Minha primeira demissão

Primeiramente é bom esclarecer que não, eu não fui demitido. Na verdade eu estava é do outro lado da mesa: um dos meus gerentes de projeto pisou feio na bola e, como o problema era recorrente e não se resolvia mesmo depois de um monte de feedbacks e segundas chances, acabei obrigado a desligá-lo.

Antes de assumir cargos de gestão eu, como muita gente, achava que ser chefe é uma função de tirano: manda prender e manda soltar ao seu bel prazer. E junto dessa tirania costuma vir a impressão de que uma demissão é “coisa que chefe tem um prazer perverso em fazer”.

Mas pra mim vocês não fazem idéia do quanto isso é distante da verdade.

Na noite anterior à demissão eu já estava fritando e mal dormi. E nessa eu sei que o sono não vai vir fácil, porque o tempo todo eu fico pensando que, em algum lugar dessa cidade, alguém chegou em casa desempregado, sentindo-se um fracassado, e com uma incerteza em relação ao futuro tão grande quanto a angústia que se acomoda dentro dela. E que fui eu o responsável por isso.

Não que a demissão tenha sido injusta – porque não foi. Na verdade eu até fui paciente demais: tolerei atitudes que não devia ter tolerado, tolerei coisas que inclusive poderiam ter comprometido meu trabalho. Mas com a mesma clareza com a qual eu entendo todos os fatos que justificam a demissão, eu também entendo como essa pessoa deve estar se sentindo.

Mas é a vida. “It’s all in the game, yo”, diria Omar Little – num contexto criminoso, é verdade, mas nem por isso menos brutal.

8 thoughts on “Minha primeira demissão”

  1. Ahh, Zé. Pode ser fácil pra mim falar sem ter tido esta experiência, mas mesmo não sendo fácil, você na verdade está dando a chance da pessoa encontrar um caminho no qual se realize, no qual consiga melhores resultados. Demitindo (além dos feedbacks dados anteriormente) você está, na verdade, contribuindo para o crescimento profissional dele, mesmo que seja com um “choque de realidade”.
    No longo prazo, possivelmente ele vai até te agradecer.
    Abraços,
    André.
    Ps.: eu realmente acredito neste discurso, hehe.

  2. Aí que tá, eu TAMBÉM acredito. Mas na hora do vamos ver, que cê tem que olhar no olho do cara e dizer “passe no RH depois recolha suas coisas” é MUITO foda.

  3. Fui demitido do meu primeiro emprego quando eu tinha 16 anos, e reconheco que foi minha culpa, eu nao dava a devida atencao ao meu trabalho e mesmo depois de avisos de colegas e chefe, eu continuei do mesmo jeito. Quando fui demitido o sensacao foi horrivel, me senti culpado, inutil, um idiota.
    Depois disso, tentei melhorar, em todos os aspectos.
    Estou agora a quase 14 anos no emprego que consegui depois daquela demissao, e felizmente ainda nao precisei demitir ninguem.
    Foi por causa daquela demissao que eu me tornei o profissional que sou hoje.

    Enfim, nao se sinta tao mal, Tinoco, voce pode estar ajudando muito essa pessoa.

  4. Pois é Tinoco,

    demitir realmente é muito foda. É a única experiencia que ainda nao tive. Mas ser demitido na verdade nao é o fim do mundo.

    Sempre morri de medo de ser demitido, até ser demitido do Inhotim. Não mata ninguem. Depois do turbilhoes de emoçoes do luto (raiva, negaçao, frustraçao, blablabla) voce poe a bola no chao e se vira.

    Mas é foda mesmo….

  5. Vc tem que ver aquele filme do George Clooney , nao lembro o nome mas é o filme em que ele tenta conseguir 10 milhoes de milhas. Na cena em que ele convence um personagem (ator que faz o JJ Jameson ) de que é uma boa ele sair do emprego e buscar uma vida nova. Só faltou ele oferecer um Nespresso pro cara depois.

  6. É, por mais que seja nossa obrigação tomar esse tipo de decisão, a gente se sentindo assim mesmo.
    E é tudo culpa daquele negócio… como é que se chama mesmo? Ah é; consciência, bom senso… rss

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