Impressões sobre a mídia canadense

Recentemente me toquei que este foi meu primeiro ano sem ouvir falar em Big Brother e sem ouvir a bendita musiquinha da Globeleza – o que me lembrou que não comentei nada sobre a tevê canadense até agora.

Mas isso é fácil: basta dizer que a mídia daqui é tão esquisita que chega a ser fascinante.

Os canais abertos: TV para a terceira idade

A sensação é que o público-alvo da tevê aberta por aqui é apenas de pessoas de mais de 60 anos, porque toda a programação tem uma vibe senil, de final de domingo. Os game shows estilo Programa Sílvio Santos estão em toda parte, de segunda à sexta. O Wheel of Fortune, de onde nasceu o “Roletrando”, passa até hoje. No domingo de manhã a CBS tem um programa chamado “Sunday Morning” que parece que está sendo transmitido diretamente de 1986. Sente o drama:

A coisa só moderniza no final do dia, quando o público jovem volta do trabalho/escola e as séries estilo canal Sony dominam a faixa das 8 às 10 da noite.

As notícias são mais ou menos como no Brasil: passam de manhã, no fim do dia e no late night (10 da noite, já que o povo janta às sete). As notícias da manhã são, obviamente, totalmente concentradas no clima; de dez em dez minutos tem previsão do tempo. E, acredite, precisa mesmo.

Quanto aos esportes, bem… para um país com tanta liga profissional de tanto esporte diferente, achei que fosse vê-los todo santo dia. Mas, surpresa: passa bem pouco esporte na TV aberta, possivelmente porque o cabo paga caro pela exclusividade de vender pacotes com a transmissão dos jogos. O torontoniano que quer ver o Maple Leafs na NHL, por exemplo, tem que desembolsar 130 dólares pra comprar o half-season pass, e ainda assim não terá direito a ver os jogos jogados em Toronto. Não duvido que num futuro não muito distante no Brasil isso passe a acontecer…

 A TV a cabo: tudo e nada ao mesmo tempo

Sobre a TV a cabo não tenho como opinar direito. A assinatura é muito cara e não compensa, portanto aqui em casa assistimos apenas os canais abertos e o resto é Netflix e demais streamings via Roku. Mas tive uma amostra da TV a cabo nos primeiros dois meses da mudança, quando morei nos AirBNB da vida. A programação me pareceu, obviamente, menos senil, mas como em todo cabo você é obrigado a pagar por canais estapafúrdios, como o The Fireplace Channel – que, sim, é apenas a imagem de uma lareira, 24 horas por dia.

A modinha dos reality shows continua firme e forte, chegando às vezes a uns extremos do tipo “Master Chef com criancinhas” (é sério) ou o assustador Beyond Scared Straight: crianças rebeldes que querem crescer e virar gangsters são levadas à prisões de verdade e colocadas com criminosos reais, que fazem a maior cena pra matar as crianças de medo de ir pra cadeia. É tortura psicológica feita com o consentimento dos pais, do Estado e explorada comercialmente na tevê. Achei triste.

Os inacreditáveis comerciais da América do Norte.

Meu amigo, minha amiga, nada poderia me preparar para os intervalos comerciais daqui. Pra começo de conversa, mais da metade das propagandas é de serviços de advocacia duvidosos estilo Better Call Saul, com propagandas cheias de trocadilhos hilários tipo “Don’t wait, call 888-8888!” ou o meu preferido: “hurt in a car? Call William Mattar!”.

Aí vem as propagandas de remédio que, aparentemente por alguma questão jurídica, são obrigadas a conter uma enorme lista de efeitos colaterais e alertas que transformam os comerciais em inacreditáveis shows dadaístas: os atores estão lá, vivendo sua vida tranquila, passeando de barco no pôr-do-sol, e o narrador falando que o remédio pode causar úlceras, tontura, degeneração óssea, convulsões e morte.

Já no cabo o nível das propagandas melhora por um lado e piora por outro: a boa notícia é que você esbarra com exemplos notáveis de boa publicidade que há muuuuuuuuito tempo eu não via, como essa propaganda de whiskey.

A má notícia é que o cabo inclui anunciantes locais, e parece que a galera dos canais não tem nenhum pudor (ou controle de qualidade) pra passar coisas tipo o cara que compra ouro:

E as piratarias?

Bom, aqui e nos EUA tem aquelas histórias dos estúdios de Hollywood processando pesado os piratas e tal. Como eu sempre faço tudo certinho nunca me preocupei com isso.

Até que um dia eu fui ver o Game of Thrones novo – tudo certinho, usando a assinatura da HBO que comprei pelo Sling.tv – e tava tudo congestionado e não consegui assistir. Aí fiquei meio revoltado e baixei o episódio pelo torrent. Baixei com a consciência tranquila, afinal eu paguei pelo bendito conteúdo.

Dois dias depois recebi um email do provedor com o assunto “copyright infringement”. Lição aprendida…