Madness? This… is… MUDANÇAAAA!!

O plano era simples: na quinta do feriado, carregar o caminhão. Na sexta, eu, Bethania e Pavlov vamos de carro pra São Paulo, assinamos o contrato de aluguel e pegamos as chaves. No sábado o caminhão com a mudança chega e até domingo arrumamos tudo.

Falando assim parece simples, mas tem uma infinidade de detalhes que faz a coisa se tornar uma odisséia épica misturada com uma graphic novel (com roteirista ruim) e com um remake estadunidense de "Betty, a Feia".

Por exemplo, a lei brasileira diz que em viagens assim você precisa de um atestado de boa saúde canina – mas calma, não é para o motorista, e sim para transportar seu cachorro pelas estradas. Obviamente NENHUM policial vai parar seu carro no instante em que você obter o atestado – efeito da lei de Murphy. Mesmo assim, na quinta-feira à noite, ao invés de dormir para viajar descansados, eu e Bethania fomos levar Pavlov a um veterinário.

A coisa foi surreal, porque chegamos na clínica e estava tendo uma "emergência médica canina" no melhor estilo de episódio de "E.R.": uma cachorrinha com leishmaniose havia dado entrada tendo convulsões. A dona dela estava na recepção, chorando desesperada. Chamaram até outro cachorro – um rottweiler ENORME – para doar sangue pra ela. Mas depois de um tempo apareceu a veterinária, com aquela cara de más notícias, e começa a falar:

– Olha, sua cachorrinha estava realmente mal, nós tentamos fazer uma transfusão de sangue, demos efedrina, adrenalina, mas o coraçãozinho dela não resistiu…

Segue-se choros e ranger de dentes. E eu lá, perplexo.

Outro detalhe de viagens com cachorro é que recomenda-se que o cão viaje sedado, então compramos um psicotrópico canino que a veterinária receitou. O troço é tão maléfico que as farmácias só vendem o remédio com cadastro e retenção da receita. E Pavlov não é bobo, detesta remédios e sabe quando estamos tentando dopá-lo medicá-lo, então misturamos o "psicotrópico do mal" em um pouco de Toddy e demos para ele.

Se cães pudessem falar, eu tenho certeza que Pavlov teria dito: "oba oba, chocolate!!" e, na sequência, conforme estava ficando sonolento, diria: "Traidores!! O que vocês… fizeram… comiiiigoooooo….". Porque a cara dele dizia exatamente isso.

Além da trabalheira canina, outro inconveniente da mudança é que você tem que desativar toda a sua vida na cidade-origem e reativá-la na cidade-destino, ou seja, cancelar internet, telefone fixo, celular, TV a cabo e mais duzentas mil coisas. No caso da TV a cabo lá de casa a situação era mais complicada, porque ela estava no nome de Bethania e eu era o único com tempo para ligar pra fazer o cancelamento. A situação parecia sem saída mas parei, pensei por um instante, peguei o telefone e liguei para a operadora de TV a cabo:

– Bom dia, eu queria cancelar minha assinatura.
– Pois não, qual o seu nome?
– Bethania.

O atendente faz uma longa pausa e pergunta, confuso: "Uhh… é ‘Senhor’ Bethania?"

– Não, não. Senhora Bethania. – Confirmei, na maior naturalidade do mundo.

Pensa bem: o que diabos o atendente poderia dizer? Que minha voz era grossa demais para uma mulher? Se eu deixasse de confirmar alguma informação do cadastro tudo bem, mas qualquer suspeita que ele levantasse com base em minha voz poderia ser rotulada de preconceito, portanto ele não tinha nenhuma outra opção a não ser atender a "senhora Bethania" de voz grossa. E funcionou: das três vezes que precisei ligar pra lá, nenhum atendente questionou a minha voz.

Além das questões vocais, a mudança ainda teve inúmeros outros "detalhes" trabalhosos: o zelador do prédio novo encrencou com mudanças antes das 9 da manhã. e as leis de trânsito paulistanas proíbem tráfego de caminhões no meu novo bairro após as 9 da manhã. Alguns serviços que você quer contratar pro apê novo (internet, TV a cabo) requerem comprovante de endereço, que, obviamente, você só vai ter depois que receber contas de algum serviço, como internet ou TV a cabo. E aí o chuveiro de 110V que veio na mudança não pode ser usado na instalação 220V do apê novo. E então o contrato de aluguel tem uma cláusula que proíbe animais – e você vê isso no instante de assinar o contrato. Aí as assinaturas do contrato de aluguel tem que ter firma reconhecida, e você tem que abrir firma num cartório paulistano, e o cartório te pede – além de uma escaneada nas digitais do seu dedo indicador (sabia dessa?) – uma cópia da certidão de casamento, e a certidão ficou em Belo Horizonte. E na hora de receber as chaves do apartamento, você descobre um vazamento de água no teto de um dos cômodos. E por aí vai…

Moral da história: mudar de cidade é um pandemônio. Se bobear, mudança de sexo deve ser mais fácil do que isso.

Mas eu não podia deixar este post acabar sem mencionar o lado bom de mudar pra São Paulo, que é… morar em São Paulo, por incrível que pareça. Nosso bairro é excelente, Bethania mora a 15 minutos de caminhada do trabalho, temos tudo a apenas alguns quarteirões de distância, o prédio onde moramos é ótimo, é grande, é seguro, e o apartamento novo é muito espaçoso. Claro que isso não custa barato, mas se é pra morarmos longe das famílias e dos amigos, pelo menos que seja num lugar legal…

P.s.: Por conta da mudança perdi o BlogCamp MG. Uma pena, queria conhecer as caras por trás dos blogs que leio. Mas pelo que li sobre os debates, a coisa foi exatamente como eu previa: em torno de monetização e, consequentemente, chata.

P.p.s.: E logo após a mudança, adivinha qual a primeira coisa que fiz? Peguei um avião e fui trabalhar em… Belo Horizonte!

P.p.p.s.: E depois de ir pra BH eu estou escrevendo este post diretamente da cidade de… Joaçaba, interior de Santa Catarina!!

As mudanças que uma mudança traz

20071114

Se eu fizer as contas, foram 459 dias entre a data do casamento e o dia de hoje, que é o último dia "oficial" de existência da minha casa em Belo Horizonte. Daria muito mais se contarmos desde a (looonga e trabalhosa) reforma, a compra dos móveis – incluindo a minha birra com a Tok Stok – e toda a sequência de eventos que deixou a casa linda do jeito que está, e que vocês podem ver nas fotos aí em cima.

Mas eu posso voltar ainda mais no tempo e considerar que este apartamento, onde vivi durante este primeiro ano de casamento, é o mesmo onde vivi dos quatro aos vinte e quatro anos de idade. Ééééé, amigo… foi aqui que passei a maior parte da minha vida.

20071114_2 Tem muita história nesse apartamento. O quarto onde dormi com Bethania é o mesmo onde meus pais dormiam. É o mesmo onde minha mãe passou anos doente até morrer de um câncer de mama. O outro quarto, que virou um "mini-escritório" e de onde estou digitando este post, já foi meu e da minha irmã. A janela dele não é simplesmente uma janela: é o lugar de onde minha irmã saía, ao som de um vinil do Xou da Xuxa, com um microfone na mão, imitando a Rainha dos Baixinhos saindo de seu disco-voador.

E daqui a algumas horas um caminhão vai parar na porta do prédio e levar os móveis todos embora, pra colocá-los num outro prédio a 600 quilômetros de distância, desfazendo o lar que eu e Bethania criamos pra nós e me distanciando novamente (e talvez definitivamente) do lugar aonde cresci. Mas isso não me entristece: olhando pra trás eu me sinto orgulhoso pelo rumo que a minha vida vai levando. As memórias, o que aconteceu no passado, tudo isso é importante, mas não mais do que o efeito disso na pessoa que sou hoje. "Foco no resultado", diriam meus colegas consultores. É bem por aí.

A sensação que fica é a de que uma etapa de vida acabou. E que uma outra, ainda melhor, está apenas começando…

A incrível árvore genealógica de Pavlov

Outro dia Bethania me entregou o pedigree de Pavlov: um documento com o registro dele na Sobraci e uma penca de informações, incluindo sua árvore genealógica.

E, meus caros, a árvore genealógica de Pavlov é simplesmente inacreditável.

O nome "completo" de todo cachorro é o nome real dele mais o nome do canil ou do criador. Assim, Pavlov é, na verdade, "Pavlov Ours En Peluche", filho de Shayenn Dragon Axe Skywalker, neto de Fatal Vision Thabata, bisneto de Black Devils Lashio e trineto de ninguém menos do que Druida Singtuk of Old Sheperd!

20071113

Pra piorar, o mundo sexual canino é realmente uma cachorrada, então tem macho que é bisavô e trisavô ao mesmo tempo, fêmea que é bisavó por parte de mãe e também de pai, etc.

Encontrando um apartamento para alugar em São Paulo

Depois de muito sangue, suor e lágrimas, eu e Bethania temos endereço definido no Itaim Bibi, na grande metrópole paulista. Deu trabalho – MUITO trabalho – mas acho que vamos morar bem. Bethania vai poder ir a pé pro trabalho, eu ficarei a uns 20 minutos do aeroporto e Pavlov vai ter inúmeros vizinhos caninos para conhecer.

O início da jornada pelo apartamento novo começou pelo lugar mais fácil: na internet, em sites como Imovelweb, NetImóveis e Zap. Nessa etapa é que tivemos a primeira referência de preços (caríssimos) e disponibilidade (minúscula).

Na verdade o que a internet te dá é apenas isso: uma referência, já que os imóveis realmente bons são alugados em questão de dias. Tanto que liguei para uns 15 anúncios da internet e somente 2 deles ainda estavam disponíveis. O negócio é visitar os sites todos os dias e fazer uma pesquisa ordenada pela data do anúncio, pra pegar os mais "fresquinhos" antes. Mas meu tempo para achar um apê era meio reduzido, então tive que partir pra uma abordagem mais "téte-a-téte" e, na quinta-feira à noite, me enfiei num ônibus para São Paulo para pesquisar do jeito difícil: andando na rua e caçando plaquinhas de "aluga-se".

Como todo bom nerd eu fui preparado: coloquei no celular imagens com mapas da região do Itaim, para poder me orientar sem precisar ficar carregando papéis. Além disso medi toda a mobília lá de casa e anotei as medidas, também no celular. Isso é importantíssimo para tirar aquelas dúvidas clássicas, do tipo "hmm, essa sala é ótima, mas será que o sofá vai caber naquele canto ali?".

O celular foi uma mão na roda: com ele eu ligava na hora para os telefones das plaquinhas de "aluga-se", tirava fotos dos apartamentos e ainda dava uma Twittada de vez em quando, para extravasar um pouco da frustração. Porque procurar apartamento é MUITO frustrante: você anda muito e acha muito pouca coisa. As poucas coisas que acha são grandes demais, velhas demais, pequenas demais ou caras demais. Aí os pés doem, começa a chover, depois a chuva pára e faz um sol escaldante e você continua lá, peregrinando. Aí bate o desespero e você começa a tocar o interfone de TODOS os prédios que vê, independentemente de ter ou não plaquinha de "aluga-se". E depois de andar por vários quilômetros e de encher o saco de centenas de porteiros, você vê que todo esse trabalho serviu para achar apenas UM apartamento – que foi tudo o que eu havia conseguido na peregrinação da sexta-feira. Ele era grande e caro, mas pela falta de opções acabou sendo considerado.

A sorte é que eu estava hospedado com um amigo que sabia de um apartamento disponível em seu próprio prédio. O apê era barato, embora pequeno, e entrou na disputa: agora eram dois candidatos.

Aí, no sábado de manhã, eu acordei às 5:30, me enfiei no metrô e fui buscar Bethania na rodoviária. E a peregrinação recomeçou, mas desta vez facilitada pela feminilidade da minha esposa – pois você não faz idéia do quanto os porteiros são mais amistosos quando atendem uma mulher. Funcionou tão bem que encontramos nosso terceiro candidato: um apê que ainda nem tinha sido anunciado pela proprietária.

Uma coisa que ajudou muito na decisão final foram desenhos em escala, que eu fazia usando as medidas de cada apartamento. Aí, usando as medidas dos nossos móveis, eu pegava os cartões de visita das imobiliárias (não serviram pra nada mesmo) e usava pra cortar miniaturas, também em escala, dos nossos móveis. Depois ficávamos brincando de estudar como ficaria nossa mobília no espaço do apartamento que queríamos.

Note que o cartão do "Nivaldo" virou nosso sofá grande…

20071112

Fazer um desenho em escala é muito simples. Uma escala boa para botar no papel é 1:50 (cada centímetro no papel vale 50 centímetros no mundo real). Essa escala facilita as contas porque é só multiplicar as medidas reais por 2. Exemplo: Uma parede de 2,10m vai ocupar 4,2cm no papel.

Depois de "brincar de casinha" no modelo em escala e de muuuuuuita conversa, tomamos a decisão final, ligamos pro proprietário e agora estamos na correria de fechar o contrato de aluguel. A idéia é aproveitar o feriado desta semana e fazer a mudança de uma vez. Essa, pelo visto, vai ser outra saga…

Dia de treinamento

Passei os últimos dois dias num treinamento de finanças.

É engraçado: o pai da contabilidade foi um padre italiano, mas apesar de sua origem santa as finanças, definitivamente, não são coisa de Deus. Eu tenho horror a finanças. Eu mal consigo dividir conta de boteco e estava lá, aprendendo sobre "passivo circulante" (não, não é travesti fazendo ponto em Copacabana), "semoventes depreciados" (vulgo "carro velho") e "método das partidas dobradas" (não, não são dois jogos do Brasileirão no mesmo horário).

Os dois dias foram mentalmente exaustivos, mas renderam muito. Confesso que até comecei a achar o assunto interessante, apesar de ser completamente contra-intuitivo. Quer ver um exemplo? Eu levei uma boa meia hora para aceitar o fato de que o conceito de "passivo" chama salários e contas a pagar de fontes de recursos. Pensa bem, você paga os benditos salários; como diabos isso é fonte de recurso?

Finanças também tem uns conceitos "alternativos" bastante interessantes. O mais legal deles é o da contabilidade criativa, que nada mais é do que um fantástico eufemismo para descrever "gambiarras" de contabilidade pra esconder prejuízos e outras coisas não tão bonitas dos relatórios. O pior é que, em um dos livros que nos deram como preparação para o curso, tem um capítulo inteirinho sobre isso…

Mas o sucesso do treinamento deve-se ao instrutor, o "samurai" das finanças – Musashi, aquele mesmo consultor-líder que, em 2003, me fatiou vivo na banca examinadora. Musashi tem um jeitão "bronco" bastante assustador, mas no fundo ele é tranquilo – desde que você não faça besteira. Por exemplo, quando alguém mencionou a "contabilidade criativa" no curso, a resposta de Musashi foi:

– Pára com isso. Isso é falta de ética. E se você disser que eu ensinei isso aqui no curso eu vou comer o seu figado cru.

Sutileza, definitivamente, não é uma das qualidades de Musashi. No primeiro dia, um membro de um dos grupos estava começando a apresentar um exercício de análise financeira quando ele interrompeu a apresentação e disse:

– Pegue o relatório que vocês usaram pra fazer a análise e leia a primeira frase de novo.

A primeira frase dizia que as informações eram do "Grupo X de empresas", e Musashi havia dito que você NUNCA deve analisar resultados de um grupo de empresas, e sim cada empresa separadamente. Sem a menor cerimônia, ele emendou o golpe final:

– A análise de vocês não vale nada. Pode se sentar.

samurai shodown
Musashi corrigindo o exercício do grupo…

O método pode não ser sutil mas é extremamente eficiente. Tenho certeza que ninguém mais vai errar aquilo.

Mas o pior foi quando chegou a minha vez de apresentar o trabalho do meu grupo. Musashi estava lá, assistindo, com sua cara usual de poucos amigos. Aí ele pergunta:

– Nessa situação aí você tem a opção de pagar dividendos ao acionista. Você acha bom pagar dividendos nesse caso?

Confesso que não fazia a menor idéia. Então, respondi:

– Ué, se eu for acionista, vou achar ótimo…

É impressionante. Em momentos de tensão, meu primeiro impulso é… fazer piadinha com o instrutor sanguinário do curso. Muito sensato isso. Nesse ritmo minha carreira vai se encerrar no "curtíssimo prazo"…

Trocando a serra pelo Serra

Eu tinha comentado no Twitter que, desde 2003, cada ano que vem traz um mega-acontecimento que provoca mudanças drásticas na minha vida. Eu larguei minha carreira em TI em 2003, me “oficializei” na consultoria em 2004, fui morar um tempo no Canadá em 2005, me casei em 2006…

…e em 2007 vou me mudar pra São Paulo.

20071102 Estou indo pra acompanhar Bethania, que arrumou um emprego bem promissor por lá.

Quanto ao meu trabalho, bem… considerando que meu modus operandi é no estilo “o artista vai onde o povo está” (ou seja, eu trabalho viajando), para meus empregadores não faz diferença a cidade aonde eu moro – de fato, morar em São Paulo é até vantajoso pra eles, que economizam com vôos e hotel nos projetos paulistanos.

Bethania começa no novo emprego em duas semanas, portanto já estamos programando a mudança. Possivelmente vamos alugar algum apê no Itaim Bibi: é perto do aeroporto e Bethania vai poder ir a pé pro trabalho, o que economiza gasolina, tempo e stress. Por sorte eu conheço o bairro razoavelmente bem, pois foi onde fiquei nos meus dois últimos projetos paulistanos. Isso é bom porque ajuda a diminuir o frio na barriga (que atualmente está grande).

Então é isso. Nas próximas semanas faremos a mudança: trocaremos a Serra do Curral pelo… José Serra!

Update: Muita gente perguntou nos comentários, então vou responder aqui. Pavlov, nosso cachorro bissexual e artista plástico, vai conosco. Afinal, ele é da família – e ir pra São Paulo é bom pra carreira dele, se bobear ele até pode expor na Bienal.

Eu até ventilei a possibilidade de deixá-lo em BH provisoriamente, mas a tela escureceu e o cabelo de Bethania subiu igualzinho nos desenhos do Dragon Ball Z. Deixei pra lá na mesma hora.