E se eu clicar em “novo post” e sair escrevendo?

Deixar o caos trabalhar um pouquinho?

O que eu mais odeio no nosso hotel brasiliense (Nobile Suites) é o elevador, que é bugado. “Bugado” as in “com bugs”, “bugs” as in “defeitos de software de computador”. Você aperta o botão para o seu andar, ou o botão de chamá-lo, e de repente o botão apaga, como se o elevador esquecesse que você apertou o bendito.

Isso sem contar que outro dia ele caiu com metade da minha equipe dentro. Cheguei no hotel para fazer o check-in e o alarme do elevador tava soando, e os funcionários com a maior cara de paisagem. Aí eu perguntei: “Ei, tem gente presa no elevador ou é impressão minha?”, e a funcionária do hotel nem precisou responder porque deu pra ouvir os caras gritando SOCORRO de lá de dentro. E aí passava o carinha do restaurante e depois o mensageiro e depois a recepcionista, todos com a maior cara de que não havia nada acontecendo. “Ah, já chamamos o pessoal da manutenção”, dizia ela.

Por sinal eu nunca:

  • Fiquei preso em elevador
  • Quebrei braço ou perna ou qualquer outro osso do corpo
  • Fumei maconha

E até essa última viagem que fiz eu nunca havia comprado uma garrafa de whisky. Na verdade eu nunca havia bebido whisky até bem pouco tempo. Essa é uma daquelas coisas que requerem uma certa maturidade para serem devidamente apreciadas. Dez anos atrás e eu me lembro de ter provado do copo de algum amigo em alguma festa de formatura e achado aquilo sem graça. Hoje entendo perfeitamente porque chamam um bom whisky de “o melhor amigo do homem, o cão engarrafado”, etc.

Mas esse negócio de “conseguir realmente apreciar certas coisas só após adquirir uma certa maturidade” é o que eu mais tenho curtido dessa história de ter mais de 30 anos de idade. Isso é especialmente verdadeiro no campo da música. Às vezes eu boto aquela música que tem dez anos que ouço e que antes apenas tocava e agora ela está lá, conversando com você, e você entendendo de uma maneira que nunca entendeu antes. É fascinante.

Outra coisa divertida é ouvir trabalhos novos de bandas tão velhas como você e, usando seu novo superpoder chamado “maturidade”, enxergar as faixas não como músicas mas sim como produto das décadas de história vividas pela banda, como um registro histórico sonoro de tudo que a banda passou. Dia desses o random botou uma música do último disco do Kraftwerk pra tocar. Durante toda a sua carreira o Kraftwerk fez discos em homenagem à máquinas e tecnologias. “Tour de France”, o último disco, de 2003, substituiu o mensch-maschine (homem-máquina) pelo “mensch, der Maschine” (a máquina humana): o foco é o corpo humano, a máquina que impulsiona as bicicletas da famosa corrida francesa. E aí, graças aos ouvidos calejados com milhares de horas de música ao longo de trinta anos, agora dá pra perceber que o Kraftwerk mudou também a fundação sonora-criativa do disco: a expressividade não é mais dada pelas melodias, e sim pelos timbres e pelos filter-sweeps. Antes quem conversava com você eram as notas e seus tons, agora são os sons e suas cores.

São novos tempos.

Claro que ajuda usar bons fones de ouvido. Ainda estou em lua-de-mel com meu novo par de fones Shure SE-210 que, sim, custaram caro, mas valeram cada centavo. Na última sexta-feira eu estava no avião, maravilhado por conseguir ouvir coisas nas minhas músicas que eu nunca tinha percebido. Aí eu olhei para a esquerda e, pela janelinha do avião, vi que a turbina daquele monstrengo enorme estava rugindo a quase duzentos decibéis, logo ali a uns cinco metros de mim, e eu não ouvia ABSOLUTAMENTE NADA.

Todo mundo devia usar um bom fone de ouvido pelo menos uma vez na vida. É tipo um outro mundo.

Alguns momentos da minha viagem de dez dias pelos EUA

Sim, dez dias! Três em Orlando e o resto em Nova Iorque.

(Fotos by Bethania. Ou eu. Ou algum dos amigos que foram conosco. Pô, tiramos mil novecentas e trinta e uma fotos, eu sei lá de quem é qual)

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Sexta-feira da paixão, eu e Bethania estamos arrumando as malas quando ela me faz uma proposta indecente: queimar umas milhas a mais e fazer upgrade pra classe executiva.

Algumas horas depois a gente entra no avião. Eu, que esmerilho as minhas juntas em cadeira apertada de avião toda semana, olho pra poltrona aonde vou passar a noite e tenho vontade de chorar. De alegria.

Poltrona da classe executiva da AA

Daí eu aperto um botão e dezenas de motorzinhos ocultos transformam a poltrona em uma cama. Pela primeira vez, em anos, eu ia dormir de verdade num avião. E na horizontal.

Daí vem jantar, vinho, petiscos e quando eu acho que a coisa não poderia ficar melhor, a aeromoça me entrega um par de fones Bose QuietConfort. Do lado deles tem um botão escrito “noise reduction”. Apertei o botão e… gozei.

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Daí de madrugada eu quis ir ao banheiro. Ele era tão grande que eu abri os braços e fiquei rodando dentro dele, rindo como um idiota, por uns 30 segundos.

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A primeira parada da viagem é Orlando, na Flórida, para compras. Percebi rápido minha inocência quando reclamava de Brasília não ter sido feita pra pedestres: Orlando é ainda pior, é basicamente um enorme estacionamento com umas lojas no meio. Não tem metrô e ficamos uma hora no ponto pra conseguir pegar um ônibus.

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No último dia em Orlando fomos ao parque da Universal Studios, que Bethania queria conhecer. Os parques deixam bem claro porque os americanos são líderes mundiais em entretenimento. Andei numa montanha-russa com trilha sonora personalizável: você escolhe uma música e ela toca na sua cadeira durante as piruetas. Felizmente a seleção era vasta e incluía “Sabotage”, dos Beastie Boys – que foi a escolha perfeita.

Tinha também uma outra atração chamada “Disaster!”, que começava com um teatrinho simulando o casting de um filme-catástrofe onde, de repente, me entra ninguém menos do que Christopher Walken no palco do lugar. Claro que era só uma projeção em alta definição, mas era tão convincente que eu e Bethania demoramos tipo uns cinco minutos pra acreditar que ele não estava mesmo lá.

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Mas ficamos só três dias na Flórida e, na terça de madrugada, embarcamos pra Nova Iorque num voo da Delta. E aí um pequeno nerdgasm, porque o voo tinha Wi-Fi. Vale lembrar que no Brasil não me deixam nem usar o telefone em “modo avião” quando viajo. Mas o Wi-Fi era caro pra diabo, e enquanto eu me mordia de inveja ao ver uma vizinha de cadeira lendo emails no seu Macbook durante o voo, peguei uma revista de bordo e tentei fazer uma palavra-cruzada em inglês. Falhei miseravelmente.

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image Graças aos deuses do Google e as incríveis habilidades de localização hoteleira de Bethania, nosso hotel de Nova Iorque era a uns 200m da Times Square – um dos lugares mais fantásticos do mundo ocidental e o meu preferido em NY.

Nas nossas idas e vindas sempre estávamos passando por lá. Tem de tudo: caricaturistas, cowboy de sunga tocando violão e pedindo esmola, profeta do apocalipse com plaquinha “o fim está próximo”, flauta peruana, turistas russas recém-enriquecidas desfilando de minissaia (apesar do frio) e bancando a periguete, MUITA polícia (ecos do 11 de setembro, ainda fortes), e se você ergue os olhos do nível da rua, dá de cara com os luminosos das lojas, vários enormes e todos em alta definição. O mais embasbacante deles era o da American Eagle Outfitters. Era imenso e cobria a fachada da loja inteirinha num arranjo meio cubista. A propaganda de lingerie da loja era uma mocinha de 45 metros de altura saltitando no telão, de lingerie e segurando um girassol – e em uma impecável very high definition, de dia ou de noite. Era hipnótico. Bethania é que pareceu não gostar muito da minha admiração pelas belezas da, er, publicidade.

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Momento artsy-fartsy 1: no (belíssimo, saca a foto) Guggenheim, projetores exibiam vários vídeos que mostravam apenas uma velha senhora numa cadeira, praticamente imóvel e em silêncio. Fui ler a plaquinha que explicava a obra e a velha senhora era Merce Cunningham, renomada dançarina e coreógrafa, e os vídeos eram performances de dança para a lendária música de John Cage intitulada “4"33’”.

Pra entender a genialidade da obra você precisa conhecer “4"33’”, então clique aqui.

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Momento artsy-fartsy 2: começo da noite e estávamos de passagem pela Times Square (sempre ela), com pressa porque, salvo engano, era o dia de ver O Fantasma da Ópera na Broadway e estávamos atrasados. Daí eu olho pra um dos inúmeros telões e nele há uma mulher ajoelhada de costas para a câmera, nua da cintura pra cima e com um chicote na mão. E aí a mulher começa a se autoflagelar com o chicote. E meus amigos a passo apertado e alguém me pedindo pra olhar não sei o quê no mapa do metrô e eu não conseguia tirar os olhos do telão. A mulher se chicoteava sem parar e o vídeo não dava indicação nenhuma do que diabos era aquilo. E as pessoas passando apressadas e eu me perguntando se alguém além de mim tinha se tocado de que aquilo ali era a Times Square e que entre a propaganda da Budweiser e da AT&T havia uma mulher se enchendo de chicotadas. Até que me deu um estalo:

“Só pode ser Marina Abramovic”.

…que é uma performance artist sérvia-iugoslava, naturalizada novaiorquina, famosa por performances muitas vezes agressivas fisicamente (mas vastas e profundas do ponto de vista artístico), e que estava no MoMA com sua obra intitulada “The Artist Is Present”, descrita assim pelo BigThink.com:

Durante todo o tempo da exposição, até 31 de Maio, Abramovic vai se sentar em uma mesa e convidar pessoas do público a se sentar em frente a ela, para “trocar energias”.

Detalhe: Adivinha qual foi o museu que NÃO deu tempo de eu visitar? 🙁

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Claro que Nova Iorque não podia passar sem alguma coisa de jazz. Então, na última noite, fomos ver um set do The Bad Plus.

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Este que está aqui escrevendo no blog não sou eu, é uma duocentésima reencarnação de mim mesmo, porque eu morri umas duzentas vezes durante o show. O Bad Plus é como um Satanique Samba Trio “do bem”: correndo pra longe da música convencional, os caras navegam com uma maestria incomensurável entre modulações, dissonâncias e mudanças rítmicas de dois em dois compassos que são difíceis até de explicar. É como se as músicas deles fossem a ficção científica do jazz.

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Sobre a língua, achei que nos EUA eu ia dominar a parada com meu inglês de altíssimo nível. Só não contava com a quantidade enorme de imigrantes nos táxis, hotéis e restaurantes, e com o fato da grande maioria deles não entender inglês (é sério). Em vários momentos, como num incidente envolvendo ingressos errados comprados com uns mexicanos no hotel de Orlando, foi o espanhol de Bethania que salvou o dia.

Andamos de táxi com indiano, árabe “de raiz” com turbante e tudo, grego fanático pelo Panathinaikos, haitiano, marroquino, jamaicano…

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E andamos um bocado de metrô. Já disse que adoro metrô? Tubos de levar gente, escavados sob o chão, um dos transportes urbanos mais eficientes que existem. Não fosse por ele e não daria tempo de fazer nem metade da programação.

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Encontros randômicos com celebridades: em NY jantamos num restaurante onde estava Al Pacino. E logo que chegamos, na esteira de bagagem do aeroporto de LaGuardia, lá estava Viggo Mortensen. Bethania virou pra ele e perguntou:

“…are you Aragorn?”

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Empire State: fila enorme e segurança tipo aeroporto, com raio X e detector de metal (mais ecos do 11 de setembro). Mas a vista…

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Depois teve o momento PIMP MY RIDE da viagem: Na saída do prédio tinha um jamaicano motorista de limusine (sabe aquelas “stretch limo”, compridonas?) que se ofereceu pra nos levar até o hotel cobrando só cinco dólares por cabeça. Porque a gente tira onda, sim, mas só quando é baratinho.

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(a foto da limusine é em “modo artístico” porque não sei se meus amigos curtem mostrar a cara na internetcha)

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Estátua da Liberdade: fila enorme, segurança chata… e daí a gente tromba com outro grupo de turistas brasileiros. Papo vai, papo vem, e um dos caras reclama comigo:

“Pô, cara, mas cê é brasileiro e tá usando camisa da Argentina?”

Eu usando minha camiseta do Quarteto Fantást... digo, da Argentina.

Acho que foi meu primeiro facepalm no hemisfério norte.

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Chinatown foi o bairro do spam ao vivo: você anda dois passos na rua e alguém te aborda dizendo: “rolex watches? purses?”. Mas almocei um lo mein (macarrão) delicioso por lá.

E se você quiser cortar seu cabelo no bairro, indico a barbearia aí debaixo.

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Perto do Rockefeller Plaza tem uma loja chamada Nintendo World aonde estão expostas algumas curiosidades da empresa, como um Game Boy que sobreviveu a um incêndio na Guerra do Golfo e ainda funciona. E tem também o FAMICOM, o Nintendinho japonês. Hardcore old gamers vão se lembrar dele e talvez até deixar escorrer uma lagriminha.

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Quinta-feira à noite e lá estávamos nós na porta do Majestic para ver “O Fantasma da Ópera”, o espetáculo que mais tempo esteve em exibição na Broadway e que Bethania estava maluca de vontade de ver. Aí tá nossa turma toda na fila do teatro e eu vou no will-call da bilheteria buscar os ingressos (que compramos MESES antes pela internet, tamanha a expectativa). Entreguei o papelzinho com o comprovante da compra e o cara me responde, com aquela grosseria novaiorquina básica:

– Você pode passar aqui amanhã a partir das cinco pra pegar os ingressos.

Só então eu vi que os ingressos eram para o dia seguinte… mas, datas erradas à parte, foi um belo dum espetáculo.

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O novo papel de parede do meu computador (abaixo) foi obtido no cruzamento da Lafayette com Prince, no SoHo. Foi o bairro mais bonito que visitamos. Hipsters “classe mundial” por toda parte.

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Frase mais usada por mim em Nova Iorque: “Caralho, no GTA IV é IGUALZINHO”. Porque, caralho, no GTA IV é TUDO REALMENTE IGUALZINHO. Ter jogado o GTA IV foi, ao mesmo tempo, um grande spoiler da cidade e uma mão na roda, porque te ajuda a entender um pouco de como a cidade está organizada.

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Breve lista de muamba trazida dos EUA:

Gastei bem mais do que o planejado. Na hora do “Visa: porque a vida é agora” é tudo uma beleza, mas o duro vai ser pagar tudo isso quando vier a fatura do cartão…