei um ônibus de volta para São Paulo no final do dia.

A Lua-de-mel do Primo


Eu, no alto da montanha… pronto para os tomb… digo, as descidas! (Foto by Bethania)

Nota inicial: Pra todo mundo que está reclamando que depois que eu casei eu não atualizo mais o blog como antigamente… aparentemente, Murphy ouviu as preces de vocês.

Na sexta-feira eu tomei um “chá de Galeão” ao tentar voltar do Rio. Fiquei empacado no aeroporto das 18:00 às 21:30, e tive tempo de sobra pra completar este esperado post…

Parte 3 de 3: Esquiando no Chile!

Eu esperei quase um ano por isso. Eu trabalhava dias inteiros e saía cansado à noite pra fazer cooper justamente por causa disso. Eu contei cada dia da viagem até que finalmente chegou “o” dia. Eu contei cada hora deste “o” dia até que, no começo da tarde, meus dois pés estavam dentro de botas de plástico rígido, e debaixo delas haviam dois esquis, e debaixo deles havia neve e ladeiras e mais ladeiras da Cordilheira dos Andes pra que eu descesse.

Finalmente eu estava esquiando novamente…


Foto dos óculos de esqui do André… ou seria um auto-retrato meu?

A programação da viagem incluía cinco dias para o esqui. A idéia inicial era ficar hospedado no Valle Nevado, mas quando marcamos a viagem (com meses de antecedência) o hotel já estava lotado. Aparentemente, ficar no Valle Nevado está na moda: neste feriado de sete de setembro o hotel estava praticamente todo reservado para brasileiros…

A minha idéia era aproveitar o máximo de tempo de montanha que eu pudesse, mas não teve jeito: eu só começava a esquiar mesmo lá pelas 11:30 da manhã, e tinha que parar às quatro da tarde. É que tínhamos que subir e descer a montanha todo santo dia, de van. A viagem durava aproximadamente uma hora e meia, e os filhos-da-puta da operadora de turismo se atrasaram TODOS os dias. O atraso seria ainda pior se Bethania não tivesse reclamado na operadora e conseguido uma van exclusiva pra nós, porque aí teríamos que fazer via-sacra por todos os hotéis de Santiago pra catar mais turistas.

Mas chega de reclamar e vamos ao que interessa:

Dia 1: Esqui em El Colorado

O primeiro dia foi o mais desgastante, por várias razões: no dia anterior o motorista deixou um recado dizendo que ia atrasar, e acabou aparecendo mais cedo; aí saímos do hotel sem nem tomar café-da-manhã. Some a isso o efeito da altitude e todo mundo acabou ficando muito cansado. Pra piorar, o pessoal resolveu fazer aulas de esqui com um instrutor “pirata”, que dava aulas do lado de fora da estação. Aí, obviamente, não tinha teleférico e o pessoal tinha que subir a montanha a pé, carregando os esquis, pra poder treinar as descidas.

Como ninguém estava aguentando nada, a diversão do dia acabou sendo brincar na neve: fazer bonecos, jogar bolinhas um no outro…


O abominável homem das neves (óculos opcional)… e o André prestes a levar um naco de neve na cabeça.

Eu não participei das aulas piratas: comprei um ticket e fui direto pra montanha. Mas devo ter descido apenas umas duas vezes, porque a desnutrição e a altitude me deixaram extremamente cansado. O simples ato de caminhar até a base do teleférico pra começar a subir foi um tormento; era uma caminhada pela neve de no máximo 150 metros, e eu tinha que parar pra descansar porque o peso dos esquis e das botas na neve fofa era de matar.

Mas tudo ficou bem no dia seguinte, quando fomos ao…

Dia 2: Valle Nevado!

Logo que chegamos e eu dei uma olhadinha no tamanho do Valle Nevado, eu sabia que aquele era o lugar. Ficou fácil de entender as hordas de brasileiros que vão pra lá todo ano. No próximo, acho que eu vou me juntar a elas…


El Mirador: te leva looonge…

O André, a Ju e Bethania ainda estavam meio tímidos no esqui, então ficaram na parte de iniciantes. Eu dei umas descidas e depois resolvi pegar um teleférico chamado “Mirador”. Subi na cadeirinha e ela foi subindo, subindo, subindo… até que, vinte minutos depois, ela me deixou 350 metros mais alto do que a base da montanha.

O silêncio lá no alto era absoluto. E o hotel estava muito, mas muito longe. Aí comecei a descida, obviamente pela pista mais fácil. Depois, peguei um desvio e fui por uma pista intermediária, que faz o mesmo caminho do teleférico só que, obviamente, morro abaixo.

Depois de uns dez minutos eu finalmente estava de volta à base da montanha, sem nenhum tombo. Aí fui numa outra pista intermediária, uma, duas vezes… também sem tombos. Eu estava bem, muito bem nos esquis, e a autoconfiança só aumentava.

Aí encontrei com o pessoal na pista de iniciantes e pedi a Bethania pra me filmar descendo a pista intermediária.

Peguei o teleférico, fui até o começo da descida e esperei ela dar o sinal. E mandei ver. Curva pra lá, curva pra cá, resolvi fazer um “slalom” nas bandeirinhas da beirada da pista, pra dar uma “incrementada” na filmagem.

O resultado você vê neste vídeo

(Sim, está sem som e com qualidade MUITO tosca. Eu não tenho placa de captura de vídeo no PC, então acabei filmando a telinha de LCD da filmadora, usando a câmera fotográfica. Tudo isso pra vocês poderem rir da minha cara)

Por incrível que pareça esse foi meu ÚNICO tombo do dia…

Aí, com o moral abalado, dei uma parada e fiquei fotografando os tombos do resto do pessoal. Afinal eu tenho direito a, pelo menos, alguma vingancinha…


Bethania em posição “filma eu Galvão!” e depois fazendo um “quatro deitado”

André em altíssima velocidade, e depois chafurdando na neve…

Juliana descendo… e descendo…

E aí você pergunta: “Cadê a foto do tombo da Ju?”. Bem, logo depois da segunda foto ela realmente caiu, mas não foi nada bonito e ela acabou torcendo o joelho. Felizmente não foi nada muito sério: era só botar um pouco de gelo (que foi muito difícil de encontrar, sabe como é) e descansar.

Já que tínhamos dado uma paradinha, aproveitamos pra almoçar a comida mais cara da América Latina. No Valle Nevado, uma coca-cola sai a OITO reais, e uma “promoção” de cheeseburger, fritas e refri não sai por menos de R$ 28. Ai meu olho…

Dias 3 e 4: Mais Valle Nevado!

As emoções de todos os dias de esqui já começavam na van. Eram emoções das mais diversas:

Medo, quando o motorista fazia, em alta velocidade, as curvas ultra-fechadas da minúscula estradinha (essa da foto acima)
Empolgação (indignação, no meu caso), quando o motorista coloca Ivete Sangalo pra tocar durante a viagem
Friozinho na barriga, quando o café-da-manhã começa a reclamar das sacudidelas constantes
Impaciência, quando você não aguenta mais ver curva e o Valle Nevado ainda esta loooonge…

Mas eu esquecia tudo quando chegávamos e eu botava os esquis no pé.


Snowboarder perdido na neve

Conforme o tempo foi passando, o pessoal foi se soltando e já esquiávamos todos juntos pelas pistas mais fáceis. Descíamos umas três delas na sequência e, lá no final, pegávamos o teleférico de volta para o topo.

O problema é que o teleférico passava ao lado do snow park, que é uma pista com rampas, corrimãos e outros obstáculos para os snowboarders e esquiadores freestyle fazerem manobras mais radicais. A cada subida que passava eu ficava vendo o pessoal voando pelas rampas do snow park. Uma delas era bem pequena: “É, acho que aquela ali eu consigo fazer”.

E pronto: agora meu objetivo era aprender a saltar…

Era divertido: eu entrava na pista, via a rampa e descia direto. Aí o vento começava a passar assustadoramente rápido pelas orelhas, uivando forte por causa da velocidade, e a adrenalina subia. Então vinha a rampa e não tinha mais jeito: eu só podia pular e fazer de tudo pra cair em pé. Aí eu conseguia e freava violentamente porque depois do salto a velocidade já estava num patamar absurdo. Eu me achava o mais radical dos radicais.

Aí pedi Bethania pra me filmar. Todo mundo se empolgou e foi pro teleférico: combinamos que eu faria o salto quando eles estivessem no meio da subida do teleférico, pra ter o melhor ângulo de visão possível. E todo mundo foi na maior empolgação: “O Zé vai dar um mega-salto!”

Desta vez eu não caí, mas mesmo assim o vídeo não deixou de ser ridículo. Note que, à minha direita, um esquiador de verdade vai na rampa maior e voa REALMENTE alto. Logo atrás venho eu, e pulo a impressionante altura de VINTE CENTÍMETROS…

Depois do meu “mega-jump”, o André contou que ficou se perguntando: “Ele saiu do chão?”.

Clique aqui e veja o vídeo deste vexame. Eu juro, quando você pula parece muito mais…

Aí eu fiquei revoltado: era a segunda vez que me filmavam e eu só passando vergonha. Resolvi partir pro tudo ou nada, e tentar saltar na rampa REALMENTE grande. Novamente, foi todo mundo pro teleférico, e eu fui pra cabeceira da pista…

E o que aconteceu foi o seguinte: entrei na pista e fui, resoluto, pra rampa grande. Era agora ou nunca. Era a glória ou a desgraça. Aí saltei e, obviamente, me esborrachei com a bunda no chão.

Felizmente, o André estava com a máquina a postos no momento do tombo…


Se eu não contar que estava caindo, até parece que eu estava num carving radical…

Mas o fracasso não foi completo e eu ainda estava com os dois esquis nos pés. Do teleférico o pessoal gritava:

– SAI DO CHÃO ZÉÉÉÉ!!!

Aí me levantei, dei um tchauzinho pro pessoal pra mostrar que eu estava bem, e continuei descendo, o moral lá no dedão do pé. Como a rampa menor ficava no meio do caminho, pensei: “Ah, vou passar por lá, pelo menos aquele pulinho de criança pequena eu consigo fazer”. Nem reduzi a velocidade nem nada, fui direto.

E, novamente, eu me esborrachei na neve. Dessa vez foi feio, porque eu estava muito rápido, e o final da rampinha é uma descida BEM íngreme. Eu levantava uma nuvem enorme de neve enquanto tentava desesperadamente frear com os esquis e com os braços. Consegui parar uns vinte metros depois, todo coberto de branco. Tinha entrado neve pelas luvas, pela calça, eu estava molhado em todos os lugares onde o sol não bate. Do meu lado, um casal de esquiadores olhava perplexo, tentando entender o que diabos era aquilo.

No teleférico, Bethania dizia baixinho: “Ele caiu de novo!! Nãããão, Zé… nãããão, Zé!!”…

E, com vocês, o vídeo desse infortúnio todo

Dia 5: Portillo!

A despedida do esqui foi nesta outra estação, que fica perto da divisa entre o Chile e a Argentina, na beirada de uma estrada que corta os Andes e liga os dois países. Por sinal, um dos teleféricos passa por cima desta estrada.


Aquilo ali atrás do baú do caminhão é… um esquiador?!

Acontece que Portillo é mais longe que as outras estações de esqui. Além disso, o motorista da van chegou atrasado no hotel e quando chegamos na montanha já era mais de meio-dia. Pra piorar, o motorista veio com um papo de que precisava voltar por volta das quatro da tarde pra buscar alguém no aeroporto. E pra piorar ainda mais, quando mencionamos que precisávamos devolver o equipamento alugado de esqui, ele disse que não poderia nos levar porque a loja ficava do outro lado da cidade.

Aí a minha paciência acabou: assim que ele terminou de falar eu cruzei os braços e, com uma cara de psicopata, olhos arregalados e tudo, perguntei com o meu melhor portunhol:

– Y AHORA?! QUE VAMOS HACER??!??

O cara se assustou tanto que, minutos depois, já tinha ligado pra loja e combinado pra que eles buscassem as coisas no hotel mesmo. Por outro lado, meus amigos acharam aquilo a coisa mais engraçada do mundo e até hoje ficam me imitando: cara de psicótico, olho arregalado, braço cruzado, e o bordão agora famoso… “Y AHORA?!?…”


Em Portillo, a escola de esqui é dirigida por ninguém menos que Jesus Cristo, como indicava a plaquinha…

Problemas de logística à parte, Portillo é muito legal. É uma estação de esqui mais profissional, aonde as seleções de vários países do hemisfério norte costumam vir pra treinar durante o verão (sacumé, verão lá, inverno aqui). As pistas são enormes, tanto que eu custei a achar as pistas mais fáceis (onde Bethania queria ficar).

O André e a Ju já estavam estropiados e resolveram não esquiar mais neste dia. Também, com a vista que tinha lá…


Eu juro por Deus que isso NÃO é Photoshop…

A brasileirada também chegou até Portillo. Tinha umas cearenses se esforçando pra ficarem de pé nos esquis e exclamando, no melhor sotaque nordestino: “Óia que eu ainda num peguei o jeitcho do bichinho não…”

Falando em sotaque, um momento surreal dos dias de esqui foi quando eu subi no teleférico com um carioca, que falava superempolgadamente no seu walkie-talkie:

– Aê… Lu? Aqui é o Gui… pô, aí, peguei um boardercross, tesããão!!!!

Voltando a Portillo, o dia foi tranquilo e passei a maior parte do tempo tentando convencer Bethania a descer uma das pistas intermediárias. Ela não era difícil, mas metia medo. Na verdade, todas as pistas metiam medo. As escarpas eram íngremes demais e era tudo muito alto e largo, e consequentemente intimidador.


Aqueles dois tracinhos ali são pessoas esquiando, acredite ou não.

Para meu orgulho, Bethania criou coragem e desceu a pista intermediária comigo. Várias vezes, inclusive. Depois, ficamos brincando num pequeno slalom que montaram na pista de iniciantes. Enquanto um descia, o outro tirava as fotos…


Casal que faz slalom unido, permanece unido…

O teleférico da pista advanced

No fim do dia, pra encerrar a temporada de esqui, resolvi descer uma pista de nível avançado. A coisa começou bem logo no teleférico, que passa por cima de uma montanha, pra que os esquiadores possam descer dando a volta por trás dela, numa encosta larga e íngreme. A “viagem” é linda, a vista é de babar, e a cadeirinha se movendo lentamente através do silêncio e passando bem em cima dos rochedos… foi demais.

Confesso que quando eu cheguei no alto e vi a descida que me esperava, deu um friozinho na barriga. Mas eu já tinha aprendido a lição com os tombos anteriores. Era só eu não tentar nada “boyzado” e tudo ficaria bem. Então mandei ver… e tive uma grata surpresa.

A neve da encosta era do tipo powder, ou seja, fina como pó. É o melhor tipo que existe, a sensação é de esquiar sobre as nuvens. A descida foi simplesmente uma delícia, tanto que no final eu ria gostosamente enquanto deslizava rumo à base da montanha…

Enquanto isso, quentinhos no saguão do hotel, o André e a Ju ficavam filmando o pessoal descendo à distância, e tentando descobrir quais daqueles pontinhos poderiam ser eu e Bethania. A filmagem ficou engraçada: eles começaram a acompanhar um casal onde o homem ficava circulando a mulher, que descia devagarinho… e acharam que era eu e Bethania. Aí a mulher leva um tombo; na narração da fita, a Ju fica dizendo:

– Olha, acho que aqueles ali são os dois… ahahahah, ela caiu!!… ops, desculpa Bethania!

E foi assim a temporada de esqui 2006. Já comecei a contar os dias para a temporada de 2007. Desta vez quem sabe eu não volte com um video decente da minha performance no esqui…

O consultor vai onde o povo está

Tá, eu sei, eu sei que estou devendo a terceira parte do mega-post da lua-de-mel… mas eu acabei de passar dois dias completamente surreais…

Semana passada eu recebi uma boa notícia: seria alocado um projeto como consultor-sênior. Responsa total… com salário maior, trainee só pra mim e tudo o mais.

Na terça, às 18 horas, lá estava eu saindo do Rio de Janeiro, rumo ao meu primeiro dia do novo projeto. Entrei no ônibus e segui viagem…

(Mas peraí… você disse ônibus?)

Rodoviária Novo Rio e meu novo meio de transporte ponto para “decolar”

Pois é, acontece que o projeto seria numa indústria que fica perdida em algum lugar perto da fronteira entre o Rio de Janeiro e São Paulo, numa cidadezinha minúscula que chamarei de Windturn City (ou seja, “aonde o vento faz a curva”). Windturn City é tão minúscula, mas tão minúscula, que eu digitei “Windturn City” no Google Maps, ele localizou a cidade, me mostrou a foto de satélite no zoom máximo, e ainda assim eu levei uns cinco minutos pra localizá-la: “hmmm… será que é essa manchinha cinza? Ali no meio das montanhas?”

Mas então saí do Rio e, quatro horas de ônibus depois, desci na cidade vizinha à Windturn City (porque lá não tem nem rodoviária). De lá, peguei um táxi. O motorista tinha um curioso sotaque de carioca misturado com interior de São Paulo, ou seja, ele puxava o “S” e enrolava o “R” ao mesmo tempo:

– É logo ali, peyrto daquelaix quadraix

Ou seja, “perto daquelas quadras”…

Como você já deve ter imaginado, não tem hotel em Windcurve City, portanto fiquei hospedado dentro da própria empresa, numa vila onde moram outros empregados. Passei a noite num quarto bem espartano, com três camas (uma delas ocupada pelo consultor-líder do projeto), um armário que saiu diretamente do catálogo das Casas Bahia, um ventilador e um banheiro. Parece ruim, mas até que é confortável.


Uau, agora posso dividir quarto com TRÊS pessoas!

No final do corredor tem uma pequena cozinha, com tudo liberado (ou seja, água gelada) e uma tevê “comunitária” de quatorze polegadas, ligada numa antena parabólica, onde todos os canais (exceto a Globo, obviamente) tem mais chiado que imagem. Windturn City é tão longe de tudo, mas tão longe, que até a parabólica pega mal. É sério: pesquisando na net, descobri que a cidade foi escolhida para um encontro nacional de radioamadorismo, justamente pelo fato dela estar longe de grandes centros urbanos e consequentemente quase não ter interferência…

No dia seguinte fomos à sede da empresa pra começar os trabalhos. Depois de vencermos, a pé, a enorme distância que separava o alojamento da sede (ou seja, um quarteirão), fiquei surpreso quando chegamos a uma típica casa colonial daquelas construídas séculos atrás, com piso de madeira, pé direito enorme, janelas e portas compriiiiiiidas… era como se eu estivesse dando consultoria na Casa das Sete Mulheres.


Se você olhar bem de perto vai ver umas câmeras da Globo atrás do arbusto

Uma curiosidade: a janela da sala aonde estamos trabalhando dá direto para a primeira rua de São Paulo aonde foi instalada iluminação pública, segundo nos contaram. Os postezinhos estilo “mil oitocentos e muito antigamente” continuam lá, firmes e fortes.

O dia de trabalho foi, em uma palavra, bucólico. Passarinhos cantando na janela, aquele clima de casa de vó do interior… os diretores da empresa passavam na nossa sala, calmamente… aí paravam pra bater papo e só saíam depois de horas. Quando caiu a noitinha (porque “noite” é coisa de cidade grande), deixamos a vila e fomos procurar um lugar pra jantar em Windcurve City. A caminhada serviu para conhecermos um pouco das atrações locais:

A pracinha
A ponte
O riacho
O sinal de trânsito (só tem UM na cidade inteira)
A antiga estação de trem, restaurada recentemente em comemoração ao seu centenário. Por “restauração”, leia-se “pintura e lâmpadas novas”.

Também pudemos observar os “nativos” em seu habitat natural, praticando o esporte predileto do lugar: papear com o vizinho no portão, ou ficar na janela vendo o movimento (qual?!?). A breve caminhada foi também um pouco desconfortável, porque parecia que estávamos carregando uma placa escrito “FORASTEIROS”: todo mundo parava o que estava fazendo e ficava olhando fixamente para nós.

Comemos numa pequena pizzaria e andamos de volta. Na chegada, um dos diretores da empresa (que foi conosco) sugeriu uma passadinha no bar da vila. Chegando lá, para minha surpresa, metade da diretoria da empresa estava sentada no boteco, em uma animada conversação levemente amplificada por razões etílicas. Um dos supervisores da fábrica me viu, se apresentou e, cinco minutos depois, parecia o meu melhor amigo: me contou metade da história da empresa, falou da história de sua família, fez piada com o meu time de futebol, falou que gostava de rock’n roll (“até esse mais pesadão!”), depois voltou a falar da empresa…

Eu e o consultor-líder resistimos bravamente por meia hora, depois fomos dormir porque o sono estava brabo – em plenas dez da noite. Numa cidade “normal” eu ficaria acordado até uma da manhã, facilmente, vendo o David Letterman na tevê…

No dia seguinte, tudo exatamente igual. Café-da-manhã, caminhada de um quarteirão e o dia inteiro na Casa das Sete Mulheres. Meu cérebro estava num conflito terrível: eu estava a trabalho num lugar onde era pra eu estar descansando! Tinha um notebook com um slide horroroso do PowerPoint na minha frente, mas eu olhava pro lado e via, pela janela, árvores e vaquinhas pastando. E ao invés do zumbido constante de um ar condicionado ou das buzinas dos motoristas doidos de São Paulo, só tinha barulho de passarinho. E Windturn City deve ficar em cima de um vórtice temporal, porque cada hora levava o dobro de tempo normal pra passar. Em pânico, eu tomava cafezinho atrás de cafezinho para ver se meu corpo voltava ao ritmo normal de cidade grande… mas não adiantava.

Mas o fim do dia acabou chegando e fomos pra rodoviária, para voltar ao Rio. A rodoviária tinha o “kit” completo de rodoviária do interior: pintura com tinta barata, vagas para 6 (seis) ônibus, cachorro sarnento no meio da rua, velho bêbado escornado no chão em frente ao boteco, velhinha com aquele xale marrom-cortina sentada no banquinho, junto com a neta de catorze anos que se veste do jeito que vê em “Malhação”, gente trançado pra todos os lados naquelas fiéis bicicletas de 1980, plaquinha comemorativa do Rotary Club, etc.

Nas quatro horas de ônibus de volta pro Rio eu torrei quase toda a bateria do iPod; quase uma “reintoxicação” com o clima de cidade grande…

E foi assim… vou continuar indo pra lá, toda semana, pelos próximos seis meses. Talvez agora que estou em três projetos ao mesmo tempo, em três cidades diferentes (Rio, São Paulo e Windturn City), eu consiga me cansar dessa vida de viajante. Ou não.

A Lua-de-mel do Primo

Parte 2 de 3: ¡Hola Chile!


Vista panorâmica de Santiago, com direito a cordilheira (e nuvem de poluição “a la” São Paulo)

A viagem da Argentina pro Chile vai tornar mais sofridos os meus vôos pela Gol… porque voamos num Boeing 777 da Air France. Nunca comi tão bem em um avião… e depois do rango eu ainda tinha cinco filmes à disposição para assistir na telinha LCD individual do meu assento. Ou, se quisesse, tinha à disposição tapa-olhos, tampões de ouvido, cobertor e travesseiro pra tirar uma soneca.

Mas acabamos não fazendo nada disso direito porque, logo ali, nas janelinhas, estava a magnífica Cordilheira dos Andes…


A gente empolgou tanto com a cordilheira que tiramos DEZENOVE fotos iguaizinhas a essa, sem perceber.

As operadoras de turismo locais estavam há muito tempo sem aprontar alguma conosco, então, na chegada no hotel, o guia fez o favor de quebrar o pé da nossa mala de viagem. Eu já tinha até contado isso, mas não contei que, no dia seguinte, a gente encontrou o guia passando por acaso na rua. Obviamente, perguntamos da mala, e ele disse:

– Bem, eu não posso fazer nada… mas vou mandar um vinho pra vocês no hotel.

Eu tive que rir na cara dele. Por um acaso eu ia calçar o pé da mala com a garrafa de vinho?

Resultado: Bethania ligou pra agência e conseguiu falar com o Gerente de Operações. Só então tivemos um atendimento decente: o cara mandou consertar a mala, e até arranjou transfers privativos pra gente poder ir pro Valle Nevado sem (muito) atraso.


A vista da janela do hotel: melhorou!

Bethania era quem mais estava empolgada com Santiago, tanto que alguns meses antes comprou um guia de viagem com o infame título de “Os Caminhos de Santiago do Chile“. No nosso primeiro dia de viagem resolvemos almoçar num restaurante legal indicado no livro, que não era muito longe do hotel. Aí saímos a pé e andamos (famintos) por quase uma hora. No local aonde deveria estar o restaurante, estava um antigo estúdio de tevê (?!) que hoje funcionava como uma igreja evangélica (?!?!?). Não fosse o porteiro da igreja, que nos indicou um outro restaurante bom – e próximo, estaríamos fritos.

Ainda assim a esperança venceu a experiência e, na noite seguinte, tentamos seguir outra indicação do livro: o restaurante “La Divina Comida”. Segundo o guia, o restaurante ficava no “point” mais agitado de Santiago, com zilhões de restaurantes e bares. Ele teria pratos italianos e era dividido em três ambientes: céu, inferno e purgatório.

Pois é… mal saímos do metrô e já caímos direto no inferno: não tinha nada de “point agitado”, era uma região muito esquisita e as ruas estavam completamente desertas. Era aquele típico cenário de filme aonde as pessoas entram dizendo “eu sei um atalho!” e terminam assaltadas ou mortas.

– Acho melhor a gente sair daqui rápido e entrar num táxi… – sugeri.

Aí, quando olhei em volta, a Ju já estava adiante de nós, andando em ritmo acelerado no melhor estilo “marcha atlética”, e deixando o próprio marido pra trás:

– Como assim, Ju?! Vai deixar o André aqui pra morrer sozinho? E aquele papo de “na saúde e na doença”?
– Ué, alguém tem que sobreviver pra pedir socorro! – Disse ela…

O guia de viagem furado de Bethania e a “marcha atlética” da Ju entraram pro rol de piadas oficiais da viagem…

O city tour de Santiago durou apenas meio dia, mas deu pra ver o básico das atrações da cidade, como a famosa troca da guarda na Praça das Armas, que acontece de dois em dois dias.


A bandinha toca, entra um pelotão, sai um pelotão. Mas é legal!

No pacote também estava incluído uma visita à famosa vinícola Concha y Toro, com degustação de vinhos e tudo o mais. A visita incluiu uma descida na famosa adega (“bodega” para os chilenos) onde é produzido o Casillero del Diablo, que tem esse nome porque, como os criados da fazenda viviam roubando garrafas de vinho, o dono inventou uma história de que o capeta costumava fazer aparições por lá.

Ficamos sabendo disso porque o guia nos levou até a adega, saiu, fechou a porta e apagou a luz… e aí, de repente, algo incrivelmente sobrenatural aconteceu: haviam alto-falantes que tocaram um breve áudio contando a história da adega, e no fim do corredor havia um refletor projetando a sombra do capeta. Coisa pra turista mesmo…


A antiga casa do Sr. Concha y Toro…


Detalhe das “bodegas” (esq.) e o terrível “diablo” que dá nome ao vinho (dir.)

No dia seguinte fomos conhecer duas famosas cidadezinhas costeiras chilenas: Valparaíso e Viña del Mar. Valparaíso pode ser descrita como “uma favelinha colorida”: casas de cores espalhafatosas, espalhadas por encostas de montanha, com elevadores que sobem os morros na diagonal e com uma bela vista para o porto e para o Oceano Pacífico.


Valparaíso é isso aí

Uma peculiaridade de Valparaíso é a quantidade de albergues (uns três por quarteirão). Outra são as pichações e grafitagens em geral, que são tão onipresentes que um dos vendedores de rua da cidade estava oferecendo ímãs de geladeira com fotos delas, que já viraram “marca registrada” do lugar.

Pela descrição, Valparaíso parece ser um muquifo. Mas o céu, o sol, o mar e as cores me deixaram fascinado com o lugar…


Casinhas coloridas, céu azul, sol quentinho (esq.)… e pichações (dir.)!

Viña del Mar é a “vizinha rica” de Valparaíso. É como se fosse a “Miami Beach” do Chile: praias bonitas, gente bonita, casas bonitas, luxo, glamour, etc. Foi lá que almoçamos, num restaurante de frutos do mar. O pessoal aproveitou e pediu uma “paella” que incluía umas coxas de frango (?!) no meio…


Viña del Mar beach, beirando o Oceano Pacífico. Valparaíso está lá no fundão da foto…

A comida no Chile não é muito diferente da Argentina, exceto por um detalhe: a palta. Apesar do nome, não são linhas num caderno nem itens pra discutir numa reunião, e sim “pasta de abacate”. Os chilenos botam palta em praticamente tudo: no Valle Nevado, por exemplo, eu comi um cachorro-quente com palta em vez de maionese. Bethania detestava a tal da palta; já eu, que tenho estômago de avestruz, comia tudo facinho…

O nosso aproveitamento culinário no Chile foi razoável, comemos em lugares bons e ruins. Um dos bons foi o “Giratório”, que fica no alto de um prédio e que realmente gira (devagarinho, claro) enquanto você come. Um bem ruim foi o “Galeão”, que fica no Mercado Central de Santiago. Ele já começou mal na hora que entramos no mercado: TODOS os garçons de TODOS os restaurantes pulavam na frente da gente gritando coisas como:

– Brasileños! Brasileños! Vengam comer aqui!
– Vieram de Brasil? Aqui, buena comida! Quierem mirar? Cardápio! Mira!

Eu não sei como é que ficou tão na cara que éramos brasileiros. Um dos garçons disse que é por causa das nossas esposas: segundo ele, as chilenas são feiosas, e estávamos muito bem acompanhados para sermos chilenos…

Eu nunca fui tão obsediado por garçons como naqueles trinta metros que andamos para atravessar o mercado. Aí, quando finalmente chegamos no restaurante que queríamos (o tal Galeão), a comida era ruim e cara. E a paella, além de frango, incluía linguiça!


“Giratório”, restaurante bom (esq.) e “Galeão”, restaurante ruim, com linguiça na paella (dir.)

Uma curiosidade: a maioria dos restaurantes incluía no cardápio o famoso “lomo a lo pobre”, que quer dizer, literalmente, “bife de pobre”. É um PF básico com carne, arroz, ovo e batata frita…

A nossa relação com a comida na Argentina e no Chile foi engraçada por causa da barreira linguística: no nosso primeiro almoço lá em Buenos Aires, a gente ficou meia hora tentando entender o menu, e o prato de Bethania ainda deu problema. Já no Chile a gente estava mais habilidoso: sabíamos que, por exemplo, “lechugas” eram “alfaces”, “choclo” era “milho”, “lomo” era “carne de boi”, “pollo” era “carne de frango”, “churrasco” era “hamburguer”, “zanahoria” era “cenoura”… só que a gente chamava cenoura de “anarriê” (como nas quadrilhas de festa junina), pra ficar fácil de decorar.

Nessas questões linguísticas, Bethania era nossa intérprete oficial, já que o portunhol do André e da Ju (e principalmente o meu) era terrível. Eu cometia gafes fabulosas nos restaurantes, como pedir pra incluir a “gorrheta” no “cartón”, quando o certo seria incluir a “propina” na “tarjeta”…


Dançarinos de cueca (hehehe)

Outra pegadinha linguística do Chile é a “cueca”. Se o guia turístico lhe chamar pra ver a cueca, não se assuste que ele não é gay: só está convidando você para um show da famosa dança típica chilena, que leva este mesmo nome. Cueca mesmo, de vestir, é “calzoncillo”…

A gente não podia sair do Chile sem, hã, “ver a cueca”, então no último dia de viagem fomos ao Bali Hai, que é um lugar tipo o Señor Tango (jantar + show), só que com cueca. Digo, com show de cueca. Quer dizer, com show da dança típica chamada Cueca (aff!) e várias outras danças regionais do Chile.

Uma delas foi a dos habitantes da Ilha de Páscoa, ou seja, gente vestida de índio fazendo ula-ulas e dando gritos no melhor estilo “homem primata”. E o pior: o show era “interativo”, ou seja, eles desciam do palco e pegavam os pobres turistas desavisados pra pagar mico no palco…


Os aborígenes prestes a atacar (esq.) e eu no palco, tentando dançar e falhando miseravelmente (dir.)

É óbvio que me pegaram. A dançarina me botou no palco, falou: “Mira!” e deu uma rebolada. Era pra eu fazer igual, mas a vergonha, somada com a minha “malemolência de granito”, não deu muito resultado.

Todo mundo acabou indo pro palco pra passar vergonha. Bethania, inclusive, acabou fazendo par com um dançarino gordo, seminu e suado. Pela cara dela na foto abaixo dá pra perceber o tanto que ela estava se divertindo…


“Irk!”<;/div>

Ainda teve muito mais coisa durante a noite. Pegaram um argentino superempolgado, botaram no palco e tiraram quase toda a roupa dele. Ele ficou só de calça e com um colarzinho havaiano no pescoço. E adorou. Teve também um outro cara venezuelano que subiu no palco e começou a estrebuchar como se estivesse tendo uma crise epilética. A platéia foi ao delírio… e além disso tinha um velhinho guitarrista na banda que não tocava absolutamente nada: ele só ficava dedilhando algumas coisas, parava, olhava pro amplificador, mexia nos botões, olhava pra frente, fazia um pouquinho de backing vocal, depois repetia tudo de novo. Eu não ouvi o som da guitarra dele em nenhum momento do show…


A “irreverente” plaquinha de “não fume” (esq.), o tiozinho enganador da guitarra (meio) e o argentino que foi “strip-teaseado” no palco (dir.)

No fim da noite a banda continua tocando pra quem quiser ficar dançando. No playlist da banda tinha Daniela Mercury, Skank e várias outras bandas brasileiras. É incrível: as pessoas acham que os turistas viajam pra longe das suas casas justamente pra ouvirem exatamente as mesmas coisas que ouvem em casa…

Depois do show voltamos pro hotel de táxi, já que o metrô só funciona até as dez da noite. O pessoal ficou me zoando o tempo todo porque eu adorava andar de metrô. Eu realmente gosto muito de metrô por várias razões: é rápido, é barato, e tem um jeitão urbano-sujo-pós-moderno que eu curto bastante. E além do mais é impossível andar de ônibus em Santiago, porque os ônibus são extremamente velhos, pichados e mal conservados. Os motoristas são meio “donos” dos ônibus, e recebem um salário unha-de-fome e uma comissão por cada passageiro transportado. Aí eles podem fazer o que quiserem com o busão, inclusive botar neon debaixo. Eu juro que eu vi um buzú assim, mas infelizmente não deu tempo de tirar foto.

Falando em ônibus, a gente apelidou os que os “carabineros” (a polícia chilena) usam de “caveirão”, que é o mesmo nome dos carros blindados que a polícia do Rio usa pra subir os morros atrás de traficante. Os do Chile são usados em missões mais pacíficas, do tipo “controlar multidões de pessoas durante os protestos”, como o que teve próximo ao nosso hotel num dos dias da viagem. Foi só um “piquetinho”, mas foi legal…


O “caveirão” da polícia (esq.) e o protesto perto do hotel (dir.)

E então, duas semanas de viagem depois, chegou a hora de voltar pra casa. A viagem de volta foi quase uma saga: pra começar, o sistema da Tam estava fora do ar e passamos um tempão na fila, porque a funcionária teve que fazer tudo à mão, inclusive os cartões de embarque e tudo o mais. E teríamos que tirar toda a bagagem no Aeroporto de Guarulhos e fazer check-in de novo e despachar as malas tudo de novo pra finalmente ir pra Belo Horizonte.

Aí entramos no avião e, como os check-ins foram feitos todos à mão, tinha um monte de gente com assento duplicado, ou seja, mais de um passageiro marcado pro mesmo assento. Ficamos observando enquanto todo mundo nos assentos próximos aos nossos ia sendo abordado por outros passageiros. Logo que aconteceu isso com o André e a Ju, o André virou pra trás e me disse:

– Tá chegando perto, daqui a pouco vai acontecer com vocês aí…

No mesmo instante chega um cara pra mim com a passagem na mão. Olha pra mim, olha pra passagem, olha pro número do assento, depois olha pra passagem de novo… eu não aguentei e caí na risada.

Além do atraso por causa dos assentos, outra coisa que fez o avião demorar ainda mais pra decolar foi – pasmem – a pia de um dos banheiros, que estava entupida. Ficamos mais de uma hora sentados dentro do avião, parados na pista do aeroporto, enquanto o som ambiente repetia pela quinquagésima vez aquela música chatérrima da Ana Carolina onde ela fica repetindo:

– Mas eu não seeeei de que forma mesmo você fooooi emboooooraaaaaa…

Ela repete essa frase – e apenas essa frase – por trinta segundos ininterruptos, pra encher linguiça quando a música está acabando. Eu não aguentava mais. E por sinal a música tem o apropriado título de “A canção tocou na hora errada”…

Nesse meio tempo veio um funcionário da Tam ver o problema dos nossos assentos. Ele pegou nossos cartões de embarque e falou: “vou ali verificar o que houve”. E saíu do avião. E começou a demorar, e a demorar… até que o avião fechou as portas e começou a taxiar. Basicamente o cara sumiu com nossos cartões de embarque. Isso só não foi um problema sério porque tínhamos que fazer check-in de novo no Brasil. Há males que vem pro bem…

O avião também tinha telinhas LCD individuais em cada assento, como o da Air France. Num dos canais tinha aquele mapa interativo, que fica mostrando aonde o avião está, a velocidade, distância percorrida e o escambau. Só que uma das telinhas era enigmática: mostrava apenas o avião, uma seta, um ícone de uma casinha e algumas palavras escritas em árabe. Como na foto da direita aí embaixo…


André, Bê e Ju na estação do metrô (esq.) e a telinha enigmática do avião (dir.)

Somente quando estávamos quase pousando no Brasil eu saquei o que era aquilo: trata-se de um mapa para o caso de você pertencer à religião islâmica e tiver que fazer uma de suas cinco orações diárias durante o vôo. Afinal, no islamismo, as preces tem que ser feitas ajoelhando-se sempre em direção à Meca… que é o que o mapinha indicava! (Ka’aba é o nome da pedra sagrada da religião islâmica, que fica em Meca).

Depois de pousar em Guarulhos e despachar as malas todas de novo, embarcamos para o trecho final da viagem (o vôo de São Paulo pra Belo Horizonte). Voamos num Fokker 100 (leia-se “fucker cem”), cheio de crianças fazendo bagunça, gritando e chorando. Completando a orgia sonora, tinha também um cachorro latindo. É sério…

No final das contas chegamos em casa na madrugada do domingo, perfazendo um total de quase 14 horas viajando. Mas foi muito bom e eu quero repetir a dose ano que vem de qualquer jeito…

P.s.: Notaram que este post ficou enorme? Pois é, quase uma semana pra escrever tudo, revisar, cortar as fotos, etcetera, etcetera… E ainda faltam as histórias que eu mais quero contar: as do esqui… tombos (e vídeos) incluídos… aguardem…

P.p.s: Esqueci de mencionar no post anterior que quem descobriu a pronúncia certa de “alfajores”, na Argentina, foi Bethania…

Por sinal, hoje já fizemos um mês de casados (woo hoo!). O chato é que estou em São Paulo e ela em BH, então a comemoração vai ser só no fim-de-semana…

A Lua-de-mel do Primo

Parte 1: Argentina

(Sim, este é o mega-post… vai sair em três partes mesmo, pra vocês sossegarem, caros leitores…)

E foi assim: no sábado, às oito da noite, eu casei…


Eu e a Sra. Primo na entrada da “cerimônia”… (foto by Bigode)

O casamento foi surpreendentemente divertido. Digo “surpreendentemente” porque eu achei que fosse ficar nervoso ou estar cansado demais pra aproveitar, mas no fim das contas eu curti como nunca cada segundo da coisa toda. Eu achava que era exagero quando as pessoas que se casavam saíam dizendo depois que foi “o dia mais feliz da minha vida”. Não é exagero não…

Mas como tudo que é bom passa rápido, no domingo, às seis e meia da manhã, eu já estava dentro de um avião a caminho de Buenos Aires. Noite de núpcias? Bem, o máximo que eu tive foi duas horas de sono, sozinho, no sofá da casa dos nossos padrinhos de casamento (o André e a Ju), que foram conosco na lua-de-mel. Quando eu conto isso pros outros ninguém acredita que eu tive uma lua-de-mel “compartilhada”. Mas foi mó legal…

(Sim, sim, apesar de viajar juntos ficamos em quartos separados. Podem parar de pensar bobagem…)

Vamos ao que interessa, que é o primeiro destino da viagem… Buenos Aires!


Avenida 9 de Julho em Buenos Aires: a mais larga do mundo e a principal da cidade

“Centrão” de Bs. As… ugh!

A programação era passar quatro dias em Buenos Aires, conhecer a cidade, fazer umas comprinhas, e depois ir pro Chile esquiar até as pernas caírem.

Deu pra entender claramente porque Buenos Aires virou um destino predileto para brasileiros: é perto, é barato (o peso argentino tava valendo uns 25% a menos que o real) e é bonito. Os bairros chiques da cidade são realmente chiques. Só que, como eu contei, a agência de turismo botou a gente no centrão da cidade, num hotel velho, sujo e feio. Mas o pior mesmo foi conseguir falar com o cara da agência de viagens (Ibiza Turismo) via MSN e ouvir dele a seguinte frase:

– Mas foi como eu te falei… a maioria dos hoteis de Buenos Aires sao sujos e velhos….

Pois é: se você for pra lá, hospede-se em Puerto Madero ou na Recoleta, e corra dos hotéis do centro. Olha aí embaixo a “vista” da janela do nosso quarto…


Você bota a cabeça pra fora da janela, olha pra baixo, e vê essa linda cena…

Mas como não deu pra fazer muita coisa, o jeito foi “abstrair” e ir conhecer a cidade. No dia seguinte teve o “city tour” básico, que foi bem engraçado por causa da guia. Ela narrava tudo em espanhol, misturava umas palavras em português, e depois falava em inglês.

A tradução dela pro inglês não era exatamente fiel… se, por exemplo, ela descrevesse um dos prédios assim:

– Na direita temos o Grande Teatro Colón. Ele é um dos maiores da América Latina e foi construído em mil novecentos e blá blá blá. Ele tem capacidade pra xizentas pessoas, etc, etc…

A versão em inglês era meio “redux”, assim:

– In the “rrraight”, we have the Great Colón Theater. It is a very beautiful theater.

O city tour serviu mesmo foi pra dar uma idéia do que valia a pena na cidade para visitar depois. Também serviu pra ter uma idéia das atrações “não-oficiais”: A que eu mais gostei foram as pichações. A esmagadora maioria das pichações na Argentina são de cunho político, como essa abaixo:


Pichado num prédio do mesmo quarteirão da Casa Rosada, onde o Kirchner trabalha…

Segundo nossa guia, os argentinos são um povo bastante “piqueteiro”: toda semana, na sexta-feira (dia “estabelecido” para os protestos), sempre tem uma pá de gente fazendo barulho em frente à Casa Rosada. A coisa é tão séria que a praça em frente ao palácio tem barricadas permanentes e policiais o tempo todo. Eu até ouvi um caso de um amigo que foi à Buenos Aires e não conseguiu conhecer a Casa Rosada por causa dos protestos.

Outro lugar interessante da cidade é a região da Boca, onde (obviamente) fica o estádio do Boca Juniors. A Boca era um bairro de imigrantes, hoje abriga artistas e músicos. Tanto que uma das atrações turísticas de lá é a rua chamada “Caminito Tango”.


Eu, Bethania e Ju passando pelo Caminito… (foto by André)

Nossa rotina em Buenos Aires foi basicamente essa: passear, comer, comprar coisinhas. Teve até um tour de compras: as meninas fizeram a festa com as roupas de inverno e os couros, que tem em toda esquina. Deu também pra visitar (rapidamente) alguns museus, uma igreja e também o cemitério dos VIPs argentinos, com mausoléus enooormes, onde inclusive estão os restos mortais de Evita Perón. O cemitério é tão grande que tivemos que fotografar o mapa que tinha na porta, pra poder armazená-lo na câmera digital e poder consultá-lo enquanto caminhávamos…


Pôr-do-sol em Porto Madero (esq.) e detalhe da tumba da Evita (dir.)

Come-se muito bem em Buenos Aires. Nós comemos “bem” e “muito”, por sinal. Todos os meus quilos perdidos do “fitness lua-de-mel” voltaram rapidinho. Culpa da famosa carne argentina… Um dos nossos jantares foi numa “parrilla” de nome peculiar: Siga la vaca. Tinha tudo que é variedade de carne na grelha, e tudo à vontade, sem balança e tal. Só não consegui foi saber o nome das coisas que comi, afinal tava tudo em espanhol…


¡Ela se fué por ali! ¡No, por acá! (Foto by André)

Além da carne, outra coisa famosa da culinária portenha são os alfajores. Recebemos um monte de recomendações para não sair de lá sem experimentá-los. Só que quando entrávamos numa loja e perguntávamos por “alfajores”, os caras faziam uma cara de “que diabo é isso??”. Até que alguém teve a brilhante idéia de mudar a pronúncia:

– Por favor… “alfarrhores”?

Então todo mundo passou a entender do que estávamos falando… aparentemente, “Alfajores” e “Alfarrhores” são como Clark Kent e Super-Homem: São praticamente idênticos mas se você muda uma coisinha, ninguém reconhece um do outro.


“Alfarrhores” com café (1), comprinhas de roupas de couro (2) e detalhe de um profiterole de sobremesa (3)…

Outro destaque da viagem foi o show de tango de uma das noites. Antes de viajar, ouvi um conselho de um dos meus colegas consultores:

– Não deixe de ir no Señor Tango!

Eu quase ignorei o conselho achando que era só uma bobeira pra turista. Fui surpreendido pelo melhor jantar da viagem e por um show que, apesar de não ser de tango “autêntico” e obviamente ser direcionado aos turistas, foi de cair o queixo. A orquestra era excelente, as dançarinas eram muito habilidosas, bonitas (hehe) e pareciam de borracha. Elas faziam coisas inacreditáveis, do tipo passar a perna invertida pelas costas do bailarino e coçar atrás da orelha dele com a ponta do sapato. Não entendeu? Nem eu. Mas que elas faziam, faziam.

O show teve também outras atrações menos “tanguinescas”, como uns teatrinhos dos antigos colonizadores versus os índios nativos (com direito a cavalo no palco e tudo), um show de flauta peruana (?!?) e o encerramento, com todo mundo no palco cantando “Don’t cry for me Argentina” enquanto rolos de pano azul e branco caíam do teto em meio a uma chuva de papel picado…

Pena que fotos eram proibidas e só consegui tirar essa aqui, do palco vazio:


Foi aqui que rolou a parada toda

Do ponto de vista musical, eu fiquei especialmente surpreso com a expressividade do principal instrumento do tango: o bandoneón. Meus caros, eu só digo pra vocês uma coisa… vocês nunca ouviram tango de verdade até ouvirem o arfar de um bandoneón ao vivo. É fabuloso, e imperdível para os fãs de música…

Falando em música, no último dia em Buenos Aires a gente parou pra tomar um café. Papo vai, papo vem, eu reconheci a música-ambiente da cafeteria. Era algo que eu já tinha ouvido no meio de um dos sets de chill-out do DF Tram. Até aí nada de mais, não fosse o fato de que estava tocando tango eletrônico, mais especificamente Bajofondo Tango Club. Até trouxe um CD (excelente!) deles de lá…

Logo depois do show de tango era hora de gastar mais dinheiro… mas dessa vez com a possibilidade de ganhar algum de volta, no Cassino de Buenos Aires!


O Cassino “ancorado” em Porto Madero

Este cassino só funciona na cidade graças a uma “gambiarra” jurídica: a lei portenha não permite cassinos na cidade, mas como esse aí funciona num barco, ele teoricamente não está “em terra” e pode funcionar livremente. Contrariando a famosa regra de que “a casa sempre ganha”, Bethania quintuplicou o dinheiro que jogou nas slot machines. O meu desempenho foi mais modesto, e consegui sair com o dobro do que joguei. Pois é… se aquele papo de “sorte no jogo, azar no amor” for verdade, meu casamento está correndo um sério risco!

Mas os quatro dias passaram voando… e logo estávamos zarpando rumo ao Chile! Aguardem a parte 2…