Posts de outubro de 2006


O Primo em Borderline City

18 de outubro de 2006, 11:01

Sim, é verdade. Além de Windturn City, meu novo projeto inclui atividades em outra cidade interiorana, que chamarei de Borderline City, porque fica bem na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo.

Pra chegar em Borderline City a maratona é mais ou menos a mesma de Windturn City: uma hora de avião e mais duas horas e meia de carro. O legal é que o trecho de avião termina em Varginha (onde fica o aeroporto mais próximo de Borderline City). Varginha é um lugar peculiar, famoso por histórias de extraterrestres. E o mais legal ainda é que o avião que voa pra lá é uma Brasília.

Sim, um Embraer EMB-120 “Brasília”. Esse aqui, ó:

Ele pertence a uma empresa aérea minúscula e recém-chegada no mercado, chamada Air Minas. O “Brasília” comporta 30 passageiros e voa até direitinho. Mas faz um barulho infernal…


A cabine do Brasília (esq.) e a hélice dobrada (“defeito” especial causado pela má qualidade da câmera do celular).

Pra experiência ficar ainda mais bizarra, a aeromoça sorteou um “brinde” durante o vôo, e quem ganhou, obviamente, fui eu. Digo “obviamente” porque tinham só TRÊS pessoas no avião. O brinde estava devidamente empacotado num dos saquinhos de vômito, e era isso aí embaixo:


Sim, é um porta-lápis tosco, de cerâmica, em forma de caminhãozinho

Pra ficar ainda mais bizarro, depois que fizemos uma escala em Divinópolis, a aeromoça sorteou mais um caminhão-brinde, e quem ganhou foi o Michael Jackson…

O esquema aqui em B.C. é igual o de W.C.: a gente fica hospedado dentro da empresa, num quartinho simples e com a mesma decoração original de 1940. Mas o quarto é limpo e o colchão é bom, então não tenho do que reclamar. E de vez em quando a gente trabalha em locais um tanto quanto… incomuns.


Minha workstation e a platéia invisível

À noite, pra conseguir jantar, eu e Michael tivemos que pegar um ônibus até o centro da cidade, onde jantamos num restaurante que fica do lado de uma sorveteria que se chama “Uaice Cream” (fico devendo essa foto). Na volta, como estava tarde, entramos num táxi. Senti falta de uma coisa e resolvi perguntar o taxista:

- Ué… cadê o taxímetro?
- Uai, aqui num tem isso não, moço…
- Como assim?
- A gente já pediu mas a prefeitura diz que num precisa, que a cidade não comporta…

E pela primeira vez eu paguei um táxi via tabelinha. Deu dez reais a corrida…

No final do segundo dia de trabalho eu deixei Michael por lá e me meti num ônibus rumo à São Paulo. Foram quatro horas e meia de viagem, meu personal longest viagem-de-ônibus-a-trabalho record. Felizmente, eu estava bem preparado: o iPod estava com a bateria cheinha e abastecido com mais de 2 GB de episódios da segunda temporada de The Office. Nem vi o tempo passar…


Dia desses, em Ipoema…

15 de outubro de 2006, 23:28
“Um lugar, no entanto, bastante prosaico
que você pode guardar numa casca de noz
ou debaixo da sola do seu sapato”

(Fellini, em Alcatraz Song)

Velhinho randômico vendo o movimento (?) na praça

Pois é, fim-de-semana desses aí pra trás eu viajei para acompanhar Bethania e o Congá, o grupo de dança folclórica (!!) do qual ela faz parte. Eles iriam se apresentar em Ipoema, interior de Minas Gerais, numa tal “festa do tropeiro”.

Ipoema é um buraquinho perdido em algum ponto da Estrada Real, visitável após duas horas de carro e algumas estradas de terra. A festa do tropeiro foi no Museu do Tropeiro, com shows variados e comida típica – que incluía, obviamente, feijão tropeiro.

A história toda tinha a receita para se tornar um ótimo programa de índio, porque Bethania estaria ocupada preparando-se pra apresentação e eu ia passar horas solto, sozinho, no meio da festa, cujas atrações incluiam o “ritual de acendimento da fogueira” (um cara botando fogo num punhado de lenha – e só), o “ritual dos chicotes” (três velhinhos chicoteando o chão – e só), bandas tocando forró (ugh!) e outras coisas emocionantes. A solução pra isso era simples: máquina fotográfica e muitas pilhas.


Tiozinho mandando ver no ritual dos chicotes. Ao fundo, a “fogueira ritual”…

Enquanto o Congá não subia no palco eu fiquei me divertindo com a minha experiência fotográfica antropológica, tirando fotos e vendo qual era a do pessoal. Na festa tinha um grupo de cavalgada que havia viajado, a cavalo (não diga!), da Serra do Cipó até Ipoema para participar da festa. Era um grupo grande, animado e formado apenas por homens. No meio da festa, dois deles subiram ao palco e declamaram poesias sobre as cavalgadas e o companheirismo dos amigos. Eu achei tudo aquilo muito gay.


Detalhe do líder do grupo de cavalgadas. Todo mundo tinha o nome bordado na roupa, por sinal.

E as atrações da festa continuavam em ritmo alucinante: depois das poesias, teve um número de “tocação” de berrante e uma apresentação especial do grupo das lavadeiras da cidade. Sim, lavadeiras, com bacia e tudo.

Eu curti muito o show das lavadeiras. Não pelo show em si, mas por ser uma coisa que envolve gente carente com arte e música. E além do mais os velhinhos que tocavam violão e acordeon para elas eram muito fotogênicos.

Logo depois veio o Congá e mandou ver. A apresentação foi um sucesso, mesmo porque eles tinham o público perfeito para o tipo de apresentação que fazem. O pessoal ficou bastante animado. Os caras da cavalgada, então, ficaram embasbacados com a beleza da… bem, das dançarinas. Ficaram o tempo todo dizendo: “Lindas! Lindas!”…

Pra esquentar ainda mais a coisa, o líder do grupo começou a pegar gente da platéia e colocar em cima do palco. Foi uma muvuca danada, os caras da cavalgada aproveitaram pra tentar passar umas cantadas nas meninas, mas no fim a coisa toda foi um sucesso.

Consequentemente, meu dedo indicador trabalhou como louco e tirei nada menos que sessenta e oito fotos dos pouco mais de vinte minutos de apresentação…


Um dia de aniversário na vida d’O Primo

11 de outubro de 2006, 8:51

Dez de outubro é o único dia do ano que coincide com o meu nascimento. Aparentemente isso faz de mim uma pessoa especial e todos me mandam emails, scraps, mensagens e telefonemas no celular pra dar parabéns. É bem legal. Já aconteceu vinte e oito vezes, por sinal.

Dessa vez eu passei o aniversário no Rio de Janeiro, trabalhando num bairro chamado Caju. Pelo nome o bairro deveria ser tropical, doce, sei lá. Na verdade é um bairro industrial, feio, sujo e altamente violento. Um dos chefes da fábrica, por sinal, fez questão de nos mostrar a “coleção” de buracos de bala perdida nas paredes. E o expediente termina às cinco porque, depois disso, é meio perigoso entrar no carro e voltar pra casa.

Apesar de tudo o evento mais emocionante do meu dia foi quando eu conheci uma linha de produção de placas de circuito impresso. O processo é curioso: numa das fases a placa é, literalmente, assada num forno para que a solda derreta e prenda os microchips e demais componentes. Fora isso, eu passei o resto do dia debaixo de um ar condicionado, participando de reunião atrás de reunião.

No fim do dia voltamos pro hotel. Michael Jackson, o trainee (hehe), foi pra academia e eu acabei assistindo um filme espanhol chamado Mar Adentro. É sobre um cara tetraplégico que luta na justiça pelo direito de se suicidar. “Nada mais apropriado para um aniversário”, você deve estar pensando… mas acontece que o filme é simplesmente lindo.

Depois, eu e Michael fomos jantar. Como era uma data especial eu caprichei no prato e comi um BBB (belo Baby Beef) na manteiga de ervas com salada verde e arroz. E, de sobremesa, para acabar de entupir as coronárias, um pedaço muito bem servido de torta de limão. Depois, fui dormir.

Ano que vem tem mais…


E aí, o que tá rolando?

9 de outubro de 2006, 20:08

O Primo – Numa lan-house sempre longe de você (neste caso no Rio).

Eu achei que ia ter internetcha só pra mim quando estivesse em qualquer outro lugar diferente de Windturn City. Ah tá.

Essa aqui custa R$ 5 por hora e é num micro fudido com um teclado que, se eu digitar muito rápido, ele inverte o que eu digitei porque não consegue processar as teclas rapidamente. Juro.

E tem um pernilongo me chupando todo. Na batata da perna.

Sexta-feira, antes de pousar, o piloto do avião aparece no alto-falante:

“Senhores passageiros, já iniciamos nosso procedimento de descida e dentro de instantes vamos pousar no Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Gostaria de agradecer por terem escolhido a Tam e deixar uma mensagem para vocês: A vida deve ser aproveitada a cada instante, como se fosse o último, e vivida com toda a intensidade e emoção. Além disso…”

E continuou lendo o que parecia ser um texto de auto-ajuda, daqueles estilo “acredite em você e seja feliz apesar de tudo”. Pela primeira vez em anos eu senti medo no avião…

(Ah, e a Fernanda Takai estava no mesmo vôo, veja você).

Hoje, na linha vermelha, de dentro do táxi, eu vi uma pichação genial num dos prédios semi-destruídos do centro da cidade. Dizia assim:

“O que você faria se não tivesse medo?”

Maldito pernilongo!!!

O fim de semana merece um post daqueles, com foto e tudo o mais. Fui com Bethania e o grupo de dança folclórica dela (!!?!) para uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, chamada Ipoema. O pessoal foi fazer uma apresentação e eu, que sou o fotógrafo não-oficial do grupo, fui atrás.

Só que faltam 15 minutos pro tempo da lan-house acabar, aí num dá.

O consultor-líder me mandou um email hoje, dizendo: “Queria saber como está o projeto. Amanhã à noite você vai estar no hotel?”.

Amanhã é meu aniversário.


MMS

9 de outubro de 2006, 6:33

Tem quase dois meses que eu me casei e a experiencia toda, até agora, tem sido excelente.

So teve uma coisa que ficou muito pior: acordar cedo na segunda-feira e ir pro aeroporto…


Mais do que 1000 palavras

5 de outubro de 2006, 22:11

A crítica do disco Shine On, da banda Jet, que está no pitchfork.com, é a melhor crítica que eu já li (?) até hoje…

(Via Fazed. Pode ser considerado ofensivo para os leitores mais, hã, sensíveis)


Windturn City – Êta vidinha besta…

5 de outubro de 2006, 15:21

Segunda-feira eu bati meu “personal levantar cedo pra viajar record”: quatro e quinze da manhã. Ao mesmo tempo, bati meu “personal chegar tarde no trabalho record”: dez e quinze da manhã.

Como, meus caros leitores, eu conseguiria bater estes dois recordes tão diametralmente opostos? O motivo só podia ser um: Windturn City

A novidade é que dessa vez eu viajei acompanhado do trainee da equipe, que chamarei de… hmm, antes do pseudônimo, a história: na terça à noite, quando jantávamos na pizzaria da cidade (sim, Winturn City tem UMA pizzaria!), a gente tava batendo papo e eu estava incomodado com algo familiar no rosto dele… até que, de repente, veio a luz:

“Michael Jackson”.

O cara é igualzinho o Michael Jackson na sua versão “branquela” atual. Obviamente, o trainee é mais “coradinho” e o nariz dele é perfeitamente normal. E a pizza que ele estava comendo não era sabor criancinha. Piadas à parte, Michael é gente boa e mostrou um bom entrosamento com o trabalho nestes primeiros dias. Mas o mais importante é que ele ronca pouco.

Outra novidade da semana é que não ficamos trabalhando na casa das sete mulheres, junto com a diretoria. O trabalho, dessa vez, foi dentro da fábrica. Nosso trabalho em Windturn City é botar nos eixos os projetos da empresa-cliente, que produz, entre outras coisas, explosivos. Consultoria é isso aí: ou você trabalha direito ou, além de levar esporro do cliente, corre o risco de virar paçoquinha…

Falando assim até parece que meus últimos três dias foram só emoção. Que nada… séries e séries de reuniões tranquilas com os gerentes, regadas a cafezinho, PowerPoint e uma bucólica vista da varanda da sala de reunião. Sim, varanda e sala de reunião na mesma frase, veja só…

O trabalho rende bastante em Windturn City, devido ao fato da cidade estar localizada num vórtice espaço-temporal que faz com que o tempo passe num ritmo aproximadamente 30% mais lento que o normal, conforme medido por cientistas (no caso, eu).

A vida na fábrica é bem rotineira: A gente ficava trabalhando até a hora que a sirene (!!) tocava, anunciando a hora do almoço, e depois saía junto com o resto dos funcionários – de capacete e tudo – pro refeitório da fábrica. O capacete é importante: ninguém anda por nenhuma área a céu aberto sem usá-lo. Eu, sinceramente, não sei como ele vai ajudar a me proteger se algumas toneladas de TNT resolverem explodir na minha cara, mas fazer o quê…

Uma hora depois a sirene toca de novo, mandando todo mundo de volta ao trabalho, e só volta a soar às cinco da tarde, quando o expediente termina e todo mundo volta pra casa. Ver o fim do expediente na fábrica é algo, assim… bucólico também. Dezenas de funcionários, muitos deles mais velhos e com aquela cara de desgastados pela vida, saindo pelo grande portão da fábrica, ainda com o capacete na cabeça, o crachá segurando-se pra não cair da gola da camisa pólo toda surrada… Muitos, inclusive, vão pra casa de bicicleta. Fazia tempos que eu não me lembrava de marcas como Monark e Barraforte…

Aí, de noite, é hora de eu e Michael Jackson deixamos nossas coisas no “hotel” (na verdade uma antiga hospedaria que fica dentro da empresa) e sairmos em uma missão impossível: jantar em Windturn City. Notamos que a cidade possui uma espécie de “ponto focal” que concentra todas as (três) coisas que ficam abertas durante a noite: Estas três coisas são a pizzaria (que não abre às segundas) e dois trailers de sanduíche, chamados “Chega Mais” e “Xique no Úrtimo”. E o ponto focal é o sinal de trânsito, o único da cidade. Segundo o motorista que nos buscou no aeroporto, o sinal de trânsito é apenas “didático”: serve só pra que os nativos treinem o que fazer quando estiverem de carro em cidades maiores…

É sério, Windturn City é tão pequena, mas tão pequena, que na segunda-feira, após ter completado apenas cinco dias na cidade, eu cumprimentei um conhecido na rua. Era o garçom do refeitório da empresa. E ele ainda me zoou: “Olha lá hein! Cuidado pra não se perder na cidade”… Sim, Windturn City é TÃO pequena que a pizzaria nem cobra o delivery, porque, segundo o garçom, “é tudo muito pertinho”…

Mas voltando ao jantar, eu e Michael, além da pizzaria, experimentamos o “Chega Mais”. O sanduíche do “Chega Mais” era tão gorduroso, mas tão gorduroso, que eu só conseguí comê-lo até a metade. O resto eu deixei no chão pra que um dos vira-latas que passavam pudesse comer. Aí o cão olhou a comida, cheirou, depois saiu com uma cara de “hmm, melhor não, isso tem muita gordura trans”…

E foi isso: Na quarta à tarde eu deixei Michael Jackson sozinho, já que o resto da semana eu vou passar na capital paulista. Se tudo der certo com a minha agenda, eu só vou voltar a WTC daqui a duas semanas. Uma pena: até lá minhas reuniões não vão ser mais em salas com varanda…