Síndrome da Península Ibérica

Daí que em tempos de demanda absurda na minha empresa de consultoria entra trabalho em qualquer buraco que sobra na agenda. Tanto que ontem e hoje passei dois dias fazendo um diagnóstico numa empresa.

E lá estava eu, com a cabeça cheia de café, revirando dados com o Excel, quando uma colega da equipe resolve tirar uma dúvida com um dos diretores. Só que a empresa foi comprada recentemente por um grupo de investidores portugueses (as in “de Portugal” mesmo) e o diretor em questão era português.

Daí o cara me entra na sala, senta-se do meu lado e, naturalmente, começa a falar com o velho e bom sotaque lusitano:

– Pois que o mercado há de subire no próximo semestre e…

Em questão de SEGUNDOS meu cérebro deu pau e todo e qualquer pensamento foi substituído por nada menos do que isso aí debaixo:

Eu não sei se foi fruto do hábito da minha cabeça de viver fazendo associações absurdas – coisa que geralmente resulta em boas ideias mas que às vezes dispara pela culatra – mas deu pau GERAL nos neurônios e tudo que eles faziam era resgatar referências linguísticas portuguesas obscuras do YouTube com as quais eu já tinha tido algum contato. Travou tudo. O cara ia falando de financiamento de governo pra lá e custo de operação pra cá e eu só conseguia pensar em “eu quero dois p’cutinhos de cacauetes em vez d’um!”.

Mas não, eu não ia ser passado pra trás pelo meu próprio subconsciente. Me endireitei na cadeira e pensei: “Vamo lá. É só um sotaque. Concentre-se”.

Alguns segundos depois e eu já havia reconquistado a compostura. Até que, de repente, me vem à cabeça duas palavras.

BRUNO ALEIXO.

Aí danou-se tudo. O cara falava e na minha cabeça eu só via a cara peluda de Bruno Aleixo dizendo “quero ser imigrante cá em Coimbra, pra poder dormir em minha própria cama”.

A sorte é que o cara se explicou rapidamente (e sim, consegui prestar atenção na explicação, apesar de tudo) e saiu.