Dos acidentes genéricos e demais ferimentos infantis

Eu confesso ter um certo trauma de ver crianças se machucando.

Com certeza você já viu a cena. A criança está correndo/pulando/girando ou qualquer outro verbo de movimento. E sempre risonha, naquela alegria incrivelmente convincente – porque é de fato genuína e porque nós, quando adultos, normalmente estamos desacostumados com ela.

image E aí, de repente, o inesperado: um tombo, a trombada na árvore, o escorregão. O corpinho desajeitado se estatela no chão. Às vezes o crânio até emite um som seco, enquanto repica no asfalto. E aí tudo pausa pra mim. É por um instante, mas é um instante tétrico aonde não se sabe a extensão do dano (usualmente nenhum, porque há vasta prova empírica que bêbado e criança REALMENTE tem anjo da guarda). É como um gato de schrödinger instantâneo, aonde, por uma fração de segundo, a criança está morta e viva ao mesmo tempo.

Mas o pior é quando a criança não começa a chorar de imediato e, ao invés disso, se levanta, olhinhos cerrados, rosto todo contorcido, respiração presa porque a dor é intensa demais, e fica completamente imóvel nesta posição porque o cérebro está absolutamente inundado por sofrimento. Isto é especialmente ruim por causa da expectativa de que, em alguns instantes, com absoluta certeza, ela vai respirar fundo e emitir o pior de todos os sons que existem em todo o mundo: o primeiro berro do choro de dor. O berro da mais autêntica, da mais intensa dor. Dor que, de fato, alguns minutos depois já vai ter sido esquecida pela criança que vai voltar a correr/pular/girar como se nada tivesse acontecido, mas que nos instantes em que existir no sistema nervoso daquela criança, será vivida como a mais lancinante de todas, será expressa com eloquência que adulto algum é capaz de reproduzir.

(P.s.: Peço desculpas pela imagem que ilustra este post: é a mais velha e manjada que existe, é daquelas que aparecem em PowerPoint de auto-ajuda e tudo. Mas é que é difícil achar fotos relacionadas ao tema – por razões óbvias. A que usei, inclusive, é parte de uma exposição temática chamada “End Times”, de uma fotógrafa chamada Jill Greenberg, que gerou uma polêmica absurda na época. Jill, deliberadamente, fazia as crianças chorarem dando a elas um pirulito e, de repente, retirando-o das mãos delas)

Living the Paulistano dream

Oito da manhã de qualquer dia da semana e São Paulo está gelada, coisa de uns treze graus. Na garagem do prédio eu me despeço de Bethania, ela vai em direção ao carro, eu vou em direção ao ponto de ônibus.

As ruas estão cheias do barulho de cidade enquanto eu coloco meus fones de ouvido, que são recobertos por uma espuma semi-rígida, parecida com aquelas que operários usam em minas de carvão, altos-fornos e outros lugares barulhentos. Você espreme a espuma para que ela entre no seu canal auditivo e depois, lentamente, ela vai voltando ao tamanho normal e vedando seu ouvido de todos os ruídos externos. Este é um dos momentos mais divertidos do meu dia: conforme os fones vão tapando o ouvido, o volume do som do mundo vai lentamente abaixando até o ponto onde não se ouve mais nada.

E então eu posso escolher a trilha sonora da minha manhã.

Isto é meticulosamente planejado desde o dia anterior. Como agora eu não divido táxis com colegas de trabalho nem sou limitado pela internet horrivelmente lenta dos hotéis, eu posso entupir meu telefone de discos novos e lançamentos que eu passei o último ano inteiro sem tempo para ouvir. E é uma delícia quando se acerta na escolha do playlist da manhã. Outro dia ouvi Further, o novo dos Chemical Brothers, um disco claramente megalomaníaco com uma faixa épica atrás de outra, e desci do meu ônibus na Av. Paulista me sentindo praticamente um deus.

Aí eu entro na estação Brigadeiro para pegar o metrô e completar o trecho final da minha viagem. São só duas estações, mas este é o segundo momento mais divertido do dia, porque – e eis aí uma das minhas bizarrices mais úteis -  eu simplesmente adoro metrô. Tubos gigantes transportando multidões pelos subterrâneos, passando invisíveis pela bagunça do trânsito na superfície. O metrô é uma das obras-primas da engenharia.

Diferentemente de Brasília, aonde estou encerrando um projeto de 12 meses(*), em São Paulo eu lidero não apenas um, mas dois projetos diferentes. Como os clientes não são do governo, o ritmo e a pressão são pesados. Mas algo me faz responder a eles com uma obstinação que eu nem sabia que tinha. Claro que em Brasília eu não ficava moleirando, mas é como se o espírito da capital federal, com sua arquitetura fria e todos aqueles espaços vazios despertasse uma sensação de paradeza, então eu tinha que fazer força pra ir levando os dias. Porque a sensação é nefasta, contagiosa. Já em São Paulo eu saio do metrô me acotovelando com rios de gente na Avenida Paulista, todos querendo andar mais rápido, chegar à algum lugar, fazer, resolver. Aí eu subo pro trabalho e tá todo mundo querendo chegar a algum lugar, fazer resolver. O espírito é contagiante, e como ainda tem a minha vontade de fazer parte da turba apressada, eis aí a razão de eu entrar e sair de ônibus e engarrafamento com um sorriso no rosto.

Muita gente não entende meu amor por São Paulo, mas ele é simples de explicar. São Paulo não é a cidade onde estou porque nasci ou porque meus pais se mudaram pra ela e eu tive que ir junto. Não é a cidade que me foi colocada nas fuças para que eu vivesse – foi a cidade que eu escolhi. E escolhi do jeito que ela é hoje: suja, com trânsito, com violência, com clima cinzento, com preços altos, tudo incluído. Isto faz toda a diferença. Eu não espero que São Paulo se adapte aos meus sonhos ou anseios – e, sem expectativa, não há desapontamento.

(*) – Pois é, nem falei do fim do projeto de Brasília, meu maior até hoje (e o segundo maior da minha empresa em 2009). Nove pessoas sob minha responsabilidade, alguns milhões de reais em jogo. No fim está tudo entregue no prazo, a meta foi batida, o cliente não pára de elogiar a equipe, e pelo que minha equipe andou escrevendo no LinkedIn (“líder versátil”, “controle consistente do projeto a todo momento”, “mantém a equipe unida e focada nos objetivos do projeto”…) acho que mandei bem. Valeu cada noite mal dormida.

Por sinal nunca tive insônia em São Paulo. Não me surpreende.