Alesis DM6 Electronic Drum Set… SUA LINDA.

Eu comentei bem rapidamente no post da viagem de férias pra NY que acabei trazendo uma bateria eletrônica na mala. Na época achei que foi uma compra não planejada, mas hoje vi que me enganei.

Não foi uma compra por impulso. Foi amor à primeira vista.

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Já tive “casos” com vários instrumentos musicais ao longo da vida: quando adolescente, tímido e socialmente inadequado, me eduquei em teoria musical tocando um tecladinho Yamaha (quase um casiotone for the painfully alone). Depois, achando que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, tive uma breve incursão pelas (gasp!) rodinhas de violão. Mas meu conhecimento musical em tais instrumentos nunca passou do nível “engana bem”.

Bastaram apenas alguns segundos em frente à bateria e eu tive certeza que ali estava minha alma-gêmea.

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Meu primeiro contato com a bateria foi também meu segundo contato com uma bateria de verdade – a última (e única) vez em que havia tocado uma delas foi há mais de uma década, em Sete Lagoas, interior de Minas, quando o Postal Oitenta (extinta banda de uns amigos) ia fazer um show e a bateria que as bandas da noite usariam ficou algumas horas montada no palco – e eu, intrometido, fui lá brincar um pouco. Não me lembro quanto tempo toquei, mas de uma coisa eu não esqueço: do tanto que me dei bem com o instrumento.

Mas na época acabei cismando que ter uma bateria era um luxo inalcançável – basicamente porque é um troço muito grande, caro e que eu só poderia ter se não morasse em apartamento, por causa do barulho. O tempo, os milagres da microeletrônica e o casamento com uma esposa bastante compreensiva foram reacendendo a vontade.

O que mais me fascina na bateria é que eu me sento no banquinho, pego nas baquetas e é tudo natural, é como se eu tivesse apenas que ensinar aos meus músculos o que o cérebro já quer fazer – possivelmente porque passou centenas de milhares de horas com os ouvidos enfiados em fones ouvindo absolutamente tudo que é tipo de ritmo maluco que existe no mundo. Passei anos ouvindo “aulas” de gênios da bateria (como John McIntyre do Tortoise), aprendi sobre ritmos fisicamente impossíveis com os mais “esquizofrênicos” da música eletrônica (Squarepusher, Aphex Twin)… e, como contra-exemplo, estudei também a ausência de ritmo e a dilatação temporal que a acompanha, ao ouvir os grandes nomes da ambient music. Ou seja, tenho bastante “embasamento teórico”.

O modelo de bateria que comprei permite conectar um MP3 player nela e tocar junto com as músicas. Vocês não tem ideia do quanto isso é divertido: se não fosse a fome, sono ou cansaço eu poderia passar DIAS nessas “jam sessions particulares”. Este exercício tem também outro efeito colateral: os bons bateristas que você já ouviu tornam-se ainda melhores quando você tenta tocar o que eles tocam. “Não é possível, esse cara tem uns quatro braços. Ou uns dois cérebros”, você fica pensando.

Tem pouco mais de um mês que eu trouxe a bateria, e só tenho chance de usá-la aos fins-de-semana, e ainda assim por algumas horas, então tou longe de tocar algo que preste. Mas já dá pra brincar de avacalhar músicas dos amigos e pagar mico no YouTube… 🙂

Mouths Trapped in Static (ou: letras de [não] música)

Em 2007 escrevia eu sobre “Telegraphs in Negative/Mouths Trapped in Static”, disco do Set Fire to Flames:

No site da gravadora Alien8, a história de Telegraphs in Negative é contada. Basicamente, os 13 integrantes da banda acharam um grande celeiro abandonado na área rural de Ontario, no Canadá, levaram o equipamento e se trancaram lá. “O álbum foi formado numa situação de isolamento auto-imposto, com a banda funcionando tanto individualmente quanto comunitariamente, em estágios de pouco ou nenhum sono, níveis variados de intoxicação, e confinados fisicamente”, diz o site.

Telegraphs in negative NÃO é um disco divertido. NÃO é um disco fácil. NÃO é um passeio no parque. É uma jornada difícil por consciências atormentadas, por demônios escondidos atrás de cada pilha de feno e de madeira velha.

Mas a penúltima música, uma semi-faixa-título, é o tema deste post. Possivelmente ela foi produzida espontaneamente por algum dos integrantes da banda telefonando para a namorada, após dias de sofrimento auto-imposto. Como ela é a penúltima faixa você chega nela emocionalmente esgotado após passar pelo resto do disco – mais ou menos como a banda deveria estar após os muitos dias de gravação. E “Mouths Trapped in Static” é o necessário contraponto de tudo isso. Não fosse por esta faixa e “Telegraphs in Negative” seria um disco inaudível.

Creio ser uma das maiores músicas de amor que já ouvi.

(P.s.: Se o inglês estiver ruim:)

– Você pode falar aí?
– Sim.
– Quem está aí?
– …nos caminhões. Não, posso falar sim.
– Tem mais alguém aí?
– Não.
(pausa)
– Um minuto.
– *longo suspiro* Cara…
– Você está realmente cansado. Eu sei. Sua voz está horrível. 
(pausa)
– Te amo.
– Também te amo. (pausa) Eu não quero ficar aqui, quero ficar com você.

*ESTÁTICA*

– Eu estava sentada na cama…
– Sim.
– E estava meio que sonhando acordada…
– Mm-hm.
– E estava me lembrando… (longa pausa) hmm… sei lá, estava me lembrando de um monte de coisa.
– Como o quê?
– Estava me lembrando de quando você veio me ver depois da… coleção?
– Sim.
– E de como você simplesmente entrou pela porta.
– Sim.
– E largou tudo no chão.
– Sim.
– Eu estava só me lembrando disso, fazia muito tempo que eu não pensava nisso.
– Sim.
– E do quanto isso foi incrível.
– Sim. Mm-hm.
– Você tem que desligar?
– Não. Sei lá, não vou desligar com você conversando assim comigo.
– (Risos)
– Hm…
– Tem alguém perto de você?
– Ah, eles não estão prestando atenção.
– Hmm.
– Continue.

*ESTÁTICA*

– Você pode falar comigo quanto tempo quiser falar comigo ou você tem que desligar?
– Não, posso falar com você quanto tempo quiser.
– Eu quero falar com você.

*ESTÁTICA*

– …saudades suas. Não é incrível *ESTÁTICA* quanto eu tenho saudades suas? *ESTÁTICA* E o quanto eu quero sentir meu corpo *ESTÁTICA* estar contra o seu?
– Bem, eu *ESTÁTICA* sentimento. *ESTÁTICA*
– Isso é bom!
– Sim. *ESTÁTICA*
– É bom que seja m*ESTÁTICA*útuo.
– Sim (risos).
– *ESTÁTICA* o quê?
– Mm-hm.
– Sabe, *ESTÁTICA*ensando hoje?
– O quê?
– *ESTÁTICA*mais sortudos do mundo porq*ESTÁTICA* isto, vai *ESTÁTICA* cada vez mais forte e *ESTÁTICA* sempre.
– E no *ESTÁTICA*

(Este post foi originalmente publicado no Impop, saudoso blog da Verbeat, hoje extinto)