Adeus, Itaim

O bom de escrever blog é que uma rápida consulta nos arquivos lhe permite dizer que foi exatamente em julho de 2005 que a consultoria me trouxe a trabalho pra São Paulo. Foi pra um projeto numa emissora de TV. Eu ficava hospedado no Formule One da 9 de julho (apelidado de “habitáculo” por causa do quarto minúsculo).

Nessa época eu basicamente trabalhava, comia na própria empresa do cliente e voltava pra casa na sexta, então por muitos meses o máximo de experiência paulistana que tive foi a de ficar engarrafado toda sexta na Av. Bandeirantes na hora de ir pro aeroporto. Até que teve um feriado bem na quarta-feira e me vi sozinho e com um dia livre na cidade. “Bem, vamos fazer turismo”, pensei.

Eu não me esqueço desse dia. Saí andando a esmo pelo bairro e, de repente, “achei” a Rua Augusta – que eu só conhecia do Banco Imobiliário e dos “120km/h” daquela música manjada. Mais um pouco e caí também na Oscar Freire. Foi um dia gratificante de exploração urbana descompromissada: um monte de “descobertas” num espaço de apenas alguns quarteirões.

Alguns meses depois eu repeti a dose, também num feriado de quarta, mas com algum planejamento acabei indo conhecer o MASP e o StandCenter, na Paulista. Também não me esqueço desse dia e do quanto eu fiquei fascinado com o tanto que São Paulo podia oferecer. Porque eu saí do hotel, andei alguns minutos a pé e estava ali, em frente à quadros de Bosch, que eu sempre gostei mas, na minha cabeça ainda interiorana, nunca imaginei que fosse ver ao vivo.

Destes dias em diante, SP começou a deixar uma crescente boa impressão, que aumentava conforme os outros detalhes da vida na cidade ficavam evidentes: a rapidez dos serviços, a praticidade do aeroporto bem no meio da cidade, a gastronomia, a oferta cultural absurda. O lado ruim (altos preços e engarrafamentos) era perfeitamente evitável com algum planejamento.

Alguns meses depois eu fui parar em outro projeto e passei a trocar de hotel no meio da semana. Dessa vez era um flat: na verdade o Capital Flat, ali na Teixeira Soares, na beiradinha da Juscelino. Daí em diante, por coincidência, todas as minhas estadias em SP foram em hotéis do Itaim.

Mal sabia eu que, com as fotos panorâmicas que eu tirava da janela dos hotéis, eu estava na verdade fotografando meu futuro bairro.

É seguro dizer que grande parte do meu amor por SP vem dos meses que passei hospedado no Itaim. Foi nele que eu tive ainda mais um dia divertido de exploração urbana, quando saí pra correr no Ibirapuera (acredite se quiser) e dei de cara com uma das Bienais. E fiquei lá embasbacado porque saí pra fazer exercícios e, sem querer, dei de cara com o melhor da arte moderna em quantidades que requerem pelo menos um dia inteiro (e boas pernas) para explorar totalmente. Foi nesse dia que São Paulo ficou pra sempre encrustrada na minha cabeça como uma cidade gratificante, e não defeituosa.

Tanto que, quando em 2008 Bethania arrumou um emprego em São Paulo, eu fui quem mais botou pilha pra gente se mudar. Coincidentemente o emprego novo dela era no Itaim e, por conveniência, alugamos um apartamento no próprio bairro.

Ironicamente, depois de mudar pra SP eu passei a passar menos tempo na cidade – por conta das viagens da consultoria. Tive até que passar um ano inteiro na odiosa Brasília, a cidade mais sem personalidade do mundo. Aí estive no interior de SP, depois em Fortaleza, depois em Cuiabá, depois no interior do Mato Grosso… e, por pura comparação, São Paulo ficava ainda melhor e mais linda na minha cabeça. A felicidade veio mesmo quando, no final do ano passado, eu finalmente arrumei um emprego “geograficamente fixo” e – algumas idas pra Recife à parte – parei de viajar e pude aproveitar bem mais minha casa paulistana.

E que casa. No Itaim o padrão são apartamentos imensos (e caríssimos) de 3 ou 4 quartos ou “habitáculos” de 1 quarto com 40 metros quadrados – mas num golpe de sorte (e de insistência de Bethania) achamos um que era bem grande e que, além do quarto, tinha um pequeno escritório. E que não custava uma fortuna para alugar.

Quanto à localização, morar no Itaim é conseguir, milagrosamente, ter tudo acessível a alguns minutos de caminhada – desde o pet shop do cachorro até um cinema – ou um cartório, ou uma dúzia de restaurantes japoneses, ou um chinês, um italiano, um mineiro… e uma lista infinita de opções. É, sem dúvida, um dos melhores bairros de São Paulo…

…tanto que, com o boom imobiliário, no último reajuste de aluguel a proprietária queria aumentá-lo em 70%. Sem brincadeira. Setenta. Por. Cento. A sorte é que eu me movi primeiro e já estava há quase um ano procurando apartamento.

Apesar da leveza que isso vai fazer no meu bolso, é com pesar que eu deixo o Itaim. Foi o primeiro bairro que me acolheu de verdade em São Paulo e me fez gostar dessa cidade maluca. Foi o palco de jantares, de happy-hours, de cafés-da-manhã na Bienal (a padaria, não a exposição), de bebedeiras no karaokê, de cinemas no Kinoplex, de sinucas no Secreto (no simbólico número 666 da Joaquim Floriano) e de muitas outras memórias.