“Kind of Blue” – Um comentário sobre jazz feito por quem não entende nada de jazz

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Semana passada eu ia lendo meus blogs e feeds quando topei com um post, favoritado pelo grande chapa Tiagón, sobre “Kind of Blue”, o megaboga disco de Miles Davis. O post dizia que era “o disco mais vendido da história do jazz”, “um dos mais importantes e influenciais de toda a música” e tal. Aí encasquetei que, naquela semana mesmo, ouviria “Kind of Blue” pela primeira vez.

O que me motivou foi o fato de que eu não sei nada de jazz. De fato, eu só tenho UM disco de jazz (“Giant Steps”, de John Coltrane) e li algumas coisas muito picadas sobre como é que os músicos fazem jazz. Então resolvi me usar de cobaia para ver qual o efeito que “Kind of blue”, erigido ao status de master-obra-prima-música-dos-deuses por quem entende da coisa, teria em meus ouvidos de neófito, despreparados para receber tais divindades.

Decidi ouvir o disco na sexta-feira, enquanto voava de Brasília para São Paulo – era o momento mais agradável do fim da semana de trabalho e ainda me dava a garantia de que eu não seria interrompido por ninguém durante uma hora e meia.

A primeira faixa, “So what”, abriu, cuidadosamente, os trabalhos. A primeira sensação foi de conforto por perceber que os músicos estavam seguindo o “padrão jazz” que eu já conhecia: apresentar um setting – tipo um tema musical – e depois improvisar por cima. O tema me pareceu simples, duas notinhas, uma longa e uma curta – que até parecem mesmo dizer: “so what?”. No entanto as progressões harmônicas eram bastante agradáveis – e desafiantes. Atualmente eu já ouvi o disco umas três vezes mas ainda não consegui me localizar totalmente nas mexidas de tom que os caras dão, especialmente em “Freddie Freeloader”, a segunda faixa, que de repente descamba para um tom diminuto que, sei lá, eu não queria ser o cara que ia improvisar em cima daquilo.

Falando em improvisos, eles eram bem do jeito que eu havia lido: o esquema não era exibir técnica e velocidade, e sim trabalhar o lado melódico da coisa – coisa que, pelo que percebi, nosso amigo Miles faz tomando um cuidado todo especial não somente com a melodia, mas com a dinâmica e a expressão. E se considerarmos a melodia como ostorytelling da música, a experiência de ver a história do disco sendo “escrita” em tempo real fez os quase 20 minutos das duas primeiras faixas passarem voando.

“Blue in green”, a terceira faixa, reduziu a marcha do disco ainda mais, o que deixou bastante espaço para os instrumentos ficarem ainda mais expressivos. Eu acho isso bastante interessante, essa coisa de dizer mais com menos, de colocar intensidade no meio de discrição (até comentei disso no meu blog “normal” outro dia), mas eu ainda não sabia que o melhor estava guardado para o final. Prosseguindo, em “All Blues”, a faixa seguinte, reparei que até então os músicos praticamente não haviam caído em nenhum daqueles “clichês melódicos” – sabe, aquelas sequências manjadas que você vê espalhadas por aí, desde o fim das frases na música clássica (seeempre voltando pro tom básico e resolvendo a tensão construída anteriormente) até nas melodias pop de rádio. E aí eu pensava na base de “All Blues” e aquilo parecia induzir as progressões mais óbvias. Mas é como eu disse antes, não entendo nada de jazz – talvez não seja nada disso, mas pra mim o aparente esforço dos músicos em andar por um caminho genuinamente criativo deixava tudo ainda mais interessante.

E aí veio “Flamenco Sketches” – “esboços de flamenco”, numa tradução livre. Meu amigo, minha amiga, eu lhes digo que “Flamenco Sketches” me propiciou uma experiência que tem que ser descrita no detalhe:

Nos primeiros 30 segundos, apoiado pelo piano e pelo contrabaixo, Miles expõe a primeira parte do tema no seu trompete. Melodicamente aquilo não tinha nada de mais, mas eram notas tão bem escolhidas, tocadas de um jeito tão bonito… era um daqueles casos onde o músico pega um punhado de notas simples, descompromissadas, e na hora de junta tudo acaba nascendo uma frase inesquecível – como as notas do tema de Star Wars ou da introdução de Come As You Are, do Nirvana.

Aí, na sequência, a base do piano/contrabaixo faz uma curva de, sei lá, um tom e meio e, para minha surpresa, vai parar num acorde ainda mais bonito. E Miles entra com uma nota – uma única nota – longa, alta e pungente em seu trumpete. Precisamente nesse instante me passaram algumas centenas de coisas na cabeça: a primeira foi “Uou!”; a segunda foi “ah, então é ISSO que aquelas cantoras ficam tentando fazer quando dão aqueles agudos chatérrimos e que todo mundo acha lindo e fica aplaudindo”. É que no caso das cantoras elas até acertam a nota, dão a entonação certinha, botam um vibrato pra dar “um plus a mais” mas ainda assim sempre faltava alguma coisa… precisamente a coisa que estava, de alguma forma, contida naquele agudo pungente do trumpete de Miles Davis. Daquele instante em diante a fama de obra-prima de “Kind of Blue” estava plenamente justificada pra mim.

Só na terceira (ou quarta parte, sei lá) do tema, quando o piano toca aquela sequência realmente típica de flamenco (sabe a música do Vega, do Street Fighter? Mais ou menos aquilo ali) é que a música explica seu nome. E Miles vai acompanhando e, de uma forma que eu nunca vi antes, colocando música em todo e qualquer movimento do seu trumpete – inclusive na hora de silenciar as notas ou de tocar, bem en passant, um semitom. É mais ou menos como se o cara produzisse beleza musical até quando está parando de tocar, revestindo tudo de uma expressividade com a qual eu, definitivamente, não estava acostumado.

Fechando o disco veio um take diferente da mesma “Flamenco Sketches”, também muito bom mas que não teve muita graça por causa do meu nível de fascínio com o take anterior. E aí o disco acabou e eu fiquei ali, perdido em algum ponto do céu do interior de São Paulo, sem saber que disco eu teria condições psicológicas de ouvir na sequência.

O veredito, portanto, é esse: eu posso não entender muito da coisa, mas achei o “Kind of Blue” fenomenal.

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