Velhice e videogames

Envelhecer é uma experiência bem… interessante. Você fica melhor em um monte de coisas, em outras você fica pior, e com certeza você fica assustado ao ver o tanto que agora precisa rolar o mouse no campo “ano de nascimento” ao preencher um formulário online.

Outro lado ruim da idade é que o mundo começa a ficar realmente entediante, porque você percebe que as novidades de hoje raramente são, de fato, novidades, e sim as mesmas coisas de décadas atrás, só que disfarçadas com outro nome. Você olha pros hipsters e vê exatamente o que o seu pai e sua mãe usavam nas suas fotos de infância. Os filmes reciclam infinitamente as mesmas histórias de “o bem vence o mal”, “o casal sofre mas fica junto no final”, “o herói quase morre mas no fim explode tudo e ainda dá um beijo na mocinha”, etc, etc. Os heróis dos seus livros e quadrinhos (que ainda eram de papel) da infância surgem no cinema, em reboots e mais reboots, como se Hollywood fosse um grande computador com defeito. Na música, então… você finalmente entende porque Cazuza falava do “futuro repetindo o passado”, do “museu de grandes novidades”.

E se você envelhece mas continua jogando videogames, aí meu amigo… aí a rebordosa é ainda pior, porque além do repeteco de histórias você tem também o repeteco de mecânicas e artifícios de jogo, de clichês, de enredos, de tanta coisa… todos os first person shooters são iguais, todos os RPGs são iguais… e todos batem recordes de vendas, porque a molecada pega o Call of Duty: Ghosts, que é IDÊNTICO A TODOS OS OUTROS DA SÉRIE, e acha do caralho porque “agora dá pra jogar com personagem mulher, cara!”. E a mesma molecada, quando confrontada com o genialíssimo e inovador Portal, reclama que “pô, não dá pra atirar em ninguém?”.

screenshot do Portal

Mas o problema não é a molecada, e nem a mentalidade de “na minha época era melhor”. O problema é que os trintões como eu jogaram os pais e avôs dos FPSs, dos RPGs, dos jogos com sandbox e open world, então a novidade deles já não é mais novidade pra nós.

Outra questão que aflige o gamer balzaquiano é que a idade traz – felizmente! – o refinamento dos prazeres. Aos vinte anos a gente até topava encher a cara de Skol e vinho Chapinha; agora curtimos apreciar um cabernet sauvignon e  a cerveja tem que respeitar a Reinheitsgebot – e nos jogos acontece a mesma coisa. A gente não fica satisfeito só com explosões e gráficos fantabulósicos: o jogo tem que ter uma boa história. Videogame, convenhamos, não é filme pornô. Recentemente joguei a trilogia Mass Effect, que é um bom exemplo disso: a mistura de shooter com RPG é bem básica, mas a profundidade da história é fantástica e, pra completar, é construída num universo tão criativo e minucioso que ouso dizer que é melhor que o de Star Wars ou do Senhor dos Anéis: é uma obra-prima de ficção científica. Paradoxalmente, eu morria de tédio nas partes de combate e passava horas explorando as opções de diálogos com cada personagem e conhecendo mais sobre cada raça alienígena – e são dezenas (clique na imagem abaixo), todas com uma história complexa e interessantíssima – e quando vou visitar meu irmão (de 12 anos) ele dá skip em todos os diálogos dos seus jogos…

Mass Effect characters wallpaper

Há problemas também no universo multiplayer: quando jovens, nossos modems não transmitiam a mais de 14.4 kb/s e o jogo online estava na sua infância. Hoje estamos no paraíso multijogador, com internet rápida e sem fio e centenas de milhares de pessoas conectadas te esperando… e eu simplesmente não tenho sacoRecentemente baixei o beta do Destiny, o FPS online da Bungie que está surfando a crista da onda do hype para seu lançamento em setembro. Primeiro você só tem acesso aos modos cooperative, onde não vi cooperação nenhuma: às vezes aparecia um outro jogador, fazia uma dancinha na minha frente (sério!) e saía correndo sozinho. Aí cheguei na parte de deathmatch e a idade pesou mesmo. Quando jovem eu botava um hard techno nos fones e passava horas online no Quake 3 tranquilamente. Hoje em dia, pra conseguir um resultado minimamente relevante jogando contra a molecada, é preciso fazer um esforço enorme. Não é divertido ficar o tempo todo tenso, correndo feito louco pelo mapa, em estado de alerta total e incessante porque basta uma bobeira de uma fração de segundo pra alguém lhe explodir a fuça.

(pra não dizer que não gostei de nada, a trilha sonora do Destiny me agradou bastante 🙂 é um ambient bem espacial e relaxante).

Por sinal esta é outra coisa que vem com a idade e que transforma sua experiência de jogar: você passa a buscar sossego e tranquilidade ao invés de agitação. Esse ano eu ganhei o Watch Dogs de presente de Dia dos Namorados, e ele tem uma funcionalidade bem inovadora: como o jogo tem temática hacker, uma das coisas que dá pra fazer é invadir o jogo de outra pessoa, numa mistura bem criativa do single player com o multiplayer: você está lá, cuidando da sua vida, sozinho no mundo do jogo, e de repente surge a mensagem “you are being hacked“, e você tem que procurar o jogador que se conectou pela internet ao seu Playstation e “invadiu” seu jogo para eliminá-lo. Acontece que, no meu caso, toda vez que eu era invadido a sensação era realmente de que estavam se intrometendo no meu momento de jogo single player, e ao invés de ser emocionante eu achava aquilo extremamente irritante.

Watch Dogs online hacking

Felizmente, o mercado dos jogos cresceu o suficiente para poder ter nichos onde o gamer trintão consegue achar algo interessante – em especial na comunidade indie. Tem muita gente boa inovando e criando obras de arte em forma de jogo, como o sublime Journey (que o Bruno explicou melhor do que eu explicaria neste post). E recentemente encontrei uma preciosidade independente que vai consumir todas as minhas horas de jogo daqui pra frente: o Euro Truck Simulator 2.

O nome diz tudo que você precisa saber sobre o jogo: o Euro Truck Simulator é um simulador de caminhões ambientado na Europa. Só isso. Ele não é multiplayer, você não aposta corrida com ninguém, o caminhão não tem turbo nem nenhuma firula intergalática: exatamente como na vida real, você simplesmente transporta carga de um canto a outro, dirigindo a prosaicos 80 km/h nas autobahns alemãs ou nas charmosas estradinhas francesas. Sua maior preocupação é respeitar os limites de velocidade, dar seta antes de fazer as curvas e parar de 12 em 12 horas para dormir. Pra passar o tempo, o rádio do caminhão, convenientemente, pega streaming de estações de rádio reais europeias, deixando a experiência ainda mais envolvente e, principalmente, relaxante.

Euro Truck Simulator screenshot

E assim as novas e velhas gerações de jogadores vão convivendo, cada uma no seu mundinho particular. A molecada, vermelha de raiva, martela os botões do controle e segue gritando impropérios aos n00bs em seus headsets. Nós, os gamers de trinta e muitos anos, abrimos uma Heineken e calmamente transportamos uma caçamba de areia de Dusseldorf para Stutgard. E o mundo segue girando até o dia em que, finalmente, chegará o nosso inevitável game over.

7 comentários em “Velhice e videogames”

  1. Queria ter a facilidade que você tem, para me expressar de forma sucinta. Mas, façam das suas palavras, minhas. Como um bom gamer de 30 e tantos, é exatamente isso! Abr.

  2. Rapaz,
    Primeiramente parabéns pelo texto!
    Fiquei impressionando ao ler e constatar que tudo que você disse bate em 100%, tenho 31 anos e você conseguiu de uma forma incrível sintetizar o que ocorre com a “velha” geração de gamers!

    Abraços.

  3. Como quase trintão (29) eu digo que tenho a mesma dificuldade que vc tem de se agradar com um jogo. O último que realmente eu achei FODA foi The Last of Us, e curti um pouco tb o Assassins Creed Black Flag, era legal controlar o barco e talz.. mas tirando isso realmente não tenho a mesma paciência, tenho uns bons jogos de PS3 aqui que eu não joguei nem 2 horas do game. Gta V foi legalzinho, mas perdeu o encanto completamente, ETS 2 é um jogo que eu tentei jogar mas por falta de um joysticks eu desisti e voltarei qnd comprar o G27 da Logitech, tem um vídeos no Youtube do pessoal jogando com esse joystick e a experiência me parece realmente fantástica.

    Abs

  4. Adorei o texto, apesar de ainda não ter 27 anos, vejo a molecada do mesmo jeito, com a mesma visão. hahahah

    Abraço e parabéns!

  5. Nostalgia está sendo reachar seu blog aqui nos meus favoritos.
    lembro q tinha um epoca que vc produzia muuuito texto, e eu sempre lia, adorava os posts das cidades visitadas.

    Alias, foi vc que me motivou a escolher um relogio diferente para eu colocar na minha sala. Foram acho q 2 anos até q achei nos famosos sites da china um de FLIP metático e grandão. Sim, vc é responsável por mudar minha sala nessa parte da decoração 😀

    E sou gamer desde os anos 80, eu sinto muito isso q vc falou ai.

  6. . Você foi perfeito em suas palavras. Tenho 42 anos e tudo que você disse é a mais pura verdade para mim.
    Gosto de jogos que tem história, e tem que ser envolvente !
    Faltou dizer que o problema da nossa geração é o tempo. Temos que arranjar tempo para tudo e todos e sobra muito pouco para esse nosso prazer (ainda mais que acabei de arranjar uma neném aqui 😵!)
    Um abraço e é muito bom que o Blog voltou a ativa ! Estava sentindo falta !

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