“Black Sea”, Fennesz (ou: Retrospectiva 2009)

Primeiro é preciso olhar bem para a capa do disco.

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Em um mundo normal uma imagem vale por mil palavras. Nos mundos (porque não são músicas, são mundos) construídos por Christian Fennesz apenas com “guitarras elétricas e acústicas, sintetizadores, aparelhos eletrônicos,lloopp e computadores”, são os sons que valem por mil imagens como a da foto – sons de tom frio e monocromático, sons de um longo trajeto cujo destino é obscuro. De fato, “obscuridade” e “amplidão” é o que deve ser lido do nome do disco.

E não há facilidades. “Black Sea” é denso e difícil. As melodias são escassas: todo o resto do espaço sonoro não é nem preenchido, e sim consumido por sons graves e distorção árida. Mas no fundo, bem no fundo de suas paisagens tristes e monótonas, “Black Sea” carrega consigo uma beleza autêntica, autêntica por não ser plástica, por não ser ordinária, uma beleza que surge justamente da aceitação de que todas as outras aproximações da beleza que são vistas espalhadas pelas artes são, de certa forma, tentativas de negação do que realmente somos: torpes, imperfeitos e maus. “Black Sea” não tenta se distanciar desta realidade; ao contrário, é uma enorme imersão nela – e é nessa franqueza que sua beleza se encontra.

“Black Sea” é a melhor coisa que ouvi no ano de 2009. E “Black Sea” é a representação perfeita de como foi o meu ano de 2009 – vazio, ácido e difícil, mas salutar à sua maneira. Por muitas e muitas vezes eu coloquei os fones de ouvido e me sentei naquela praia cinzenta, sozinho, e olhei o mar por horas a fio enquanto a música ilustrava o lento submergir dos cadáveres das minhas utopias, que desciam lentamente, solenemente, até o fundo do oceano.

MySpace – Official Site

PS.: Este post foi originalmente publicado no Impop, blog da Verbeat, hoje extinto.

A saga do roubo de notebook em Congonhas

No domingo da semana retrasada São Paulo ardia em febre e meu telefone tocou: era um amigo querendo sair pra tomar uma cerveja e afogar aquele calor maluco. “Tudo bem, só preciso levar Bethania em Congonhas pra pegar um avião e a gente toma uma”, respondi.

No caminho, o telefone de Bethania (que viajaria com mais 2 colegas de trabalho) toca com a notícia bombástica: roubaram a mochila e a bolsa de uma delas, bem ali, no passeio logo em frente ao aeroporto. Ela estava com um carrinho de bagagem esperando uma das colegas chegar quando um cara passa, pega a mochila, sai correndo e entra num Gol branco. A menina até tentou correr atrás dos caras (péssima ideia) mas desistiu assim que viu uma arma sendo apontada em sua direção.

roubo Um detalhe: o ladrão deixou cair seu celular durante o roubo. E mais: como o carro dos ladrões parou em fila dupla durante o roubo um dos marronzinhos da CET foi multar o carro e, portanto, anotou a placa.

Enquanto fazíamos o boletim de ocorrência chegaram os policiais civis que ficam de plantão no aeroporto. Um deles, o homem mais GIGANTESCO que já vi, foi o que mais comemorou quando ficou sabendo do celular e da placa do carro. Segundo eles, há semanas eles tentam pegar essa quadrilha – e com o celular e a placa do carro tudo ficou bem mais fácil. Ele até mostrou pra nós um vídeo das câmeras de segurança (esse aí da foto) mostrando um assalto similar ocorrido no dia anterior. O cara estava empolgadíssimo: “agora eu vou me divertir com esses caras, eles vão ter tratamento VIP”, dizia ele, enquanto apalpava efusivamente a pistola que carregava na cintura. A vítima do assalto também estava bem animada com a possibilidade de pegarem os meliantes e até fez uns pedidos especiais ao policial, coisas como “puxa bastante as bolas dele pra ele ficar impotente” e por aí vai.

Aí pegamos a bagagem das meninas, botamos de volta no carrinho e saímos do posto policial para remarcar as passagens. Estávamos esperando em frente ao guichê da Tam quando, de repente, um moleque aparece de repente, pega duas das malas que estavam no nosso carrinho e sai andando apressado. Todo mundo ficou IMÓVEL, paralisado pela ideia de que estava acontecendo tudo de novo, até que o “ladrão” se vira, mostra o dedo médio pra nós e sai, esbravejando. E alguém comenta:

– Errr… esse era aquele menino que estava no posto policial com a gente? Um que tinha perdido a carteira?

E todo mundo cai na gargalhada. Aparentemente, nós, vítimas de roubo de bagagem, acabamos “roubando” a bagagem dos outros sem querer – e o que é pior, de dentro da delegacia. Aparentemente estávamos mais competentes pro crime do que os ladrões de verdade…

Mas depois do roubo involuntário e de longas horas remarcando passagem, Bethania e as meninas viajaram no dia seguinte. Quando ela voltou, na terça à noite – surpresa! – a polícia já tinha pego os caras. Segundo ela rolou até um police lineup, com os meliantes enfileirados e a vítima atrás de um espelho falso, pra fazer a identificação dos marginais. Eu dava tudo pra ter visto isso. Rolou até uma matéria sobre o roubo no Jornal da Globo. O vídeo que eles usaram pra ilustrar o roubo, por sinal, é o mesmo que o policial nos mostrou no domingo.

Pelo menos tivemos um final “semi-feliz”: apesar das perdas materiais (nada do roubo foi recuperado), pelo menos os caras foram presos. Inclusive preciso destacar o excelente atendimento dos policiais em todo o ocorrido: foram rápidos, atenciosos, prestimosos e ainda pegaram os caras.

Rápidas

O andar logo abaixo do que eu trabalho está em reforma. Às vezes os pedreiros deixam a porta aberta e dá pra perambular um bocado por ali.

 reforma

Virou instantaneamente o meu lugar predileto do prédio.

Hoje eu estava no hall do hotel e a TV passava a abertura de “Caras e Bocas”.

Não reconheci 95% dos nomes de atores/atrizes que aparecem na abertura.

Me senti orgulhoso.

Agora o cooler do meu notebook… er… “canta”. É o popular “pau no cooler” por conta de poeira.

Pelo visto neste final de semana teremos autópsia computacional para limpeza. Desejem-me sorte. Ela anda faltando este ano.

Feliz Natal

feliznatal

“Feliz Natal” é o nome da obra aí em cima, da artista Isabela Magalhães, exposta no hall de entrada do prédio do meu cliente aqui em Brasília (tá rolando uma exposição de obras feitas por funcionários e familiares). A maioria dos colegas da minha equipe detestaram “Feliz Natal”. Eu fiquei absolutamente fascinado.

Você pode apreciar “Feliz Natal” parando no grotesco e percebendo apenas um Papai Noel decapitado e com o olho esquerdo arrancado, ou pode reparar na posição do corpo do Papai Noel, fixado na madeira, de braços abertos, com pregos nas mãos e com os pés sobrepostos. Por acaso isso te faz lembrar de alguma outra figura relacionada com o Natal? Talvez aquele famoso profeta cristão que morreu na cruz e que – ora veja! – nasceu no dia de Natal? É exatamente por isso que eu adorei essa obra – porque ela diz, visualmente, veementemente, coisas que desde 2003 eu fico berrando aqui no blog. Coisas sobre o tanto que o Natal deixou de ser o nascimento de Jesus Cristo e virou a festança do “bom velhinho” e da comilança na ceia de natal e do boom do comércio por causa da trocação de presentes.

Outra parte do brilho artístico de “Feliz Natal” vêm também da reação de quem vê a obra. Alguns colegas ficaram ultrajados com a agressão sofrida pelo Papai Noel. No entanto a figura daquele outro cara relacionado com o Natal ensanguentada na cruz é cultuada no mundo católico e não costuma despertar nem um pouco da comoção que o Noel aí despertou. E se o Jesus crucificado serviu para “tirar o pecado do mundo”, talvez o Noel crucificado tente servir um propósito semelhante, mas dessa vez em pecados mais modernos, impossíveis na antiga Jerusalém aonde não existia capitalismo. Talvez este seja o presente da artista para o mundo.

Eu, com certeza, me senti presenteado.

P.s.: Eu até daria outras informações da exposição pra você poder ver a obra, mas isso implica em dizer onde tou trabalhando, e tem contrato de confidencialidade, e meus empregadores são paranóicos, etc. Então, não.

Do porquê de eu gostar de música

Era sexta-feira e eu estava entrando no avião para voltar pra casa. Os cinco dias de trabalho da semana haviam sido absolutamente caóticos e tanta coisa complicada e estapafúrdia havia acontecido que minha cabeça estava tentando amarrar as pontas soltas e conceber alguma sequência lógica, algum significado de dentro daquela bagunça completa que havia sido minha semana. Até que as duas pontas dos fones foram inseridas dentro dos ouvidos e me veio a epifania que, agora, culmina neste post e que tentarei (ou possivelmente falharei em) detalhar nos parágrafos a seguir.

balmorhea

Primeiro, consideremos a necessidade humana de atribuir sentido a tudo. É natural, biológico; o que nos torna humanos é a insistência do cérebro em contextualizar tudo com o qual tem contato, em buscar padrões, entender processos, motivos, razões. Se você pergunta as horas a alguém e esse alguém responde “desculpe, não sei falar português”, você será automaticamente capturado pelo nonsense de uma resposta como essa e tentará desesperadamente conceber alguma razão para que a pessoa tenha respondido aquilo – mesmo que esta razão não exista. Ou você conseguirá simplesmente ignorar uma resposta como essa? Por alguns instantes, pelo menos, aquela pessoa terá domínio total e completo da sua mente. É por essa insistência do cérebro em produzir sentido que as pessoas vêem borboletas em testes de Rorschach, concluem que 🙂 é um sorriso ou ouvem mensagens satânicas em discos da Xuxa reproduzidos de trás pra frente.

E então temos a música – e não se sabe até hoje ao certo pra que fim prático ela serve ou por que diabos o ser humano resolveu se expressar através dela. Música não é necessária como comer ou dormir, música é efeito mas não é causa, é um fim em si mesma. Música, em essência, não faz sentido – nem sequer estruturalmente. Ao escrever este parágrafo, por exemplo, meus fones tocam “We will rebuild with smooth stones”, música do Balmorhea (que empresta uma de suas capas de disco para ilustrar este post). É uma música tocada por dois violões e apenas por eles. São grupos de sons tocados em tons e volumes diferentes, às vezes ritmados e repetidos – uma descrição que poderia servir para descrever também o barulho de um canteiro de obra.

Mas no final daquela sexta-feira caótica, num mundo que lhe obriga a questionar o tempo todo qual o propósito das coisas que você gasta o dia fazendo – e onde, em vários momentos, esse propósito simplesmente não existe – é que a música nos fones de ouvido apareceu como algo reconfortante, como uma entidade de um universo aonde é permitido não fazer sentido. E isso é a melhor coisa sobre música: é uma das únicas coisas que pode existir confortavelmente sem porquê ou ser sem razão de ser.

A melhor coisa da música é que ela não precisa fazer sentido.

Projeções diversas

Meu entretenimento predileto em reuniões continua sendo acompanhar as formas que o datashow gera em cima das pessoas que entram na frente dele quando estão apresentando alguma coisa. Outro dia eu tive que segurar MESMO o riso ao ver meu chefe transformar-se instantaneamente em um SUPER-HERÓI MASCARADO ao ficar com a cara bem em frente a um losango vermelho do fluxograma que estávamos projetando.

Domingo passado Bethania arrumou um filme que eu nunca havia ouvido falar chamado “Amantes” (Two Lovers) pra gente assistir. É a história de Leonard (Joaquim Phoenix), um cara com aquelas bicheiras psicológicas modernas (bipolar, borderline, sei lá) que se envolve com duas mulheres.

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O filme vai indo super normal até que, no ÚLTIMO MINUTO, o tal Leonard – com apenas uma frase e um gesto – converte instantaneamente o filme de “draminha mediano” para “absolutamente genial”, daqueles que te deixam abobado por vários minutos olhando os créditos subirem, tentando absorver aquilo que acabou de ocorrer. Pelo nome e pela história, “Amantes” pode até parecer comédia romântica de locadora, mas não se engane: é um PUTA filme.

E não posso falar de Amantes sem relembrar a inacreditável entrevista que seu astro principal, Joaquim Phoenix, deu em estado absolutamente irreconhecível (tanto física quanto psicologicamente) para o David Letterman…

Por sinal, na esmagadora maioria das vezes em que fui ver um filme sem saber absolutamente NADA sobre ele – sem sequer ler uma sinopse – eu me dei muito bem. Sinopses só servem pra estragar filmes. “Distrito 9”, por exemplo, que vi outro dia, foi bem marromenos porque ler a sinopse já entregou muito do que o filme tinha de melhor.

Ainda no âmbito cinematográfico, em 2002 eu postei aqui neste blog, abobado, a seguinte frase:

Quando me perguntarem qual o melhor filme que já vi, direi “Evangelion”. E quando me perguntarem “Qual dos três filmes?” eu direi: Evangelion é um filme de 26 episódios.

E não é que outro dia um colega de trabalho de Bethania me avisou que estão fazendo um “rebuild” de Neon Genesis Evangelion em – tchan tchan tchan tchaaan! – quatro longas-metragens?

Os dois primeiros filmes já foram feitos, e esta semana eu consegui tempo pra assistir o primeiro deles. Veredito até agora: WHOA.

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Pelo que li os novos longas são bem fiéis ao original (como o “antes e depois” aí em cima está mostrando), embora incrementados com CG em 3D. E algumas cenas serão totalmente repaginadas pra ficar do jeito que o autor sempre quis.

O guarda-chuva amarelo

Interrompemos o hiato de vinte e um dias sem post para informá-los do momento surreal que vivi ontem no trabalho.

Eu e meu consultor-líder (chamemo-lo de Obi-Wan Kenobi) entramos em uma reunião às 11:30 da manhã para fazer uma apresentação com duração de uma hora. Acontece que slides de PowerPoint distorcem o espaço-tempo de tal maneira que a reunião foi acabar lá pras quinze pras duas da tarde, e na hora que nós dois, famigerados, botamos o pé na rua para ir almoçar, Brasília se dissolvia em chuva. “Ok, vamos dar um tempinho aqui que a chuva já deve passar”, combinamos.

Nem preciso dizer que ela não somente não passou como engrossou ainda mais, e as lombrigas do estômago lá, agonizando, enquanto eu olhava desconsolado o pessoal que era precavido e veio trabalhar com guarda-chuva voltando pra dentro do prédio, todo almoçadinho. “Putz, Obi-Wan, se pelo menos a gente tivesse um guarda-chuva…”, disse eu, desavisadamente.

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E então, sem a menor cerimônia, Obi-Wan aborda o completo desconhecido que está passando na nossa frente com um guarda-chuva amarelo na mão.

– Ei, onde você arrumou esse guarda-chuva?

O cara faz uma cara de absolutamente perplexo (igualzinha a minha) e responde, hesitante:

– Err… é meu, eu comprei e tal.

E aí segue-se um momento absolutamente surrealista, onde a situação é tão ridícula que, apesar de todo mundo saber a intenção de todo mundo, ninguém se dispõe a expressar o ridículo da situação em palavras, e então a coisa toda é combinada com frases pela metade, tipo:

– Mas vocês querem…?
– É, tem problema se a gente…?
– Não, eu acho… vocês trabalham aqui no…
– Sim, você fica em qual andar?
– Ah, no décimo, depois vocês podiam…
– Claro, claro…

E então lá estávamos nós com o guarda-chuva do completo desconhecido em mãos. E eu lá, esperando pra ver como diabos Obi-Wan explicaria o que acabou de acontecer: pura e simples cara-de-pau? Foco no resultado? Um simples apelo à solidariedade humana? Fome em nível grande o suficiente para atravessar quaisquer inibições? E então ele diz:

– Putz, que coisa, achei que o guarda-chuva era de algum restaurante ou coisa assim…