Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

No domingo eu não vi o Grammy, optei por uma sessão de O Azul é a Cor Mais Quente (que belo filme, por sinal!). Aí na segunda-feira, como esperado, vi as notícias que Daft Punk ganhou um monte de prêmios e que fizeram uma performance inacreditável juntamente com Stevie Wonder. E aí no Feice uma pessoa comentou do Daft + Pharrell + Stevie. E depois outra. E saiu no Lúcio Ribeiro. E saiu no Pitchfork. E no Reddit uns três posts diferentes falando do assunto. “Então tá, vamo ver”, pensei.

O primeiro link que achei tava com a qualidade meio ruim. Aí caçei um link melhor no YouTube, pra ver em HD. Aí vi de novo. Corri pra esquerda e pra direita na barrinha vermelha do player algumas vezes. Revi cenas. Aumentei o volume. Pausei. Olhei com cuidado.

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Sabe, quando alguma coisa me desagrada eu normalmente reclamo no Twitter. Se me irrita muito, eu acabo reclamando no Facebook. Mas quando eu fico realmente furioso, eu ressuscito este blog e escrevo posts enormes como este. Até separo os quilômetros de texto com subtítulos, como este:

A ascensão e queda do Daft Punk (em dois discos)

Eu tenho vontade de pegar todo mundo que ainnnnn eu ammmooooo Get Lucky e botar pra ouvir Rollin’ & Scratchin’, faixa do primeiro disco deles. Mas não é por despeito: é pra que eles entendam o que a adorada bandinha robótica deles estava fazendo em 1994.

Nessa época a dupla, apesar de não mostrar a cara, ainda usava os nomes de batismo e era bem ativa no cenário de festas rave parisienses. Thomas Bangalter (uma das metades da dupla) fazia produções incríveis de um french house de finíssima qualidade. Mas aí eles lançaram o Homework e ficou evidente que o público curtia muito mais as músicas puxadas pro lado do pop (“Around the World, Around The World…”) do que as puxadas pro lado da pista de dança (como a excelente Indo Silver Club, que nem parece mas está no mesmo disco).

Este foi o momento crucial da carreira da dupla: deste disco em diante o Daft Punk, ao invés de optar por fazer música boa, optou por fazer sucesso. E aí eles começaram a seguir o gosto do público. E o que acontece quando você segue o gosto do público? Acontecem dez edições do Big Brother Brasil, acontece o Brasil Urgente, acontece o Sertanejo Universitário, acontece o óxi…

O álbum seguinte (o Discovery) não foi exatamente um sucesso de crítica – porque ainda não era evidente a guinada de objetivo deles. Mas você com certeza conhece One More Time ou Harder Better Faster Stronger – repetidas e remixadas à exaustão.  Pra mim pessoalmente, Discovery foi uma enorme decepção. Onde foram parar os produtores geniais? “Por que esses riffs plastificados, essa idiotização musical toda?”, eu me perguntava, ainda fazendo força pra tentar ver algum resquício da genialidade das antigas músicas da dupla. Mas era tarde demais, eles foram para o lado fácil da música. Pararam de servir suas finas iguarias musicais e começaram a produzir Big Macs.

Foi nessa época também que eles começaram a experimentar com divulgação diferenciada (lembram do desenho japonês feito em cima das músicas do álbum?). Mas ainda não era suficiente. Isso não faria o Daft Punk famoso na medida em que eles queriam. E então veio a segunda grande sacada genial da dupla rumo ao sucesso absoluto.

Não basta seguir o gosto do público: é preciso ditar o gosto do público.

Aprendendo a surfar o hype

Random Access Memories, o bizarramente laureado último trabalho da dupla, foi o disco mais hypado que já vi na vida. Foi a mais incrível estratégia de mídia e PR que já vi para criar uma caralhada de interesse por um álbum totalmente paumolescente, mero eco de estilos musicais de décadas passadas, mas que foi erguido ao Olimpo da música sob gritos estapafúrdios de “uoooohhhhh eles reinventaram o funk e a disco music!”.

Ao longo do ano passado boatos foram espalhados, músicas foram vazadas, depois disseram que eram fake, depois foram vazadas de novo, depois surgiram vídeos de “fãs” no YouTube montando versões completas de Get Lucky (ainda não lançada) com base em previews de 30 segundos estrategicamente tocados de surpresa (ah tá) em telões de grandes festivais de música pelo mundo… só se falava desse bendito disco.

Naquela época eu ainda não estava furioso, então restringi minhas reclamações apenas ao Twitter.

 

 

 

Neste último tweet errei por pouco: o álbum tirou 8.8, num review obviamente comprado.

Este disco marca o momento onde o Daft Punk abraça totalmente o lado negro da força e torna-se o Kelly Slater de surfar a onda do hype: o multiplatinado (e agora Grammyzado) Random Access Memories é um disco irrisório, movido apenas pelo efeito autocolante de Get Lucky. Ou você lembra de cabeça de alguma outra faixa do disco? (dica: tem a do Giorgio Moroder lá.. e aquela do “doin’ it right”… lembrou?) Eu mesmo confesso que não consigo ouvir o álbum inteiro até o final, sob pena de extinguir o que ainda me restava de fé na humanidade.

Este restinho durou até agora há pouco, quando vi a “inacreditável performance” da dupla no Grammy. E esta é a deixa para o último subtítulo desse texto enorme – que, de tão drástico, dá título também a este post:

Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

Sério. Eu olho pra todo mundo chamando aquele momento de “histórico” e penso “não, cara”. Pelo visto o hype cega mais que o amor.

Logo que as luzes se acendem e a banda começa, uma coisa terrível fica muito evidente:  Stevie Wonder não sabia cantar Get Lucky. Um Stevie normal normalmente balança a cabeça sorridente e canta com um groove infinitamente superior. O Stevie de “Get Lucky” estava… mudo. Completamente fora de lugar. Até agora, depois de algumas dezenas de audições do vídeo, eu não consigo ouvir o som do harpejji que ele estava tocando.

Pharrell olha para Stevie, sem entender direito o que estava acontecendo. A confusão era tanta que, instantes depois, Pharrell ainda gesticula para Stevie, indicando que era hora dele cantar também. Pense bem nisso: Pharrell está gesticulando para um cego.

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Depois de empurrar o primeiro verso todo com a barriga, para meu completo embasbacamento, Pharrell canta totalmente desafinado no refrão. Mas grosseiramente desafinado, quase meio tom abaixo. Vocês podem achar que é picuinha minha e nem deu pra perceber, mas desculpe: isto não é o karaokê da Liberdade, isto é o maldito Grammy. Não é um monte de japonês bêbado cantando “eu perguntava do you wanna dance”, são músicos profissionais muito bem remunerados. O desastre só não ficou pior porque tem um playback acompanhando o vocal.

E aí – tcharam! – o fundo do palco se abre e eis os Daft Punks. Enquanto a platéia vai ao delírio, a câmera corta para dentro da cabine onde eles estavam e mostra que eles não estavam tocando absolutamente nada. O “equipamento” deles era um painel de luzinhas de disco voador da Xuxa: nenhum instrumento, sampler ou sequencer.

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Só pra vocês terem uma base de comparação, eis aqui um músico que efetivamente toca usando samples. Repare que tudo que acontece na música é de fato comandado pela enorme botoeira à sua frente.

Pra piorar ainda mais o show de horrores, a câmera corta para a plateia. Um auditório lotado com os maiores nomes da música mundial – incluindo a metade viva dos Beatles – e nenhum deles sabe dançar. Yoko Ono faz uns símbolos de “paz e amor”. Stephen Tyler finge dançar uma espécie de “conga” com “macarena”. Ringo era o único cara balançando certinho no ritmo da música, até parece um baterista.

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E o que vem agora?

Felizmente, nas artes existe o inclemente teste do tempo. Daqui a uns dez, vinte anos, quando comentarmos sobre a música da segunda década do século XXI, se Random Access Memories for realmente isso tudo que dizem ele será respeitosamente lembrado. Vai constar na edição nova do “500 discos para ouvir antes de morrer”. Vai ser compartilhado no (site que substituirá o) Facebook com posts do tipo “RAM, a obra-prima do Daft Punk, completa 20 anos – reveja a histórica apresentação do Grammy de 2014”. Mas, honestamente, eu não vejo isso acontecendo. Na verdade eu não vejo ninguém se lembrando do Grammy deles ano que vem. É um fato que será esquecido da mesma forma que ninguém lembra em quem votou na última eleição.

Vamos torcer pra este blog continuar vivo até lá para o tira-teima.

Update: E agora começou a boataria que nem eram eles dentro das roupas de robô.

Natal e ano novo na Grã-Bretanha

No meio do ano passado eu e Bethania estávamos conversando e o assunto era “o que fazer no réveillon”.

– Onde será que tem uma festa legal de ano novo? – perguntou ela.
– Você diz, aqui em São Paulo?
– Não, no mundo inteiro.

Algumas pesquisas no Google depois e decidimos que a virada do ano seria em Edimburgo, na Escócia, pra conhecer o famoso Hogmanay – e, de quebra, passar o natal em Londres. Deus abençoe as milhas de cartão de crédito.

(Todas as fotos by Bethania)

Parte 1 – Londres

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Londres me fez nunca mais reclamar do clima de São Paulo. Aprendi isso logo no primeiro dia: descemos da estação de trem e tínhamos apenas 600 metros de caminhada até o hotel. Mas fazia um frio de cinco graus, chovia e era impossível usar guarda-chuva por causa do vento. Míseros duzentos metros tentando empurrar mala depois, desistimos e entramos num táxi.

Londres também me fez nunca mais reclamar dos preços de São Paulo. Com a libra a quase R$ 4 um mísero pint de cerveja custava uns quinze reais. Mas com um pouquinho de planejamento prévio (e com o Yelp instalado no celular) comemos e bebemos super bem – com direito até a restaurante estrelado Michelin no nosso roteiro.

Mas falando assim fica parecendo que eu odiei Londres, o que é exatamente o oposto: foi, de longe, o lugar que eu mais curti.

Na noite de Natal (onde a cidade morre e fica tudo fechado) fomos pra um pub em Camden Town. Morremos de rir da completa ausência de malemolência inglesa ao ver os(as) londrinos(as) tentarem dançar, batemos papo com altos bêbados solitários de bar (um deles era produtor de hip hop) e Bethania já ia levando uma cantada de um sérvio bêbado quando mencionei que ela era minha esposa. E o maluco ainda me respondeu assim:

– Ah, vocês são um casal? Mas ela tem cara de européia, de sul-africana… já você parece mesmo brasileiro com esse cabelo enrolado…

No dia 25, onde TUDO fica fechado em Londres (inclusive todo o transporte público), passamos o dia andando nas Boris Bikes – as “bicicletas do Itaú” deles. Teria sido um dia perfeito, não fosse o meu celular, que caiu do bolso numa dessas pedaladas e não sobreviveu, perecendo com a tela estilhaçada em frente ao Palácio de Buckingham.

(Inclusive ninguém acredita, mas foi só por isso que comprei o Nexus 5. Juro, eu não ia trocar de telefone, foi puramente por necessidade).

Outra atração londrina memorável foi quando fomos à Fabric, que a DJMag elegeu “melhor club do mundo” por três anos seguidos. O lugar é enorme e a música… a música… MEU AMIGO… nada menos que três ambientes com DJs esmerilhando um nível inacreditável de qualidade musical – e olha que eu já gastei o ouvido em centenas de podcasts e sets gravados por grandes nomes das pick-ups mundiais.

Apesar do tempo chuvoso todo santo dia (cumprindo o estereótipo) Londres foi só alegrias: pirei na Tate Modern, surtei no inacreditável metrô londrino, ardi a goela comendo comida asiática, ganhei alguns quilos comendo fish and chips e tomando cerveja em pubs enquanto assistia jogos do Campeonato Inglês, e ainda curti uma viagenzinha de trem a 180km/h até Glasgow.

Parte 2 – Glasgow

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Ainda no universo musical, uma das coisas que eu gosto em viagens é conhecer o ambiente que inspira a produção musical dos artistas que gosto. O clima provinciano, simples mas austero de Glasgow explica muito do som do Mogwai, Belle and Sebastian, Camera Obscura, Frightened Rabbit e tantas outras bandas boas. Ficamos na cidade apenas uma noite que, apesar de gelada, ainda acomodou um jantar indiano incrível e depois um “bar hopping” no centro da cidade pra conhecer lugares como o King Tut’s, que tem uma escadaria para o terraço onde rolam os shows e onde cada degrau é pintado com os nomes das bandas que tocaram no lugar a cada ano. Gente de respeito, tipo Oasis, Radiohead, The Killers, Juliette Lewis, Pulp, Florence & The Machine…

Parte 3 – Edimburgo

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Bem, Edimburgo era pra ser o grand finale da viagem com o famoso Hogmanay, a enorme festa de rua que fecha o centro histórico da cidade, é cheio de shows e atrações e culmina na queima de fogos nos céus do castelo à meia-noite. Mas a moral da história é que, de fato, ninguém no mundo sabe fazer festa como nós brasileiros.

O Hogmanay foi basicamente um “Réveillon na Paulista” piorado. Tava muito cheio, não dava pra circular entre os palcos pra ver todos os shows (perdi um do Chvrches por causa disso) e, em relação ao público, infelizmente descobrimos que o escocês não bebe para se divertir – bebe pra cair.

Pra piorar, a gente comprou os ingressos antes de anunciarem o show principal, que foi ninguém menos que os… Pet Shop Boys. O palco onde eles tocaram era separado e foi inacreditavelmente subdimensionado: tinha umas 8 mil pessoas num espaço pra duas mil, então a multidão começou a se espalhar por uma colina gramada perto do palco que, por causa da chuva, virou um lamaçal.

Como não queríamos começar 2014 na lama, a solução foi fugirmos para o esquecido palco de música típica escocesa: uma espécie de “quadrilha” com gaita de fole, que estava vazio e onde, felizmente, tinha banheiros e acesso ao bar com menos de uma hora de fila. Resultado: gastamos uma fortuna em Smirnoff Ice (é, eu sei, eu sei) e, depois dos fogos, dançamos quadrilha com um bando de desconhecidos bêbados até as duas da madrugada.

Por sinal a música típica escocesa foi uma das melhores coisas da viagem: ela lembra muito o country norte-americano ou a nossa música caipira, mas com toques de música celta, um violino (o “fiddler”), letras em um inglês de sotaque inentendível e até elementos de stand-up comedy (sério, os caras contam altas piadas entre uma música e outra). No hotel onde estávamos conseguimos entrar de penetras num show do North Sea Gas, um trio famoso de música da Escócia. Foi incrível. Os caras alternam músicas de piadinha sobre bebedeiras ou comida com canções emocionantes sobre a guerra ou simplesmente sobre o amor pela Caledônia (o nome poético que os cantores usam para falar da Escócia). Até compramos os CDs dos caras.