Natal e ano novo na Grã-Bretanha

No meio do ano passado eu e Bethania estávamos conversando e o assunto era “o que fazer no réveillon”.

– Onde será que tem uma festa legal de ano novo? – perguntou ela.
– Você diz, aqui em São Paulo?
– Não, no mundo inteiro.

Algumas pesquisas no Google depois e decidimos que a virada do ano seria em Edimburgo, na Escócia, pra conhecer o famoso Hogmanay – e, de quebra, passar o natal em Londres. Deus abençoe as milhas de cartão de crédito.

(Todas as fotos by Bethania)

Parte 1 – Londres

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Londres me fez nunca mais reclamar do clima de São Paulo. Aprendi isso logo no primeiro dia: descemos da estação de trem e tínhamos apenas 600 metros de caminhada até o hotel. Mas fazia um frio de cinco graus, chovia e era impossível usar guarda-chuva por causa do vento. Míseros duzentos metros tentando empurrar mala depois, desistimos e entramos num táxi.

Londres também me fez nunca mais reclamar dos preços de São Paulo. Com a libra a quase R$ 4 um mísero pint de cerveja custava uns quinze reais. Mas com um pouquinho de planejamento prévio (e com o Yelp instalado no celular) comemos e bebemos super bem – com direito até a restaurante estrelado Michelin no nosso roteiro.

Mas falando assim fica parecendo que eu odiei Londres, o que é exatamente o oposto: foi, de longe, o lugar que eu mais curti.

Na noite de Natal (onde a cidade morre e fica tudo fechado) fomos pra um pub em Camden Town. Morremos de rir da completa ausência de malemolência inglesa ao ver os(as) londrinos(as) tentarem dançar, batemos papo com altos bêbados solitários de bar (um deles era produtor de hip hop) e Bethania já ia levando uma cantada de um sérvio bêbado quando mencionei que ela era minha esposa. E o maluco ainda me respondeu assim:

– Ah, vocês são um casal? Mas ela tem cara de européia, de sul-africana… já você parece mesmo brasileiro com esse cabelo enrolado…

No dia 25, onde TUDO fica fechado em Londres (inclusive todo o transporte público), passamos o dia andando nas Boris Bikes – as “bicicletas do Itaú” deles. Teria sido um dia perfeito, não fosse o meu celular, que caiu do bolso numa dessas pedaladas e não sobreviveu, perecendo com a tela estilhaçada em frente ao Palácio de Buckingham.

(Inclusive ninguém acredita, mas foi só por isso que comprei o Nexus 5. Juro, eu não ia trocar de telefone, foi puramente por necessidade).

Outra atração londrina memorável foi quando fomos à Fabric, que a DJMag elegeu “melhor club do mundo” por três anos seguidos. O lugar é enorme e a música… a música… MEU AMIGO… nada menos que três ambientes com DJs esmerilhando um nível inacreditável de qualidade musical – e olha que eu já gastei o ouvido em centenas de podcasts e sets gravados por grandes nomes das pick-ups mundiais.

Apesar do tempo chuvoso todo santo dia (cumprindo o estereótipo) Londres foi só alegrias: pirei na Tate Modern, surtei no inacreditável metrô londrino, ardi a goela comendo comida asiática, ganhei alguns quilos comendo fish and chips e tomando cerveja em pubs enquanto assistia jogos do Campeonato Inglês, e ainda curti uma viagenzinha de trem a 180km/h até Glasgow.

Parte 2 – Glasgow

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Ainda no universo musical, uma das coisas que eu gosto em viagens é conhecer o ambiente que inspira a produção musical dos artistas que gosto. O clima provinciano, simples mas austero de Glasgow explica muito do som do Mogwai, Belle and Sebastian, Camera Obscura, Frightened Rabbit e tantas outras bandas boas. Ficamos na cidade apenas uma noite que, apesar de gelada, ainda acomodou um jantar indiano incrível e depois um “bar hopping” no centro da cidade pra conhecer lugares como o King Tut’s, que tem uma escadaria para o terraço onde rolam os shows e onde cada degrau é pintado com os nomes das bandas que tocaram no lugar a cada ano. Gente de respeito, tipo Oasis, Radiohead, The Killers, Juliette Lewis, Pulp, Florence & The Machine…

Parte 3 – Edimburgo

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Bem, Edimburgo era pra ser o grand finale da viagem com o famoso Hogmanay, a enorme festa de rua que fecha o centro histórico da cidade, é cheio de shows e atrações e culmina na queima de fogos nos céus do castelo à meia-noite. Mas a moral da história é que, de fato, ninguém no mundo sabe fazer festa como nós brasileiros.

O Hogmanay foi basicamente um “Réveillon na Paulista” piorado. Tava muito cheio, não dava pra circular entre os palcos pra ver todos os shows (perdi um do Chvrches por causa disso) e, em relação ao público, infelizmente descobrimos que o escocês não bebe para se divertir – bebe pra cair.

Pra piorar, a gente comprou os ingressos antes de anunciarem o show principal, que foi ninguém menos que os… Pet Shop Boys. O palco onde eles tocaram era separado e foi inacreditavelmente subdimensionado: tinha umas 8 mil pessoas num espaço pra duas mil, então a multidão começou a se espalhar por uma colina gramada perto do palco que, por causa da chuva, virou um lamaçal.

Como não queríamos começar 2014 na lama, a solução foi fugirmos para o esquecido palco de música típica escocesa: uma espécie de “quadrilha” com gaita de fole, que estava vazio e onde, felizmente, tinha banheiros e acesso ao bar com menos de uma hora de fila. Resultado: gastamos uma fortuna em Smirnoff Ice (é, eu sei, eu sei) e, depois dos fogos, dançamos quadrilha com um bando de desconhecidos bêbados até as duas da madrugada.

Por sinal a música típica escocesa foi uma das melhores coisas da viagem: ela lembra muito o country norte-americano ou a nossa música caipira, mas com toques de música celta, um violino (o “fiddler”), letras em um inglês de sotaque inentendível e até elementos de stand-up comedy (sério, os caras contam altas piadas entre uma música e outra). No hotel onde estávamos conseguimos entrar de penetras num show do North Sea Gas, um trio famoso de música da Escócia. Foi incrível. Os caras alternam músicas de piadinha sobre bebedeiras ou comida com canções emocionantes sobre a guerra ou simplesmente sobre o amor pela Caledônia (o nome poético que os cantores usam para falar da Escócia). Até compramos os CDs dos caras.

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