A saga das contratações

Como todo bom gestor brasileiro, estou com menos gente do que deveria na minha equipe. Só que, ao contrário do Esparroman, fui liberado para preencher minhas vagas faltantes.

E, meus amigos, vocês não sabem o suplício que é contratar gente.

Pra começar eu estava contratando gerentes de projeto (uma profissão relativamente nova), para tocar projetos online numa agência de publicidade (outra coisa relativamente nova), o que reduz consideravelmente meu público-alvo. Pra piorar, o RH da agência também está “understaffed and overworked” e não poderia me ajudar muito: eu teria que fazer a maior parte da seleção sozinho.

Outro agravante é que, no meu networking, só tem GPs que tocam projetos “analógicos” (construir prédio, etc.) e/ou GPs que moram em Belo Horizonte, então eu teria que sair buscando currículos no atacadão mesmo (ou seja, nos @trampos da vida).

A outra opção seria evocar os poderes do PMP e buscar um GP usando a seção de “vagas” do site do PMI São Paulo. Só que, como eles estavam lançando uma versão nova do site, num ato de estupidez inexplicável, eles tiraram a versão antiga do ar por uma semana. E, claro, foi justamente na semana que eu tinha pra selecionar gente. Sei lá, eles devem achar que fazer um upgrade de website é igual uma reforma de prédio onde tem que fechar tudo antes.

Mas, sites “under construction” à parte, anunciei a vaga por aí e então começaram a vir os CVs. E então, meu amigo, abriu-se a caixa de Pandora:

  • Se eu fosse considerar erros de português como critério eliminatório, não sobrava ninguém. Era “pretenção salarial” pra lá, “trabalhei a 4 anos” pra cá. Tinha de tudo. Tinha até um cara que se dizia “fluente em quarto idiomas”.
  • Eu achei que era lenda urbana, mas recebi uns 2 ou 3 currículos de mulher com foto. Uma delas, inclusive, tomou o cuidado de posar meio de lado pra deixar o decote bastante evidente.
  • Tinha gente que não tinha o perfil da vaga e, por isso, mandava uma carta de apresentação que mais parecia um testamento, implorando pelo emprego. Teve gente que argumentava dizendo que veio do nordeste, que era de família pobre. Chega a ser triste.

E os CVs iam chegando, às dezenas. Me lembro que um dia já era quase meia-noite e eu lá, com os olhos ardendo do brilho do monitor, lendo currículos; eu abria um deles, fechava os olhos e rezava baixinho: “por favor, Deus, faça pelo menos esse ser bom, por favor”.

Como ainda não perdi as manias de consultor, eu tinha um método para peneirar os currículos: se o CV estivesse muito fora do perfil (você não imagina o quanto de currículo de redator que eu recebi), era desclassificado na hora.  O resto recebia duas notas: uma para formação (escolaridade), outra para experiência e outra para conhecimento, todas numa escala de 0 a 10 e com pesos diferentes (formação tinha peso 1, conhecimento tinha peso 2 e experiência, peso 3). Daí a média ponderada das três notas dava um score inicial do candidato. Os mais bem-colocados eram entrevistados, e recebiam uma nota de 0 a 10 pela entrevista. A nota da entrevista era sempre multiplicada pelo score  inicial, o que resultava numa nota final variando de 0 a 100. A multiplicação é importante, porque fazia a entrevista valer muito: uma boa entrevista podia elevar muito o score de um candidato mediano – ou gongar um que era brilhante no CV mas ruim em pessoa.

E as entrevistas… bem, teve candidato que deu sono, teve candidato que tentou me enrolar quando não sabia responder alguma coisa técnica, teve candidato que, quando perguntado por que queria deixar o emprego atual, disse: “Pois é, eu me fiz essa mesma pergunta quando estava vindo pra cá”. E teve uns que foram brilhantes.

Mas como estávamos entrevistando gente para trabalhar com essa coisa moderna que é a internetcha, é óbvio que eu Googlei todo mundo antes, fuçei Twitter, Linkedin e o escambau. E para vários deles eu separei um tweet bem polêmico que eles tivessem postado (reclamando do emprego atual, falando mal de algum cliente, etc.), imprimi e, no meio da entrevista, botei na frente deles e disse: “me explica isso”.

Sacanagem? Bom, no dia-a-dia de gerente de projeto eles também teriam que rebolar diante de situações inesperadas – e era isso que eu queria testar. O assunto do tweet pouco importava. Alguns gaguejaram mas se saíram bem, outros debandaram para o desculpismo ou a negação.

E horas, horas, horas e mais horas de entrevistas depois, eu tinha os campeões. O último deles assumiu o trabalho ontem. Satisfeito por fazer a minha parte para as estatísticas de trabalho formal da Dilma Roussef, limpei o suor da testa e pensei: “Pronto. Não vou precisar mexer com contratações tão cedo”.

No mesmo dia saiu na imprensa a notícia de que a agência havia conseguido uma conta gigantesca. Mas gigantesca MESMO. E um email do meu chefe:

“Cara, vamos ter que contratar muita gente!”…