O dia da alpaca

Sexta-feira, 7:00 – Minha programação era dormir até 8:30 e chegar no trabalho lá pelas 10, porque durante toda a semana eu chegava cedo, almoçava em frente ao computador e saía da agência lá pras 21, 22h. Mas, naturalmente, perdi o sono.

9:00 – No meu email tinha:

– Duas pessoas brigando por causa de um atraso num job;

– Um email do meu líder de Recife avisando que tava tudo alagado e que talvez o pessoal da equipe de lá não conseguisse sequer chegar no trabalho (o job atrasado do item acima tá todo lá)

Aí uma das meninas de Recife manda no Twitter o GIF animado abaixo:

alpaca

Já sacando que ia ser um dia daqueles, peguei a alpaca e botei no cantinho do meu segundo monitor – como uma espécie de amuleto, pra eu olhar de vez em quando e dar uma risadinha.

9:40 – Me sento no computador e penso: “Pronto, agora vou conseguir finalizar aquela descrição de processo que estou tentando fechar há SEMANAS”. E então me pegam pra uma reunião. E depois outra. E depois outra. E ainda me avisam que o bicho está pegando no email e que eu devia dar uma olhada, mas cadê tempo.

12:30 – Implorei a uns amigos que me levassem pra almoçar. Eu não aguentava mais comida da lanchonete em frente ao monitor. Aí fomos no São Bento, na Vila Madalena.

13:30 – Todos terminam de almoçar e… começa a chover.

13:40 – Começa a chover MUITO. Os garçons tentam fechar as portas às pressas porque o vento está molhando todo mundo nas mesas próximas (ou seja, a nossa). Aí a gente migra às pressas pra uma mesa mais pra dentro. Assim que eu me sento, começa uma goteira bem em cima de mim.

14:10 – A chuva finalmente para e todos começam a pagar a conta. Mas as maquininhas de cartão estão todas fora do ar.

14:45 – Eu finalmente chego na agência e penso: “Beleza, tenho quinze minutos antes da entrevista praquela minha vaga de GP que eu marquei às 3, vou poder pelo menos ver o que diabos tá pegando fogo no email”. Mas o cara já está lá. Nem consigo escovar os dentes e vou direto pra entrevista.

Sabe, essa história de contratar gente vai ter que virar um post individual. Porque contratar gente é um troço SURREAL. Então foi com bastante alívio que a entrevista com o cara começou a ir bastante bem e eu fui ficando animado porque comecei a pensar que, finalmente, após noites e noites lendo dezenas de currículos, eu ia conseguir preencher uma das minhas vagas.

No fim o cara pergunta: “Eu tenho só uma dúvida. Obviamente, eu fui te stalkear no Twitter pra me preparar pra entrevista, e fiquei com uma dúvida se te mandava minha pretensão salarial ou não, porque no anúncio pedia pra mandar, mas você escreveu o contrário no seu Twitter”…

P.s.: Se você está me stalkeando aqui no blog pras entrevistas desta semana, parabéns! Isso demonstra proatividade, engenhosidade e curiosidade, três coisas que eu valorizo. Conte que leu isso na entrevista, vai contar pontos a seu favor.

15:40 – Eu volto pra sala pensando “pronto, AGORA vou conseguir pelo menos ver meu email”. Só que não tem luz na agência porque a chuva fez a energia acabar.

 

Algum tempo depois os geradores foram ligados e tudo (menos o ar condicionado) voltou a funcionar.

16:40 – Mais uma reunião, sob um job monstruoso que estava chegando. O problema é que a reunião começou a desandar e a veemência virou insistência, que virou apelação, que por sua vez virou bate-boca. E lá estava eu, no finzinho da sexta, num calor insuportável, todo mundo suando naquela sala sem ar condicionado, e aos berros numa reunião de um job que sequer havia começado.

O pior é que eu entendo o porquê dessas coisas. É muito trabalho, pouco prazo e stress em níveis absurdos. Claro que isso não justifica apelação, apenas a explica. Mas o que era mesmo inexplicável na situação era um colega, que estava sentado perto de onde a gente estava, e que estava dando risada do quebra-pau todo. E enquanto gritavam comigo na reunião, eu tive um insight de por que diabos o cara tava daquele jeito (já já explico).

Quando eu já estava bastante confuso com o bate-boca, vi meu chefe aparecer e logo dar cabo de toda a reunião. E quando eu achei que o caos tinha acabado, eis que ele me leva pra um canto da sala e começa, ele também, a soltar os cachorros por conta de outro assunto. Tipo, tava todo mundo desabafando comigo. E quando eu não estava entendendo mais absolutamente nada, chega uma das minhas gerentes de projeto e – adivinha! – começa ela também a soltar os cachorros por conta de outro job.

18:50 – Sentindo um misto de esgotamento com confusão mental com desespero, me sentei no computador. E dei de cara com a alpaca. A alpaca que eu tinha deixado no cantinho do monitor. Tinha me esquecido completamente dela…

De repente tudo passou e eu fiquei uns bons minutos olhando pra alpaca e rindo sozinho.

19:15 – Lembram do colega que tava dando risada do caos da reunião? Dei de cara com ele, folheando uma revista no meio do corredor, alheio a tudo e todos.

Aí eu não resisti e joguei um verde pra ver se meu insight estava correto…

– Cara, me conta qual é esse remedinho que cê anda tomando pra passar por dias caóticos como esse e ficar aí numa boa.

O cara fez uma cara de “como diabos ele descobriu” e, como não fazia mais sentido mentir daquele ponto em diante, confirmou exatamente o que eu suspeitava:

– Errr… haxixe?

22:10 – Todo mundo já tinha ido embora. Só restava eu, uma das atendimentos e o big boss. Tudo que eu queria era sair de lá, tomar uma cerveja e capotar na cama.

Mas não podia. Alguns minutos depois, desci, peguei o carro (com Bethania e mais duas amigas) e me enfiei na Fernão Dias. Mesmo morto de cansaço, dirigi por quatro horas e, 300 kms depois, lá estava eu…

…em Alfenas, no sul de Minas Gerais.

Era o sítio de uma das meninas. Elas iam ficar quatro dias (já que terça é feriado em SP). Já eu tive que voltar no domingo mesmo, porque a agência não emendou. Mas foram dois dias excelentes. Dias de ouvir o silêncio – que levei décadas para aprender a apreciar adequadamente. Dias de ficar horas tomando café-da-manhã e proseando como só bons mineiros sabem prosear. Dias de ver vaca pastando. De ficar com a pele vermelha na beirada da piscina. De comer feito rei (porque, diacho, como cozinham bem aquelas meninas!). De dar um merecido descanso pro corpo e pra cabeça.

Dias de descansar pra poder voltar e estressar tudo de novo…

Pauta da reunião: urina

Daí que ontem, no meio do caos de sempre, pintou uma reunião-surpresa com meu chefe, um dos VPs e o CEO da agência.

Acho que o fato de eu estar trabalhando numa agência deixou Murphy mais criativo, então ele resolveu que eu não teria aqueles problemas de sempre de falar alguma gafe ou de escrever onde não devo. Murphy resolveu inovar.

Foi a reunião começar e eu precisei, imediatamente, ir ao banheiro. “Ah, paciência, vou ter que aguentar até acabar”, pensei. E aí Murphy, com um inesperado, porém total, domínio das minhas funções renais, foi fazendo o aperto ficar rapidamente cada vez pior.

Cinco minutos de reunião e eu já me endireitei na cadeira e cruzei as pernas.

Dez minutos e eu já evitava me mover porque tudo ardia dentro da barriga.

Quinze minutos depois e me corriam uns arrepios na espinha que me faziam (discretamente) me contorcer na cadeira e agarrar os braços estofados dela, naquele estilo “orgasmo de pornô softcore”.

Obviamente o normal seria eu me levantar e ir ao banheiro, mas o assunto da reunião era seríssimo. Então eu fiquei esperando o assunto bandear pra alguma coisa irrelevante ou alguém vir com algum papo fora da pauta, porque isso sempre acontece em reunião. Mas não! Não naquele dia, onde todo mundo estava possuído por um espírito de praticidade que eu NUNCA havia visto em toda a minha carreira, e TUDO que era dito era relevante. E eu sequer conseguia pensar, com aquele pequeno oceano querendo vazar das minhas virilhas.

Eu aguentei até onde deu. Até a hora em que fiz que meu celular tinha tocado e saí da sala. Meus pensamentos no breve trajeto sala de reunião – banheiro – sala de reunião  foram:

– Putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepAAAAHHHHH… putamerda tenho que voltar rápido putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu…

Masturbação e caos aéreo

Daí que esta semana eu fui à Recife e estava, com o coordenador geral de lá e com a líder da equipe de social media, entrevistando uns candidatos pra uma vaga que abriu no mês passado.

Eu ainda não tinha participado de nenhuma entrevista pras vagas de Recife, e a primeira coisa que notei é que meu coordenador falava mais que a entrevistada. Bem mais. Mas tudo bem, eu me intrometia e perguntava outras coisas, tentava deixar a menina mais à vontade e apesar de tudo a entrevista seguia bem.

Acontece que na nossa equipe de social media tem um cara chamado Tomás, cujo apelido não é lá muito fraterno: “Tomás Turbano” (possível origem do apelido aqui). E na entrevista meu coordenador, falando pelos cotovelos, começa a contar da equipe de social media:

– Então, tem três pessoas, a fulana, a sicrana e o Tomás Turbano…

Eu achei que meu pior episódio com aeroporto iria acontecer na minha carreira de consultoria, mas não: foi agora, no voo de volta de Recife.

Pra começar não tinha nenhum voo em horário decente, então acabei obrigado a vir num que saía de lá às 23h e que, por causa do horário de verão, chegava em SP – ou melhor, em Guarulhos – às três da manhã.

E aí o voo atrasou nada menos do que TRÊS HORAS.

Pra piorar, no embarque tinha uma família barraqueira. Mas barraqueira MESMO. Não fossem os detectores de metal da sala de embarque eu tenho certeza que um dos tiozões lá tinha tirado a peixeira da cintura e cortado o bucho de alguém, no melhor estilo nordestino. Teve bate-boca, teve bate-bate na porta de vidro que dá acesso ao finger, teve de tudo. E o voo ia atrasando.

E pra piorar ainda mais, lá pelas duas da manhã, o povo da família barraqueira começou a passar mal. Primeiro foi uma das crianças, que vomitou no chão bem em frente ao portão. Aí uma senhora idosa começou a querer desmaiar e o pessoal, aos gritos, começou a pedir um médico. Veio um funcionário da Anac, que sem o menor tato avisou que o médico ia demorar porque estava atendendo “um caso muito mais urgente que esse aí”. Aí a família barraqueira perdeu a compostura que ainda restava e ficou berrando coisas tipo “CADÊ O MÉDICO DESSA PORRA?!” por uns quinze minutos, até que o médico finalmente apareceu.

Aí o embarque finalmente começou. Botei meus fones e pensei: “finalmente, agora vou conseguir dormir um pouco no voo”. Só que o piloto fez o favor de botar o ar condicionado numa temperatura POLAR e eu, ao invés de cochilar, tremi de frio por três horas.

Pra completar, quando pousei em Guarulhos, lá pras seis e meia da manhã, desorientado de cansado, já tinha engarrafamento na marginal, na Av. Stos Dumont e na 23 de maio.

Cheguei em casa com minha mulher já se arrumando pra ir trabalhar. Aí chutei o balde e resolvi que ia pra agência só à tarde. Troquei de roupa, me enfiei debaixo das cobertas e pensei: “pronto, AGORA eu durmo, pelo menos algumas horinhas”.

Mal sabia eu. Peguei no sono e, dez minutos depois, POU POU POU POU: havia alguém destruíndo meu quarto – a marretadas. Acordei em pânico e demorei uns minutos pra descobrir o que diabos era aquilo: meu vizinho está reformando o apartamento e estavam quebrando exatamente a parede que divide meu quarto com o dele. Mas o som era como se Thor estivesse tendo uma crise nervosa e quebrando toda a minha mobília. Pra piorar um pouquinho mais, entre uma marretada e outra, tinha um cara com a clássica furadeira.

Foi lindo.