Estudando a Dance Music

Parte 1 – Estudando a DANCE MUSIC?!

Sim, porque se você me conhece deve estar se perguntando por que diabos eu vou escrever um post enorme sobre – gasp! – dance music. Então é importante uma explicação e um pedido. O pedido é que você faça como eu e abra seu coração a uma opinião que pode soar completamente discordante, ou até mesmo diametralmente oposta, a que você possa ter sobre o assunto. Isto posto, a explicação é a seguinte.

A chegada da idade adulta me trouxe uma série de vantagens inesperadas, como não sentir tanto sono quanto antes e também deixar de ter aquele desejo adolescente bobo de me apegar às coisas como verdades absolutas, de achar que meu ponto de vista tem que ser apaixonadamente defendido até a morte. Isso me fez passar a ver as coisas com olhos mais maduros, imparciais e, principalmente, mais abrangentes para entender/analisar as coisas da vida, especialmente aquelas que eu nunca gostei. Como a homossexualidade, por exemplo (brincadeira).

Para a música, especificamente, isso me fez deixar de frescura e entender que há um valor intrínseco em todos os estilos musicais. “Até funk carioca?”, pergunta você. Meu amigo, o funk carioca talvez seja uma das manifestações culturais mais geniais que nosso país tenha produzido desde a bossa nova. Mas isso é assunto para outro post.

E, se você não parou de ler depois do que falei sobre a bossa nova (obrigado!), concluo dizendo que, quando você se dispõe a deixar o preconceito de lado e tentar entender um estilo musical pela sua própria estética, pelo seu propósito e como ele busca cumprí-lo, você pode se divertir um bocado no processo. E é interessante começar nosso estudo justamente por aí…

Parte 2 – Música para dançar: propósito e escopo

Olha, nem tem como enrolar muito aqui: o propósito de um gênero musical chamado dance music é óbvio.

É importante frisar aqui que o que eu estou encaixando na alcunha de dance music não é só aquilo que os leitores com mais de 30 anos (meu caso) ouviam na boate nos anos 90: é tudo que tenha sido construido, como bem diz a Wikipedia, “com o objetivo específico de facilitar ou acompanhar o ato de dançar”. Ou seja, é música pra fazer você mexer a sua bunda. Aqui entram os estilos clássicos com batida 4×4 (o velho “tumtistum” quadradinho, como o house, techno, trance e similares) como também os estilos modernos, com batida quebrada (drum’n bass, dubstep).

Mas para facilitar a análise vamos estreitá-la a alguns poucos gêneros, notadamente eletrônicos, para poder isolar os aspectos que eu considero  fundamentais para se entender a dance music. Vamos chegar neles em breve.

Parte 3 – Eu me remexo muito: os fundamentos de uma música dançante

Pense na música como veículo de expressão emocional. Você ouve o “OK Computer” do Radiohead, por exemplo, e toda a angústia de Thom Yorke é evidente em cada lamento e cada riff de guitarra. E repare que você não precisa entender a letra para capturar este significado; o diálogo da música com o ouvinte acontece em um nível de significância que não é lógico nem evidente. Há gêneros musicais inteiros batizados puramente na base do seu tom emocional (como o emocore) ou com base no fato de serem mais analíticos do que emotivos (math rock). Já a dance music, de uma certa maneira, transcende a obviedade de significado e também todo o aspecto emocional – ou a ausência dele – porque, para ser eficiente, ela precisa falar ao ouvinte em um nível muito mais básico. Ela precisa estimular em você não uma emoção, mas sim um instinto, como o instinto de sobrevivência ou o instinto – tcharammm… – sexual. Afinal, não é para você ponderar sobre a inexorabilidade da vida: é para você mexer a sua bunda.

Talvez não seja exagero dizer que a dance music conversa diretamente com o homo sapiens que existe dentro de cada um de nós. É por isso que uma boa faixa de dance music é marcada não pelo som rebuscado, pela complexidade harmônica ou pelo virtuosismo dos instrumentistas (quais, né?), e sim pela exploração máxima dos elementos mais básicos da música.

Vamos aprender com um exemplo de um dos grandes mestres da dance music: Fatboy Slim e sua icônica Rockafeller Skank. Aperte play no vídeo, siga lendo e repare em como ele constrói a faixa inteira trabalhando, basicamente, quatro elementos:

  • Repetição, o elemento mais importante de qualquer música dançante, usada para deixá-la previsível e, por isso, confortável. Com 30 segundos de música, você já tem que ser apresentado à praticamente todos os elementos que a compõem. A estrutura da música muito raramente foge do padrão verso/refrão/verso, normalmente preenchendo o intervalo entre cada parte com “breaks” onde você pisa um pouco no freio mas vai aumentando a pressão gradativamente até explodir de volta no verso principal.
  • Ritmo, sempre cru, intenso e marcado. Principal responsável por lhe provocar sensações estranhas do umbigo pra baixo, nunca foge muito do bumbo/caixa/prato.
  • Textura sonora, sempre gritante (nunca discreta) e sempre contemporânea – também para conforto. Em Rockafeller Skank os elementos são samples bastante familiares de guitarra e baixo, repetidos (lembra?) ao longo da faixa.
  • Vocais, para humanização da música e  com letras “postiças”, usadas só pra reforçar o efeito pretendido e/ou dar instruções de como a música deve ser apreciada/dançada. “Check it out now! The funk soul brother” não é uma letra de música: são as instruções de como ouví-la.

Parte 4 – A semelhança entre o sushi e a dance music

Agora que aprendemos que a estrutura da dance music é básica e previsível, você pode estar imaginando que “qualquer idiota faz isso”. Mas não se iluda: tornar-se um grande produtor de dance music é algo muito mais difícil que parece, por um motivo muito simples: na dance music você tem muito menos espaço para trabalhar.

Puramente para fins científicos, vamos comparar a composição de uma música dançante com o trabalho de um sushiman. O sushi japonês tradicional (desconsiderando essas viagens com morango e cream cheese que servem nos restaurantes aqui no Brasil) é apenas uma fatia de peixe sobre um punhado de arroz. Na alta culinária você tem uma infinidade de sabores, temperos e preparos que pode usar pra fazer pratos deliciosos, mas se você quiser fazer um sushi maravilhosamente gostoso, você pode variar apenas dois elementos: o peixe e o arroz. Não dá pra botar sal, cozinhar mais (ou menos) ou acrescentar qualquer outro elemento sem descaracterizar o sushi. Na dance music é a mesma coisa: qualquer tentativa de quebrar sua estrutura ou forma praticamente padronizada a transforma em “não-Dance Music”, então o produtor se vê forçado a fazer tudo “igual mas diferente”.

E é aí que reside a genialidade: em conseguir um nível enorme de qualidade em um espaço muito pequeno de manobra. Outro dia assisti Jiro Dreams of Sushi, documentário sobre um sushiman japonês cujo restaurante tem meses de fila de espera e três estrelas no guia Michelin. O sushi dele é exatamente “peixe sobre arroz”, mas com tudo, desde a seleção dos ingredientes até a forma de preparo, aperfeiçoada em ínfimos detalhes e ao longo de décadas de trabalho. Esta é exatamente a característica dos mestres da música dançante: é tudo “tumtistum”, mas uns são evidentemente melhores que os outros.

Parte 5 – Os grandes mestres: uma exploração ilustrada

Aperte play nos vídeos e siga lendo.

Estudo de caso “a”: The Chemical Brothers

É importante começar pelos clássicos: os caras praticamente ajudaram a inventar/popularizar a música eletrônica, então deles você não espera nada menos do que genialidade. “Star Guitar” é um ótimo primeiro exemplo. Construída em cima da mesma harmonia da guitarra da introdução de “Starman”, de David Bowie, Star Guitar gira em torno de uma mesma nota praticamente o tempo todo, algumas notas se repetem em ritmo de metralhadora e, principalmente, ela abusa dos “filter sweeps”: quando você coloca um filtro no som e ele desliza do agudo pro grave (bzzzziouunnnn!) e depois pro agudo de novo (whooooosh!). Repare bem: Star Guitar é inteirinha filtrada, e os filtros lhe dão um movimento único e um tom místico, quase astral, reforçado pelo vocal do refrão que diz que “you should feel what I feel, you should take what I take”. Estariam eles falando de drogas, talvez? 🙂

Repare também que o clipe (dirigido por Michel Gondry) é uma representação visual da música: todos os elementos que você vê se repetem no ritmo dela, e se transformam conforme o som se transforma.

Os trabalhos mais recentes dos Brothers estão cada vez mais “dancefloor-oriented”. A música da cena da boate em “O Cisne Negro”, por exemplo, é deles, e contém um único vocal, que diz: “Don’t think – just let it flow”. Na dance music o espírito é exatamente este.

Estudo de caso “b”: Basement Jaxx

Se existe um Olimpo da música dançante, os caras do Basement Jaxx estão lá. “Back 2 The Wild” é o single mais recente deles.

O Basement Jaxx está num nível completamente jedi de produção musical. O normal é você ter uns 5 canais  numa mixagem de música dance: a batida, alguma coisa como baixo, um lead qualquer, um vocal por cima e alguns efeitos, e fazer isso tudo soar bem junto dá mais trabalho do que parece. Mas nas músicas do Basement Jaxx sempre tem tipo quarenta e cinco coisas diferentes tocando ao mesmo tempo, e nada é invasivo, nada briga com nada. Eu já ouvi “back 2 the wild” umas 50 vezes e toda vez eu acho algum elemento que não tinha ouvido antes.

Exercício: tente encontrar, em “Back 2 The Wild”:

  1. Um apito
  2. O “woop!” de “Sound of da police”, do KRS-One
  3. Uma buzina de carro (esse é difícil, mas acredite, tá lá)

E o mais legal é que eles também conseguem perverter a regra da repetição: alguns destes elementos são usados apenas uma vez na música toda, e nunca mais voltam.

Estudo de caso “c”: Crookers

Se você jogou “Ballad of Gay Tony”, a expansão do Grand Theft Auto 4, você já ouviu Crookers: foram eles os responsáveis pelas músicas da boate onde o protagonista trabalha.

A genialidade dos Crookers é seu “custo-benefício”: faixas extremamente simples e incrivelmente poderosas. Ao contrário do Basement Jaxx, as faixas tem uma batida seca com no máximo três elementos (bumbo, caixa, prato), um lead muitas vezes dobrado junto com o baixo, e… apenas isso. Só que eles tem uma capacidade ímpar de escolher exatamente a batida certa, exatamente o lead certo, e de repetir isso na linha extremamente tênue entre o divertido e a idiotice. A impressão inicial ao ouvir Crookers é a de que você está tendo um derrame, mas que isso é divertido.

Repare que “Knobbers” tem apenas um instrumento na música toda… mas ele pesa uma tonelada.

Apêndice: Leitura (auditiva) Complementar

Outros nomes interessantes da música dançante para explorar:

  • Buraka Som Sistema – Produtores portugueses que “recolonizaram” a África e pegaram emprestado seus melhores elementos rítmicos. Fora que dance music cantada em português é sempre engraçado. (Amostra: Sound of Kuduro – não é aquela porcaria da novela, é “the real deal”, direto de Angola)
  • Simian Mobile Disco – Eles tem uns discos ruins, mas o Attack Decay Sustain Release é um espetáculo, e alguns álbuns menos conhecidos (como o “Delicacies”) são feitos bem especificamente para a pista de dança. (Amostra: Hustler)
  • Rustie – Décadas ouvindo música eletrônica e nunca ouvi nada como esse cara. A energia contida em cada uma das suas faixas poderia alimentar uma pequena cidade por 6 meses. (Amostra: Ultra Thizz)
  • Vitalic – No mesmo estilo “Crookers”, mas para um público mais classe A, faixas simples mas que pesam uma tonelada. (Amostra: La Rock 01)
  • Toy Selectah – Essa história de globalização tem uns produtos engraçados, tipo essa mistura de raggaton colombiano com música de festa rave. (Amostra: La Ravertona)