A saga do demo

Antes de sair falando da saga (que, obviamente, é de trabalho) eu preciso contar que, sim, além de estudando eu já tou trabalhando. Mas vamos começar do começo…

Parte 1: Meu primeiro emprego canadense (ou: o menor networking do mundo)

Apesar do meu visto de estudante, o governo permite que eu seja contratado por meio período, e naturalmente eu não ia ficar sossegado só assistindo aula – especialmente com o dólar do jeito que tá. Então, logo que meu semestre começou, comecei eu a procurar um emprego part-time.

Graças ao Twitter (sempre ele!) eu vi que a própria faculdade tinha uma vaga para desenvolvedor web. Mandei meu currículo e me chamaram pra uma entrevista. Como era a minha primeira candidatura a trabalho e ela já tinha dado em entrevista o gênio aqui se empolgou e achou que ia ser moleza conseguir o trabalho, já que no Brasil eu passei numas três entrevistas seguidas antes de me mudar pra cá.

É óbvio que não deu certo. Eu estava craque em entrevistas, é verdade, mas em entrevistas na cultura brasileira e para vagas que não eram técnicas. Aí me botaram numa sala com um cara de nome (e sotaque) russo e o maior semblante anal que já vi. Eu não me abalei e comecei a falar dos meus projetos e de como eu aprendo rápido e de como eu resolvo pepinos com clientes difíceis, até que o Serguei me pergunta, sem a menor cerimônia:

– Mas você sabe pra que serve a tecnologia que estamos usando neste projeto?

No dia seguinte chegou o emailzinho dizendo que eu não tinha passado.

Mas acontece que na minha sala tem outro brasileiro. Gente finíssima, paulistano, super tímido, com o inglês ainda bastante travado, mas genial em termos de código. A entrevista dele, pra mesma vaga, foi logo depois da minha. Coincidentemente, na mesma hora que recebi o e-mail da recusa do emprego, ele recebeu o de aprovação. Achei merecidíssimo, baixei minha bolinha e concluí que estou começando mesmo tudo de novo, do zero. Meu inglês fluente, meu PMP, minhas décadas de experiência profissional valem aproximadamente jack shit.

Algumas semanas depois e eis que no apito do WhatsApp chega uma mensagem do meu amigo brasileiro, dizendo que um dos outros estudantes do projeto pediu demissão e ele me indicou pra vaga. Como no curso a gente fez vários trabalhos em grupo ele viu que, de fato, eu mando bem. E pelo que ele sondou, aparentemente eu causei uma boa impressão durante a entrevista, mas o Serguei não acreditou que eu era bom pra programar e por isso não me escolheu pra vaga.

E foi assim que o meu networking canadense, composto por apenas UMA pessoa, me deu meu primeiro emprego. Nunca fiquei tão feliz por ganhar um salário mínimo.

Parte 2: de como os deuses do PMI estão me punindo

Cheguei empolgadíssimo pra minha primeira reunião de trabalho, segunda-feira, de manhã, tudo certinho conforme o clichê. Pelo que entendi do email do Serguei(1), a reunião era pra eu conhecer o resto do time de projeto e me ambientar com o trabalho. Resumidamente, o projeto é um site pra área de saúde, envolvendo hospitais, médicos e pacientes numa plataforma online para atendimentos virtuais.

Mas eu só sei disso por conta própria, porque ninguém me contou. Não é atoa que eu digo que “expectativas conduzem a desapontamentos”. Pra vocês entenderem, a reunião foi mais ou menos assim:

  • Serguei me introduziu ao projeto com uma explicação resumida sobre o escopo do trabalho, o cliente, o que deveríamos fazer e como o projeto estava estruturado. Esta explicação resumida foi composta por apenas uma palavra: “welcome”. Eu JURO pra vocês que isso foi tudo que ele me disse.
  • Depois desta calorosa introdução, o time entrou diretamente numa discussão das próximas funcionalidades que deveríamos entregar. A primeira surpresa já veio logo daí: nenhum sinal das avançadas tecnologias que discutimos na entrevista e que o Serguei esfregou na minha cara; agora o trabalho envolvia o Drupal, um antiquado – e extremamente complexo – sistema de gestão de conteúdo. Pra vocês entenderem do que se trata, quando contei que estava trabalhando com Drupal, uma das minhas antigas gerentes de projeto do Brasil respondeu, em seu inigualável sotaque recifense:

Mai tu gosta é de sofrer, num é mestre?

Como diria um outro colega nordestino, Drupal é bom, mas morrer queimado é muito melhor.

E a gente precisa desenvolver em cima dum site que já existe. E que não tem documentação. E que não tem servidor de teste (a gente usa as nossas próprias máquinas e um repositório gratuito do Bitbucket). E também não tem documentação do que o cliente quer: o que a gente recebe são e-mails de uma linha e layouts em JPG. Uma vez eu tentei discutir as funcionalidades nas reuniões com o cliente pra entendê-las melhor, e o pessoal começou a mudar os layouts durante a reunião, então achei melhor desistir.

Mas o pior não é isso. O pior é que o projeto não tem líder. O Serguei basicamente encaminha os emails do cliente pra gente e fala: “faz aí”. Aí a gente levanta os riscos técnicos, questiona sobre escalabilidade, fala que pra fazer isso no Drupal tem que ser meio que na gambiarra, e ele fala pra “não preocupar com isso”. É tipo o cliente querendo uma mansão e ele falando pra gente botar uma lona no teto em vez de fazer um telhado. Outro dia eu descobri, por acidente, que tem uma segunda equipe de programadores fazendo uma outra versão do site, para celulares/tablets. Eu não tenho a menor ideia de quando o projeto vai pro ar. Na verdade eu não tenho a menor ideia se o projeto está ou não no ar.

Isso possivelmente são os deuses do PMI me punindo por aquele post de 2011, porque agora o que eu mais queria é um bom gerente de projeto me socorrendo e apontando pra onde esse projeto tá indo(2). Durante o trabalho eu até tive contato com um cara que é “assistente de projetos” – pelo menos é o que diz a assinatura do email dele, porque a gente nunca foi formalmente apresentado e ninguém me explicou o que ele faz no projeto, apesar de ele estar em todas as reuniões. Ele é bem sorridente, esse cara. Acho importante isso.

Além dos sorrisos, em toda reunião ele me pergunta como anda a papelada da minha contratação e diz que logo logo tudo vai estar resolvido. Porque, acredite ou não, tem mais de um mês que estou trabalhando e ainda não recebi meu primeiro salário 😉

Parte 3: O dia da demo (ou: parabéns, você ganhou uma camiseta)

Eu escrevi essa papagaiada toda aí em cima só pra contextualizar o que eu queria realmente contar, que é o seguinte.

Eis que numa das reuniões com o cliente ele menciona que vai rolar um evento de inovações na área de tecnologia para medicina. Uma feira, onde ele vai ter um stand pra divulgar o site. Naturalmente, nas reuniões de projeto, o pessoal começou a discutir que funcionalidades precisariam estar prontas para que fosse possível fazer uma demo do site nessa feira. Como a treta era séria, eu mesmo fiz questão de pular em frente ao flip chart durante as reuniões e escrever, certinho, o que iríamos demonstrar na tal demo. Eu também provoquei uma reunião entre o nosso time o time da versão mobile do site pra evitar sobreposições de trabalho. Como era de se esperar, Serguei respondia todas as minhas perguntas sobre a demo com algo parecido como “a gente dá um jeito”, então optei por me preocupar em resolver os problemas do Drupal e deixar ele se estapear pra lá com o cliente.

A feira estava programada pra acontecer em Richmond Hill – o equivalente a Barueri (para os Paulistanos), ou Nova Lima (para os belorizontinos), e obviamente ela era bem no dia em que eu tenho aula o dia todo, e obviamente ela era bem no meio da semana das midterms (as provas cabeludas do meio do semestre(3)). Como o Serguei não disse que a gente “precisava” ir à feira, eu desencanei. Aí, faltando uma semana para o dia D, eis que o Serguei começa a mandar emails pedindo confirmação se a gente ia ou não, e então eu subentendi que ele estava subentendendo que a gente é que iria demonstrar o sistema na feira.

Até aí tá fácil. O que deixou a coisa realmente emocionante foi o seguinte:

  • No domingo anterior à semana da feira, eis que chega um emailzinho com uma nova home page pra gente enfiar no site…
  • Paralelamente a tudo isso, meu colega brasileiro, também insatisfeito com o Drupal, resolveu levantar a bola de que ele não é a melhor ferramenta pra gente usar no site. Como alternativa, ele propôs redesenvolver tudo num framework mais moderno, que ele andava estudando. Pra provar que era possível, o maluco refez o site inteiro em três dias usando o framework novo. Até aí tudo bem – eu mesmo adoraria jogar fora o Drupal e usar um framework apropriado – mas acontece que no processo de convencer a turma a sair do Drupal ele fez um videozinho mostrando como tudo tava funcionando no framework novo e mandou pro Serguei… que encaminhou o vídeo pro cliente dizendo “ei, veja tudo isso que já tá pronto!”.

Resultado: às vésperas da demo eu tinha que lidar com a nova home page no Drupal sozinho, porque meu colega estava ocupado com a nova paixão do cliente: o bendito vídeo. Os pedidos de ajuste no vídeo vinham do cliente e o Serguei nos mandava emails pedindo a “nova versão”do vídeo – sem falar o que o cliente tinha pedido. Típico do Serguei. Às vésperas da demo eu e meu colega brasileiro, ao invés de programar ou testar, estávamos gravando simulações de atendimento online onde ele, usando um jaleco emprestado do laboratório, simulava que era um médico enquanto eu fingia ser um paciente. Ou seja, estávamos, literalmente, brincando de médico.

E então chegou o dia da feira. Os últimos ajustes do site foram salvos por mim às seis e vinte da manhã, enquanto eu comia meu cereal matinal às pressas, depois de dormir por umas três ou quatro horas. Na véspera eu, além de estudar pras provas, separei minha melhor roupitcha social pra ir lá pra feira esbanjar simpatia pros clientes do meu cliente.  Eu queria que tudo estivesse perfeito. Eu ainda não recebi sequer o meu primeiro salário.

Aí a gente chega na feira e… bem, digamos que foi então que eu decidi escrever este post, porque a sequência de caos foi inacreditável.

Logo que chegamos na feira fomos direto ao stand do cliente. Eu já ia tirando o laptop da mochila quando ele me cumprimentou e disse:

– Gente, muito obrigado pelo vídeo. Eu vou deixar ele rolando neste monitor aqui, vocês podem aproveitar a feira. Divirtam-se!

…e então eu entendi que ele não queria que a gente fizesse demo nenhuma, e que ele decidiu usar o vídeo (que era só uma prova de conceito de uma nova tecnologia) pra demonstrar o site.

Algum tempo depois chegou um dos caras do outro time (o do site mobile). Pela mobilização do Serguei, parecia que todo mundo de todos os times (umas nove pessoas) ia pra feira. Só chegou eu, meu colega e esse cara. Quando eu contei que não teria demo nenhuma ele não acreditou, e teve que ir falar com o cliente pra confirmar. E quando ele sacou que não tinha absolutamente NADA pra gente fazer na bendita feira, ele naturalmente saiu à francesa.

Instantes depois, chega Serguei, atrasado e fedendo a cigarros. “Desci no ponto de ônibus errado”, diz ele. Logo depois surge a chefe do Serguei  – uma senhorinha de ar absorto, que eu nunca havia conhecido pessoalmente até aquele instante – e pergunta pro Serguei:

– Ué, cadê sua gravata?

Lembra que eu separei minhas melhores roupas sociais pra feira? Serguei estava vestido de calça jeans, tênis e uma daquelas camisetas com coisas escritas em inglês que vendem na seção de roupas do Extra Hipermercados.

Serguei pediu licença pra ir falar com o cliente e a chefe dele vira pra mim e pro meu colega brasileiro e fala: “vocês já ganharam as camisetas?”

Enquanto olhávamos um pro outro, perplexos, ela tira da bolsa duas camisetas da faculdade e entrega pra gente, àquela altura bem mais perplexos.

Algum tempo depois chega um email do Serguei, dizendo que teve que sair às pressas porque um servidor de um outro projeto tinha caído. Na sequência, chega um email da chefe do Serguei dizendo pra gente: “imagino que vocês vão ficar até o final do evento”. Mas é claro! Especialmente depois de ganharmos uma incrível camiseta.

Fomos embora pouco antes do almoço, depois de ver umas palestras esquisitas(4). Na saída, a surpresa final: encontrei, sozinho, perdido na plateia, o “assistente de projetos” do projeto. De sapatos, calça social… e com a camiseta da faculdade por cima da camisa.

(1) Cara, eu realmente estava com saudade de usar pseudônimos.
(2) Aí você pergunta: “mas você é gerente de projetos! Por que não assume isso?”. E eu respondo que, honestamente, eu estou me segurando pra não pular na frente da porra toda e começar a organizar o projeto. Mas se eu fizer isso (porque eu posso) eu vou deixar de fazer o que eu quero. E eu atravessei o mundo pra perseguir o que eu quero, e não o que eu posso.
(3) Eu não contei, mas fazer faculdade no Canadá é muito mais puxado que no Brasil.
(4) Embora esquisitas e meio verborrágicas demais (muito papo, pouco resultado), todas as palestras do evento foram incrivelmente pontuais. Eu fiquei fascinado: na palestra das nove da manhã o palestrante dizia “good morning”, exatamente às nove, nem um minuto a mais. E na hora do “thank you” final, o relógio marcava exatamente o horário de término.