Posts de dezembro de 2007


Compras do mês d’O Primo

5 de dezembro de 2007, 22:55

Esse mês quase não deu pra fazer esse post, por causa da mudança.

Como de costume, tudo comprado na eMusic, exceto o cabeça-de-rádio. E não, eu não ganho jabá da eMusic nem nada. Sou apenas um cliente feliz.

Simian Mobile Disco – Attack Decay Sustain Release

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Este disco gira na esfera daquela modinha chata de lançamentos meio "electro" meio "new rave". Entretanto, meus amigos… ele é um dos melhores discos do ano de 2007.

Lembram de 1996, quando o Daft Punk lançou o "Homework", aquele disco que não tinha nada de mais, que havia sido produzido no quarto dos caras, mas que era absurdamente bom e virou um clássico? O A.D.S.R. é bastante parecido: não tem nenhuma firula de produção, não usa sintetizadores supermodernos, não tem vocalistas maravilhosas cantando letras poéticas nem nada. Mas é autêntico, é energético, é cru e vibrante como há muito tempo não se ouvia.

Chega a dar pena a comparação do Simian Mobile Disco com o resto das bandas da ondinha modernosa "electro new rave", que se levam muito à sério e fazem um esforço sobre-humano para soarem divertidas e parecerem cool – e falham miseravelmente ao fazer música prepotente e artificial. É justamente este o erro que o Simian Mobile Disco não comete e que o coloca anos-luz à frente dos seus compatriotas de gênero.

"Hustler", a faixa 4, é, de longe, a melhor música que ouvi este ano. Tanto que devo tê-la ouvido umas duas ou três vezes só enquanto escrevia este post. E, segundo meu iTunes, mais umas vinte vezes desde que comprei o disco. E "Hustler" não tem absolutamente nada de mais: bateria, texturas ácidas e uma menina contando (nem é cantando) algo sobre roubar discos de uma loja. Mas funciona de um jeito que chega a dar arrepios – literalmente. Os clipes de "Hustler" (tem duas versões) não deixam por menos e são imperdíveis. Destaque também para "Hotdog", cuja letra imbecil acaba ficando divertidíssima, e "It’s the beat", que vai te ganhar nos cinco primeiros segundos.

Radiohead – In Rainbows

20071204_3 Pois é. Eu fui uma das raras pessoas que pagou pelo In Rainbows. E confesso que foi uma das piores compras do mês.

Ok, neste momento eu tenho certeza que suas sobrancelhas subiram e/ou o queixo caiu. Talvez até minha mãe tenha sido xingada. Então vou medir muito bem as palavras que escreverei daqui pra frente, mas conto com você pra lê-las com atenção e sem preconceitos.

Observe que eu não disse que o "In Rainbows" é ruim – de fato, ele é muito melhor do que o que anda sendo produzido pelo mundo. Mas o Radiohead não é uma bandinha iniciante: eles tem uma carreira sólida, uma puta reputação (desculpe a cacofonia) e um histórico de lançamentos que inclui clássicos de renome, como o "OK Computer" e o "Kid A". Assim sendo, é natural que as expectativas para uma banda do cacife do Radiohead sejam, naturalmente, altos. O que se espera de um disco de uma grande banda – seja o segundo, o sétimo ou o décimo nono disco – é que ele apresente uma evolução da música que a banda produz – mesmo que o disco não seja melhor que o anterior.

Considere, por exemplo, o Sonic Youth. Thurston Moore não tem mais seus vinte-e-poucos anos. Kim Gordon já é mamãe. Lee Ranaldo hoje é um tiozão. Mas o som do Sonic Youth continua decidido a andar por caminhos diferentes e a buscar novidades. A raiz de experimentalismo dadaísta da época do "Confusion is Sex" foi se refinando até ficar quase pop com o "Dirty", depois melódica-desafinada em "Washing Machine", depois psicodélica e progressiva em "Sonic Nurse" e depois rock’n roll como-nos-velhos-tempos em "Rather Ripped". O Sonic Youth tem uma alma fixa e um corpo diferente a cada "encarnação" em forma de disco – e, pra mim, essa é a característica mais marcante de uma boa banda.

Acontece que, no caso do Radiohead, a sequência de inovação, de renovação que começou na dupla "Kid A/Amnesiac" começou a se perder no "Hail to the thief". E aí veio o "In Rainbows", que, sonoricamente, parece não pertencer a lugar nenhum dentro da linha do tempo do Radiohead. As músicas parecem ocas. Algumas faixas se apóiam apenas na voz de Thom Yorke, que, convenhamos, não é nenhuma Björk. E a produção, espartana, faz escolhas esquisitas como em "Faust Arp" – o que diabos aquelas cordas estão fazendo ali? E que violão estilo "Garth Brooks" é aquele?

Por isso, é com muita pena que eu digo que o In Rainbows é o Radiohead em um de seus piores momentos. É uma pena mesmo, considerando o contexto inovador do lançamento e a repercussão que teve. Pudesse eu pagar pelo disco depois de ouví-lo e eu não pagaria nem a metade do que paguei.

Harmonic 33 – Extraordinary People

20071204_4Viagens hip-hop inspiradas em soundtracks de antigamente, com uma levada sossegada, samples "amigos" e um eventual clima retrô para acompanhar. Até sua vó poderia gostar de "Extraordinary People" – e, não, isto não é uma ofensa. Pelo contrário!

Aparentemente o Harmonic 33 pertence ao time de bandas como o Nightmares on Wax ou o Lemon Jelly, que fazem discos para descansar as pessoas musicalmente, er, "ousadas". O "Extraordinary People" é uma massagem para os ouvidos estropiados com texturas dissonantes, contrastes exagerados e outras esquisitices. Desce macio e reanima.

E, por incrível que possa parecer, Mark Pritchard e Dave Brinkworth, os produtores do disco, NÃO são dois negões.

Kavinsky – 1986

20071204_2 Este EP segue o mesmo caminho despretensioso do Simian Mobile Disco, com a diferença de que soa mais anos 80, mais música de videogame – o que fica óbvio já a partir da capa.

É uma fórmula batida, eu sei, mas funciona que é uma beleza. Os únicos pecados deste disco são seu tamanho e a similaridade um pouco exagerada com o Daft Punk das antigas. Afinal, uma coisa é usá-los como inspiração, outra é usá-los como… bem, muita inspiração.

Destaque para "Grand Canyon", que parece ter sido tirada diretamente de uma propaganda do Commodore 64.

Telefon Tel Aviv – Fahrenheit Fair Enough

20071204_5 Em Fahrenheit Fair Enough, o nome de disco mais difícil de digitar que existe, o Telefon Tel Aviv fez algo que poderia ser resumido como "caprichado".

As músicas transitam numa faixa bem no meio do digital e do analógico, compondo um eletrônico "des-artificializado", melódico. Texturas acústicas, "normais", navegando entre batidas digitalescas que às vezes parecem estar prestes a ter um ataque de nervos – mas numa boa, sem perder a pose.

O resultado é um disco que, apesar de às vezes pegar emprestada a dislexia e a falta de coordenação de alguns gêneros de música eletrônica (leia-se IDM), acaba produzindo faixas ricas, narrativas, concisas. Como "John Thomas on the Inside Is Nothing But Foam" que, de tão bem concebida, parece uma música do Tortoise.


Cenas de um jantar globalizado

3 de dezembro de 2007, 18:13

Semana passada eu tive um evento de trabalho com a presença de vários estrangeiros de várias partes do mundo: tinha um chinês, um croata, uma austríaca, um português e uma finlandesa.

Eventos com estrangeiros são naturalmente interessantes por causa do choque de culturas e por dar a oportunidade de ver o que diabos os gringos acham da nossa terrinha, mas esse bateu todos os recordes. E a culpa de tudo foi da finlandesa.

A menina era completamente doida. Ela fala umas 10 línguas diferentes (inclusive português). E fala sem parar. Some isso a um jantar com vinho e você ouve coisas hilárias, como por exemplo:

  • A passagem dela pelo Rio de Janeiro: "Estávamos em Ipanema, na praia, quando de repente eu olhei em volta e só tinham homens. Aí eu olhei bem e vi que eram todos casais, e aí eles começaram a se beijar e eu lá pensando: ‘uhh, tudo bem, é um casal gay’ e tal. Mas aí um dos caras começou a apalpar o outro! Tipo, botou a mão lá e tudo! Era pornografia gay ali, ao vivo, na praia! Depois um deles se levantou e ficou tentando arrumar as ‘coisas’ dentro do calção" – ou, como ela disse em inglês, "trying to reset the whole thing", o que deixou a história ainda mais engraçada.
  • Aí ela começou a contar as coisas pelas quais o Brasil é conhecido para os finlandeses: "Bem, se colocar em ordem, primeiro vem o futebol. Depois, as sandálias havaianas… e depois a bunda da mulher brasileira."
    Nota mental: comprar ações da Alpargatas, rápido. E depois investir os lucros na "poupança"… (pegou essa?)
  • Falando nisso, descobrimos que a "paixão nacional" dos finlandeses é tomar umas biritas… na sauna. Isso tudo entremeado por mergulhos ocasionais em lagos gelados, pra se refrescar. Mas, segundo ela, todo mundo vai pra sauna usando apenas as Havaianas.
    Sim, eu fiz questão de me certificar, e ela confirmou: na Finlândia, todo mundo toma sauna peladão. Isso era bom demais pra ser real, então chequei na Wikipedia… e é verdade!
  • Momento "animal planet" do jantar: A finlandesa vê uma lagartixa na parede… e sai ALUCINADA para bater uma foto. O que me deu uma idéia genial aqui agora: exportar sandálias havaianas com estampa de lagartixa. Vai vender como nunca na Europa.
  • Para o grand finale, a finlandesa falou que queria adicionar todo mundo no Facebook dela. Aí contamos que no Brasil todo mundo usa Orkut. "Hmm, Orkut não é popular na Finlândia", disse ela. Quando perguntamos o por quê, ela explicou que "Orkku", em finlandês, é uma gíria que significa "orgasmos múltiplos".
    Yeah, baby. Orgasmos múltiplos. Agora eu entendo porque todo mundo quer ter um Orkut…


A saga da instalação do varal

3 de dezembro de 2007, 18:11

Semana passada eu instalei um dos varais lá em casa. Eu mesmo, com furadeira e tudo. E, como disse o publicitário Luli Radfahrer, "pouco importa seu sucesso profissional: é a habilidade com uma FURADEIRA que separa os meninos dos homens".

Assim sendo, provei que, definitivamente, não sou moleque (tampouco caveira, vale lembrar). Só que não passei por esta prova com a altivez característica dos grandes homens. Na verdade, se alguém tivesse filmado a instalação toda, as semelhanças com um episódio do "Mr. Bean" ficariam bem evidentes.

O problema maior da coisa foi que eu não tinha uma escada, então fiz tudo de cima de um banquinho vagabundo. Aí eu tinha que me espichar todo com a trena para medir o teto, aí a treina caía e eu recomeçava, aí o braço doía e a trena caía e eu começava mais uma vez. E no final das medições – que era apenas o começo do trabalho – eu já estava cansado, doído, sujo e desmotivado.

Na hora de furar o teto a coisa ficou ainda pior. Logo no primeiro furo eu devo ter atingido um vergalhão ou alguma coisa assim, e a furadeira não entrava mais. Eu já estava bastante frustrado, então apelei, peguei a furadeira, empurrei com toda a força pra cima… e comecei a gritar daquele jeito "Rambo" que Hollywood me ensinou via Sessão da Tarde ao longo dos anos. Comi poeira adoidado, mas consegui fazer o furo.

Na hora de parafusar o varal no teto, mais frustração. Levei uns 20 minutos pra conseguir subir no banquinho sem me embolar todo com os cordões do varal. E, quando finalmente consegui, percebi que esqueci a chave de fenda no chão. Manifestação óbvia do divino espírito santo de Murphy…

Levei umas duas horas pra instalar apenas UM dos varais. O outro eu não tive condições psicológicas pra instalar. A coisa foi tão vergonhosa que até Pavlov ficou sem graça e, no meio da instalação, desistiu de me fazer companhia e foi pra sala cochilar. Porque, se ele pudesse falar, diria: "Véio, larga isso aí e vai dar consultoria que é melhor".