O Primo recomenda: Wall-E

Sim, assisti este final de semana. É o melhor filme da Pixar, melhor que Os Incríveis ou Toy Story. Infinitamente melhor. E mais: no meu ranking pessoal é o melhor filme de 2008 até agora.

A opinião da crítica parece ser a mesma. No Metacritic a nota do filme é altíssima: 93 (de 100), o que o torna o segundo melhor filme de animação, só perdendo para Ratatouille. E no ranking geral ele está no 19° lugar, à frente do primeiro Senhor dos Anéis ou (gasp!) do primeiro Star Wars. O filme é tão bom que Pablo Villaça, por exemplo, estava de cama após uma cirurgia mas mesmo assim escreveu sua crítica no site do Cinema em Cena – e deu cinco estrelas para o filme:

E como, depois de assistir à magnífica e apaixonante experiência representada por WALL-E, eu poderia deixar de escrever sobre este filme que parece representar uma espécie de mistura perfeita de Chaplin, Kubrick e Disney?

É sério, pessoal. Vá ao cinema e veja WALL-E. Não importa se for uma sessão dublada, não faz diferença nenhuma.

Em tempo: como bom nerd que sou, não podia deixar de fazer uma comparação que não me saiu da cabeça até agora. Os fanboys vão ter um troço…

Wall-E vs. EVA, PC vs. Mac

Se bem que o Wall-E faz o mesmo barulhinho do Mac quando dá boot. Esses caras da Pixar estão confundindo a gente!

Rápidas

Twitter tá fora do ar (de novo), então aqui vão aquelas pequenas coisas que você pensa quando está na fila do posto de gasolina, ou quando está separando o dinheiro da faxineira, ou quando está vendo pela duodocacentésima vez a propaganda do “Mããe, quero fazer cocô” no canal Sony:

Imagina se os EUA, que não usam o sistema métrico internacional e preferem aquela baboseira de “milhas”, “pés” e “polegadas”, também resolvessem usar um sistema próprio na internet? Tipo…

“Nos EUA, para medir a resolução de telas de computador, adotou-se o digipoint, que equivale a 2,34 pixels…”

“Documentos oficiais do governo americano em formato digital tem seu tamanho medido em e-pages, cuja sigla é “eP” e onde cada eP equivale a 7.046 bytes – que é a quantidade de caracteres da primeira página da constituição norte-americana”

(Sim, eu olhei mesmo quantos caracteres tem a primeira página da constituição dos EUA)

Ontem eu e Bethania fomos jantar e um dos assuntos do bate-papo foram as coisas nas quais a gente investia bastante tempo mas que hoje não tem tanta prioridade assim. Aí falei dos Bit Cousins, antigo projetinho musical meu e de Luiz (parado desde 2006) e Bethania quis saber por que eu não mexia mais com isso:

– Ah, de repente eu me vi beirando os 30 anos, trabalhando como consultor “sênior”, com mulher e cachorro em casa, contas pra pagar… e além do mais, quanto mais eu ouço música – boa música – eu acabo comparando o que faço com o que todo mundo faz, vejo que estou infinitamente atrás deles e acabo desanimando.

A resposta dela foi curta, grossa e direta:

– Você envelheceu. E não foi de um jeito bom, porque você está envelhecendo na cabeça. E agora está aí, arrumando desculpas pra não perseguir seus antigos sonhos.

Ela acertou na mosca. E, por “na mosca”, entenda-se “bem em cima do meu rim direito”, porque ouvir aquilo doeu como um murro nos buchos. Mas eu estava mesmo precisando de um reality check.

O incrível Image Fulgurator

Mais uma da série “links legais demais pra simplesmente jogar no meu del.icio.us“: O incrível “Image Fulgurator”!

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Julius Von Bismarck, esse hacker alemão aí em cima, criou um dispositivo de “manipulação minimamente invasiva de fotos alheias”: ele colocou um flash dentro do corpo de uma câmera normal, que serve para projetar um slide colocado dentro do aparelho. Além disso ele instalou um sensor de luz, daqueles que os fotógrafos usam para fotografar raios, que dispara quando detecta claridade repentina.

Funciona assim: enquanto alguém na rua está tirando uma foto, o Image Fulgurator detecta quando o flash dispara e projeta uma imagem por cima da foto que a pessoa está tirando. Como a coisa acontece numa fração de segundo, a “vítima” só percebe quando vai ver a foto que foi tirada e percebe que ela tem um “algo a mais”…

…como esse pessoal do vídeo aí embaixo:

O Primo’s Spanish Project Saga

Resumindo bastante, a história foi assim:

No fim de maio eu recebi um telefonema da minha empresa de consultoria, me perguntando se eu tinha interesse em participar de um projeto de 12 meses, na Espanha.

Aquilo parecia um presente divino: o projeto era tudo que eu sempre quis do ponto de vista de experiência profissional. Além disso, Bethania (minha esposa) sempre teve vontade de morar no exterior, e o país dos sonhos dela – ora, vejam! – era a Espanha.

A oportunidade era, portanto, irrecusável.

Algumas semanas depois, numa quinta-feira, minha empresa ligou e disse que o meu nome havia sido aprovado pelos líderes do projeto e que só faltava a minha confirmação de que eu queria mesmo ir. Era uma mudança e tanto: Bethania teria que largar o emprego atual e nós teríamos que procurar hospedagem por conta própria, já que, apesar dos meus pedidos, nem o cliente espanhol nem minha empresa iriam me ajudar nesse aspecto.

Sim, iria custar caro, mas a oportunidade era mesmo irrecusável.

Então, no sábado à noite, enquanto jantávamos (convenientemente num restaurante de comida espanhola), eu e Bethania tomamos nossa decisão final. Na segunda-feira seguinte eu liguei para minha empresa, respirei fundo e dei o “sim” definitivo.

“Ótimo!”, disseram eles. Disseram também que minha ida estava confirmada e que ao longo da semana iriam resolver os trâmites burocráticos. E eles tinham pressa: o projeto iria começar em julho e, portanto, começamos a nos preparar: As famílias e amigos foram avisados, Bethania entrou de aviso prévio para poder sair sem prejudicar a empresa, combinamos de deixar o apartamento em São Paulo “emprestado” com uma amiga que estava procurando onde morar, etc. Eu queria deixar tudo pronto para que a ida pra Espanha acontecesse sem impedimentos, o quanto antes. Queria ser responsável com eles. “Os caras estão precisando de mim pra ontem”, pensava eu.

Aqui pro blog eu preparei um belo post intitulado “O Primo vai pra Espanha”, mas… alguma coisa me dizia para colocá-lo no ar só depois de alguma confirmação “física”, como as passagens compradas ou a liberação contratual dos dias de trabalho.

Parecia que eu estava adivinhando. Na sexta-feira seguinte minha empresa me liga e diz assim:

– Olha, eu recebi um email dos líderes do projeto dizendo que eles não poderiam alocar você por causa da exigência que você fez de poder levar sua esposa. Não estou entendendo.

Eu também não estava entendendo. Aquilo devia ser algum mal-entendido porque eu não havia exigido nada: era eu quem iria me virar com hospedagem por conta própria – e ainda fiz questão de confirmar com o líder do projeto que poderia ser assim.

E os dias foram passando e ninguém me dava retorno do que tinha realmente acontecido. O líder do projeto sequer respondia meus emails. Me cansei de esperar e liguei pro cara, lá na Espanha. O que ele me disse foi:

– Olha, é que nós também estamos considerando outros nomes para o projeto…
– Mas o pessoal da formação de equipes me disse que eu já estava confirmado no projeto…
– Hmm, acho que eles entenderam errado…

Muitos telefonemas e várias noites mal dormidas de preocupação depois, a explicação que me deram foi a seguinte: no contrato haviam sido vendidos 14 meses de projeto, mas o preço cobrado foi de 12. Depois que eu fui “confirmado” no projeto, o pessoal concluiu que o custo da minha alocação iria ser muito alto e então começaram a procurar outra pessoa, com menos tempo de empresa (e menor salário) do que eu.

Sabe, é difícil descrever o que eu senti quando me disseram isso. Foi uma decepção profunda misturada com a mais amarga das tristezas: aquela de quem agiu por bem, de quem confiou na confirmação que recebeu e que acabou ridicularizado, injustiçado e enganado.

Se esse amargor fosse só meu ainda seria menos pior, mas ele também afetou a minha família: lembram que Bethania estava de aviso prévio? Lembram que tínhamos amigos despreocupados, contando com nosso apartamento para morar? Pois é.

Mas não vou ficar chorando as mágoas, clamando por justiça ou sentindo pena de mim mesmo. Não há tempo pra isso, afinal, nessa vida, enquanto os bem-intencionados ficam reclamando de terem sido injustiçados, os filhos da puta aproveitam e vão tomando a dianteira. Então o negócio é catar os cacos e tocar a bola pra frente…

They give really good head in Brazil!

Ontem, passando pelo aeroporto internacional de Brasília, notei que o restaurante do aeroporto tem um scotch bar com um nome bem peculiar…

Placa escrito "Good Head"

Pra nós, brasileiros, nada de mais. Mas eu adoraria ver a cara de algum norte-americano lendo aquela placa, já que “good head” significa também “um boquete bem feito”…

Datashow que é show de bola

Ontem eu ia passando em frente à sala de reunião quando um dos funcionários do cliente me chamou:

– Ei, Tinoco…
– O que foi?
– Tá um a zero, cara. Jogão.

Sem entender nada, entrei na sala e vi, no datashow, a Suécia jogando contra a Rússia, pela Eurocopa.

Jogo de futebol no datashow da sala da reunião

Tá certo que a Eurocopa é mais interessante que qualquer apresentação em PowerPoint, mas eram servidores públicos federais, em horário de trabalho, usando recursos públicos pra ver futebol.

Não é atoa que eu digo que serviço público é igual a porta larga da Bíblia…

Coisas como "marketing viral" e "SEO" são o câncer que vai matar a internet

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Propaganda real, de um tal “Mestre SEO”. E eu achando que as pessoas faziam sites para que outras pessoas gostassem…

Sabe o que é mais legal? Agora eu vou opinar sobre marketing e publicidade mas não entendo nada disso. No entanto aqui é meu blog e nele eu posso dizer seja lá o que for que eu pense sobre o assunto. Quem ler pode ignorar, dar umas risadinhas, xingar a minha mãe ou até achar legal e botar um link pra esse post no blog dela, por exemplo.

E aí é que está a mágica da internet: se o que eu escrever for realmente interessante ou relevante, mais e mais pessoas vão botar links apontando pro que eu disse. Note então que o próprio esquema de se fazer referências na internet (ou seja, o link) retira da vala comum o conteúdo relevante e serve como um filtro razoavelmente bom do que é legal ou não. Tanto que os caras que sacaram isso antes de todo mundo ficaram gazilionários.

Aí vem o publicitário, olha pro Sergey Brin e pro Larry Page, se enche de inveja e pensa: “Hmpf, eu quero ser rico igual esses caras”.

Mas aí, ao invés de dançar conforme a música, ele inventa o Search Engine Optimization: técnicas para fazer seu site aparecer mais em resultados de buscas. Mas a internet é terra de ninguém, então vale tudo: encher seu blog de palavras muito procuradas (como o clássico “sandy nua”), forçar a barra pra fazer seu site ser linkado e conseguir maior pagerank no Google (usando link baiting e vários outros métodos)… e aí não é mais o conteúdo relevante que é automaticamente promovido por sua popularidade, e sim o conteúdo do publicitário, que, malandrops como só ele, força as regras pra se promover mais que os outros.

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“Olhem para mim! Eu sou um publicitário carente!”

E a espontaneidade democrática da internet – sua característica mais importante e uma das principais razões pela qual ela ganhou a importância absurda que hoje tem – vai indo pro buraco para que os marketeiros capitalistas encham os respectivos rabos de dinheiro.

Mas o que mais tem me irritado é o marketing viral. Recentemente circulou por aí uma história do “maior desenho do mundo” – um cara que botou um GPS numa maleta e saiu enviando-a pelo mundo, de modo que a trajetória da maleta formasse um desenho sobre o mapa-múndi…

(FAKE) Biggest drawing in the world

E enquanto todos ficavam maravilhados com a criatividade da idéia, os publicitários pulam e gritam “RÁÁÁ! Pegadinha do Mallandro!” e você descobre, dias depois, que o esquema todo era mentira e serviu só para fazer propaganda da DHL, empresa de entregas expressas.

Sabe, senhor publicitário, não tem problema nenhum você querer usar a internet pra se promover. Mas faço minhas as palavras de Lainey Taransky, filha do personagem de Al Pacino no genial filme chamado “S1mone“:

“Seu erro não foi fazer algo falso, papai. Não nos importamos com coisas falsas – desde que você não minta sobre elas“.

Rede Globo deixa famílias menos férteis

Sim, o título deste post é bem sensacionalista. Mas não sou eu quem diz isso, e sim o pessoal de Harvard que, num estudo, percebeu uma correlação entre as novelas da Globo e uma diminuição na quantidade de filhos por família.

O artigo que menciona o estudo, postado no blog da revista Foreign Policy, dá maiores detalhes:

O estudo (…) analisou novelas transmitidas de 1965 a 1999 e descobriu que elas retratam famílias muito menores do que as que atualmente vivem no Brasil. 72% das personagens principais de menos de 50 anos não tinham filhos, e 21% tinham apenas um. Por causa disso, os pesquisadores levantaram a hipótese de que as novelas estivessem agindo como uma forma de controle de natalidade.

Usando dados do censo de 1970 a 1991 e dados de presença da Rede Globo em diferentes mercados, os pesquisadores descobriram que mulheres vivendo em áreas cobertas pelo sinal da emissora têm fertilidade significativamente inferior (e, sim, o estudo avaliou todas as outras variáveis e considerou que a entrada da Globo poderia ter sido efeito de tendências que também contribuem para a diminuição da fertilidade. Estamos poupando você dos detalhes econométricos).

Eu não sei o que é mais curioso nesse estudo: se é o fato de Harvard estar estudando as taxas de natalidade brasileiras ou os comentários adicionais do texto:

Novelas são extremamente populares no Brasil, e a emissora Rede Globo, efetivamente, possui o monopólio das produções (…)

As pessoas que vivem em áreas cobertas pela globo apresentaram uma tendência a batizar seus filhos com nomes de personagens de novela, sugerindo que eram especificamente elas, e não a TV de uma forma geral, que influenciavam a taxa de natalidade.

(Link do artigo via Kottke)

É isso que acontece quando Sandman capricha

O DVD estava em cima de uma mesa ou algo assim. Peguei para olhar a capa e lá estava David Blaine, o mágico famoso… numa pose completamente rock’n roll: lambendo o braço de uma guitarra, guitarra esta que ele tocava com ferocidade. A foto era em um preto-e-branco meio desfocado, meio granulado, e foi feita num ângulo de baixo pra cima estilo “imprensa fotografando do fosso que fica em frente ao palco”, pra dar a impressão ainda maior de que aquela foto era de um show.

“Interessante”, pensei. Botei pra tocar, só pra ver o comecinho.

E lá estava Blaine, no palco, mandando ver num solo de guitarra. Era um daqueles solos bem intensos, do tipo que o músico fecha os olhos, se ajoelha e sai rolando pelo palco como se estivesse recebendo o espírito de alguma coisa. E aí o DVD começou a alternar as imagens do show de Blaine com imagens de algum tipo de cerimônia esquisita: uma filmagem antiga, desgastada, que mostrava uma espécie de terreiro de chão batido, com velas e garrafas espalhadas pelo chão, para a onde a câmera apontava e aonde só se viam os pés das outras pessoas, formando um círculo em volta de um homem, negro, cabelo rastafári, claramente possuído e convulsionando pelo chão. E então eu percebi que o homem era ninguém menos do que o famoso cantor de reggae Jimmy Cliff.

O solo de guitarra ficava cada vez mais agitado e servia de trilha sonora para uma alternância cada vez mais rápida entre as cenas do show e do culto satânico. E a coisa foi ficando cada vez mais intensa, até que a terra batida debaixo da cabeça de Jimmy Cliff foi ficando arenosa e começou a engolir, pouco a pouco, a cabeça do cantor. A terra parecia obedecer à mesma força satânica que possuía Jimmy Cliff – tanto que obedecia o mesmo ritmo das convulsões.  Jimmy tremia descontrolavamente, a terra ia chacoalhando. Aí Jimmy tinha um espasmo, arqueava as costas de repente e gritava: e a terra se abria como que de uma vez só, formando um buraco. Era assustador.

Aí a cena alternava de volta para o show de rock e Blaine, ainda tocando a guitarra, também estava estrebuchando no chão e tendo a cabeça engolida, sabe-se lá como, pelo piso do palco. E no ápice da intensidade do solo de guitarra as cabeças de Jimmy Cliff e de David Blaine foram completamente engolidas pelo chão enquanto eles convulsionavam enlouquecidamente.

E então o despertador do celular tocou e eu acordei.

O discurso de formatura de J.K. Rowling

J.K. Rowling é a autora da série Harry Potter. No último dia 5 ela deu um discurso de formatura em Harvard, intitulado “Os benefícios do fracasso e a importância da imaginação”, que está começando a correr a internet.

Eu li e meu queixo está caído ali no chão. Enquanto não consigo encaixá-lo de volta, resolvi traduzir algumas partes e colocar aqui pro pessol que não sabe inglês também poder ler:

(…)O que eu mais temia para mim mesma na idade de vocês não era a pobreza, e sim o fracasso.

Na idade de vocês, apesar de uma distinta falta de motivação na universidade, aonde eu passei muito tempo na lanchonete escrevendo histórias e pouco tempo nas aulas, eu tinha uma habilidade para passar nas provas, e isto, por muitos anos, foi a medida do sucesso da minha vida e da vida dos meus colegas.

Não sou tola o suficiente para supor que vocês, por serem jovens, dotados e bem-educados, nunca tenham experimentado dificuldades ou decepções. Talento e inteligência ainda não imunizaram ninguém contra os caprichos do destino, e não imagino em momento algum que a vida de vocês tenha sido de privilégio e contentamento irrestrito.

No entanto, o fato de estarem se formando em Harvard sugere que vocês não estejam acostumados com o fracasso. Talvez vocês sejam tão motivados pelo medo de fracassar quanto pela vontade de acertar. De fato, a concepção de fracasso de vocês talvez não esteja tão distante da idéia de sucesso para pessoas comuns, dada a altura do vôo acadêmico de vocês.

Em última instância, todos temos que decidir por nós mesmos o que é fracasso, mas o mundo lhe empurra rapidamente um conjunto de parâmetros, se você o permitir. Então acho justo dizer que, meros sete anos após minha formatura, eu havia atingido um fracaso de proporções épicas. Um casamento excepcionalmente curto havia implodido e eu estava desempregada, era mãe solteira e era tão pobre quanto é possivel ser na Grâ-Bretanha sem ser uma sem-teto. Os temores que meus pais tiveram por mim, e que eu mesma tive, todos aconteceram e, sob todos os critérios usuais, eu era a maior fracassada que já tinha visto.

Mas eu não vou dizer que fracasso é divertido. Este período da minha vida foi um período negro, e eu não fazia idéia de que aconteceria o que a imprensa definiu como uma reviravolta de conto-de-fadas. Eu não fazia idéia do tamanho do túnel, então, por muito tempo, qualquer luz no fim dele era mais uma esperança do que uma realidade.

Então por que estou falando dos benefícios do fracasso? Simplesmente porque o fracasso significou deixar de lado o que não era essencial. Eu parei de fingir que era algo diferente do que eu era, e direcionei toda a minha energia no único trabalho que importava pra mim. Se eu tivesse sido bem-sucedida em qualquer outra coisa, talvez eu nunca tivesse encontrado a determinação de vencer na única arena que eu achava ser a minha. Eu fui libertada, porque meu maior medo havia sido descoberto, e ainda estava viva, e ainda tinha uma filha que eu amava, e tinha uma velha máquina de escrever e uma grande idéia. E então o fundo do poço se tornou a base sólida sobre a qual reconstruí a minha vida.

Talvez vocês nunca fracassem do jeito que eu fracassei, mas algum fracasso na vida é inevitável. É impossível viver sem fracassar em algo, a menos que você viva com tanto cuidado que acaba não vivendo de verdade – sendo que, neste caso, você fracassa automaticamente.

O fracasso me deu uma segurança interior que eu nunca havia obtido passando em provas. O fracasso me ensinou coisas sobre mim mesma que eu não poderia ter aprendido de outra forma. Eu descobri que eu possuía uma grande força de vontade, e mais disciplina do que eu suspeitava; Também descobri que eu tinha amigos cujo valor era maior do que o de pedras preciosas.

O conhecimento de que você saiu mais sábia e forte das dificuldades significa segurança da sua habilidade de sobreviver. Você nunca conhece de verdade sua própria força, ou a força dos seus relacionamentos, até que ambos tenham sido testados pela adversidade. Este tipo de conhecimento é uma dádiva, pois é obtido através de sofrimento, e valeu mais do que qualquer título que eu tenha recebido.

(…)

Talvez vocês pensem que eu tenha escolhido meu segundo tema, a importância da imaginação, por causa do papel dela na reconstrução da minha vida, mas isto não é tudo. Embora eu sempre vá defender o valor das histórias lidas ao pé da cama, aprendi a valorizar a imaginação em um sentido muito mais amplo. A imaginação é a capacidade não apenas humana de visualizar o que não há, e portanto é a fonte de toda invenção e inovação. Em sua capacidade plenamente justificada de transformar e revelar, a imaginação é o poder que nos permite criar empatia com outros seres humanos cujas experiências nunca tenhamos compartilhado.

Uma das experiências mais decisivas na minha formação pessoal aconteceu antes de Harry Potter (…). Nos meus 20 anos, eu pagava o aluguel trabalhando no setor de pesquisa da matriz da Anistia Internacional, em Londres.

(…)

Todos os dias, eu via evidências do mal que a humanidade inflige em seus companheiros humanos, para obter ou manter o poder. Comecei a ter pesadelos, literalmente, sobre muitas das coisas que vi, ouvi e li.

E ainda assim eu aprendi mais do que nunca sobre a bondade humana na Anistia Internacional.

(…)

Diferentemente de qualquer outra criatura neste planeta, seres humanos podem aprender e entender sem ter que vivenciar uma experiência. Eles podem se colocar na mente de outras pessoas, imaginar-se no lugar do outro. (…) E muitos preferem não usar sua imaginação. Muitos escolhem se manter confortavelmente nos limites de sua própria experiência pessoal, sem passar pelo inconveniente de se perguntar como seria sua vida se eles tivessem nascido de outra forma. Podem se recusar a ouvir os gritos ou espiar dentro das prisões; Podem fechar suas mentes e corações à qualquer sofrimento que não os afete pessoalmente; Podem se recusar a tomar conhecimento.

Eu poderia me sentir tentada a invejar pessoas que podem viver desta forma, mas não acho que eles teriam menos pesadelos do que eu. Escolher uma vida em um lugar estreito pode provocar um tipo de agorafobia mental, que traz consigo seus próprios horrores. Acho que os que escolhem viver sem imaginação vêem mais monstros e têm mais medo.

E mais, os que escolhem não criar empatia com outros podem criar monstros reais. Mesmo sem cometer nenhum ato maléfico real, podemos ser coniventes com o mal por nossa própria apatia.

Uma das muitas coisas que aprendi no fim das prateleiras de Literatura Clássica, aonde me aventurei quando tinha 18 anos procurando por algo que não conseguia definir, foi algo escrito pelo autor grego chamado Plutarco: O que conquistamos dentro de nós mesmos altera nossa realidade exterior.

Esta é uma frase estupenda que se prova verdadeira mil vezes, todos os dias de nossas vidas. Ela exprime, em parte, nossa inescapável conexão com o mundo exterior, o fato de que tocamos a vida dos outros simplesmente pelo fato de existirmos.

Mas qual a possibilidade de vocês, graduandos de 2008, tocarem a vida de outras pessoas? Sua inteligência, sua capacidade de trabalhar duro, a educação que vocês mereceram e receberam, lhes dão um status e responsabilidades únicas. (…) Se vocês escolherem usar seu status e sua influência para falar em nome dos que não tem voz; se vocês escolherem se identificar não apenas com os poderosos, mas com os despoderados; se vocês conservarem a habilidade de se imaginarem vivendo as vidas daqueles que não tem as mesmas vantagens que vocês tiveram, então não serão apenas suas famílias que celebrarão, com orgulho, sua existência, e sim milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês tenham mudado para melhor. Não é preciso magia para mudar o mundo. Nós temos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: o poder de imaginar melhor.

(…)

E amanhã espero que, se vocês não se lembrarem de nenhuma das minhas palavras, que se lembrem das de Sêneca, outro daqueles velhos romanos que conheci quando corri para as prateleiras de Literatura Clássica, fugindo dos planos de carreira e buscando a sabedoria dos antigos: “Como uma história, assim é a vida: o que importa não é o quão comprida ela é, e sim o quão boa ela é”.

Desejo a todos vocês vidas muito boas.

Muito obrigado.