“You will eat their shit”

Sabe o Petyr “Littlefinger” Baelish, o ardiloso tesoureiro dos Sete Reinos em Game of Thrones? Foi o mesmo ator que fez Tommy Carcetti, o ambicioso conselheiro (e depois prefeito) de Baltimore na excelentíssima série The Wire, também da HBO.

Na quarta temporada, quando ele se candidata, há uma cena inesquecível onde ele almoça com Tony, um antigo prefeito de Baltimore, para pegar alguns conselhos. Aí Carcetti pergunta: “por que você não se candidatou à reeleição? Na época ninguém tinha uma reputação tão boa quanto a sua ou estava tão bem organizado no partido quanto você”.

E aí Tony passa dois minutos inteiros dando uma minuciosa descrição de como era o dia-a-dia da prefeitura.

No primeiro dia você se senta lá e pensa: ‘puxa, não tem como ser melhor do que isso’. Aí escuta alguém batendo na porta e aí vem seu assessor com uma enorme bandeja prateada com tigelas enormes, toda enfeitada, e diz: ‘os sindicatos mandaram pra você’. E você pensa que é um presente de boas-vindas, mas quando vai olhar… é nojento. “O que diabos é isso?”, você pergunta. “Ora, o que você acha que é? Isso é merda!”, ele responde. “Merda? E o que diabos é pra eu fazer com isto?”, você diz. E ele responde: “É pra você comer”. “Comer??”. “Sim. Você é o prefeito, é você quem come a merda deles”. Então tá, é meu primeiro dia, meu assessor sabe mais do trabalho do que eu, então você vai lá e come. Quando você termina, alguém bate na porta e aí entra seu assessor com outra tigela prateada enorme. “Essa é a dos negros”. “Mais uma??” você diz. Mas vai lá e come. E quando você termina escuta outra batida na porta e vem outra tigela. “Essa é dos polacos”. Depois, mais uma, “essa é dos bispos”. E, quer saber, Tommy? É assim. Você lá, sentado, comendo merda dia após dia, ano após ano. Quando eu percebi isso, concluí que um trabalho de advogado e ver a minha família toda noite era suficiente pra mim.

Eu estou contando essa história toda porque aí há uma lição preciosa sobre liderança. Estar à frente de qualquer coisa é legal, desafiante, te permite construir coisas que você jamais construiria se trabalhasse apenas na operação, mas tudo isto implica, invariavelmente, que você vai comer muita merda.

De por quê eu adoro transporte coletivo

14:10 – Estou na Vila Olímpia, após um almoço com um fornecedor. Ligo para a cooperativa e peço um táxi pra voltar pro trabalho. A menina me diz que me liga em seguida para informar qual o número do carro que vai me atender.

Mau sinal. Se ela não me disse o número do carro na mesma hora é porque não tem carro livre…

14:20 – Cansei de esperar a ligação. Começo a andar até a estação do trem.

14:30 – Chego na estação e pego o trem.

14:45 – Desço do trem.

14:50 – Chego no trabalho, escovo os dentes.

15:05 – Entro numa reunião.

15:20 – Saio da reunião.

15:25 – O telefone toca. É a cooperativa, dizendo o número do carro e avisando que ele chega em 5 minutos.

Como perder o ônibus de maneira épica

8:45:33 – Estou terminando de comer meu café da manhã na padaria da esquina. A padaria é bem em frente ao ponto de ônibus que eu usaria para chegar ao trabalho (já que a CPTM tava de greve).

Distraído, observo os ônibus passando enquanto dou minha última mordida no pão. Veio um, dois, cinco ônibus, e nenhum era o meu. Aí pensei: “aposto que, quando eu estiver pagando minha conta no caixa, meu ônibus vai passar e eu vou perder”.

8:45:40 – “Bom, já que é assim eu não vou levantar, assim não perderei o ônibus”.

8:45:45 – “Tá, mas se eu não me levantar eu não chego no trabalho, então não tenho muita opção”.

8:46:02 – Estou na fila do caixa. Olho para o lado e – adivinha! – é o meu ônibus. Sorrio um sorriso amarelo de descrença e self-schadenfreude e começo a me sentir duplamente um idiota: por acreditar nessa superstição de que eu perderia o ônibus e por ela realmente ter acontecido.

8:46:04 – Reparei que haviam mais dois ônibus na frente do meu, fazendo uma espécie de fila no ponto. Olhei para a fila do caixa e só havia uma pessoa na minha frente.

E me deu um estalo: se eu for rápido o suficiente e entregar o dinheiro trocado, dá pra correr até o ponto em tempo de pegar o ônibus.

8:46:06 – O primeiro ônibus arranca e vai embora. Olho pra conta na minha mão: 3,00 do suco de laranja mais 1,50 do pão na chapa. Abro a carteira apressado, retiro duas notas de R$ 2 e começo a escarafunchar o compartimento de moedas, rezando para achar cinquenta centavos.

8:46:08 – Olho de novo pro ponto. O segundo ônibus já havia parado e saído, e só sobrou meu ônibus, já abrindo as portas pro embarque/desembarque. A fila do caixa continuava parada e, no meio das minhas moedas, só achei uma de R$ 1.

8:46:09 – “Que se dane!”, pensei. Peguei os R$ 5, deixei em cima do balcão junto com a conta e comecei a correr em direção ao ponto.

8:46:10 – Meu ônibus arrancou e saiu.