A ficção que precede os fatos – Episódio I

Dois dias atrás. A pequena Lourdes passeava na penumbra do backstage, perambulando entre a equipe técnica, com seu iPod nos ouvidos. "Viva la vida", do Coldplay, tocava pela vigésima vez. "Que saco", pensou. "Preciso de músicas novas, já enjoei disso"…

Lourdes já estava acostumada com a movimentação em época de turnê. Mal acabava o show e caixas e mais caixas de equipamento eram levadas para os containers que iam para o aeroporto. Apesar da agitação Lourdes ouvia apenas Chris Martin cantando com doçura em seus ouvidos, enquanto homens grandes passavam carregando caixas ainda maiores para contêiners gigantescos.

Então ela teve uma idéia.

A cabine de som ainda não estava totalmente desmontada e o baú com os CDs dos engenheiros de áudio estava aberta. Lourdes correu até lá e começou a vasculhar a enorme coleção para ver se conseguia achar algum CD de música. Mas as anotações à caneta no verso reluzente dos discos diziam apenas coisas técnicas, como "vinheta inicial", "trilha para o bis" ou "áudio de teste para graves". Lourdes já ia perdendo as esperanças quando, no fundo da caixa, um CD parcialmente encoberto deixava ver apenas as quatro últimas letras do seu título: "…BACK".

– "Ei, será que é Nickelback?", pensou Lourdes enquanto tentava alcançar o CD.
– Porra, Lourdes!!

A voz aguda atrás da menina era inconfundível, e era a sua mãe. E estava brava.

– Te procurei por tudo que é lado, pirralha! Vamos logo que o avião sai amanhã cedo!

Lourdes saiu andando cabisbaixa e jogou o CD de volta no baú, sem nem olhar pra trás. Mas o disco bateu na beirada da caixa, caiu do lado de fora e rolou para fora do palco, caindo num canto escuro e inacessível, e lá ficou, esquecido. E nunca mais ninguém leu as letras negras rabiscadas em sua superfície, que diziam: "PLAYBACK".

Na manhã seguinte, já na Argentina com sua mãe, Lourdes não entendeu bem por que a produção do show estava furiosa, falando em cancelamento, dizendo que "se ninguém achasse seria impossível fazer o show". "Bom, se vamos ficar um dia a mais aqui, acho que vou pedir o motorista pra me levar numa loja de CDs", pensou Lourdes, despreocupada.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u474659.shtml

3 thoughts on “A ficção que precede os fatos – Episódio I”

  1. // no próximo bloco, amy winehouse tem 30 segundos para regar uma plantinha e sorrir a um pintassilgo antes de ser acometida por uma crise-monstro de abstinência //

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *