Beacons of Ancestorship, faixa a faixa

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Depois de um hiato de cinco anos sem lançar material inédito, eis o retorno do Tortoise, banda das mais caras ao coração deste que vos escreve, retorno este que deu-se da seguinte forma:

1. High Class Slim Came Floatin’ In – É o início do disco, mas você chega logo a uma conclusão: Toda banda muito boa tem, obrigatoriamente, um PUTA baterista – coisa mais do que confirmada a cada disco do Tortoise. Foi assim em “Djed”, foi assim em “Seneca”, e dessa vez não é diferente. “High Class Slim Came Floating’ In” é longa (8’14”) mas contém umas cinco músicas diferentes dentro de si. Mais umas duas ou três audições e você terá a surpresa de notar que as cinco músicas fazem referências umas às outras. Sim, Tortoise tem muitas camadas.

2. Prepare Your Coffin – Bem, digamos que é uma daquelas “putaquepariu que filhos da puta como é que eles fazem isso” kind of song.

3. Northern Something – A terceira faixa traz duas certezas: uma é a que a distorção veio FORTE nesse disco, e a outra é que toda banda muito boa, sim, tem um PUTA baterista. Mas note que a parte do “puta” em “puta baterista” refere-se menos à técnica e mais a um certo senso rítmico, uma compreensão dos alicerces de uma boa batida.

4. Gigantes – O título em provável-português, as palmas e as cordas beliscadas dão uma impressão meio “capoeira” à coisa toda. Mas da segunda metade da música em diante o norte-americanismo do Tortoise volta a dominar.

5. Penumbra – É uma “música-pintura” de um minuto: mais estática que dinâmica, pinta uma paisagem de timbres muito mais do que desenvolve uma história.

6. Yinxianghechengqi – Barulhenta demais numa primeira audição e genial em todas as subsequentes. Pense na estética do punk rock usado como veículo para a técnica de progressão harmônica do jazz moderno. Pouquíssimas bandas teriam os colhões para tentar uma coisa dessas. Menos ainda a habilidade de se dar bem no final.

E deste ponto em diante o disco muda COMPLETAMENTE:

7. The Fall of Seven Diamonds Plus One – É a versão musical de um pai dizendo ao filho, num tom preocupado: “Sente aqui, meu filho. Preciso lhe dizer umas verdades”. A analogia com uma conversa não é por acaso: as guitarras dedilhadas tocam melodias tão evidentes, tão expressivas, que são mais diálogo que música. Destaque para o ritmo “assombrado”, marcado de quatro em quatro tempos ora por um baque seco, ora pelo tilintar de correntes metálicas.

8. Minors – O título dá a dica: progressões harmônicas em acordes menores, tocadas com timbres veranescos. Serve para resgatar o ouvinte do clima taciturno da faixa anterior e para dar o tom do resto do disco (basicamente: menos distorção).

9. Monument Six One Thousand – O disco começa a esfriar a partir daqui. As guitarras escalam escalas modernas sobre um chão de baixo meio ácido. A música parece não saber bem para onde está indo – coisa rara nos discos do Tortoise.

10. De Chelly – É um pequeno interlúdio de menos de dois minutos, bem solene. Lembra Bach e Laranja Mecânica.

11. Charteroak Foundation – Uma faixa bem cerebral, pra fechar o disco. Teclados dançando sobre um ever-repeating baixo tocado fora do ritmo, tanto do jeito certo (tercinas) quanto do jeito errado (realmente fora do tempo em alguns momentos). E, onze faixas depois, você tem a reconfortante certeza de que o Tortoise continua desgraçadamente bom.

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