Resumo das coisas que pensei ao pedalar 46km

(Todas as fotos são do meu Instagram)

Primeiros 5km – Depois que acordei e vi que a previsão do tempo dizia, basicamente, que “the winter is coming” (vem aí recordes de frio e chuva na semana que vem), achei por bem aproveitar o último dia de sol. O roteiro que imediatamente me veio à cabeça foi percorrer a Ciclovia do rio Pinheiros, inteira, entrando pela estação Santo Amaro e saindo pela Vila Olímpia.

Estes 5km são o trecho de rua que percorro até a estação Santo Amaro. Normalmente é lá que eu me preocupo com o vento e decido se vou começar pedalando pro norte ou pro sul, mas dessa vez pensei: “não faz diferença, nesse circuito de hoje eu vou me ferrar de qualquer jeito”. Então entrei na ciclovia, coloquei os fones, apontei a bike para o sul e comecei a pedalar.

Do km 5 ao km 12
Me sinto:
Ótimo
Dores: Nenhuma

Ciclovia

Este trecho vai até o “final pobre” da ciclovia, que fica em Interlagos. Eu chamo de “final pobre” não por preconceito, é porque o estado da ciclovia aqui pra baixo é tenebroso em comparação com o “trecho nobre” (ao norte da Vila Olímpia, já já falo dele). O asfalto é mal preservado, a pintura está velha e horrível. Mas o vento, meus amigos, o vento estava a favor e eu fiz esse trecho numa média de deliciosos 40km/h. É como naquelas questões de física do colégio, quando o professor dava um problema de mecânica clássica e te falava pra desconsiderar o atrito. Mas ao invés de curtir, a única coisa que eu pensava era que esse vento a favor logo logo seria um vento contra – e eu iria percorrer toda a extensão da ciclovia com Deus flutuando na minha frente e me soprando de volta pra trás, como naquelas ilustrações do século XIX.

Do km 12 ao km 20
Me sinto:
Um cara esforçado
Dores: Nenhuma

Eu esperava vento contra, mas o que encontrei foi o pior vento contra de toda a história dos ventos contra da ciclovia. Se você não tem costume de pedalar isso pode parecer exagero, mas eu te provo com um dado bem simples: minha velocidade média de 40km/h caiu pela metade e eu estava lá, bufando a 20km/h e me sentindo como se estivesse subindo o Everest. Mas a coisa toda só estava começando e eu ainda tinha bastante gás.

Os outros ciclistas desistiam de forçar e subiam em ritmo de passeio. Alguns estavam parando no acostamento pra descansar.

Do km 20 ao km 25
Me sinto: 
Um cara esforçado e também persistente
Dores: Punhos meio doloridos do guidão, mas tranquilo.

Ponte Estaiada

É nesse trecho que eu passo debaixo da Ponte Estaiada, principal cartão postal da rede Globo de São Paulo. Isso me lembou uma das primeiras vezes que vim à ciclovia, ainda com uma bicicleta “genérica” daquelas de comprar em supermercado. Lembro que nos primeiros quilômetros eu pensava, empolgado: “cara, como isso é divertido!”. A diversão durou até meu pneu dianteiro furar, pouco antes da Ponte…

Foi um balde de água fria daqueles. E isso me lembrou de todas as outras inúmeras vezes que tentei fazer algum tipo de exercício e alguma coisa atrapalhava. Quando era jovem e morava em Belo Horizonte eu tentei correr na rua um monte de vezes: numa delas chovia todo dia, outra vez eu tropecei e ralei os dois joelhos, e em todas as vezes eu me sentia injustiçado pelo destino.

Felizmente, depois de adulto, adotei uma regra simples para a vida: para todo e qualquer problema da minha vida, inclusive – e especialmente – os problemas causados por “má sorte” ou “injustiças”, o culpado sempre sou eu mesmo. Pneu furou? Culpa minha, que não me planejei para isso e não trouxe um kit de reparo ou uma bombinha de ar de emergência (qualquer ciclista sério sempre sai de casa com um desses). Choveu? Culpa minha, que não viu a previsão do tempo e/ou trouxe uma roupa impermeável pra se proteger.

Pensar assim me fez parar com mimimi e ser mais esperto e criativo em relação às coisas da vida. Ou pelo menos era a intenção: adivinha se eu havia lembrado de trazer meu kit de reparo de pneus…

Do km 25 ao km 30
Me sinto:
Suave na nave.
Dores: Nenhuma. Ou seja, na hora que eu parar…

Chegada dos ciclistas na Estação Vila Olímpia

Passei a estação Vila Olímpia e cheguei no “trecho nobre” da ciclovia. Gente bonita, bicicletas importadas, asfalto novinho e pintadinho, tudo na mais perfeita vibe coxinha. Mas o mais legal é que, mesmo usando uma Caloi 10 vagabunda, sem sapatilha, e equipada na base do DealExtreme, nenhuma bike fashion de 10 mil reais havia me ultrapassado. Na verdade nenhuma bike tinha me ultrapassado desde que entrei na ciclovia.

Lembrei dos meus primeiros dias de academia, pouco mais de um ano atrás. Eu estava gordo e sem preparo físico, e com um longo histórico de tentativas fracassadas de emagrecer. Só que dessa vez eu decidi que tentaria duas coisas novas:

  • Para exercícios, o método “calma, cara” – Eu não ia cair na conversa dos professores de academia que ficam gritando “VAAAAI BOTA MAIS PESO NESSA PORRA AÊ”. Eu iria devagar. Sem forçar. Pegar pouco peso, aumentar carga só quando eu me sentisse definitivamente confortável. É como diz o ditado gringo: “slow and steady wins the race”. Isso foi essencial pra que eu não mandasse os treinadores da academia para lugares não muito felizes durante os treinos, e também pra que eu não me frustrasse ao não ver nenhum resultado após me matar de treinar.
  • Para dieta, um único e simples indicador: calorias – Eu não sei como não percebi isso esses anos todos. Emagrecer é matemática simples: se você comer menos calorias do que gasta, você emagrece. Caso contrário, engorda. A única coisa que faltava no meu caso era contar as malditas calorias. Aí instalei o FatSecret no meu telefone e passei a anotar tudo que comia e os exercícios que fazia. E me pesava todo dia. Aí o óbvio aconteceu: nos dias em que eu comia menos do que gastava, eu emagrecia. E pela primeira vez eu tive a certeza diária do que ia acontecer com o meu peso – porque, afinal, eu estava medindo.

Resultado: perdi 13kg em um ano.

Antes e depois

Lembro que nas minhas primeiras idas à ciclovia eu via meu desempenho e me achava o máximo – e então algum triatleta maluco passava voando por mim. Mas ao invés de me frustrar eu segui firme no método “calma, cara” – tão distraidamente que só hoje reparei no quanto meu preparo físico está ótimo.

Do km 30 ao km 35
Me sinto: 
Lance Armstrong (sem o doping)
Dores: Meio dolorido, mas só quando me mexo.

Bicicletas estacionadas no final da ciclovia

Como já ia aí mais de uma hora de ciclovia, tomei um gelzinho de maltodextrina (basicamente um carboidrato de fácil absorção) pra manter o nível de energia até a volta pra casa. Da primeira vez que tomei isso foi muito engraçado: era um dia em que tinha me alimentado mal e estava morrendo lá pelo km 15, aí tomei o gel e ele me deu um boost de energia tão absurdo que entendi Lance Armstrong perfeitamente.

Esse trecho é a reta final da ciclovia, um trecho sem nenhuma lombada que vai até o Villa-Lobos e tem um retão no final. Era pra eu estar morrendo com o vento contra, mas estava tão bem que outra ciclista até pegou carona em mim até o final da pista.

Esse negócio de pegar carona no vácuo de outro ciclista, que vai na frente “cortando” o vento pra você, é muito divertido. Eu nunca entendi aqueles papos de estratégia de equipes no Tour de France até ver a diferença absurda que faz ter alguém abrindo o vento na sua frente. Tanto que não é incomum que os ciclistas do rio Pinheiros façam uns pequenos pelotões involuntários e revezem entre si, mesmo que não se conheçam. Normalmente eu sou o “caroneiro”, mas hoje eu reboquei uns dois ou três.

No fim da pista o pessoal normalmente para pra tomar uma água e descansar. Já eu, quando percebi que não tinha sequer colocado o pé no chão desde que entrei na ciclovia, inventei de completar todo o trajeto sem parar.

Do km 35 ao km 40
Me sinto: 
Runner’s high!
Dores: Não ouviu? Runner’s high!

Nessa hora eu estava bem no trecho que menciono neste post, de 2012, que escrevi quando estava afundado em insônia e stress. Mas agora o cenário é outro: troquei de trabalho e foi como se eu tivesse trocado o inferno pelo céu. É triste como a gente se acostuma com uma vida miserável sem perceber.

No post eu menciono que, ao começar a descer a ciclovia de volta, com o vento novamente a favor, eu me senti relaxado pela única vez naquela semana. Dessa vez eu estava relaxado, feliz, leve, passarinhos assobiando que a vida é bela enquanto pétalas de flores levitavam na brisa suave e o asfalto da ciclovia reluzia em um milhão de luzes tal qual estrelas de uma galáxia distante.

Tudo culpa das endorfinas que inundaram meu cérebro. Na real mesmo eu estava é todo dolorido, desviando de cocô de capivara, vendo urubus sobrevoando a pista e sentindo o cheiro fétido do rio.

Do km 40 ao km 46
Me sinto: 
Zumbi.
Dores: Dói tudo!

Ciclovia

Finalmente cheguei na estação Vila Olímpia, o ponto onde iria sair da ciclovia e voltar pra casa pela Berrini e Chucri Zaidan. No instante em que eu parei a bicicleta, os 40km cobraram seu preço: músculos que eu nem sabia que existiam gritavam de dor. As coxas fraquejavam. A bunda se sentia sodomizada pelo selim, e eu tinha dúvidas se conseguiria ter filhos no futuro. Empurrar a bicicleta escada acima para subir a passarela e sair da ciclovia foi uma espécie de décimo-terceiro trabalho de Hércules. A única posição que não doía muito era, ironicamente, sentado e pedalando. Então respirei fundo e saí Berrini abaixo, desviando dos ônibus.

Eu uso frequentemente a bicicleta no meio do trânsito, durante a semana, pra ir pra academia. O que mais me deixa surpreso é que os motoqueiros são o veículo que mais respeita bicicleta. Reduzem pra você passar (mesmo no corredor), tomam o maior cuidado contigo. Até puxam papo no farol. Outra coisa bizarra é o quanto os pedestres ignoram as bicicletas. É como se você não fosse um veículo: a pessoa atravessa a rua e praticamente salta na sua frente, esperando você desviar dela.

Com o ritmo ditado pelos faróis da Berrini, e após sofrer com os calombos das mal pavimentadas e insistentemente remendadas ruas paulistanas, finalmente cheguei em casa.

Tempo total: 1 hora e 50 minutos
Distância total: 46,1 quilômetros
Velocidade média: 25km/h
Frequência cardíaca média: 159 bpm
Calorias ingeridas: 326 kcal (um Gatorade e um sachê de maltodextrina)
Calorias consumidas: 1596 kcal