A ficção que precede os fatos – Episódio II

Apesar de estar rodeado de música, bebida e amigos sorridentes, completamente aliviados pelo fim do período escolar, Alexandre estava tenso. A menina à sua frente dava risadas entre um e outro gole de caipirinha e ele até ria junto com ela, mas sua mente funcionava desesperadamente rápida, medindo reações, premeditando toda e qualquer palavra dita ou gesto executado e, principalmente, mantendo viva toda uma lista de diretrizes que não poderiam ser esquecidas em nenhum momento: "não parecer carente demais", "manter a menina se divertindo o tempo todo" e, "na hora H, não vacilar e avançar de uma vez".

Para Alexandre, no topo dos seus quatorze anos, o beijo na boca era a fronteira final. E naquela noite ele era, finalmente, uma possibilidade real. A situação era de campeonato ganho, do time que precisa apenas do empate no último jogo. Bastava segurar a onda por 90 minutos. E Alexandre já tinha conseguido levar a menina para o terraço, longe da bagunça da festa, e a conversa ia bem e a caipirinha amolecia ambas as mentes e deixava os corpos cada vez mais próximos. Por isso sua mente estava a mil: o juiz já estava com a mão no apito, olhando pro relógio.

Seguem-se mais uns cinco minutos de risos e conversa fiada e então, depois de uma ou duas frases mais reticentes, Alexandre olha nos olhos da menina e dentro deles encontra a confirmação indizível de que, sim, o momento era aquele. A mente de Alexandre passou a repetir ainda mais freneticamente os alertas de "não parecer carente demais" até ser bruscamente interrompida pela sensação inteiramente nova de lábios tocando outros lábios, sensação esta que desligou por completo a mente de Alexandre por incontáveis – e agradáveis – minutos.

Alexandre ainda conseguiu repetir a experiência com mais duas outras meninas antes que a noite (e a festa de formatura) terminasse. Daquele ponto em diante era tudo mais fácil, já que agora ele tinha o trunfo do cérebro preparado pela experiência prévia. No entanto, a despeito da mente sã, o corpo não parecia mais tão saudável no final da viagem: primeiro veio a febre, depois as dores de cabeça e, confuso, Alexandre teve que ir ao médico…

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u476471.shtml

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