As imagens que marcaram a semana

…bem, pelo menos a MINHA semana.

Treinamento

Esse aí em cima sou eu, no modo “Prof. Primo”, dando um treinamento no Rio de Janeiro na última sexta-feira. Seria a foto de um dia normal, não fosse este o meu último dia de trabalho deste ano de 2008.

Eu esperei muito, e ansiosamente, por este dia.

Se me pedissem para definir este ano em uma palavra, seria “stress”. Foi o primeiro ano morando em São Paulo, teve o fiasco do projeto na Espanha, tem o projeto atual que está absurdamente estressante e que, quando não me dá insônia, me manda pra lugares nunca imaginados desse Brasilzão de meu Deus. Eu ando até com medo de ler meus e-mails, minha caixa de entrada parece a terceira guerra mundial: só cai bomba. Então foi com um alívio ABSURDO que eu entrei no avião no final da sexta-feira e iniciei, oficialmente, um período de duas semanas de férias entre o natal e o ano novo.

Falando em natal, Papai Noel (ou seja, minha esposa) foi bastante condescendente com meu stress. Ela, que já havia acertado a mão no meu presente de aniversário, resolveu seguir a tendência de presentes “nerd-gamer” no natal e, portanto, agora sou o feliz proprietário de nada menos do que um Playstation 3!

Playstation 3

E mais: na vida real eu ainda viajo de férias para passar uns dias na praia, mas no virtual eu estou adorando minhas férias em Liberty City, a cidade do espetacular Grand Theft Auto IV

Eu sabia que o GTA IV era detalhado, mas não sabia que era TÃO detalhado, tanto que o jogo acompanha um mapa da cidade e um guia das “atrações turísticas”…

gta4

Bom, está na hora de mais um, er, city tour em Liberty City. Só devo voltar a postar aqui ano que vem, então desejo a você, querido leitor, boas festas e feliz ano novo!

P.s.: No dia 25, lembre-se que a coisa toda não se resume a Papai Noel e dê os parabéns ao aniversariante. Mesmo que seja em um breve pensamento.

O Primo recomenda: Alice

alice hbo cartazSim, é aquela série que a HBO produziu. “A história de uma menina de 26 anos que sai de Palmas, no Tocantins, e vem parar em São Paulo”. A premissa não podia ser mais clichê.

Então foi com muita surpresa que, após assistir os treze episódios da série, afirmo: Alice é excelente, fascinante e altamente recomendada.

E é tudo culpa da produção. Alice é absurdamente bem executada. Eu digo sem pestanejar que é a MELHOR produção nacional que já vi, mesmo nascendo com uma proposta batidíssima e, portanto, com tudo pra dar errado. A série mostra São Paulo inteirinha, fala dos seus pontos famosos, mostra seus locais mais conhecidos – e manjadíssimos – mas não fica brega. A personagem principal é a menina se descobrindo no “mundo encantado” da cidade grande – e a história não fica artificial. Os estereótipos estão quase todos lá: o pobre, o rico, o doidão, a modelo, o motorista, o morador de rua, o assaltante, mas nenhum deles é estereotipado nem mostrado daquele jeito forçado estilo “ohh, vejam, o diretor quer mostrar a diversidade da metrópole”.

Pra falar dos destaques da série, só fazendo uma lista mesmo:

  • Os atores mandam muito bem. Na maioria são “ilustres desconhecidos” do ramo, e talvez por isso deixem seus personagens tão autênticos…
  • …em especial a atriz principal, a estreante e talentosíssima Andréia Horta.
  • Os diálogos nunca soam artificiais: não é aquela coisa de novela onde todo mundo se esmera pra falar o português certinho e as frases saem todas de plástico. E, vendo com atenção, dá pra ver que a direção das cenas também guarda algumas surpresas mais artísticas: por exemplo, quando Alice cai, cambaleante, no gelo do meio de um ringue de patinação, aquela queda é também simbólica. Curti bastante estes detalhes.
  • A trilha sonora (do Instituto) acerta no ponto exato entre o urbano e o intimista – e sem passar pelo manjado. O tema de abertura, somado com imagens da cidade filmados com lente tilt-shift, ficou tão bom que dava gosto revê-lo em cada início de episódio.
  • Falando em fotografia, essa aí demonstrou um ótimo olho para captar a beleza tosca (mas sempre beleza) de São Paulo. Beleza esta que me doía, já que eu via os episódios sempre em avião, hotel ou ônibus e acabava com saudade de casa, pensando “olha lá a Nove de Julho… o túnel Ayrton Senna… o terminal Tietê…”. De fato, pelo que andei vendo por aí, Alice parece funcionar ainda mais em quem, como eu, não nasceu em São Paulo mas acabou indo parar lá.

A única coisa manjada da qual a série não teve muito para onde escapar foi que, para ilustrar a “porralouquice” paulistana, o pessoal carrega a mão nas cenas de sexo, drogas e baladas na Rua Augusta. Mas não se trata de nudez gratuita pra dar audiência: tudo faz parte da narrativa, e mesmo as cenas mais picantes são feitas com bastante, err, tato. E uma dica: recomendo evitar assistir os episódios em locais públicos, como salas de embarque de aeroportos – você pode ser surpreendido por uma cena de sexo lésbico entre duas senhoras de 50 anos, e seus vizinhos de cadeira vão te olhar meio esquisito (experiência própria).

alice_hbo

Mas o que mais gostei da série é que São Paulo não é só uma locação: é uma personagem. Ela vive, ela está na trama, ela afeta todo mundo o tempo todo. Neste ponto eu tiro ainda mais meu chapéu para a cidade, pois são poucos os lugares no mundo que tem personalidade suficiente para atuar em seriados…

Eu, sinceramente, torço pra algum canal aberto comprar os direitos de exibição da série, mesmo que seja pra passar de madrugada. Essa é uma série que merece ser assistida por muita gente. Enquanto isso, dá pra achar os treze episódios num torrent perto de você.

P.s.: Falando em séries nacionais, toda vez que eu vejo uma chamada para a série “Ó Paí O” – derivada de um dos PIORES FILMES NACIONAIS DE TODOS OS TEMPOS – eu tenho uma CRISE de DESESPERO.

O Primo recomenda: Almanaque Brasil

Não é segredo pra ninguém que eu viajo muito. O problema é que eu viajo REALMENTE MUITO, coisa que fica evidente quando eu vou cortar cabelo no aeroporto de Congonhas e o cabeleireiro já me conhece e chega perguntando se quero “o corte de sempre”, ou quando eu abro a revista da Tam de dezembro e, no editorial, ela mostra todas as capas das edições do ano e eu percebo que li TODAS. E com tanta leitura aeronáutica eu posso afirmar, com alguma autoridade, que revistas de avião são bem ruinzinhas.

Grande parte da revista da Tam, por exemplo, é merchandising disfarçado. Você pega e lê uma reportagem sobre Frankfurt (para onde a Tam começou a voar no início do ano), outra sobre Orlando (para onde a Tam Viagens está, convenientemente, vendendo pacotes de férias) e outra sobre o show da Madonna (que a Tam está patrocinando). Essa da Madonna, por sinal, tem um dos PIORES textos que já vi. Quando as matérias e entrevistas são boas é porque são “emprestadas” de outras publicações: a revista da Gol, por exemplo, é feita pela mesma editora que faz a revista Trip e é de lá que sai grande parte do conteúdo. Mas fora isto as revistas são obrigadas a seguir uma linha editorial estilo “agradar gregos e troianos” e acaba virando uma mistura de “Caras” com “Você S/A” e com “Viagem”. Não é atoa que o saquinho de vômito fica junto com as revistas…

almanaque brasil Então é com muita surpresa que de vez em quando eu encontro uma das melhores publicações da atualidade perdida no meio dessas porcarias: é o Almanaque Brasil, um grande apanhado de cultura e peculiaridades brasileiras. Ao contrário das revistas de avião comuns, onde o texto é muito mais uma distração pra passar o tempo, o “almanaque” é feito para ser lido de verdade, feito para ser leve e divertido mas interessante. E o mais legal é que ele consegue fazer isso pinçando peculiaridades da cultura brasileira – e mais nada. Não se trata de ufanismo defensivo estilo “fora ianques, vamos preservar o que é nosso”, é mais num sentido “olha o tanto de coisa interessante que o seu país tem”.

E, de fato, ele tem. A revista deste mês, no lugar de entrevistinhas com a celebridade da moda, foi falar com José Júnior, coordenador do AfroReggae. A entrevista é deliciosa: revela a sagacidade do líder que dirige sua obra social como negócio, porque só assim ele consegue ganhar a atenção da molecada de favela antes que o tráfico o faça. Estas matérias mais densas são entremeadas por artigos leves, diversões e curiosidades que talvez nunca aparecessem numa Veja ou Istoé da vida, mas que tem tudo a ver com a proposta da revista – como a divertidíssima história do pessoal do Jogos Perdidos, fãs de futebol que dedicam-se a acompanhar as partidas de times praticamente esquecidos nas terceiras, quartas e quintas divisões do futebol brasileiro (e mundial). A leitura do Almanaque é tão empolgante que eu sempre me pego lendo coisas pelas quais eu jamais me interessaria sozinho, como por exemplo os “causos” de Rolando Boldrim ou as piadas do Barão de Itararé. É que o que veio antes tava tão legal que eu vou lendo no embalo.

Chega a ser difícil acreditar que uma publicação tão boa seja gratuita. E mesmo quem não voa pela Tam pode ler os exemplares passados, inteirinhos, pelo site. Tem também a opção de fazer uma assinatura (meio cara, R$ 8,16 por exemplar) e receber em casa. E mais: o conteúdo do almanaque é licenciado em Creative Commons, podendo ser livremente usado para fins não-comerciais.

O dia em que comi no restaurante de caminhoneiro na beira da estrada

Então eu tinha pousado em Cuiabá e estava percorrendo os 200km restantes até  Ovomaltino, com o motorista do canteiro de obra. Obviamente ele tinha ligado o rádio do carro e, obviamente, tava tocando algum sertanejo tosco, então antes que me desse algum dano cerebral permanente eu liguei o PSP, botei os fones e fiquei jogando Luxor.

Foi por isso que eu respondi sem pensar, dizendo que “qualquer lugar tava bom”, quando ele me perguntou se a gente podia parar pra almoçar. Percebi meu erro só depois de descer do carro e perceber que eu havia parado no município de Jangada, no interior do Mato Grosso. Na minha frente havia apenas a estrada, um monte de caminhões estacionados e uma casinha bem no meio delas. Era o restaurante.

Sim, meus caros. Sabe aqueles restaurantes que você vê na beira da estrada quando está viajando? Aqueles onde na entrada alguém escreveu “COMIDA CAZEIRA” num pedaço de papelão e pregou na varanda? Pois é…

Sabe, eu já comi em lugares toscos, mas aquele era, de fato, autêntico: era um legítimo restaurante de caminhoneiro…

caminhoneiro

Eu me sentei, olhei em volta e percebi que eu era o único “não-caminhoneiro” do lugar. O pessoal da mesa da esquerda (na foto) era praticamente um cosplay do estereótipo do caminhoneiro: roupas velhas e furadas, chinelo, barba por fazer, unhas sujas de óleo e tudo. A decoração do lugar se resumia aos cartazes de propaganda de refrigerante e mais nada. Ao fundo uma tevê de 14 polegadas, mal sintonizada, passava o Jornal Hoje. O cheiro de gordura era onipresente. O calor de mais de 30 graus também.

Uma criança de uns 12 anos, de avental e touca e rosto brilhante de suor, que obviamente era a filha da dona do lugar, me abordou:

– Já foi atendido?
– Err… não.
– Vai almoçar, né?

E, de novo, eu vacilei para responder. Pelo jeito que ela perguntou ficou óbvio que só havia uma opção de comida. Mas por alguma razão minha cabeça ainda estava no fluxo normal de restaurante, com cardápio, escolha do prato e tal. Mas creio que não pensei nisso por burrice ou lerdeza, e sim porque meu cérebro estava muito ocupado sentindo-se perplexo com aquilo tudo.

A opção de comida era bem farta: uma tigela de arroz, uma de feijão, salada de alface e tomate, um vinagrete esquisito e – tcharan! – uma carne na chapa com cebola e mandioca.

caminhoneiro2caminhoneiro3

Repare na coca de 1 litro em casco de vidro retornável. Eu nem sabia que ainda vendiam refrigerante assim…

Para tornar o almoço ainda mais… “desafiante”, minha mesa dava de frente para a cozinha. Eu não tirei fotos, mas a cozinha era apenas um anexo da casa, coberto por um telhadinho mas todo aberto nas laterais, com um fogão industrial e vários panelões. “Bom, pelo menos as cozinheiras estavam de avental”, pensava eu, até que uma delas deixou a tampa de uma das panelas cair no chão. Adivinha se a tampa caída não voltou direto pra cima da panela, logo em seguida?…

Mas é como eu digo, “tá no inferno, abraça o capeta”. Tentei não pensar na salmonela que devia estar na carne e nem nas larvas que possivelmente foram fatiadas junto com o alface e comi como se não houvesse amanhã. E a comida estava mesmo gostosa. E eu ainda estou aqui, vivo, escrevendo este post, então tá valendo.

Mas o mais fascinante eram os caminhoneiros da mesa do lado. Eu não conseguia parar de olhar pro gordão (o da esquerda na foto) porque ele era de fato muito gordo, parecia que ia infartar a qualquer momento. Seus colegas todos comiam debruçados sobre o prato, de boca aberta, e ele, pra piorar, nem prato usava: jogou a comida em cima da chapa da carne e comeu ali mesmo, possivelmente pra temperar o arroz com a “gurdurinha” da chapa. Mas o pior foi no final, quando ele pegou um palito de dente e, antes de metê-lo na boca, usando a faca do almoço, começou a lascar a ponta do palito para deixá-la mais afiada, no melhor estilo “homem das cavernas fazendo uma lança com um galho de árvore”.

E somente na hora de ir embora, ao receber minha nota fiscal, é que eu descobri o nome do lugar: “PICANHA NA CHAPA”. O que eu comi não passava nem perto de uma picanha, mas vá lá.

P.s.: Pra ficar tudo ainda mais surreal, quando voltamos pro carro o motorista ligou o rádio e, nos comerciais, o locutor anunciava o “melhor restaurante da cidade”. E sim, era o Picanha na Chapa.

P.p.s.: Esse post é diametralmente oposto ao daquela vez em que comi caviar 🙂

Update (ago/2014): À luz dos recentes comentários eu queria esclarecer umas coisas.

A primeira é pedir desculpas à caminhoneiros e simpatizantes que possam ter se ofendido com este post. A intenção era apenas relatar uma experiência diferente das que eu, na época, estava acostumado, e não ofender uma das classes mais importantes – se não a mais importante – da infraestrutura e do desenvolvimento do Brasil de hoje. Vocês muitas vezes ganham mal, trabalham muito, sofrem com estradas ruins/perigosas e não tem o reconhecimento que merecem.

Seis anos depois de escrever este post, e com um bocado maior de maturidade, valorizo muito mais vocês – e também valorizo a “comida caseira de beira de estrada”. Ela é, sim, muito mais autêntica e, em vários casos, até mais gostosa do que muito prato caro porém insosso que comi aqui em São Paulo (que tem uma das melhores gastronomias do país) ou em outros lugares do mundo.

Já sobre a música  eu mantenho a minha opinião de que o sertanejo é tosco 🙂

A ficção que precede os fatos – Episódio II

Apesar de estar rodeado de música, bebida e amigos sorridentes, completamente aliviados pelo fim do período escolar, Alexandre estava tenso. A menina à sua frente dava risadas entre um e outro gole de caipirinha e ele até ria junto com ela, mas sua mente funcionava desesperadamente rápida, medindo reações, premeditando toda e qualquer palavra dita ou gesto executado e, principalmente, mantendo viva toda uma lista de diretrizes que não poderiam ser esquecidas em nenhum momento: "não parecer carente demais", "manter a menina se divertindo o tempo todo" e, "na hora H, não vacilar e avançar de uma vez".

Para Alexandre, no topo dos seus quatorze anos, o beijo na boca era a fronteira final. E naquela noite ele era, finalmente, uma possibilidade real. A situação era de campeonato ganho, do time que precisa apenas do empate no último jogo. Bastava segurar a onda por 90 minutos. E Alexandre já tinha conseguido levar a menina para o terraço, longe da bagunça da festa, e a conversa ia bem e a caipirinha amolecia ambas as mentes e deixava os corpos cada vez mais próximos. Por isso sua mente estava a mil: o juiz já estava com a mão no apito, olhando pro relógio.

Seguem-se mais uns cinco minutos de risos e conversa fiada e então, depois de uma ou duas frases mais reticentes, Alexandre olha nos olhos da menina e dentro deles encontra a confirmação indizível de que, sim, o momento era aquele. A mente de Alexandre passou a repetir ainda mais freneticamente os alertas de "não parecer carente demais" até ser bruscamente interrompida pela sensação inteiramente nova de lábios tocando outros lábios, sensação esta que desligou por completo a mente de Alexandre por incontáveis – e agradáveis – minutos.

Alexandre ainda conseguiu repetir a experiência com mais duas outras meninas antes que a noite (e a festa de formatura) terminasse. Daquele ponto em diante era tudo mais fácil, já que agora ele tinha o trunfo do cérebro preparado pela experiência prévia. No entanto, a despeito da mente sã, o corpo não parecia mais tão saudável no final da viagem: primeiro veio a febre, depois as dores de cabeça e, confuso, Alexandre teve que ir ao médico…

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u476471.shtml

Um dia absurdamente atípico na vida d’O Primo

07:00 – O despertador toca. Bethania, ainda zonza de sono, me abraça e murmura qualquer coisa indecifrável. Pavlov percebe que acordei, pula na cama e começa a me lamber.

07:30 – Banho tomado, barba feita, encho uma caneca grande com Sucrilhos e vou pra janela, ficar olhando os aviões descendo em Congonhas.

07:47 – Pego o carro e entro nas ruas já semi-engarrafadas do Itaim. Meu destino é a Vila Olímpia, o bairro vizinho.

08:10 – Chego no trabalho. Missão de hoje: dar um treinamento de gerenciamento de projetos para uma turma de vinte e poucas pessoas.

10:12 – Coffee break. O treinamento vai bem, a turma é bem espertinha e aprende rápido.

12:10 – Hora do almoço. Um quarteirão de caminhada depois e estamos no Seo Gomes. A comida é cara (buffet livre a R$ 25,90) mas muito gostosa. Quem me acompanha é a Agnes, facilitadora dos treinamentos no cliente. Ela conta do Wii Fit que o marido trouxe dos EUA. “Minha filha adora”, diz.

13:15 – O treinamento recomeça e segue sem muitas surpresas até às 17:30.

17:41 – De novo no carro, após deixar uma pequena fortuna no caixa do estacionamento. No caminho eu me encontro com Bethania.

18:30 – Seguem-se conversas triviais de casal, estilo “como foi seu dia”.

19:10 – Devido à preguiça de cozinhar qualquer coisa, resolvemos pedir comida por telefone. Na TV passa um DVD da primeira temporada de House, com quatro episódios.

22:20 – Breve pausa no DVD para comprar os ingressos pro show do Radiohead: alguém avisou no Twitter que já estavam disponíveis, 2 horas antes do início “oficial” das vendas.

23:50 – O DVD de House toca seu último episódio. Sonolentos, eu e Bethania vamos pra cama.

Este, meus amigos, foi, por incrível que pareça, o primeiro dia onde trabalhei em São Paulo, exatamente um ano e 20 dias após ter me mudado pra cá. Eu já havia me esquecido de como é acordar na minha própria cama num dia de semana, ver aviões da janela da minha casa (ao invés de ver minha casa da janela do avião) e até de como é bom ir trabalhar no meu próprio carro e não num ônibus/táxi/van.

A vontade de chutar o balde da consultoria só aumenta.

A ficção que precede os fatos – Episódio I

Dois dias atrás. A pequena Lourdes passeava na penumbra do backstage, perambulando entre a equipe técnica, com seu iPod nos ouvidos. "Viva la vida", do Coldplay, tocava pela vigésima vez. "Que saco", pensou. "Preciso de músicas novas, já enjoei disso"…

Lourdes já estava acostumada com a movimentação em época de turnê. Mal acabava o show e caixas e mais caixas de equipamento eram levadas para os containers que iam para o aeroporto. Apesar da agitação Lourdes ouvia apenas Chris Martin cantando com doçura em seus ouvidos, enquanto homens grandes passavam carregando caixas ainda maiores para contêiners gigantescos.

Então ela teve uma idéia.

A cabine de som ainda não estava totalmente desmontada e o baú com os CDs dos engenheiros de áudio estava aberta. Lourdes correu até lá e começou a vasculhar a enorme coleção para ver se conseguia achar algum CD de música. Mas as anotações à caneta no verso reluzente dos discos diziam apenas coisas técnicas, como "vinheta inicial", "trilha para o bis" ou "áudio de teste para graves". Lourdes já ia perdendo as esperanças quando, no fundo da caixa, um CD parcialmente encoberto deixava ver apenas as quatro últimas letras do seu título: "…BACK".

– "Ei, será que é Nickelback?", pensou Lourdes enquanto tentava alcançar o CD.
– Porra, Lourdes!!

A voz aguda atrás da menina era inconfundível, e era a sua mãe. E estava brava.

– Te procurei por tudo que é lado, pirralha! Vamos logo que o avião sai amanhã cedo!

Lourdes saiu andando cabisbaixa e jogou o CD de volta no baú, sem nem olhar pra trás. Mas o disco bateu na beirada da caixa, caiu do lado de fora e rolou para fora do palco, caindo num canto escuro e inacessível, e lá ficou, esquecido. E nunca mais ninguém leu as letras negras rabiscadas em sua superfície, que diziam: "PLAYBACK".

Na manhã seguinte, já na Argentina com sua mãe, Lourdes não entendeu bem por que a produção do show estava furiosa, falando em cancelamento, dizendo que "se ninguém achasse seria impossível fazer o show". "Bom, se vamos ficar um dia a mais aqui, acho que vou pedir o motorista pra me levar numa loja de CDs", pensou Lourdes, despreocupada.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u474659.shtml