O mundo dos gamers surdos

Há algum tempo atrás Bethania me deu de presente a expansão do Doom 3, chamada “Resurrection of Evil”. Só recentemente eu tive tempo de instalá-la pra jogar, e ainda tive um contratempo: eu precisava do Doom 3 completo pra conseguir instalar a expansão. Acabei recorrendo ao Capitão Gancho e baixei uma cópia pir… digo, de legalidade questionável, via Bit Torrent.

Acontece que a cópia que baixei estava em italiano. Enquanto fuçava na net pra descobrir como mudar o idioma do jogo, esbarrei em um link muito interessante: Doom 3 [cc], um mod, feito para deficientes auditivos, que adiciona closed caption no jogo.

Pra quem não sabe o termo mod vem do inglês “modification”. Mods são programas que modificam ou acrescentam funcionalidades no jogo original, como novas armas, mapas, etc. Mas até então eu nunca havia visto um que tivesse finalidade tão altruísta…

Este mod nasceu de um post de um cara, nos fóruns do PlanetDoom, onde ele comentava porque diabos a Id Software não teve a decência de adicionar closed caption ao jogo. É que ele tinha um amigo com deficiência auditiva que sofria pra jogar Doom 3, já que grande parte da jogabilidade depende do som (exemplo: códigos dos armários de munição aparecem nas gravações de áudio dos PDAs que você acha no jogo).

As respostas que ele obteve do resto dos frequentadores do fórum foram de lascar:

“Seu amigo devia ir jogar Tetris”

“Nem tem tanto diálogo assim. Você esperava o quê?”

“Este é um dos posts mais idiotas que já li. Esse tipo de jogo não é para deficientes auditivos. Sabe por quê? Porque daria em legendas do tipo “demônio grunhindo atrás de você”, “ruído de bola de fogo vindo da esquerda”, “balas passando zunindo pelo seu ouvido”. Ia ser muito idiota. Resumindo: JOGOS DE TIRO EM PRIMEIRA PESSOA NÃO SÃO PARA SURDOS. Caso encerrado. Como é que um surdo conseguiria jogar algum jogo desse tipo? Vê se cresce e pára de bancar o bebê chorão”

Felizmente, além desses babacas aí, também apareceram várias pessoas se dispondo a ajudar. Hoje vários jogos possuem mods de closed caption, e uma pequena comunidade já começa a se formar para garantir acessibilidade para jogadores com necessidades especiais.

Mas o mod para o Doom 3 é muito legal. Além das legendas normais, que descrevem os diálogos, há legendas para o som ambiente, barulhos de pegadas, de portas abrindo e, obviamente, dos inimigos. Além disso, há um pequeno “radar” no canto da tela que mostra de onde estão vindo os sons – o que permite que o jogador, mesmo surdo, saiba que o personagem “ouviu”, por exemplo, um grunhido do lado esquerdo, alguns metros adiante. Este vídeo mostra como fica o jogo com as legendas.

Além do mod, os caras ainda foram gentis o suficiente para escreveram elaboradas transcrições do jogo, em documentos ilustrados contendo o timeline da história e todos os diálogos de todos os personagens.

Pavlov – Um Artista de Vanguarda (parte 2)

Parte um aqui

O tempo traz consigo a maturidade para os jovens artistas. O ímpeto criativo, por vezes descontrolado, pouco a pouco vai ganhando forma e direção. Normalmente é nesta fase da carreira que os artistas produzem suas obras-primas.

Pavlov, artista precoce, não precisou dos favores do tempo e da maturidade para demonstrar direcionamento criativo, e surpreendeu mais uma vez ao produzir as obras da série intitulada “quinas”.


Quina 1
Plástico, terra, plantas, pedras decorativas – 2007
Acervo do artista

Em sua arte, continuam onipresentes o sentimento da fúria primal e da oralidade: Pavlov executa todos os seus trabalhos com a boca, nas madrugadas onde fica sozinho e livre em sua casa. Mas a novidade agora é o objeto do trabalho: as quinas. Quinas que, destruídas, tornam-se “ex-quinas”, e que ilustram o sentimento de estar à beira de algo, à margem, até mesmo encurralado.


Quina 2
Madeira, metal e plástico – 2007
Acervo do artista

As obras da série “quinas” também fazem uma brincadeira com a sua crescente popularidade no mercado da arte. O release publicado no mês passado foi um dos posts mais populares de todos os tempos – bateu o recorde de comentários, por sinal -, mas ainda assim Pavlov se coloca à beira das suas obras, compostas basicamente por grandes móveis, adulterados em apenas uma de suas beiradas. Esta também é uma referência ao poder de sua arte: com simples mordidas, alterações aparentemente insignificantes quando se considera a dimensão do objeto adulterado, Pavlov praticamente os inutiliza e os despe de sua função estética original, depreciando profundamente seu valor – causando assim um impacto e horror profundos em quem os encontra semidestruídos.

Este horror provocou uma reação interessante em Bethania Duarte, a responsável pela curadoria de suas obras: tomada de um sentimento de repulsa pela destruição do móvel usado em “Quina 2”, Bethania cobriu a beirada semidestruída do móvel com pimenta, para impedir que Pavlov concluísse sua obra. No dia seguinte, o móvel continuou sendo trabalhado: Pavlov adorou o sabor da pimenta.

Esta é, sem dúvida, a marca inegável de seu gênio.

O Primo em Floripa

20070223
Ponte Hercílio Luz, cartão-postal da cidade

Esse carnaval foi bom. Quatro dias em Florianópolis. Eu realmente estava precisando.

Além do céu, do sol e do mar, os destaques do carnaval foram:

A primeira praia que visitamos, além de muito céu, sol e mar, tinha também… muitos gays. Bethania foi caminhar na praia e voltou contando que ouviu um deles pedindo ajuda ao companheiro para escalar umas pedras:

– Aiii, me ajuda que eu não sou Thundercats não…

Hora do almoço de sábado e eu doido pra ir ao banheiro pra, hã, fazer um download.

Entrei no banheiro do restaurante e não tinha papel. Tentei pegar um rolo emprestado no banheiro feminino, mas lá também não tinha papel.

Saí e fui ao restaurante vizinho. O banheiro masculino de lá estava interditado. Eu já estava quase vendo estrelas quando abri, apressadamente, a porta do banheiro feminino, portanto demorei um pouco a entender o que aquela bunda branca estava fazendo na minha frente. Concluí que tinha uma menina lá dentro e fechei a porta. Algum tempo depois ela saiu, resmungando alguma coisa em espanhol. Devia ser argentina: Floripa tem argentinos por todos os lados. Entrei no banheiro e desisti de usá-lo assim que olhei para a privada, que estava absolutamente, irrecuperavelmente nojenta. E além do mais a porta do banheiro não trancava (o que explica a bunda branca).

O intestino revirou um pouco mais. Como a necessidade é a mãe da invenção, a idéia veio rápido: peguei o rolo de papel higiênico, meti dentro da bermuda, saí do restaurante e fui usar o banheiro do restaurante vizinho…

Em tempo: o menu do restaurante era bilíngue. Em inglês, “frutos do mar” virou fruits of the sea

Além de argentinos e gays, Floripa tem também muitos engarrafamentos. Afinal, a cidade é uma ilha cujas praias são interligadas por uma estrada de pista simples. No carnaval, com a cidade cheia, a coisa ficou ainda pior. No sábado à noite fomos obrigados a esperar o tráfego diminuir pra conseguir voltar pra casa.

O lado bom disso é que ficamos matando tempo na praia onde fica o Costão do Santinho, o resort mais alto-nível-suuper-fashion do Brasil.

A praia que visitamos no domingo chamava-se Jurerê Internacional.

Casinha “humilde” de Jurerê Int’l

Jurerê, em tupi-guarani, deve significar “local de multimilionários tão luxuoso que nem parece Brasil”. É de cair o queixo: mansões na beira da praia, sem muros nem cercas elétricas em volta, carrões passando pela rua…

Para coroar a irrealidade de Jurerê Internacional, vimos um New Beetle com duas loiras de biquini, dançando de pé no teto solar. No som, tocava um funk cujo refrão dizia: “Favelaaaa… somos favelaaaa…”. Hein?

A segunda-feira de carnaval estava chuvosa; acabamos saindo de casa só pra almoçar. O local escolhido foi o Chef Fedoca, indicação de nossos anfitriões e do Guia Quatro Rodas.

Logo na entrada uma funcionária nos alertou que o restaurante estava cheio e que havia uma espera de uns 40 minutos por uma mesa. “Tudo bem, não estamos com pressa mesmo”, foi a nossa resposta.

Só conseguimos entrar depois de uma hora e meia. Mas valeu cada segundo de espera. A moqueca de peixe de lá está entre as melhores coisas que já comi na vida…

Fomos embora na terça-feira à tarde. Nosso roteiro era voar até o Rio e pegar uma conexão pra Beagá.

Bethania estava meio resfriada. O nariz entupido dela, somado com a alteração de pressão do vôo, fez com que ela pousasse no Rio chorando de dor de ouvido. Nenhuma das receitas usuais de equalizar a pressão do tímpano estava funcionando. Pedimos a um funcionário da Tam que nos ajudasse… e é aí que começa a melhor história de atendimento que já vi.

O despachante da Tam que nos atendeu começou retirando uma funcionária do check-in só pra acompanhar Bethania até o posto médico. O plantonista pingou um remédio para a dor e disse que, apesar da simplicidade do problema, era perigoso voar naquele estado, pois uma nova mudança de pressão podia provocar uma ruptura do tímpano. Para evitar problemas ele pediu que não continuássemos a viagem: era pra procurar um otorrino, dormir no Rio e viajar só no dia seguinte.

Glória, glória…

O despachante da Tam nos levou até a sala dele, remarcou nosso vôo e começou a procurar uma clínica com otorrino de plantão. Todos os outros funcionários que estavam na sala ajudavam, davam telefonemas, sugeriam lugares onde poderíamos achar alguma clínica aberta… basicamente, cumpriam na prática a frase do Comandante Rolim que estava pregada na parede e que dizia: “Aqui tudo é problema de todo mundo”. E no final o cara ainda nos deu uma noite de hospedagem no Hotel Glória – o da foto à direita – com jantar incluído, e vouchers para pagar nossas corridas de táxi. E a funcionária que acompanhava Bethania, aquela mesma que saiu do check-in pra nos ajudar, só largou de nós depois que nos colocou dentro do táxi. Foi um atendimento espetacular…

Acabou que o otorrino diagnosticou uma otite e proibiu Bethania de voar pelos próximos 10 dias. O jeito foi voltar de ônibus…

Update: O Leandro me lembrou, nos comentários, da famosa “sequência de camarão”, oferecida em quase todos os restaurantes. Acontece que eu sou alérgico a camarão…

Isso, no entanto, não me impediu de pensar em como seria uma “sequência” de camarão. Talvez duas patadas, um tapa com as barbichas e depois um golpe com a cauda? 4-hit combo?

Update 2: O André reclamou (com razão) que não dei uma “valorizada” nos nossos anfitriões, que são a Fátima e o Hélio. Eles são pais de amigos nossos que se mudaram pra lá, nos acolheram, mimaram, deram cama, comida (MUITO BOA comida) e tal. É que nem todo mundo gosta de ficar “aparecendo” na Internet, então resolvi pecar por omissão…

The Windturn City meeting saga

Parte um: A viagem

Terça-feira. Era dia de eu me enfiar num ônibus para fazer uma reunião importantíssima em Windturn City.

O ônibus saía às seis da tarde. Eu cheguei na rodoviária faltando cinco minutos para as seis.

Quatro minutos para as seis e eu ainda estava correndo, arrastando a mala e com mochila nas costas, para atravessar a plataforma da rodoviária, chegar até o guichê e comprar uma passagem. No meio do caminho eu passei pelo ônibus, de motor ligado, e com o motorista já se preparando pra sair. Medo.

Três minutos para as seis e eu estava furando a fila do guichê para comprar as passagens. Gritei pro balconista:

– Pelo amor de Deus, me vende uma passagem pro ônibus das seis!
– Compra direto com o motorista lá embaixo que é mais rápido – disse o balconista.

Beleza. Basicamente, eu corri até o guichê sem necessidade, gastando preciosos segundos.

Dois minutos para as seis e eu estava no portãozinho do início da rampa que ziguezagueia até o andar de baixo, aonde estava o meu ônibus. No portãozinho tinha uma roleta e um funcionário:

– A passagem, por favor.
– Eu vou comprar com o motorista, abre pra mim!
– Não, precisa ter a passagem…
– Mas eu vou comprar com o motorista!! Abre peloamordedeus, o ônibus tá saindo!!
– Não, tem que ir ali no guichê.
– Mas eu ACABEI de vir do guichê!
– Não, aquele guichê ali…

E apontou para um outro guichê de acesso à rampa que leva aos ônibus. Eu não entendi direito por causa da pressa, mas acho que era um guichê onde gente sem passagem – acompanhantes de passageiros – pagam uma taxa pra poder descer até a plataforma de embarque.

Faltava só um minuto para as seis. Tinha um velhinho na fila do guichê. Eu pulei NA FRENTE DELE e gritei pra atendente:

– Quanto é??
– R$ 1,25…

Enquanto eu pegava o dinheiro da carteira, o velhinho disse um “dá licença” meio azedo e passou na minha frente. Joguei uma nota de R$ 2 dentro do guichê e passei voando pela roleta.

Já eram seis horas quando comecei a descer a rampa. Olhei pra baixo e vi o motorista fechando a porta do ônibus. Era hora de medidas extremas. Abri mão do resto de dignidade que ainda tinha e comecei a assobiar e gritar para chamar a atenção do motorista. A parte do “chamar a atenção” funcionou, porque todo o resto das pessoas na rodoviária percebeu, deu uns gritinhos de “aee atrasado!” e tal. Mas o motorista não estava nem aí e começou a arrancar com o ônibus.

Depois de ziguezaguear a rampa toda eu finalmente consegui pular na frente do ônibus e acenar pro motorista. Só então ele abriu a porta e eu, felizmente, embarquei.

Era o ponto de partida daquela que seria a pior viagem de ônibus da minha carreira de consultoria.

Fisicamente a minha situação não era boa: eu estava saindo de uma intoxicação alimentar maluca, com diarréia, cólicas, febre de 39 graus e tudo. Pra dar uma idéia da gravidade da coisa basta mencionar duas coisas:

1) Eu passei a madrugada do sábado na enfermaria do hospital, tomando remédio na veia, e…
2) Durante a febre, meu cérebro começou a dar pau e eu cantarolava sem parar um trecho de uma música da Wanessa Camargo:

“Vou me arrepender de-poix
Mas eu não resisto a nóix doix… ooooh nããão…”

Na segunda eu já estava bem melhor, mas a tensão dos últimos dois dias (e todo meu tempo de bunda-na-cadeira) acabou virando uma dor horrível nas minhas costas. Imagine o que é ficar num ônibus, por quatro horas, com as costas doendo a cada sacolejada do balaio. Mesmo depois de chegar no hotel, mesmo deitado e imóvel, as costas continuavam doendo. Comecei a ter febre novamente. Era hora de medidas extremas.

Então rezei pra que a dor passasse. A prece funcionou. Recebi uma iluminação divina que me disse assim:

“Seu burro, lembra que tem uns comprimidos de Novalgina na sua mochila?”

Tomei um deles. Por volta de uma da manhã a dor DESAPARECEU. Foi uma delícia, foi como um orgasmo ao contrário.

Parte dois: A reunião

Às seis da manhã meu celular tocou Tommib, música do Squarepusher que está na trilha sonora do filme Encontros e Desencontros. É o toque que uso como despertador. Eu me senti um pouco Bob Harris mesmo, perdido num lugar estranho e sofrendo de jet bus lag.

Passamos a manhã toda nos preparando para a bendita reunião. Às duas da tarde, nosso consultor-líder subiu no palco e começou a apresentar o PowerPoint que me ocupou durante as últimas madrugadas.

Era o ponto de partida daquela que seria a reunião mais bizarra da minha carreira de consultoria.

A primeira bizarrice começou no slide número sete, que mostrava a previsão de gastos com os projetos para o ano de 2007. O presidente da empresa se levantou da cadeira e gritou:

– Eu NÃO CONCORDO com esses números!!

Todo mundo gelou, especialmente eu, que passei os últimos dias debruçado exatamente em cima daqueles números.

– Nós já enfiamos num-sei-quantos milhões nestes projetos no ano passado e vocês ainda dizem que precisam de mais?!?!?

Aí eu respirei aliviado. Na verdade ele não entendeu que os projetos atrasaram e que o dinheiro mostrado ali era pra concluir o planejamento de 2006. O vice-presidente tentou acalmá-lo e explicar o mal entendido, mas não adiantou. Ele estava furioso. A saliva se acumulava nos cantos da boca enquanto ele vociferava. Até que num determinado momento ele disse:

– Sabe por que isso está assim? Porque essa empresa não tem dono!!

Sim, é isso mesmo. O dono da empresa reclamando que a empresa não tinha dono. Ele reclamou mais algumas coisas e, para espanto geral, saiu da reunião e não voltou mais. Acho que este foi o momento mais “what the fuck” da minha carreira.

Aí o consultor-líder foi embora (tinha um vôo pra pegar) e o resto da reunião foi conduzida por mim. As minhas costas estavam doendo de novo, o pessoal questionava os números, todo mundo falava ao mesmo tempo. Foi um pandemônio. E no meio do caos Michael Jackson ainda me interrompia para fazer perguntas altamente significativas, do tipo: “quer que desligue o datashow?”…

No final o vice-presidente foi dizer algumas palavras e acabou dando uma palestra de 30 minutos. Foi assim:

Começou pedindo a todo mundo que tivesse “calma”
Contou que a mulher dele reclamou que ele anda dizendo muito palavrão. “É a minha válvula de escape para o stress”, disse ele.
Fez um ranking detalhado dos diretores mais “explosivos” da empresa: “Primeiro vem o fulano, sem dúvida. Esse é hours concours. Depois o ciclano”…
Comentou que estava louco pra ir fazer a caminhada noturna de sempre com o presidente, pra ouvir ele desabafar e tal.
Gastou alguns clichês motivacionais, dizendo coisas do tipo “vamos ganhar essa guerra”.
Encerrou dizendo: “Muita paz e muita felicidade para todos vocês!”

Foi uma coisa surreal. Mitológica, até. Mas não deu tempo de aproveitar o pós-reunião porque eu tinha que pegar um ônibus na cidade vizinha e voltar pro Rio. Tomei outra novalgina, entrei no táxi e tive outro orgasmo invertido enquanto a dor nas costas passava com o efeito do remédio.

O ônibus ia parar num daqueles postos de gasolina metidos a besta, com restaurantes, lojinhas e tal. Tudo que eu precisava fazer era comprar uma passagem e esquecer o sofrimento dos últimos dias. Aí fui até o guichê, abri minha carteira… e não tinha NENHUM REAL dentro dela.

– Moça… me diz que você aceita cheque, por favor…
– Não – respondeu ela, rindo.
– Então, por favor, me diz que tem um caixa eletrônico aqui perto…
– Tem um ali atrás…

Era um do Banco 24 Horas. Meti meu cartão nele e pensei: “só falta não estar funcionando”. Adivinha…

Felizmente, o gerente do restaurante foi extremamente legal comigo, passou R$ 50 no meu cartão de crédito e me deu o dinheiro. Comprei a passagem, entrei no ônibus e tive uma grata surpresa: ele era bem espaçoso, tinha cobertores, travesseiros e uma TV que passava filmes durante a viagem. Pensei que, finalmente, meu sofrimento havia acabado.

Aí o filme começou. Era Batman e Robin… dublado!

Seis meses

Ontem eu fiz seis meses de casado.

Às vezes eu encontro com amigos e eles me perguntam: “e aí, como vai a vida de casado?”. Eu sempre respondo que é ótimo, que eu estou adorando e que eu recomendo pra todo mundo. Mas isso é uma resposta muito incompleta.

No último sábado eu estava em casa com Bethania, e fomos tomar um banho. Digo “fomos” porque fomos juntos pra debaixo do chuveiro. Nós temos tomado muitos banhos juntos. Não por causa de sexo ou nada do tipo, mas porque é simplesmente bom passarmos tempo juntos. É bom conversar fiado, jogar água um no outro, inventar brincadeiras bobas – tipo ensaboar o outro na hora em que ele vai sair, de sacanagem, só pra ele ter que se enxaguar de novo.

Mas no banho de sábado eu estava febril e com os intestinos revirando, graças a alguma comida de Windturn City que provavelmente tinha salmonella entre os ingredientes. Bethania estava cuidando de mim com um zelo enorme: fez sopa, media minha temperatura de meia em meia hora, reclamava porque eu me sentava em frente ao computador em vez de repousar, e por último me botou no chuveiro para abaixar a febre. E estava lá comigo, conversando trivialidades.

Eu nunca me esqueci de uma conversa que tivemos logo que o namoro começou, há sete anos. A gente falava sobre como deveria ser um amor realmente intenso de uma pessoa pela outra, e acabamos concordando que, se esse amor fosse realmente vivo, não precisaria de flores e música lenta pra ser percebido. Ele apareceria em momentos completamente comuns do dia-a-dia, como quando um estivesse na cozinha e dissesse, por exemplo, “o açúcar acabou”. Como se todas as atitudes de um pelo outro fossem entremeadas por uma ternura tão forte que qualquer coisa feita ou dita iria querer dizer “eu te amo” nas entrelinhas.

E eu estava ali, tomando banho com a mesma namorada daquela conversa de sete anos atrás. E ela olhava pra mim e dizia coisas triviais, e eu entendia apenas “eu te amo, eu te amo”. Era exatamente a utopia de sete anos atrás se tornando uma experiência real, bem diante dos meus olhos.

Eu nunca havia me sentido tão feliz quanto naquele momento.

Eu queria que o mundo soubesse o tamanho do que eu estava sentindo, mas não cabia nenhuma palavra no sentimento. A única coisa que consegui fazer foi abraçá-la, em silêncio, pra responder que também a amava – profundamente, intensamente, completamente. E, como que para não sobrar nenhuma dúvida da realização da utopia, ela entendeu, me olhou e disse:

– Eu também.

Como fazer seu iTunes conversar com o teclado multimídia

Meu iPod foi a melhor coisa que comprei nos últimos 30 anos, exceto por um detalhe: ele me obrigou a usar o iTunes pra quase tudo.

O iTunes é até bom, mas tem uns bugs idiotas. Um deles é assim: se você tem um teclado multimídia, daqueles com teclas “play” e “pause”, elas só funcionam no iTunes se ele for o programa ativo no momento, o que mata a praticidade de um teclado desse tipo.

Achei a solução aqui. É só baixar um arquivo chamado mmkeys.dll (mirror aqui) e botar em c:\Arquivos de Programas\iTunes\Plug-Ins. Crie a pasta “Plug-Ins” (com hífen e tudo) se ela não existir. Se tudo der certo, o “play” e “pause” do seu teclado vão playzar e pausear o iTunes independentemente de qual programa você estiver usando.

O engraçado é que pouca gente sabe que o iTunes aceita plugins. Tem vários outros bons plugins neste link, por sinal.

A pobreza online do Brasil

Toda vida eu só acompanhei a movimentação da internet “internacional”. Pra mim, acompanhar a internet brasileira era perda de tempo, pois em termos de conteúdo novo ela era, simplesmente, patética.

Recentemente resolvi adicionar alguns sites brasileiros nos meus bookmarks de leitura diária, pra ver se alguma coisa tinha melhorado. Aí hoje eu entro no Rec6 (um dos muitos clones brasileiros do Digg) e dou uma olhada nos 10 headlines

Três são de conteúdo original. Uma notícia nacional, útil e inédita (pra mim) – e que, ironicamente, saiu do ar, um anúncio do Google Docs & Spreadsheets em português e um “comentário do editor” sobre uso de internet.

Vários outros são replicação de notícia do resto da internet. Nada contra isso: afinal, sites do tipo do Digg existem exatamente para replicar esse tipo de coisa. Acontece que apenas em um deles a notícia replicada vêm mesmo do Brasil. Ou melhor, quase, já que ele repete uma notícia que eu tinha visto na Folha de São Paulo sobre o blog da Wired. O resto dos “repasses de notícia” relatam um novo serviço de hosting da gringolândia, ataques nos DNSs da gringolândia (que eu já tinha visto no Slashdot) ou traduzem artigos dos sites de notícia americanos… Tem também este aqui, que é só uma reedição de um artigo em inglês (que é citado apropriadamente, com todos os créditos, etc).

Digo isso porque outros dois artigos (em destaque, lembre-se bem) são cópia descarada. Este aqui é plágio de um artigo em inglês que estava ontem entre os populares do del.icio.us. O autor simplesmente traduziu o texto e adicionou um parágrafo no fim. O post está como se fosse de autoria dele. Ele não botou nada entre aspas, não falou que está citando outro artigo, e por muito pouco ele não deixa de dar o link para o original. O outro é um artigo (hoje fora do ar) sobre a página inicial da Apple ao longo dos anos. O autor nem se preocupou em avisar que pegou as imagens de um cara do Flickr

Resumo: de dez links, três eram originais, quatro eram notícias do exterior, um era notícia “quase” brasileira e dois eram plágio. Acho que com isso dá pra vocês tirarem suas próprias conclusões…