“Black Sea”, Fennesz (ou: Retrospectiva 2009)

Primeiro é preciso olhar bem para a capa do disco.

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Em um mundo normal uma imagem vale por mil palavras. Nos mundos (porque não são músicas, são mundos) construídos por Christian Fennesz apenas com “guitarras elétricas e acústicas, sintetizadores, aparelhos eletrônicos,lloopp e computadores”, são os sons que valem por mil imagens como a da foto – sons de tom frio e monocromático, sons de um longo trajeto cujo destino é obscuro. De fato, “obscuridade” e “amplidão” é o que deve ser lido do nome do disco.

E não há facilidades. “Black Sea” é denso e difícil. As melodias são escassas: todo o resto do espaço sonoro não é nem preenchido, e sim consumido por sons graves e distorção árida. Mas no fundo, bem no fundo de suas paisagens tristes e monótonas, “Black Sea” carrega consigo uma beleza autêntica, autêntica por não ser plástica, por não ser ordinária, uma beleza que surge justamente da aceitação de que todas as outras aproximações da beleza que são vistas espalhadas pelas artes são, de certa forma, tentativas de negação do que realmente somos: torpes, imperfeitos e maus. “Black Sea” não tenta se distanciar desta realidade; ao contrário, é uma enorme imersão nela – e é nessa franqueza que sua beleza se encontra.

“Black Sea” é a melhor coisa que ouvi no ano de 2009. E “Black Sea” é a representação perfeita de como foi o meu ano de 2009 – vazio, ácido e difícil, mas salutar à sua maneira. Por muitas e muitas vezes eu coloquei os fones de ouvido e me sentei naquela praia cinzenta, sozinho, e olhei o mar por horas a fio enquanto a música ilustrava o lento submergir dos cadáveres das minhas utopias, que desciam lentamente, solenemente, até o fundo do oceano.

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PS.: Este post foi originalmente publicado no Impop, blog da Verbeat, hoje extinto.

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