Posts de janeiro de 2008


TOP discos de 2007

4 de janeiro de 2008, 23:59

Pra mim, 2007 foi um ano bem rico do ponto de vista musical. Ouvi muita coisa nova, descobri muita coisa boa. Mas muita coisa lançada em 2007 eu só estou ouvindo agora, por ocasião das inúmeras listas de TOP discos que me deixam com água na boca, querendo ouvir tudo ao mesmo tempo. Assim, esse meu TOP ficou um tanto quanto migué. Mesmo assim, vamos lá:

Simian Mobile Disco – Attack Decay Sustain Release

20080105 De longe, a melhor coisa musical que me aconteceu em 2007. É dançante, é divertido, é bem produzido, é original e atropela algumas centenas de lançamentos de gente que se considera moderninha mas que, no fim, é bem ruinzinha (cof cof LCD Soundsystem cof cof).

Os seis primeiros segundos de "It’s the beat" são suficientes para me dar arrepios, de tão boa que a faixa é; "Tits and Acid" é tudo que o canastrão do Fatboy Slim poderia mas não fez com sua TB-303. "Hotdog" é pra rir da letra e depois cantar junto, perdendo completamente a noção, numa pista de dança; e "Hustler" é, sem sombra de dúvida, a música do ano de 2007.

(Clique aqui para ver o clipe de "Hustler")

Justice – "Cross"

20080105_2 Esse eu nem comentei aqui antes, pois o disco entrou no páreo aos 45 do segundo tempo: baixei o disco no final de dezembro, seguindo a sugestão do blog de André X, o baixista da Plebe Rude. E o diabo do disquinho é simplesmente magnífico – a ponto de me deixar em dúvida se o troféu de "melhor do ano" vai pra ele ou pro Simian Mobile Disco!

Musicalmente, o disco do Justice (que não tem nome, só a cruz na capa, e que o faz ser chamado de "cross") é mais intenso, mais "rock", mais épico, enquanto o do Simian é mais eletrônico, mais classudo, mais musical. O que é ótimo e faz com que terminemos 2007 com duas pérolas divertidíssimas, perfeitas para serem ouvidas uma na sequência da outra.

Em tempo: já que "Hustler" roubou o título de música do ano, pelo menos o de videoclipe do ano tem que ir para "D.A.N.C.E.", a terceira faixa.

(Clique aqui para ver o clipe de D.A.N.C.E.)

Stars Of The Lid – and Their Refinement of the Decline

20080105_3 E, no extremo oposto do Justice e do Simian Mobile Disco, vem isto. "And their refinement…" é música ambient.

O disco – duplo e com duas horas de duração – se desenvolve sem pressa. Suas 18 faixas se espreguiçam ao longo do tempo, revelando beeem devagar do que são feitas. E são feitas de uma beleza magnífica, construída sobre harmonias simples mas sempre eficientes. Vocais? Bem, apenas DUAS frases são ditas durante todo o disco, em "humectez la mouture".

O fato de eu ter chegado neste disco é culpa do The Dead Texan, disco de 2004 que, de tão bonito, me fez pesquisar e descobrir que seu autor era Adam Witzie – uma das metades do Stars Of The Lid.

(Clique aqui para ver um "pseudo clipe" de Apreludes in C Sharp Major – Ignore as imagens, foi um muleque que montou o vídeo)

M.I.A. – Kala

20080105_4 Acho que só eu consigo gostar de M.I.A…

Sim, "Kala" é um disco tosco, com capa tosca. Mas a tosquice, o jeitão meio funk meio "world music" das faixas, os elementos indianos, as letras politizadas ("You think it’s tought now? Come to Africa!") e tudo o mais caem muito bem com a belíssima voz da diaba da mulher. Pensa bem: não existe NENHUM outro estilo musical para o qual a voz de M.I.A. serviria. Ela tinha que cantar exatamente o que canta hoje.

Mesmo quando a produção das faixas atinge níveis absurdos de tosquice, ao invés disto "esvaziar" as faixas, o efeito é o inverso: a voz de M.I.A. brilha ainda mais e músicas que tinham tudo pra fracassar (como, por exemplo, "World Town" ou "XR2") ficam ótimas.

(Clique aqui para ver o clipe de Boyz. Dói o olho mas é legal.)

Colleen – Les Ondes Silencieuses

20080105_5 "Les ondes" é, simplesmente, Cécile Schott – uma linda mulher francesa, professora de inglês de um liceu parisiense – brincando de tocar violoncelo, viola da gamba, clarinete, espineta (um tipo de clavicórdio) e outras coisas delicadas, como copos de cristal.

Digo "brincando" porque Coleen não é proficiente em nenhum destes instrumentos. Ela, inclusive, toca devagar porque não sabe tocá-los bem. E isto, que deveria servir de limitador para a música, acaba deixando aflorar melodias de um aspecto muito mais autêntico e poético. Em "Les Ondes Silencieuses", não são as notas que compõem as músicas, e sim os espaços entre elas. O foco não é produzir melodias bonitas, e sim naturais, fruto de uma exploração de como soa o instrumento, ao invés do que é possível fazer com ele.

(Não tem clipe deste disco, mas tem o de "I’ll read you a story", do disco anterior dela, que é absolutamente lindo)

Algumas observações adicionais

  • O novo do Of Montreal, chamado "Hissing fauna, are you the destroyer", possivelmente estaria nesta lista. Só que não tenho mais créditos para comprá-lo na eMusic, aí optei por esperar.
  • O do Panda Bear, que eu ouvi logo que foi lançado, que aparece na lista de melhores da eMusic e é campeão da lista do Pitchfork, também deveria estar aí, mas… sei lá.
  • O do Battles eu também só estou ouvindo agora, e me parece realmente bom.
  • Não, não dá pra gostar do LCD Soundsystem. Não sei o que as pessoas vêem nesses caras. E o "In Rainbows" do Radiohead é até legal, mas nem de longe é um dos melhores de 2007.
  • Vale mencionar as coisas boas lançadas em outros anos mas que descobri só em 2007, como por exemplo: Girl Talk, Asobi Seksu, Lemon Jelly, OOIOO, The Dead Texan e Laura.


O Primo recomenda – 1001 discos para ouvir antes de morrer

2 de janeiro de 2008, 16:24

20080102 "1001 discos…" tem a maior pinta de livro oportunista. Pra começar, ele pega carona na modinha atual de lançamentos estilo "coisas a fazer antes de morrer" – o que é, inclusive, considerado tétrico demais por vários amigos meus. Além disso, ele foi lançado estrategicamente antes do natal e tem um formato gráfico estilo "presente ideal para aquele seu neto que não larga o iPod" e "livrinho para mesa de centro de sala de gente rica e metida-a-besta". Só que, disfarçado por trás disso tudo, está um belo registro histórico da evolução da música – em especial do rock – desde os anos 50 até os dias atuais.

Por definição, qualquer lista de "top discos" é extremamente arriscada: o universo a se explorar é complexo demais e, por mais que se esmiuçe discografias por aí, sempre tem alguém que vai criticar a lista e dizer que "foi um absurdo ter esquecido do disco tal". É meio que a síndrome do suporte técnico: não adianta fazer tudo certo centenas de vezes; um erro é suficiente para colocar em xeque a competência do autor. Felizmente, a lista tem mil e um discos, o que reduz bastante a chance de que alguém seja deixado de lado.

Não obstante, é bem visível a preocupação dos editores em incluir todo mundo que seja, de alguma forma, significativo para a história da música. Britney Spears, por exemplo, está na lista com "Baby One More Time" – afinal, como o livro diz, "é inegável o estrondo que a estréia de Britney produziu na música popular". Outros grandes marcos históricos estão todos lá, como o "Thriller" de Michael Jackson (o disco sem "nenhuma nota fora do lugar"), o "Nevermind" do Nirvana ("sem dúvida alguma, o álbum de rock mais importante dos anos 90"), o "The Number of The Beast" do Iron Maiden ("um dos melhores discos de heavy metal de todos os tempos") e vários outros.

O esforço dos editores torna o livro especialmente gratificante para os fãs de música mais "diversificados" – aqueles que tem o ouvido aberto e apreciam as figurinhas manjadas (Rolling Stones, Dire Straits), as aberrações obscuras (Einstürzende Neubaten), os grotescos (Marilyn Manson), os amistosos (Belle and Sebastian), os hiperfamosos (Beatles), os ilustres desconhecidos (Minutemen), os caras do rap e do hip-hop, brancos (Beastie Boys) e negros (Public Enemy), os caras da música eletrônica (Kraftwerk, Chemical Brothers, Daft Punk, Underworld), os caras do jazz (Miles Davis, John Coltrane), os caras do começo do rock (Elvis Presley) e de depois do rock (Tortoise), as cantoras (Björk, PJ Harvey), os cantores (Elvis Costello), os gays (Pet Shop Boys), os politicamente engajados (Rage Against The Machine), os que não ligam pra nada (Pavement, Supergrass), os brasileiros (Mutantes, Caetano, Chico, Sepultura, Elis), etc. Tá todo mundo lá, e sempre em seus melhores discos.

Como se não bastasse a magnífica seleção, o livro tem um formato agradável tanto para folhear como para uma leitura minuciosa: cada página é dedicada a um único disco e inclui a arte da capa, uma lista das músicas com as faixas de destaque devidamente marcadas e comentários sobre cada álbum. Os comentários são curtos, bem escritos, cheios de notas históricas de bastidores, curiosidades e citações dos artistas. O livro mostra os discos em ordem cronológica, desde 1955 até os dias atuais – atuais mesmo, tanto que deu tempo de incluir o Arctic Monkeys, o "Arular" de M.I.A. e até o "Neon Bible" do Arcade Fire.

Por isso tudo, "1001 discos…" é altamente recomendado. O único problema do livro é que ele gera muita ansiedade nos viciados em música com pouco tempo livre (meu caso). Cada página virada gera pensamentos do tipo "eu preciso ouvir este disco"; então, imagine-se pensando nisso algumas centenas de vezes…

P.s.: Para os cinéfilos, vale a lida no review da Larissa Herbst sobre o "1001 filmes para assistir antes de morrer".