Redimido através de um ovo

Há muitos anos eu e Bethania ainda éramos namorados e por alguma estranha razão estávamos conversando sobre ovos de galinha. E no meio da conversa eu resolvi compartilhar uma dúvida que tinha comigo desde a infância, de quando eu visitava a fazenda do meu tio e via o caseiro pegando ovos do ninho da galinha mas sempre deixando alguns para serem chocados.

– Eu queria saber como o pessoal faz pra saber quais ovos vão dar pintinho e quais não vão…

E Bethania caiu na gargalhada com meu comentário. Eu não entendi nada até que ela explicou que não tinha diferença: era tudo ovo, e tudo viraria pintinho se fosse chocado. E desde aquela época essa história do ovo sempre foi ressuscitada em mesas de bar ou festinhas de família como um de meus vacilos épicos, históricos – usualmente logo depois de eu contar de uma vez em que Bethania ligou para o tele-pizza e fez questão de frisar: “é pra viagem, tá?”.

Daí semana passada alguém mandou no Twitter um link para um texto chamado “As dez frases que tiram um vegetariano do sério”. E enquanto eu passo o olho no texto, eis que no meio do primeiro parágrafo o autor diz:

Minha dieta, porém, não é vegan – continuo comendo ovos (mas não os ovos caipira, pois esses são fecundados e pintinhos sairiam deles. Esses ovos de mercado são induzidos e, por nojento que seja, é basicamente a menstruação da galinha)

Minha cabeça, imediatamente, explodiu. Uma consulta rápida à Wikipedia provocou outra explosão cerebral – mas dessa vez de alegria, ao ver as minhas suspeitas confirmadas:

A maioria dos ovos industrializados para consumo humano não são fecundados, pois as galinhas não tem contato com galos. Ovos fertilizados podem ser encontrados à venda e também comidos, com pouca diferença nutricional. Ovos fertilizados não desenvolvem num embrião pois a refrigeração impede o crescimento celular, por longos períodos.

E então eu descobri que fui vilipendiado injustamente. Por DÉCADAS.

blablabra – O que o Brasil anda twittando?

Com o Twitter cada vez mais popular no Brasil eu fui ficando a cada dia com mais vontade de implementar uma idéia que me ocorreu no começo do ano: um timeline/trending topics só com tweets em português.

Então eu fui lá e fiz. Meus amigos, minhas amigas, eis o blablabra.

blablabra

O blablabra mostra, em tempo real, o que os usuários brasileiros do Twitter estão discutindo: palavras-chave frequentes, #hashtags mais usadas e até os usuários mais comentados/retwittados. Para cada termo há uma página de estatísticas detalhada,  que inclui até gráficos – coisa que nem o Twitter mostra.

Além de satisfazer o prazer voyeurístico de saber os assuntos do momento, o blablabra pode até ser útil para, por exemplo, encontrar outros usuários com os mesmos interesses que você: basta uma procura por alguma palavra-chave que te interesse e o blablabra mostra quem anda conversando sobre aquele assunto.

Fazer o blablabra consumiu algo em torno de 2 semanas. Deu trabalho – mas foi divertidíssimo. Use, divulgue e me diga o que achou aí embaixo nos comentários (ou pelo Twitter mesmo).

Que silêncio, hein?

blAlgumas SEMANAS sem post novo, que coisa. Nem no Twitter eu ando postando direito. Mas é por uma causa nobre.

Estou parindo um filho. Um filho digital: uma idéia que nasceu outro dia mesmo, sem compromisso, e que agora virou uma obsessão que me deixa 16 horas por dia (e muitas madrugadas) em frente ao computador. E agora eu quero muito terminar a coisa, só pra ver no que dá.

Mas já estou acabando. Daí conto o que é e volto ao ritmo normal de postagens por aqui.

Uma corrida maluca onde só concorrem Dicks Vigaristas

Alguns dias atrás o ator Ashton Kutcher, famoso por atuar em filmes como… err… “Cara, Cadê meu Carro?” e “Efeito Borboleta”, e que tinha uns 800 mil seguidores no Twitter, anunciou no YouTube que ia passar um trote no Ted Turner caso conseguisse se tornar o primeiro usuário do Twitter com um milhão de seguidores.

Foi o suficiente para disparar uma corrida entre ele (@aplusk) e a CNN (@cnnbrk), corrida que foi vencida pelo ator na madrugada passada.

Ashton vs. CNN

Muita gente arrumou um jeito de capitalizar em cima da corrida. A Electronic Arts disse que o milionésimo seguidor de Kutcher apareceria em um dos seus próximos games. O próprio Kutcher ofereceu uma cópia do Guitar Hero como prêmio para o eventual sortudo que estourasse a marca do milhão de seguidores. Até o Anonymous (lembra?) criou o @basementdad, um usuário inspirado em  Joseph Fritzl (aquele pedófilo austríaco que manteve a própria filha em cárcere privado por 24 anos), e tentou colocá-lo na corrida.

Na minha opinião os fundadores do Twitter (Evan Williams e Biz Stone), que parabenizaram a vitória de Kutcher, deveriam ter se manifestado CONTRA esse tipo de coisa. A meu ver a naturalidade dos relacionamentos no Twitter é o que o serviço tinha de mais valioso, com as pessoas seguindo umas às outras por afinidade e apenas por isto. E esse teatrinho do Kutcher e da CNN é como uma corrida maluca onde só concorrem Dicks Vigaristas.

Maneiras artificiais para engordar número de seguidores – e aqui cabe lembrar da turminha brasileira que recentemente andou usando scripts para isto – são como câncer: um inchaço repentino e anti-natural que, no fim, mata seu hospedeiro.

Não é por nada não, mas eu acho que este é o começo do fim para o Twitter. Agora é rezar pro Google comprá-lo antes que ele imploda ou caia no ostracismo.

Por que o Brasil não vai pra frente?

É por causa disso aqui:

caneta

Tudo que é banco usa essa tal “caneta fixa”: um tubo de metal com uma carga de caneta Bic que fica acorrentado na mesinha. Bancos fazem isso porque senão a caneta acaba sumindo. Agora note que, na foto, a ponta da caneta está enrolada com fita adesiva: o banco fez isso porque senão as pessoas roubam a carga da caneta.

E é por isso, meus caros, que nosso país não vai pra frente.

Afinal, quanto custa uma caneta Bic? Se canetas custassem muito dinheiro até dava pra entender o roubo, considerando a situação miserável na qual vive a maior parte dos brasileiros. Mas é uma caneta Bic, a mais simples e barata de todas. Existem vários modelos de caneta muito melhores que a Bic e que são AINDA tão baratos que acabam sendo dados de brinde (tem umas quatro dessas aqui no meu porta-lápis).

Por inferência eu devo entender que essa pessoa também não pensou nos clientes do banco que vão chegar ali depois dela e vão ter problemas pra fazer seu depósito porque não tem caneta disponível. O ladrão segue a “lei de Gérson” básica: obter vantagem pessoal mesmo que isso comprometa a coletividade – e mesmo que a “vantagem pessoal” seja uma simples carga de caneta.

bus_stop_arm Agora voltemos ao ano de 2005, quando morei no Canadá. Uma vez eu e meus colegas estávamos de carro e havia um ônibus escolar parado na nossa frente, deixando crianças na porta de uma escola. Os ônibus escolares tem uma placa de “PARE” retrátil, como a da foto ao lado, que fica ligada quando as crianças estão descendo. Por lei, nenhum carro deve ultrapassar o ônibus nessa hora, pois há o risco de alguma criança ser atropelada. Mas nós não sabíamos disso e passamos o ônibus mesmo assim. E nesse instante a rua inteira gritou conosco. Sim, a rua INTEIRA, incluindo gente que estava só passando no local e que não tinha nenhum parente ou conhecido no ônibus: TODO MUNDO recriminou violentamente nossa atitude. Este é o inverso do roubo da caneta Bic, é um caso onde o bem-estar da coletividade vale mais do que a vantagem pessoal: ninguém se importa de perder dois ou três minutos do seu dia esperando o ônibus descarregar as crianças – e mais, as pessoas ainda cobram que os outros tenham a mesma atitude. Por isso os bancos canadenses não tem caneta fixa. Nem detector de metal na porta. E funcionam de 8 às 18h. E abrem no sábado.

Pra mim não há como construir um bom país sem colocar a coletividade na frente do ganho pessoal. E nesse ponto o Brasil ainda tem muito a progredir…

Update (12/04): Nos últimos dias eu comecei a estranhar a avalanche de xingamentos nos comentários deste post: um monte de gente me chamando de tudo que é nome (a pretexto de “defender a pátria”) e me acusando de ser generalista, preconceituoso, etc. Me chamaram até de “argentino”  – e depois o preconceituoso sou eu…

Foi aí que eu percebi que o “monte de gente” não era bem um monte de gente, era uma pessoa só escrevendo um monte de comentários com vários nomes diferentes. A imagem abaixo é da tela de aprovação de comentários (clique para ampliar). Observe que todos eles vieram do mesmo endereço IP (76.68.244.178)…

trolls

E é por causa de gente assim, meus caros, que nosso país não vai pra frente.

Agora, o que está me encucando é que o IP desse cara indica que ele está no Canadá. Essa eu não entendi…