Música brasileira – Diversidade, mistureba e… satanismo

20 de julho de 2007, 11:41

Esses dias o eMusic publicou uma “dozen” – lista temática com 12 discos – sobre música brasileira, feita por Peter Margasak, e batizada de The New Sound of Brazil.

A lista ficou interessante não pelos artistas que selecionou, mas por mostrar a visão que o pessoal de fora tem sobre a nossa música – que é o oposto do que eu esperava.

O texto introdutório diz:

Considerando o que George W. Bush bem comentou, há alguns anos, com o presidente Lula, “Uau, o Brasil é grande.”, e baseando-se na música que a grande nação sul-americana exporta – bossa nova e samba – alguém poderia pensar o contrário. Mesmo com estes dois ricos, maravilhosos meta-gêneros musicais, a verdade é que o Brasil é o lar de uma variedade espetacular de estilos e tradições, equiparando-se, ou até ultrapassando, a diversidade musical dos Estados Unidos. A famosa Tropicália – que elevou artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e Os Mutantes ao nível internacional – continua a exercer influência pelo país; o tempo todo, artistas absorvem, trasmutam e colidem todos os tipos de estilos, tanto domésticos quanto estrangeiros.

Além disso, o tamanho do Brasil e seu senso de orgulho lutam ativamente contra o imperialismo cultural; a música americana e européia é popular, mas não apaga a música brasileira das paradas. Enquanto a cultura americana regularmente descarta seu passado, o Brasil abraça-o e adora-o, mesmo quando seus artistas o fatiam e misturam de forma criativa com novos sons e abordagens. Existem incontáveis estilos regionais, ainda bem vivos – entre eles o coco, forró, axé, brega, choro, frevo, mangue beat, pagode, funk carioca e sertanejo – tanto em suas formas puras quanto em iterações pós-modernas. Os brasileiros também conseguiram dar seu toque característico ao hip-hop, jazz, funk e rock, e os melhores músicos acrescentam uma qualidade regional muito distinta às suas criações. Infelizmente, é difícil o não-brasileiro conseguir se orientar pela prolífica cornucópia de lançamentos espetaculares, embora difíceis de achar, que a indústria musical brasileira produz.

Mesmo com lançamentos agradáveis e interessantes no mercado internacional, como Bebel Gilberto, Céu, Cibelle, CSS e Bonde do Rolê, existe muito mais a ser explorado. Em uma viagem que fiz ao Brasil no ano passado, fiquei impressionado ao constatar que havia muito mais acontecendo do que eu esperava – e minhas expectativas já eram altas. Este guia é apenas a ponta do iceberg; a maior parte desta seleção vem de jovens artistas com uma sensibilidade aguçadíssima, mas também estão incluídos alguns da linha mais tradicional e também alguns veteranos que se recusam a deixar sua música ficar no passado. Mas cuidado: quando o bichinho te morder, vai ficar difícil parar de explorar mais e mais.

Confesso que fiquei feliz ao ler tudo isso. Eu não diria que nós “lutamos ativamente contra o imperialismo cultural”, nem que temos uma “cornucópia” de lançamentos espetaculares, mas se o pessoal de fora acha que estamos com essa bola toda…

Os doze discos elencados incluem muita coisa regional (principalmente pras bandas de Recife), funk carioca (obviamente) e outras coisinhas. São esses:

- “Cabeça elétrica coração acústico”, de Silvério Pessoa
- “Cão”, de Rômulo Froes
- “Res Inexplicata Volans”, do Apollo Nove
- “Narradores de Javé Remix”, do Instituto & DJ Dolores
- “Tocar na banda”, de Comadre Fulozinha
- “Sincerely hot”, de Domenico + 2
- “Dadi”, de Dadi
- “Simples”, de Jair Oliveira
- “Lenine”, de Lenine
- “E o método túfo de experiências”, do Cidadão Instigado
- “Slum Dunk presents Funk carioca”, coletânea feita por Tetine.
- “Futura”, da Nação Zumbi

Essa lista é uma vergonha. Vergonha pra mim, que só conheço um dos doze discos: o da Nação Zumbi. Confesso que meu gosto e minhas explorações musicais sempre passaram longe do Brasil, acho que mais por hábito do que por preconceito. Tanto que comecei a querer corrigir esta falha e descobrir coisas boas, do lado alternativo, aqui na terrinha. E a melhor das minhas descobertas foi o Satanique Samba Trio.


O trio em um culto satânico (vulgo “jam session”)

SST foi a novidade brasileira mais genial que já ouvi. O som dos caras (que são quatro, e não três) só pode ser descrito como sendo um encontro do Primus com a gafieira; uma soma de jazz moderno com samba de roda que, no fim, dá algo parecido com um chorinho errado.

A habilidade deles é a de cuidadosamente destruir o fluxo original dos ritmos brasileiros. Digo “cuidadosamente” porque, no meio da bagunça toda, o cavaquinho soa bem, o pandeiro soa bem, tudo soa bem, como um bando de instrumentos bem tocados, mas em pânico. O esmero técnico só faz melhorar algo que, com uma premissa genial dessas, tinha tudo pra dar certo por si só.

O trio tem dois lançamentos, Misantropicalia (disponível no eMusic) e Sangrou (disponível no site da gravadora). Ouça algumas músicas do “Sangrou” no MySpace dos caras.

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4 comentários em “Música brasileira – Diversidade, mistureba e… satanismo”

  1. Meusoleso -

    porra, cara!
    acabei de ouvi-los no myspace…
    que diabos é isso? quero saber o nome do gênio por tras desta banda! nao ouço nada tão desconcertante assim ha décadas

  2. paulo -

    Esse Peter Margazak não mora no país e nem sabe o que está acontecendo aqui. Primeiro: Há um festival de músicas chulas, anti-culturais assolando o país, nas rádios, televisões em detrimento dos excelentes cantores e conjuntos que temos aqui. Temos excelentes músicas MPB que não se toca mais. Há uma imposição das rádios que só tocam músicas com letras chulas, estúpidas, que fazem apologia ao alcool, as drogas, a violência, visando interesses comerciais. Assim eles elegem músicas que não tem a mínima estrutura para ser denominada “música”. E não adianta falar que gosto não se discute PORQUE SE DISCUTE SIM, a medida que nós pobres mortais somos OBRIGADOS a ouvir essas mediocridades que se espalhou por todo o país. Pior, agora nós temos aqueles doentes que não se sabe como, conseguiram tirar carteira de motorista, colocam aparelhos de som turbinados nesses veículos , e sem o menor constrangimento (afinal o mundo é deles) saem nas ruas 24h por dia com aqueles raps nojentos, trechos repetitivos, batidões (mais de 100db) e outras piores. Eles não ficam nem um pouquinho vermelhos. Música tem que ter melodia, voz, harmonia, letras que incentivam, ritmo…No Brasil tem, mas só é divulgado as péssimas musicas. A maioria que o povão gosta, nossa! … Sem comentários…Um exemplo da estupidez, da ignorânica musical que marcou o inicio das músicas chulas no país: Dança da garrafa (uma vez a tv mostrou uma criança da favela dançando e uma garrafa no chão e ela aproximando a região glútea da garrafa…e o pais??? Acharam bonito??). A outra é a Eguinha Pocotó (inicio da “pocotização” da massa obtusa que não exige qualidade e nem se preocupa em se instruir…). Agora vem um ignorante de fora elogiando, é o que faltava, mas deve ter um atenuante, afinal de contas o Sr. Peter não fala português…

  3. José Carlos -

    Mas tem muita coisa boa sendo lançada no Brasil sim, Paulo. O problema é que fica escondido atrás desse oceano de ruindades. Achei louvável o Peter Margazak ter descoberto justamente as coisas boas aqui da terrinha.

  4. Mauro Filho -

    Esse SST é raridade? Como eles não são mundialmente famosos?

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