A saga bancária Brasil-Canadá

Eu sei que é meio babaca essa negócio de se mudar e ficar comparando Brasil com outros países, mas permitam-me contar pra vocês uma pequena historinha.

Tudo começa em outubro de 2014, quando chegou a hora de pagar o primeiro semestre dos estudos na faculdade canadense. Como de costume, tentei fazer a operação pela internet, mas não consegui porque meu banco, por segurança, tem um limite bem baixo de valor para movimentações financeiras. “Hmm, que bom que descobri esse problema – isso vai complicar as transferências do meu dinheiro do Brasil pro Canadá”, pensei. Aí tive que ir à agência e fazer a transferência em pessoa e, pra prevenir problemas futuros, tentei entrar em contato com o meu gerente. Achei que ia ser fácil, pois pelo volume de dinheiro que guardei eu estava enquadrado naquela categoria premium de cliente bancário.

Foi aí que meus problemas começaram.

Demorei DIAS para conseguir FALAR com o meu gerente. Quando finalmente consegui, pra não passar o mesmo aperto, pedi a ele que já deixasse cadastrada a conta corrente de uma casa de câmbio para contornar essa questão do limite e eu pudesse transferir valores maiores sem precisar falar com ele. Ele disse que tinha cadastrado tudo e que eu podia ficar tranquilo.

Aí chega novembro e olha eu, todo pimpão, chegando no Canadá. Naturalmente, precisei fazer outra remessa de dinheiro pra cá e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a conta da casa de câmbio não tinha sido cadastrada e eu continuava travado pelos limites de transferência que eu tinha pedido meu gerente pra aumentar. Ou seja: eu simplesmente não conseguia trazer pra cá nenhuma parte do dinheiro que eu passei anos juntando para a viagem.

Começou, então, a segunda novela de conseguir falar com meu gerente – dessa vez com o agravante de que eu tinha que apelar para telefonemas via Skype feitos em wi-fi emprestada dos Starbucks da vida, que eu tinha que achar saindo de casa e encarando a neve, o vento e a friaca próxima de zero graus. Passei quase uma tarde inteira tentando contato com o filho da mãe até que consegui conversar com o assistente dele, que me confirmou que de fato não tinha rolado nenhum aumento de limite de transferência e que ele não poderia fazer muita coisa porque meu gerente estava fora da agência num treinamento.

Depois de reclamar no SAC, depois na Ouvidoria do Banco, e só depois de ameaçar ir reclamar na Febraban é que, após MESES de briga com o banco, consegui que aumentassem meus limites de transferência. Ironicamente eu tive problemas até pra reclamar na ouvidoria, porque só existe um link para acesso a ela e esse link fica escondido na versão beta da nova interface do internet banking – que foi feita usando como referência o Orkut (não, eu NÃO ESTOU BRINCANDO).

Agora eu gostaria de contar um pouco sobre as minhas experiências bancárias aqui no Canadá.

Logo que chegamos fui ao banco para abrir uma conta corrente. No sábado (sim, os bancos aqui abrem no sábado) visitei uma agência e, usando como documento apenas o meu passaporte, me deram uma conta corrente, uma conta poupança, uma conta específica para dólares americanos e isenção de tarifa por seis meses. O processo todo levou menos de uma hora.

Mas o melhor foi o problema que tive esse final de semana: fui comprar um colchão para a casa nova e, como a compra tinha um valor maior que o usual, o meu cartão do banco daqui deu erro de “limite de compras excedido” – problema bastante parecido com o que tive com a conta brasileira.

Eu já estava prevendo o pior quando o próprio vendedor da loja de colchões falou: “liga lá pro seu banco que eles resolvem isso”. Olhei o número do 0800 atrás do meu cartão e, meu amigo, minha amiga… NADA poderia me preparar para o que aconteceu:

  • O tempo de espera até eu ser atendido foi de ZERO segundos.
  • Após explicar a situação, a atendente confirmou a minha identidade da forma mais simples e intuitiva possível: perguntou o nome da pessoa com quem eu tinha conta conjunta (Bethania) e pediu pra eu contar alguma transação recente que eu tivesse feito com o cartão – valia até mesmo o café que eu havia tomado no Tim Hortons algumas horas atrás.
  • Depois, mudou o meu limite de compras INSTANTANEAMENTE – e ainda aguardou na linha enquanto eu passava o cartão novamente pra comprar o colchão.
  • Sem que eu pedisse, ela se ofereceu pra fazer o cadastro de uma segunda senha pro SAC via telefone – pra facilitar na hora de confirmar minha identidade e agilizar os próximos atendimentos (que, veja você, tinha levado até aquele momento MENOS DE TRÊS MINUTOS).
  • Não satisfeita em resolver meu problema, ainda aproveitou pra me orientar melhor sobre o uso da minha conta poupança, dando macetes (que ela mesma, como pessoa física, usava) de como usá-la para construir um bom score de crédito com o Banco.
  • No fim, ainda me parabenizou pela compra do colchão e desejou boa sorte na montagem da nova casa aqui no Canadá.

Desliguei o telefone e chegou a escorrer uma lagriminha de emoção.

Impressões da primeira semana de Canadá

Porque Toronto é uma cidade muito horizontal e espalhada, os subúrbios tem uns momentos meio “terra de ninguém”: é comum você ir pegar o metrô e ter só umas duas pessoas na estação. E quando eu saio pra andar com o cachorro de manhã normalmente não tem NINGUÉM na rua.

Não me admira o canadense ser solitário. Hoje, por exemplo, eu já ia voltando do passeio canino matinal quando um senhor, que estava sentado sozinho num banco do parque, fez uma brincadeira com Pavlov e emendou uma conversa e começou a contar dos filhos e de quando imigrou da antiga União Soviética pro Canadá e de que é um absurdo a história da Criméia e que essa guerra é só pra capitalista lucrar e que não acredita em religião mas em um “poder maior” e falou sem parar por uns quinze minutos (num frio de cinco graus negativos, vale frisar). Mas sabe aquela conversa de quem não tem com quem falar o dia todo e, quando acha alguém, acaba virando um monólogo catártico? Pois é.


Essa coisa de andar com o cachorro deu outra história engraçada também: logo que cheguei, lá ia eu com Pavlov em mais um passeio pelas vizinhanças desertas quando, de repente, ouço aquela voz grave e densa, típica de um negão de dois metros de altura:

“HEY!”

Olho pro lado e, de fato, era um negão de dois metros de altura, que apontava pra mim e dizia: “I’M GONNA PICK A FIGHT WITH YOU!” (“eu vou comprar uma briga contigo!”)

“Pronto. Vivi anos em São Paulo e nunca fui assaltado, agora vou morrer espancado no meu segundo dia de Canadá”, pensei por um instante… até ver que o negão se referia ao meu cachorro e, obviamente, a “luta” era daquelas de brincadeirinha.


Levei pouco menos que uma hora para abrir uma conta no banco, meia hora para fazer um plano de celular e uns quinze minutos pra tirar o SIN (o “CPF” canadense). Tudo isso apresentando como documento apenas o meu passaporte.


Se você é um casal sem filhos e precisa ir ao supermercado por aqui, meus pêsames: as embalagens são todas “tamanho família”. TODAS. Leites e sucos de dois litros, manteiga de 500 gramas pra cima, e por aí vai. E eu não percebi o quanto a comida no Brasil era barata até Bethania comprar uma banana canadense ao preço de uma DÚZIA de bananas brasileiras.


Por outro lado, um belo Cabernet Sauvignon californiano sai por 12 dólares e a Vedett (a mais incrível cerveja belga de trigo) sai por 3 dólares. E hoje, na volta do trabalho, confirmamos uma dica que eu havia lido no Reddit: surpreendentemente, os supermercados chineses/coreanos são muito mais baratos que os “normais”.


Eu estava achando o trânsito de Toronto até bom, comparado com o de São Paulo. Até que nevou muito e de repente e o asfalto virou uma “pista de patinação”, e TODOS os carros passaram a dirigir a 20km/h. Na estrada vi um Dodge, na faixa bem do lado da minha, patinar de traseira por uns cinco segundos. O cara só não rodou por completo porque teve muito sangue frio e conseguiu impedir o pior. Foi muito assustador.

Ah, e levei duas horas pra voltar pra casa.

Ainda assim o motorista canadense é muito mais cortês e tranquilo que o de São Paulo: todo mundo usa a seta, ninguém trafega no acostamento, ninguém sai costurando na estrada feito louco e colando na sua traseira e piscando farol. Comparando com o trânsito daqui num dia normal, o trânsito paulistano é absolutamente SELVAGEM. Incrível como a gente se acostuma e não percebe.


Às vezes Bethania olha pra mim e fala: “a gente é doido de largar tudo e mudar de país, né?”. E eu respondo: “sim, a gente é doido”. E aí eu percebo que eu não estaria aqui se não tivesse casado com a mulher perfeita.