(Tudo comprado no eMusic. Barato, sem DRM, sem olho de vidro e sem perna de pau)
Quando eu penso no futuro do meu gosto musical, à s vezes eu fico com medo. A cada dia que passa eu me distancio mais e mais do vocal, da guitarra, da música de estrutura “comum”, e exploro cada vez mais uma terra estranha, sem ritmo, coberta de barulho, chiados e blips desconexos… e acho tudo maravilhoso.
Radian – Juxtaposition
Tudo começou com o Tortoise. Aà eu passei pelo The Sea and Cake, pelo Trans Am, pelo Oval, pelo Microstoria… e aà ficou bem claro que a Thrill Jockey tinha muito a ver com meu gosto musical esquisito.
Em termos de sonoridade, Radian, portanto, tem “a cara” da Thrill Jockey. Juxtaposition soa incomum, jazzÃstico, inovador. Camadas de ruÃdo, guitarras profundamente processadas e glitches eletrônicos são colados sobre linhas de percussão, e o resultado final são faixas onde a expressão não está nos sons produzidos, e sim na forma em que eles soam depois de produzidos, no efeito que eles causam, na forma como eles interagem um com o outro. Isso tem um efeito curioso: o resultado sonoro é tão vivo que é difÃcil perceber que à s vezes, sim, tem uma banda, com instrumentos, tocando ali. A criatura acaba se tornando muito mais poderosa que seus criadores…
Bons fones de ouvido e bastante atenção são absolutamente necessários para ouvir este disco.
Belong – October Language
“Soa como enrolar-se em um cobertor quentinho feito de barulho”, dizia um dos reviews do eMusic. Eu li isso e comprei o disco na mesma hora, porque sabia exatamente o que ele queria dizer – e é isso que me assusta à s vezes.
Belong trilha os caminhos de Fennesz e Kevin Shields, que experimentam com “paredes” sonoras construÃdas com o som de guitarras ligadas a uma penca de distorções, reverbs e por aà vai. O efeito é uma magnÃfica onda de ruÃdo, que se contorce e se transforma a cada acorde diferente. Só que no meio daquela quantidade absurda de barulho existe uma melodia, suave, e é como se, no meio do desespero provocado pelo barulho, surgisse um lugar seguro, confortável. Exatamente como o “cobertor quentinho” que o cara falou.
A genialidade deste disco é justamente essa: a capacidade de construir beleza magnÃfica através do caos sonoro, da agressividade, do ruido. October Language ainda acrescenta uma gama diferente de elementos sonoros e timbres para as músicas, como que para garantir que o disco vai ficar interessante por todos os seus 45 minutos. Nem precisava.
Você já deve ter desconfiado mas não custa lembrar: October Language é pra ser ouvido bem alto, ou com bons fones de ouvido.
Of Montreal – The Sunlandic Twins
The Sunlandic Twins estava há muito tempo na minha listinha de “discos para comprar depois”, no eMusic. Toda vez que eu revisava a listinha, aquela capa com os gêmeos de mãos dadas no jardim psicodélico parecia cada vez mais convidativa.
The Sunlandic Twins é um pop-rock construÃdo com precisão. As faixas são “pra cima”, agradáveis e tem uma solidez melódica a la Beatles, mas atualizada para o século 21 com uma ou outra pitada de eletrônicos. Na verdade, o som da banda (principalmente os vocais) soa muito parecido com os Beatles.
E precisamente por causa disso tudo é que eu tive problemas sérios pra ouvir este disco.
Não que ele seja ruim, muito pelo contrário. Ele é excelente. Acho até que a maioria dos leitores deste blog iria gostar muito de The Sunlandic Twins e detestaria o October Language e o Juxtaposition. Bethania, por exemplo, vai adorar esse disco. O problema, pra mim, é que ele representa exatamente o “convencional reinventado” do qual eu tenho desesperadamente tentado fugir. Além do mais, eu detesto Beatles, então tem uma barreira psicológica que eu preciso vencer primeiro antes de conseguir apreciar o disco…