A saga bancária Brasil-Canadá

Eu sei que é meio babaca essa negócio de se mudar e ficar comparando Brasil com outros países, mas permitam-me contar pra vocês uma pequena historinha.

Tudo começa em outubro de 2014, quando chegou a hora de pagar o primeiro semestre dos estudos na faculdade canadense. Como de costume, tentei fazer a operação pela internet, mas não consegui porque meu banco, por segurança, tem um limite bem baixo de valor para movimentações financeiras. “Hmm, que bom que descobri esse problema – isso vai complicar as transferências do meu dinheiro do Brasil pro Canadá”, pensei. Aí tive que ir à agência e fazer a transferência em pessoa e, pra prevenir problemas futuros, tentei entrar em contato com o meu gerente. Achei que ia ser fácil, pois pelo volume de dinheiro que guardei eu estava enquadrado naquela categoria premium de cliente bancário.

Foi aí que meus problemas começaram.

Demorei DIAS para conseguir FALAR com o meu gerente. Quando finalmente consegui, pra não passar o mesmo aperto, pedi a ele que já deixasse cadastrada a conta corrente de uma casa de câmbio para contornar essa questão do limite e eu pudesse transferir valores maiores sem precisar falar com ele. Ele disse que tinha cadastrado tudo e que eu podia ficar tranquilo.

Aí chega novembro e olha eu, todo pimpão, chegando no Canadá. Naturalmente, precisei fazer outra remessa de dinheiro pra cá e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a conta da casa de câmbio não tinha sido cadastrada e eu continuava travado pelos limites de transferência que eu tinha pedido meu gerente pra aumentar. Ou seja: eu simplesmente não conseguia trazer pra cá nenhuma parte do dinheiro que eu passei anos juntando para a viagem.

Começou, então, a segunda novela de conseguir falar com meu gerente – dessa vez com o agravante de que eu tinha que apelar para telefonemas via Skype feitos em wi-fi emprestada dos Starbucks da vida, que eu tinha que achar saindo de casa e encarando a neve, o vento e a friaca próxima de zero graus. Passei quase uma tarde inteira tentando contato com o filho da mãe até que consegui conversar com o assistente dele, que me confirmou que de fato não tinha rolado nenhum aumento de limite de transferência e que ele não poderia fazer muita coisa porque meu gerente estava fora da agência num treinamento.

Depois de reclamar no SAC, depois na Ouvidoria do Banco, e só depois de ameaçar ir reclamar na Febraban é que, após MESES de briga com o banco, consegui que aumentassem meus limites de transferência. Ironicamente eu tive problemas até pra reclamar na ouvidoria, porque só existe um link para acesso a ela e esse link fica escondido na versão beta da nova interface do internet banking – que foi feita usando como referência o Orkut (não, eu NÃO ESTOU BRINCANDO).

Agora eu gostaria de contar um pouco sobre as minhas experiências bancárias aqui no Canadá.

Logo que chegamos fui ao banco para abrir uma conta corrente. No sábado (sim, os bancos aqui abrem no sábado) visitei uma agência e, usando como documento apenas o meu passaporte, me deram uma conta corrente, uma conta poupança, uma conta específica para dólares americanos e isenção de tarifa por seis meses. O processo todo levou menos de uma hora.

Mas o melhor foi o problema que tive esse final de semana: fui comprar um colchão para a casa nova e, como a compra tinha um valor maior que o usual, o meu cartão do banco daqui deu erro de “limite de compras excedido” – problema bastante parecido com o que tive com a conta brasileira.

Eu já estava prevendo o pior quando o próprio vendedor da loja de colchões falou: “liga lá pro seu banco que eles resolvem isso”. Olhei o número do 0800 atrás do meu cartão e, meu amigo, minha amiga… NADA poderia me preparar para o que aconteceu:

  • O tempo de espera até eu ser atendido foi de ZERO segundos.
  • Após explicar a situação, a atendente confirmou a minha identidade da forma mais simples e intuitiva possível: perguntou o nome da pessoa com quem eu tinha conta conjunta (Bethania) e pediu pra eu contar alguma transação recente que eu tivesse feito com o cartão – valia até mesmo o café que eu havia tomado no Tim Hortons algumas horas atrás.
  • Depois, mudou o meu limite de compras INSTANTANEAMENTE – e ainda aguardou na linha enquanto eu passava o cartão novamente pra comprar o colchão.
  • Sem que eu pedisse, ela se ofereceu pra fazer o cadastro de uma segunda senha pro SAC via telefone – pra facilitar na hora de confirmar minha identidade e agilizar os próximos atendimentos (que, veja você, tinha levado até aquele momento MENOS DE TRÊS MINUTOS).
  • Não satisfeita em resolver meu problema, ainda aproveitou pra me orientar melhor sobre o uso da minha conta poupança, dando macetes (que ela mesma, como pessoa física, usava) de como usá-la para construir um bom score de crédito com o Banco.
  • No fim, ainda me parabenizou pela compra do colchão e desejou boa sorte na montagem da nova casa aqui no Canadá.

Desliguei o telefone e chegou a escorrer uma lagriminha de emoção.

Impressões da primeira semana de Canadá

Porque Toronto é uma cidade muito horizontal e espalhada, os subúrbios tem uns momentos meio “terra de ninguém”: é comum você ir pegar o metrô e ter só umas duas pessoas na estação. E quando eu saio pra andar com o cachorro de manhã normalmente não tem NINGUÉM na rua.

Não me admira o canadense ser solitário. Hoje, por exemplo, eu já ia voltando do passeio canino matinal quando um senhor, que estava sentado sozinho num banco do parque, fez uma brincadeira com Pavlov e emendou uma conversa e começou a contar dos filhos e de quando imigrou da antiga União Soviética pro Canadá e de que é um absurdo a história da Criméia e que essa guerra é só pra capitalista lucrar e que não acredita em religião mas em um “poder maior” e falou sem parar por uns quinze minutos (num frio de cinco graus negativos, vale frisar). Mas sabe aquela conversa de quem não tem com quem falar o dia todo e, quando acha alguém, acaba virando um monólogo catártico? Pois é.


Essa coisa de andar com o cachorro deu outra história engraçada também: logo que cheguei, lá ia eu com Pavlov em mais um passeio pelas vizinhanças desertas quando, de repente, ouço aquela voz grave e densa, típica de um negão de dois metros de altura:

“HEY!”

Olho pro lado e, de fato, era um negão de dois metros de altura, que apontava pra mim e dizia: “I’M GONNA PICK A FIGHT WITH YOU!” (“eu vou comprar uma briga contigo!”)

“Pronto. Vivi anos em São Paulo e nunca fui assaltado, agora vou morrer espancado no meu segundo dia de Canadá”, pensei por um instante… até ver que o negão se referia ao meu cachorro e, obviamente, a “luta” era daquelas de brincadeirinha.


Levei pouco menos que uma hora para abrir uma conta no banco, meia hora para fazer um plano de celular e uns quinze minutos pra tirar o SIN (o “CPF” canadense). Tudo isso apresentando como documento apenas o meu passaporte.


Se você é um casal sem filhos e precisa ir ao supermercado por aqui, meus pêsames: as embalagens são todas “tamanho família”. TODAS. Leites e sucos de dois litros, manteiga de 500 gramas pra cima, e por aí vai. E eu não percebi o quanto a comida no Brasil era barata até Bethania comprar uma banana canadense ao preço de uma DÚZIA de bananas brasileiras.


Por outro lado, um belo Cabernet Sauvignon californiano sai por 12 dólares e a Vedett (a mais incrível cerveja belga de trigo) sai por 3 dólares. E hoje, na volta do trabalho, confirmamos uma dica que eu havia lido no Reddit: surpreendentemente, os supermercados chineses/coreanos são muito mais baratos que os “normais”.


Eu estava achando o trânsito de Toronto até bom, comparado com o de São Paulo. Até que nevou muito e de repente e o asfalto virou uma “pista de patinação”, e TODOS os carros passaram a dirigir a 20km/h. Na estrada vi um Dodge, na faixa bem do lado da minha, patinar de traseira por uns cinco segundos. O cara só não rodou por completo porque teve muito sangue frio e conseguiu impedir o pior. Foi muito assustador.

Ah, e levei duas horas pra voltar pra casa.

Ainda assim o motorista canadense é muito mais cortês e tranquilo que o de São Paulo: todo mundo usa a seta, ninguém trafega no acostamento, ninguém sai costurando na estrada feito louco e colando na sua traseira e piscando farol. Comparando com o trânsito daqui num dia normal, o trânsito paulistano é absolutamente SELVAGEM. Incrível como a gente se acostuma e não percebe.


Às vezes Bethania olha pra mim e fala: “a gente é doido de largar tudo e mudar de país, né?”. E eu respondo: “sim, a gente é doido”. E aí eu percebo que eu não estaria aqui se não tivesse casado com a mulher perfeita.

Obrigado, São Paulo

Que saco, é mais um post sobre São Paulo. Azar o de vocês. Aguentem, porque eu não consigo ir embora e não falar daqui de novo.

Ter me mudado pra São Paulo foi, com sublinhado e tudo, uma das melhores decisões que já tomei na vida. Acho que só perde pra ter me casado.

Depois de sete anos morando aqui posso afirmar que aquela frase manjada do Criolo de que “não existe amor em SP” é totalmente verdade. Como tudo aqui é mais difícil – porque é mais caro, mais lotado, mais neurótico ou mais distante – sua visão romântica da vida vai embora rapidinho. A vida aqui não é um mar de rosas e nunca vai ser.

E isso é ótimo.

Eu gosto muito de uma artista iugoslava chamada Marina Abramovic. Aquela, que ficou famosa em 2010 com o “The Artist is Present” no MOMA. Pra quem não conhece ela faz a chamada “arte de performance”, onde o próprio artista usa o corpo como meio de expressão. E Marina é louca: nas suas “obras” ela se coloca em situações extremamente desconfortáveis, dolorosas e corre riscos reais de se ferir ou morrer. Uma vez, numa entrevista, ela disse algo que se tornou minha frase predileta por muitos e muitos anos:

“Você não cresce quando está fazendo o que gosta”.

São Paulo representa muito disso pra mim. Não vim pra cá para curtir um mar de rosas: vim para trabalhar duro. E isso foi incrivelmente recompensador. Aqui aprendi a lidar com a rejeição e com a derrota. Aprendi que nenhum problema é grande demais se você tem disciplina e paciência. Foi aqui que me tornei adulto, e por isso conquistei muita coisa boa. Consegui comprar meu apartamento bem no meio do boom dos preços dos imóveis. Emagreci 12 quilos mesmo com jornadas de trabalho de 12 horas, e retomei o controle da minha própria saúde. E mesmo em 2014, um ano de incertezas profissionais, consegui juntar dinheiro suficiente pra poder ir estudar no Canadá. Eu jamais conseguiria isso tudo em outra cidade.

Mas falando assim parece que eu só sofri em São Paulo. Muito pelo contrário: meus anos aqui talvez tenham sido os mais ricos em termos de cultura e diversão – tanto que os amigos de Beagá chegaram a comentar que viramos “baladeiros” depois que nos mudamos pra SP. De fato, Só no quesito “shows de música boa” teve os quatro shows seguidos do Tortoise, teve o Girl Talk no Planeta Terra, teve o primeiro show do Radiohead no Brasil (e com Kraftwerk!), tiveram os inacreditáveis shows de R$ 5 no SESC Pompéia com nomes absurdos tipo Jaga Jazzist (melhor show de 2014), Mouse on Mars, Gonjasufi, The Sea and Cake… teve o Sónar 2012 com o lineup mais inacreditável de todos os tempos, teve o Oval na Trackers, Daedelus (de graça!) na PUC, teve o Pet Duo na Augusta… e isso é só a ponta do iceberg: tiveram os museus e bienais, as tardes no Ibirapuera, as voltas de bicicleta na ciclovia da marginal… teve também muita comida boa: o fantástico ovo mollet do Le Jazz, o ceviche inacreditável do Rinconcito Peruano (na cracolândia!), o inigualável lomo saltado do Don Mariano, e os chopps e conversas fiadas com os amigos no São Cristóvão, toda terça. Amigos, amigas e até “esposas novas” que vão fazer muita falta.

A vida aqui foi intensa, e eu nem sempre tive a chance de fazer o que gostava. E por isso eu só tenho a agradecer.

Por que estou deixando o Brasil

Sim, é isso mesmo. Talvez este seja o mais longo e mais importante post deste blog. Se ajeite aí na cadeira.

Preâmbulo: como assim você está saindo do Brasil?!?

Pois é, cara. Depois de anos considerando casualmente a possibilidade de morar fora, este ano começamos a levar a coisa à sério e, após muita fritação de “vamo/não vamo”, eu e Bethania decidimos: vamos pro Canadá.

O plano é eu voltar pra faculdade, para um curso de 2 anos que é um semi-bacharelado em engenharia de software. Em termos de carreira eu até poderia ir e procurar emprego direto, mas decidi voltar a trabalhar na área técnica. Não tem jeito, é o que eu gosto mesmo de fazer. Depois do curso, quero arrumar um emprego lá e, a partir daí, o objetivo é conseguir cidadania canadense e ficar. Bethania, que é muito mais ninja profissionalmente do que eu, já tem inclusive um emprego esperando por ela.

A escolha do país, tecnicamente, foi fácil: o Canadá tem uma política de imigração bem aberta em função da população envelhecida e da demanda por profissionais qualificados. Além do mais eu morei lá por seis meses, em 2005, a trabalho, e não somente conheci como adorei o lugar.

filosoficamente falando, trocar de país é uma coisa bastante complicada – e é o que me motivou a escrever este post.

Você não precisa ficar onde está

“Menino, vai na padaria pra mim!”, me diziam quando eu era criança e vivia em Belo Horizonte. Eu não gostava de ir à padaria porque a distância pra mim era enorme e cheia de ladeiras, e ir comprar pão parecia uma maratona. Aí pula para 2014: dia desses eu estava visitando os parentes em Beagá e acabou coincidindo de eu passar exatamente pelo mesmo trajeto entre meu antigo prédio e a padaria.

Eram só dois quarteirões.

Talvez eu estivesse morando exatamente no mesmo lugar até hoje se não fosse o meu emprego de consultoria, que me fez viajar o Brasil todo – e me levou ao Canadá pela primeira vez. Passar por lugares novos muda o tamanho do lugar onde você vive e, também, quebra a regra invisível de que a sua vida só pode acontecer onde você mora. Em função do hábito, conveniência e da família sempre próxima é fácil se limitar ao que existe (ou não) na sua cidade e moldar sua vida de acordo com o que existe a dois quarteirões de casa, ou achar que o mundo é só aquilo ali, e passar a vida achando que aqueles dois quarteirões são uma distância enorme. Mas você não precisa ficar onde está. Essa frase banal esconde uma verdade universal, libertadora. Foi pela ausência dessa regra que eu e Bethania nos mudamos pra São Paulo: invertemos a lógica de “gostar do que se tem” e fomos pra onde o que a gente gostava estava.

Agora está acontecendo mais ou menos a mesma coisa. A gente quer trabalhos legais mas com menos stress, quer impostos que voltem de fato, quer poder andar na rua sem medo de assalto, quer poder ter filhos em um lugar mais amistoso (e mais acessível!). E São Paulo não permite tudo isso junto. Talvez o Brasil não permita isso – talvez nunca permita.

E este é o gancho importante para falar justamente de algo que me incomoda há muito tempo mas que só fui entender depois dos trinta e muitos anos de idade: o Brasil tem muita DR pra fazer consigo mesmo antes de se tornar uma grande nação, coisa que não vai acontecer tão cedo. Talvez nunca aconteça. E, como só se vive uma vez, eu não posso esperar.

A inigualável cultura brasileira (ou: por que o Brasil é do jeito que é?)

Minha diversão mais recente aqui em São Paulo é usar a ciclovia novinha que o Haddad resolveu passar bem na esquina da minha rua. Todo dia eu arrumo motivo pra ir pra algum canto de bike, muitas vezes só pra dar o exemplo.

No começo, sempre tinha alguém com carro estacionado na ciclovia, e eu sempre reclamava com o motorista. A maioria se fingia de bobo ou arrumava uma desculpa. Uns até xingavam de volta. Uma vez um deles ameaçou me bater e quebrar meu telefone, porque tirei uma foto do seu furgão estacionado bem em cima da faixa vermelha.

Talvez você esteja pensando: “mas cara, tu ta indo embora, pra quê ficar cobrando os motoristas de respeitar ciclovia? Daqui a alguns meses tu nem vai usá-la mesmo, e ainda periga apanhar ou levar um tiro”.

Então, cara! O problema é exatamente esse. Meu primeiro impulso também foi pensar e agir assim – e é precisamente por isso que o Brasil é do jeito que é e não vai mudar tão cedo: aqui o individual é mais importante que o coletivo.

Esta cisão entre indivíduo e coletividade provoca um efeito colateral bizarro, que é a divisão mental do brasileiro. Sabe a mania que temos de criticar o país na terceira pessoa? “Brasileiro é tudo burro”, “o povo só quer saber de futebol”, etc, etc? Quem fala, fala como se não fosse brasileiro, efetivamente se separando da própria crítica – afinal sua moral individual é superior à ignorância coletiva.

Se essa cisão fosse só socioeconômica ou política tava bom. O problema é que ela é pior e muito mais profunda: é uma divisão cultural.

Ela aparece, por exemplo, quando tem um mendigo dormindo no meio da calçada e a gente desconsidera mentalmente que ali existe uma pessoa. Ou você olha para aquele cara caído na saída do metrô, preto de fuligem, com uma unha do pé que parece a garra de um bicho, e se pergunta de onde ele veio, se tem filhos – ou se ainda tem sonhos? (por sinal uma fan page genial chamada “SP invisível” faz exatamente isso, vale muito a leitura). Essa divisão está aí o tempo todo, quando você reclama do trânsito (o trânsito é você) ou que o preço do cinema está um roubo (sua carteirinha de estudante é legítima?).

“Mas tudo isso aí pode mudar!”, você poderia alegar – e com razão. A questão é que tem problemas nacionais que dá pra resolver relativamente rápido, como a economia ou a distribuição de renda, mas a questão do “individual sobre o coletivo” é cultural – e mudar uma cultura é incrivelmente difícil. Leva séculos, e pode dar muito errado. Olhe para a história do mundo moderno e me aponte quantos países conseguiram mudar sua identidade nacional da água pro vinho: eu só consigo pensar na Alemanha pré e pós-Hitler e pré e pós muro de Berlim, e ainda assim a mudança só veio com grandes traumas nacionais. Vale o mesmo pro Japão antes e depois das bombas atômicas. Mas mudança orgânica, sem neurose, derramamento de sangue ou hecatombes político-sociais, aí eu não sei de nenhum exemplo.

Eu não queria, mas não tenho como não mencionar as eleições de 2014 – porque elas exemplificam muito do que eu falei aí em cima. No início eu tentei encarar a sujidade e a baixeza com a qual as pessoas, candidatos ou não, se comportaram nestas eleições como imaturidade, efeito de uma democracia que ainda é muito jovem. “Todo mundo quer um Brasil melhor, mas como crianças, estamos todos fazendo birra para isso”, pensava eu. Aí tou vendo milhares de pessoas na Av. Paulista, enquanto escrevo este post, pedindo o retorno do regime militar. Vi o nascimento do chamado “discurso do ódio”, com coisas deprimentes como molecada xingando nordestinos no Twitter pelo resultado da eleição. Com gente do naipe de Ricardo Amorim, economista renomado, postando que “quem estuda não vota na Dilma” – isso só pra citar alguns poucos exemplos. E só consigo entender tudo isso da forma que mencionei anteriormente: com a preponderância do individual sobre o coletivo que, aplicada num processo democrático, vira uma briga de “quem tem a maior melancia na cabeça”.

Faça um auto-exame: ao escolher em quem votou, você pensou no que seria melhor pro país ou no que seria melhor para você? E, se você pensou no coletivo e não no individual… você se lembrou do mendigo na saída do metrô?

Pra piorar ainda mais o banzo: enquanto aqui as eleições terminavam, lá no Canadá um maluco entrou atirando no parlamento, matou Nathan Cirillo (um dos guardas que vigiava o Memorial de Guerra) e depois foi morto. A reação da mídia e das pessoas por lá foi, simplesmente, inacreditável:

  • A cobertura da imprensa canadense foi tão sóbria, factual e isenta de sensacionalismo que arrancou elogios pelo mundo.
  • Kevin Vickers (o “chefe da segurança” do Parlamento) foi o responsável por matar o atacante. No dia seguinte aos ataques, ele simplesmente foi trabalhar normalmente. O vídeo dele sendo aplaudido de pé, ao voltar ao trabalho no parlamento me deixou embasbacado. E no Reddit, além dos elogios, tava todo mundo preocupado em dar apoio psicológico a ele, porque matar alguém pode ser traumático, etc, etc…
  • Ainda no Reddit a outra fonte de preocupações era a única vítima: Nathan Cirillo. Tinha um monte de gente preocupada em abrir um fundo para doações para o filho dele, que era pai solteiro, e inúmeros comentários sobre sua bravura e o quanto isto era uma perda para o Canadá. E ninguém sequer mencionou o atacante. Até hoje eu não sei o nome dele. Mas tinha gente preocupada até em quem ia cuidar dos cachorros do Cirillo daqui em diante.
  • E o cartunista do principal jornal de Ottawa ainda me publica isso aí embaixo.

Em resumo: um evento importante sacudiu o Brasil e saiu muita coisa ruim. Mas quando um evento importante sacode o Canadá…

Pontualidade e outros superpoderes inúteis – e um grande dilema

Outra questão cultural menos grave, mas que me incomoda desde sempre, é o modus operandi brasileiro: improvisado, espontâneo, altamente orientado à relacionamentos pessoais. Não estou criticando este jeito de ser, mas passei quase quarenta anos tentando me adaptar a ele e… não dá, eu não sou assim.

Eu gosto de ordem, planejamento e regras bem definidas. Eu chego no horário quando combinam comigo – e normalmente fico esperando feito bobo, porque ninguém chegou. Eu faço cronograma de viagem de férias. Eu assino Rdio e Netflix (sem proxy!), compro MP3 no Bleep, meu Office é original e licenciado e tenho três backups dos arquivos do computador. Na verdade, culturalmente falando, eu nunca me identifiquei com as coisas nativamente brasileiras (futebol, samba, praia). No entanto eu consigo te explicar todas as regras de um jogo de curling, o único esporte com o qual tive afinidade instantânea foi o esqui e uma das minhas camisetas prediletas é de uma banda chamada Set Fire to Flames – que é canadense.

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Não parece, mas esta é uma camiseta de banda.

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E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

E é isso que me dói e me gera uma crise de consciência enorme. O momento nacional é sério, é importante. Não se trata só de um rebuliço econômico, ou de uma maluquice traumática como foi a ditadura: o Brasil está meio que “entrando na puberdade” do ponto de vista ideológico, e é um momento ímpar onde todo mundo deveria dar o melhor de si pelo país. E a mítica hora que a gente canta no hino, dizendo que “o filho teu não foge à luta”, e no entanto é exatamente isso o que eu estou fazendo.

Mas essa luta é longa demais, e talvez seja impossível vencê-la. Quem me conhece sabe que eu não sou otimista, mas pense comigo: você se enxerga indo ao Mineirão assistir um Atlético e Cruzeiro onde as torcidas não ficam separadas no estádio? Você vê esta realidade em um futuro próximo? E em um futuro distante? E o quão distante está este futuro? Pra mim, este é o melhor indicador possível pra se melhoramos ou não na questão do “individual sobre o coletivo”.

A vida já me deu bastante porrada (felizmente, nenhuma nos estádios). E o que eu aprendi com isso foi que é fundamental saber quais brigas comprar. Então, decidi comprar a da imigração – que é uma senhora briga, vale frisar.

E como faz pra ir pro Canadá?

Ah, rapá, aí nem com dez páginas de post dá pra explicar. É um processo demorado e de MUITA burocracia, até pros padrões brasileiros. O melhor a fazer é ver o site do Ministério da Imigração Canadense, mas em resumo você tem que ter curso superior – ou grana pra fazer um por lá -, tu tem que ter experiência de trabalho numa das profissões que estão em demanda e inglês ou francês bom (e comprovado por um teste tipo IELTS ou TOEFL).

No meu caso eu tinha dois planos (lembra da minha paranóia com backup? Pois é!)

Plano A) Imigrar pelo processo federal (Federal Skilled Worker). Nela, você já chega com visto de residente permanente, o que te permite trabalhar e/ou estudar onde quiser e virar cidadão depois de alguns anos. O problema desta opção: a burocracia dela é inacreditável (o processo que enviei tinha quase cem páginas!), o formato atual dela, que te permite ir sem achar emprego antes, vai ser extinta em 2015 e as vagas de 2014 foram limitadíssimas – apenas 1.000 por profissão.

Plano B) Ir como estudante de um curso superior. A burocracia é beeem menor, não tem limite de vagas e dá pra aplicar pro visto pela internet mesmo. O duro desta opção é o custo (e a ausência de renda), mas você ganha direito a um visto de trabalho quando se forma e seu cônjuge pode trabalhar enquanto você estuda.

No meu caso o plano A foi a maior decepção do mundo: passei MESES reunindo documentos, DIAS preenchendo os formulários, gastei uma bolada com cópia autenticada e tradução juramentada, outra bolada fazendo o teste de inglês (IELTS, que fiz de ressaca e com três horas de sono, mas tirei 8 em 9 – história para outro post…), mandei meu diploma (físico) pro exterior pra ser validado, foi uma via crúcis. Aí mandei tudo, fiquei meses fritando se eu ia conseguir entrar nas mil vagas, até que numa segunda-feira vi a cobrança da taxa de análise no meu cartão de crédito indicando que sim, eu havia entrado.

A alegria durou três dias, que foi o tempo de vir um email do consulado avisando que faltou incluir uma data em um documento, que foi desconsiderado e que, por isso, me desqualificou do processo por um ponto.

Agora estamos indo de plano B: já escolhi uma faculdade, fiz matrícula e exatamente hoje, dia que este post (que estou escrevendo há MESES) finalmente vai ao ar, nossos passaportes estão no consulado para receber o visto.

E suas coisas do Brasil?

Ué, tou vendendo tudo! A lista está aqui e aumenta todo dia. Se quiser algo nem precisa comprar pelo Mercado Livre, fale comigo e a gente se acerta.

Quanto ao nosso apartamento, vamos deixá-lo alugado – e se quiser você pode morar nele ou indicar para os amigos. Aproveita que tá barato 🙂

Velhice e videogames

Envelhecer é uma experiência bem… interessante. Você fica melhor em um monte de coisas, em outras você fica pior, e com certeza você fica assustado ao ver o tanto que agora precisa rolar o mouse no campo “ano de nascimento” ao preencher um formulário online.

Outro lado ruim da idade é que o mundo começa a ficar realmente entediante, porque você percebe que as novidades de hoje raramente são, de fato, novidades, e sim as mesmas coisas de décadas atrás, só que disfarçadas com outro nome. Você olha pros hipsters e vê exatamente o que o seu pai e sua mãe usavam nas suas fotos de infância. Os filmes reciclam infinitamente as mesmas histórias de “o bem vence o mal”, “o casal sofre mas fica junto no final”, “o herói quase morre mas no fim explode tudo e ainda dá um beijo na mocinha”, etc, etc. Os heróis dos seus livros e quadrinhos (que ainda eram de papel) da infância surgem no cinema, em reboots e mais reboots, como se Hollywood fosse um grande computador com defeito. Na música, então… você finalmente entende porque Cazuza falava do “futuro repetindo o passado”, do “museu de grandes novidades”.

E se você envelhece mas continua jogando videogames, aí meu amigo… aí a rebordosa é ainda pior, porque além do repeteco de histórias você tem também o repeteco de mecânicas e artifícios de jogo, de clichês, de enredos, de tanta coisa… todos os first person shooters são iguais, todos os RPGs são iguais… e todos batem recordes de vendas, porque a molecada pega o Call of Duty: Ghosts, que é IDÊNTICO A TODOS OS OUTROS DA SÉRIE, e acha do caralho porque “agora dá pra jogar com personagem mulher, cara!”. E a mesma molecada, quando confrontada com o genialíssimo e inovador Portal, reclama que “pô, não dá pra atirar em ninguém?”.

screenshot do Portal

Mas o problema não é a molecada, e nem a mentalidade de “na minha época era melhor”. O problema é que os trintões como eu jogaram os pais e avôs dos FPSs, dos RPGs, dos jogos com sandbox e open world, então a novidade deles já não é mais novidade pra nós.

Outra questão que aflige o gamer balzaquiano é que a idade traz – felizmente! – o refinamento dos prazeres. Aos vinte anos a gente até topava encher a cara de Skol e vinho Chapinha; agora curtimos apreciar um cabernet sauvignon e  a cerveja tem que respeitar a Reinheitsgebot – e nos jogos acontece a mesma coisa. A gente não fica satisfeito só com explosões e gráficos fantabulósicos: o jogo tem que ter uma boa história. Videogame, convenhamos, não é filme pornô. Recentemente joguei a trilogia Mass Effect, que é um bom exemplo disso: a mistura de shooter com RPG é bem básica, mas a profundidade da história é fantástica e, pra completar, é construída num universo tão criativo e minucioso que ouso dizer que é melhor que o de Star Wars ou do Senhor dos Anéis: é uma obra-prima de ficção científica. Paradoxalmente, eu morria de tédio nas partes de combate e passava horas explorando as opções de diálogos com cada personagem e conhecendo mais sobre cada raça alienígena – e são dezenas (clique na imagem abaixo), todas com uma história complexa e interessantíssima – e quando vou visitar meu irmão (de 12 anos) ele dá skip em todos os diálogos dos seus jogos…

Mass Effect characters wallpaper

Há problemas também no universo multiplayer: quando jovens, nossos modems não transmitiam a mais de 14.4 kb/s e o jogo online estava na sua infância. Hoje estamos no paraíso multijogador, com internet rápida e sem fio e centenas de milhares de pessoas conectadas te esperando… e eu simplesmente não tenho sacoRecentemente baixei o beta do Destiny, o FPS online da Bungie que está surfando a crista da onda do hype para seu lançamento em setembro. Primeiro você só tem acesso aos modos cooperative, onde não vi cooperação nenhuma: às vezes aparecia um outro jogador, fazia uma dancinha na minha frente (sério!) e saía correndo sozinho. Aí cheguei na parte de deathmatch e a idade pesou mesmo. Quando jovem eu botava um hard techno nos fones e passava horas online no Quake 3 tranquilamente. Hoje em dia, pra conseguir um resultado minimamente relevante jogando contra a molecada, é preciso fazer um esforço enorme. Não é divertido ficar o tempo todo tenso, correndo feito louco pelo mapa, em estado de alerta total e incessante porque basta uma bobeira de uma fração de segundo pra alguém lhe explodir a fuça.

(pra não dizer que não gostei de nada, a trilha sonora do Destiny me agradou bastante 🙂 é um ambient bem espacial e relaxante).

Por sinal esta é outra coisa que vem com a idade e que transforma sua experiência de jogar: você passa a buscar sossego e tranquilidade ao invés de agitação. Esse ano eu ganhei o Watch Dogs de presente de Dia dos Namorados, e ele tem uma funcionalidade bem inovadora: como o jogo tem temática hacker, uma das coisas que dá pra fazer é invadir o jogo de outra pessoa, numa mistura bem criativa do single player com o multiplayer: você está lá, cuidando da sua vida, sozinho no mundo do jogo, e de repente surge a mensagem “you are being hacked“, e você tem que procurar o jogador que se conectou pela internet ao seu Playstation e “invadiu” seu jogo para eliminá-lo. Acontece que, no meu caso, toda vez que eu era invadido a sensação era realmente de que estavam se intrometendo no meu momento de jogo single player, e ao invés de ser emocionante eu achava aquilo extremamente irritante.

Watch Dogs online hacking

Felizmente, o mercado dos jogos cresceu o suficiente para poder ter nichos onde o gamer trintão consegue achar algo interessante – em especial na comunidade indie. Tem muita gente boa inovando e criando obras de arte em forma de jogo, como o sublime Journey (que o Bruno explicou melhor do que eu explicaria neste post). E recentemente encontrei uma preciosidade independente que vai consumir todas as minhas horas de jogo daqui pra frente: o Euro Truck Simulator 2.

O nome diz tudo que você precisa saber sobre o jogo: o Euro Truck Simulator é um simulador de caminhões ambientado na Europa. Só isso. Ele não é multiplayer, você não aposta corrida com ninguém, o caminhão não tem turbo nem nenhuma firula intergalática: exatamente como na vida real, você simplesmente transporta carga de um canto a outro, dirigindo a prosaicos 80 km/h nas autobahns alemãs ou nas charmosas estradinhas francesas. Sua maior preocupação é respeitar os limites de velocidade, dar seta antes de fazer as curvas e parar de 12 em 12 horas para dormir. Pra passar o tempo, o rádio do caminhão, convenientemente, pega streaming de estações de rádio reais europeias, deixando a experiência ainda mais envolvente e, principalmente, relaxante.

Euro Truck Simulator screenshot

E assim as novas e velhas gerações de jogadores vão convivendo, cada uma no seu mundinho particular. A molecada, vermelha de raiva, martela os botões do controle e segue gritando impropérios aos n00bs em seus headsets. Nós, os gamers de trinta e muitos anos, abrimos uma Heineken e calmamente transportamos uma caçamba de areia de Dusseldorf para Stutgard. E o mundo segue girando até o dia em que, finalmente, chegará o nosso inevitável game over.

Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

No domingo eu não vi o Grammy, optei por uma sessão de O Azul é a Cor Mais Quente (que belo filme, por sinal!). Aí na segunda-feira, como esperado, vi as notícias que Daft Punk ganhou um monte de prêmios e que fizeram uma performance inacreditável juntamente com Stevie Wonder. E aí no Feice uma pessoa comentou do Daft + Pharrell + Stevie. E depois outra. E saiu no Lúcio Ribeiro. E saiu no Pitchfork. E no Reddit uns três posts diferentes falando do assunto. “Então tá, vamo ver”, pensei.

O primeiro link que achei tava com a qualidade meio ruim. Aí caçei um link melhor no YouTube, pra ver em HD. Aí vi de novo. Corri pra esquerda e pra direita na barrinha vermelha do player algumas vezes. Revi cenas. Aumentei o volume. Pausei. Olhei com cuidado.

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Sabe, quando alguma coisa me desagrada eu normalmente reclamo no Twitter. Se me irrita muito, eu acabo reclamando no Facebook. Mas quando eu fico realmente furioso, eu ressuscito este blog e escrevo posts enormes como este. Até separo os quilômetros de texto com subtítulos, como este:

A ascensão e queda do Daft Punk (em dois discos)

Eu tenho vontade de pegar todo mundo que ainnnnn eu ammmooooo Get Lucky e botar pra ouvir Rollin’ & Scratchin’, faixa do primeiro disco deles. Mas não é por despeito: é pra que eles entendam o que a adorada bandinha robótica deles estava fazendo em 1994.

Nessa época a dupla, apesar de não mostrar a cara, ainda usava os nomes de batismo e era bem ativa no cenário de festas rave parisienses. Thomas Bangalter (uma das metades da dupla) fazia produções incríveis de um french house de finíssima qualidade. Mas aí eles lançaram o Homework e ficou evidente que o público curtia muito mais as músicas puxadas pro lado do pop (“Around the World, Around The World…”) do que as puxadas pro lado da pista de dança (como a excelente Indo Silver Club, que nem parece mas está no mesmo disco).

Este foi o momento crucial da carreira da dupla: deste disco em diante o Daft Punk, ao invés de optar por fazer música boa, optou por fazer sucesso. E aí eles começaram a seguir o gosto do público. E o que acontece quando você segue o gosto do público? Acontecem dez edições do Big Brother Brasil, acontece o Brasil Urgente, acontece o Sertanejo Universitário, acontece o óxi…

O álbum seguinte (o Discovery) não foi exatamente um sucesso de crítica – porque ainda não era evidente a guinada de objetivo deles. Mas você com certeza conhece One More Time ou Harder Better Faster Stronger – repetidas e remixadas à exaustão.  Pra mim pessoalmente, Discovery foi uma enorme decepção. Onde foram parar os produtores geniais? “Por que esses riffs plastificados, essa idiotização musical toda?”, eu me perguntava, ainda fazendo força pra tentar ver algum resquício da genialidade das antigas músicas da dupla. Mas era tarde demais, eles foram para o lado fácil da música. Pararam de servir suas finas iguarias musicais e começaram a produzir Big Macs.

Foi nessa época também que eles começaram a experimentar com divulgação diferenciada (lembram do desenho japonês feito em cima das músicas do álbum?). Mas ainda não era suficiente. Isso não faria o Daft Punk famoso na medida em que eles queriam. E então veio a segunda grande sacada genial da dupla rumo ao sucesso absoluto.

Não basta seguir o gosto do público: é preciso ditar o gosto do público.

Aprendendo a surfar o hype

Random Access Memories, o bizarramente laureado último trabalho da dupla, foi o disco mais hypado que já vi na vida. Foi a mais incrível estratégia de mídia e PR que já vi para criar uma caralhada de interesse por um álbum totalmente paumolescente, mero eco de estilos musicais de décadas passadas, mas que foi erguido ao Olimpo da música sob gritos estapafúrdios de “uoooohhhhh eles reinventaram o funk e a disco music!”.

Ao longo do ano passado boatos foram espalhados, músicas foram vazadas, depois disseram que eram fake, depois foram vazadas de novo, depois surgiram vídeos de “fãs” no YouTube montando versões completas de Get Lucky (ainda não lançada) com base em previews de 30 segundos estrategicamente tocados de surpresa (ah tá) em telões de grandes festivais de música pelo mundo… só se falava desse bendito disco.

Naquela época eu ainda não estava furioso, então restringi minhas reclamações apenas ao Twitter.

 

 

 

Neste último tweet errei por pouco: o álbum tirou 8.8, num review obviamente comprado.

Este disco marca o momento onde o Daft Punk abraça totalmente o lado negro da força e torna-se o Kelly Slater de surfar a onda do hype: o multiplatinado (e agora Grammyzado) Random Access Memories é um disco irrisório, movido apenas pelo efeito autocolante de Get Lucky. Ou você lembra de cabeça de alguma outra faixa do disco? (dica: tem a do Giorgio Moroder lá.. e aquela do “doin’ it right”… lembrou?) Eu mesmo confesso que não consigo ouvir o álbum inteiro até o final, sob pena de extinguir o que ainda me restava de fé na humanidade.

Este restinho durou até agora há pouco, quando vi a “inacreditável performance” da dupla no Grammy. E esta é a deixa para o último subtítulo desse texto enorme – que, de tão drástico, dá título também a este post:

Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

Sério. Eu olho pra todo mundo chamando aquele momento de “histórico” e penso “não, cara”. Pelo visto o hype cega mais que o amor.

Logo que as luzes se acendem e a banda começa, uma coisa terrível fica muito evidente:  Stevie Wonder não sabia cantar Get Lucky. Um Stevie normal normalmente balança a cabeça sorridente e canta com um groove infinitamente superior. O Stevie de “Get Lucky” estava… mudo. Completamente fora de lugar. Até agora, depois de algumas dezenas de audições do vídeo, eu não consigo ouvir o som do harpejji que ele estava tocando.

Pharrell olha para Stevie, sem entender direito o que estava acontecendo. A confusão era tanta que, instantes depois, Pharrell ainda gesticula para Stevie, indicando que era hora dele cantar também. Pense bem nisso: Pharrell está gesticulando para um cego.

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Depois de empurrar o primeiro verso todo com a barriga, para meu completo embasbacamento, Pharrell canta totalmente desafinado no refrão. Mas grosseiramente desafinado, quase meio tom abaixo. Vocês podem achar que é picuinha minha e nem deu pra perceber, mas desculpe: isto não é o karaokê da Liberdade, isto é o maldito Grammy. Não é um monte de japonês bêbado cantando “eu perguntava do you wanna dance”, são músicos profissionais muito bem remunerados. O desastre só não ficou pior porque tem um playback acompanhando o vocal.

E aí – tcharam! – o fundo do palco se abre e eis os Daft Punks. Enquanto a platéia vai ao delírio, a câmera corta para dentro da cabine onde eles estavam e mostra que eles não estavam tocando absolutamente nada. O “equipamento” deles era um painel de luzinhas de disco voador da Xuxa: nenhum instrumento, sampler ou sequencer.

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Só pra vocês terem uma base de comparação, eis aqui um músico que efetivamente toca usando samples. Repare que tudo que acontece na música é de fato comandado pela enorme botoeira à sua frente.

Pra piorar ainda mais o show de horrores, a câmera corta para a plateia. Um auditório lotado com os maiores nomes da música mundial – incluindo a metade viva dos Beatles – e nenhum deles sabe dançar. Yoko Ono faz uns símbolos de “paz e amor”. Stephen Tyler finge dançar uma espécie de “conga” com “macarena”. Ringo era o único cara balançando certinho no ritmo da música, até parece um baterista.

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E o que vem agora?

Felizmente, nas artes existe o inclemente teste do tempo. Daqui a uns dez, vinte anos, quando comentarmos sobre a música da segunda década do século XXI, se Random Access Memories for realmente isso tudo que dizem ele será respeitosamente lembrado. Vai constar na edição nova do “500 discos para ouvir antes de morrer”. Vai ser compartilhado no (site que substituirá o) Facebook com posts do tipo “RAM, a obra-prima do Daft Punk, completa 20 anos – reveja a histórica apresentação do Grammy de 2014”. Mas, honestamente, eu não vejo isso acontecendo. Na verdade eu não vejo ninguém se lembrando do Grammy deles ano que vem. É um fato que será esquecido da mesma forma que ninguém lembra em quem votou na última eleição.

Vamos torcer pra este blog continuar vivo até lá para o tira-teima.

Update: E agora começou a boataria que nem eram eles dentro das roupas de robô.

Natal e ano novo na Grã-Bretanha

No meio do ano passado eu e Bethania estávamos conversando e o assunto era “o que fazer no réveillon”.

– Onde será que tem uma festa legal de ano novo? – perguntou ela.
– Você diz, aqui em São Paulo?
– Não, no mundo inteiro.

Algumas pesquisas no Google depois e decidimos que a virada do ano seria em Edimburgo, na Escócia, pra conhecer o famoso Hogmanay – e, de quebra, passar o natal em Londres. Deus abençoe as milhas de cartão de crédito.

(Todas as fotos by Bethania)

Parte 1 – Londres

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Londres me fez nunca mais reclamar do clima de São Paulo. Aprendi isso logo no primeiro dia: descemos da estação de trem e tínhamos apenas 600 metros de caminhada até o hotel. Mas fazia um frio de cinco graus, chovia e era impossível usar guarda-chuva por causa do vento. Míseros duzentos metros tentando empurrar mala depois, desistimos e entramos num táxi.

Londres também me fez nunca mais reclamar dos preços de São Paulo. Com a libra a quase R$ 4 um mísero pint de cerveja custava uns quinze reais. Mas com um pouquinho de planejamento prévio (e com o Yelp instalado no celular) comemos e bebemos super bem – com direito até a restaurante estrelado Michelin no nosso roteiro.

Mas falando assim fica parecendo que eu odiei Londres, o que é exatamente o oposto: foi, de longe, o lugar que eu mais curti.

Na noite de Natal (onde a cidade morre e fica tudo fechado) fomos pra um pub em Camden Town. Morremos de rir da completa ausência de malemolência inglesa ao ver os(as) londrinos(as) tentarem dançar, batemos papo com altos bêbados solitários de bar (um deles era produtor de hip hop) e Bethania já ia levando uma cantada de um sérvio bêbado quando mencionei que ela era minha esposa. E o maluco ainda me respondeu assim:

– Ah, vocês são um casal? Mas ela tem cara de européia, de sul-africana… já você parece mesmo brasileiro com esse cabelo enrolado…

No dia 25, onde TUDO fica fechado em Londres (inclusive todo o transporte público), passamos o dia andando nas Boris Bikes – as “bicicletas do Itaú” deles. Teria sido um dia perfeito, não fosse o meu celular, que caiu do bolso numa dessas pedaladas e não sobreviveu, perecendo com a tela estilhaçada em frente ao Palácio de Buckingham.

(Inclusive ninguém acredita, mas foi só por isso que comprei o Nexus 5. Juro, eu não ia trocar de telefone, foi puramente por necessidade).

Outra atração londrina memorável foi quando fomos à Fabric, que a DJMag elegeu “melhor club do mundo” por três anos seguidos. O lugar é enorme e a música… a música… MEU AMIGO… nada menos que três ambientes com DJs esmerilhando um nível inacreditável de qualidade musical – e olha que eu já gastei o ouvido em centenas de podcasts e sets gravados por grandes nomes das pick-ups mundiais.

Apesar do tempo chuvoso todo santo dia (cumprindo o estereótipo) Londres foi só alegrias: pirei na Tate Modern, surtei no inacreditável metrô londrino, ardi a goela comendo comida asiática, ganhei alguns quilos comendo fish and chips e tomando cerveja em pubs enquanto assistia jogos do Campeonato Inglês, e ainda curti uma viagenzinha de trem a 180km/h até Glasgow.

Parte 2 – Glasgow

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Ainda no universo musical, uma das coisas que eu gosto em viagens é conhecer o ambiente que inspira a produção musical dos artistas que gosto. O clima provinciano, simples mas austero de Glasgow explica muito do som do Mogwai, Belle and Sebastian, Camera Obscura, Frightened Rabbit e tantas outras bandas boas. Ficamos na cidade apenas uma noite que, apesar de gelada, ainda acomodou um jantar indiano incrível e depois um “bar hopping” no centro da cidade pra conhecer lugares como o King Tut’s, que tem uma escadaria para o terraço onde rolam os shows e onde cada degrau é pintado com os nomes das bandas que tocaram no lugar a cada ano. Gente de respeito, tipo Oasis, Radiohead, The Killers, Juliette Lewis, Pulp, Florence & The Machine…

Parte 3 – Edimburgo

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Bem, Edimburgo era pra ser o grand finale da viagem com o famoso Hogmanay, a enorme festa de rua que fecha o centro histórico da cidade, é cheio de shows e atrações e culmina na queima de fogos nos céus do castelo à meia-noite. Mas a moral da história é que, de fato, ninguém no mundo sabe fazer festa como nós brasileiros.

O Hogmanay foi basicamente um “Réveillon na Paulista” piorado. Tava muito cheio, não dava pra circular entre os palcos pra ver todos os shows (perdi um do Chvrches por causa disso) e, em relação ao público, infelizmente descobrimos que o escocês não bebe para se divertir – bebe pra cair.

Pra piorar, a gente comprou os ingressos antes de anunciarem o show principal, que foi ninguém menos que os… Pet Shop Boys. O palco onde eles tocaram era separado e foi inacreditavelmente subdimensionado: tinha umas 8 mil pessoas num espaço pra duas mil, então a multidão começou a se espalhar por uma colina gramada perto do palco que, por causa da chuva, virou um lamaçal.

Como não queríamos começar 2014 na lama, a solução foi fugirmos para o esquecido palco de música típica escocesa: uma espécie de “quadrilha” com gaita de fole, que estava vazio e onde, felizmente, tinha banheiros e acesso ao bar com menos de uma hora de fila. Resultado: gastamos uma fortuna em Smirnoff Ice (é, eu sei, eu sei) e, depois dos fogos, dançamos quadrilha com um bando de desconhecidos bêbados até as duas da madrugada.

Por sinal a música típica escocesa foi uma das melhores coisas da viagem: ela lembra muito o country norte-americano ou a nossa música caipira, mas com toques de música celta, um violino (o “fiddler”), letras em um inglês de sotaque inentendível e até elementos de stand-up comedy (sério, os caras contam altas piadas entre uma música e outra). No hotel onde estávamos conseguimos entrar de penetras num show do North Sea Gas, um trio famoso de música da Escócia. Foi incrível. Os caras alternam músicas de piadinha sobre bebedeiras ou comida com canções emocionantes sobre a guerra ou simplesmente sobre o amor pela Caledônia (o nome poético que os cantores usam para falar da Escócia). Até compramos os CDs dos caras.